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Giuseppe Furino: lenda e capitão da Juventus por quase uma década

Embora não admita querer ser alçado a tal patamar, não é exagero nenhum colocar Giuseppe Furino como uma das lendas da história da Juventus. Afinal, foram 16 anos defendendo o time de Turim, com oito scudetti conquistados – números que o colocam ao lado de Gianluigi Buffon, Giovanni Ferrari e Virginio Rosetta como um dos maiores vencedores do Campeonato Italiano em toda a história. O meia defensivo também foi capitão juventino por oito temporadas e fica atrás apenas de Alessandro Del Piero em quantidade de tempo com a braçadeira branca e preta.

Definido pelo jornalista Vladimiro Caminiti como “anão presunçoso” e chamado de “fúria” pela torcida, Furino mostrava toda sua categoria quando entrava em campo com a camisa bianconera. O baixinho de 1,67m conseguia aliar habilidade técnica à tenacidade e a uma potência física que impressionava, sobretudo por sua pequena altura. Estas características fizeram com que ele chegasse a atuar em quase todas as posições em sua carreira. “Acho que só não usei as camisas de número 9 e 1, de centroavante e goleiro”, declarou ao Guerin Sportivo, certa feita.

Até se consolidar na Juventus, porém, foi preciso tempo. Siciliano de nascimento, Furino morou na Campânia durante a infância e a adolescência, seguindo os trabalhos de seus pais, até chegar à Turim, aos 15 anos. Criado na base da Vecchia Signora, o jovem Giuseppe tinha Omar Sívori como ídolo, mas quando viu o espanhol Luis del Sol treinar percebeu que sua sina seria mesmo atuar como meio-campista. De Sívori, herdou apenas o hábito de não utilizar caneleiras.

Em seus anos como juvenil bianconero, Furino conseguiu até mesmo impressionar Renato Cesarini, técnico da equipe principal, que lhe tratava como pupilo e dava conselhos de como jogar em campo. Apesar disso, seu debute como profissional foi ocorrer no Savona, clube pelo qual foi emprestado para a disputa da Serie B de 1966-67, na qual foi titular absoluto. Após a queda do time para a terceira divisão, Furino disputou mais um campeonato como protagonista e, em 1968, retornou à terra natal para defender o Palermo, numa operação que levou Romeo Benetti à Juve.

No clube rosanero foi deixado de lado nos primeiros jogos, mas rapidamente se firmou e foi fundamental para ajudar a equipe contra o rebaixamento. Como o time siciliano não exerceu a opção de compra, Furino retornou à Juventus justamente no momento da saída do técnico paraguaio Heriberto Herrera, quando se iniciava um processo de renovação do elenco. Foi aí que o volante começou a escrever sua história em Turim.

Furino em campo em seus primeiros anos de Juventus (Wikipedia)

No primeiro ano, entretanto, parecia não ter a plena confiança do técnico Luis Carniglia. Com a demissão do argentino e a promoção de Ercole Rabitti da equipe juvenil, Furino ganhou espaço e finalmente começou a ser utilizado com mais frequência como mediano (ou seja, volante) – durante os empréstimos, o jogador atuou também como lateral direito e esquerdo. Rabitti conhecia Furino e conseguiu tirar o máximo do jogador, que teve atuações boas o suficiente para figurar no grupo italiano que disputou a Copa do Mundo de 1970. Na competição, concluída com o vice-campeonato azzurro, o volante da Juve fez uma única partida, contra o Uruguai.

A partir de 1970, com Armando Picchi no comando, Furino assumiu de vez a titularidade, sempre com um futebol imponente, versátil e solidário com seus companheiros. Seja pelo lado esquerdo da defesa, pelo miolo da zaga ou como volante, função em que foi fixado definitivamente por Cestmir Vycpálek (ex-técnico da Juve e tio de Zdenek Zeman), Furino ajudou os bianconeri a consolidarem sua hegemonia na Serie A, com oito títulos em treze temporadas.

Apesar de ser um dos pilares da campeã italiano em 1973-74, foi desprezado por Ferruccio Valcareggi para a disputa do Mundial naquele ano. O treinador que havia lhe levado para a Copa de 1970 o convocou apenas uma vez no ciclo para o torneio de 1974, na Alemanha, e havia gostado de sua atuação, mas não cumpriu com sua palavra, segundo o ex-volante. “A única coisa que posso dizer é que Valcareggi, depois da vitória por 1 a 0 contra a Turquia, em 25 de fevereiro de 1973, disse aos jornalistas no vestiário: ‘finalmente encontrei o volante para esta seleção’. Lembro que Sandro Mazzola estava a meu lado e avisou  para não acreditar nele. Ele estava certo: Valcareggi não me convocou outra vez”, declarou.

Furino assumiu a braçadeira de capitão logo após que a Juventus faturou a Copa Uefa sobre o Athletic Bilbao, título que considera como um dos melhores momentos de sua carreira. “Foi meu primeiro troféu internacional, depois de uma verdadeira batalha em Bilbao. Sem contar que quatro dias depois ainda venceríamos a Sampdoria e conquistaríamos um scudetto com números muito positivos. Uma temporada triunfal e com um time todo italiano”, disse o ex-jogador ao Guerin Sportivo.

Sob o comando de Giovanni Trapattoni, Furino disputou várias temporadas em alto nível e como titular – ainda que não fosse considerado pelos treinadores da seleção. Em 1978, mesmo que nove colegas de equipe tenham sido convocados, o volante novamente foi deixado de fora da lista. “Nunca fui amado [pelos técnicos da Nazionale] e não sei dizer porquê”, relata.

Mesmo baixinho, Furino destacava-se por sua força física e bom posicionamento (Wikipedia)

Já na reta final da carreira, com 35 anos, Furino teve uma de suas melhores temporadas como profissional. Em 1981-82, a Fiorentina de Giancarlo Antognoni e Francesco Graziani e a Roma de Paulo Roberto Falcão e Roberto Pruzzo foram concorrentes de peso, mas Furino fez uma excelente dupla de meio-campo com Massimo Bonini e protegeu a já fortíssima linha defensiva juventina, que tinha Dino Zoff, Claudio Gentile, Gaetano Scirea, Antonio Cabrini e Sergio Brio. A Juve teve a melhor defesa do campeonato (e também o ataque, embora sem grandes destaques individuais) e abocanhou mais um título italiano.

Com o avançar da idade, Furino começou a perder espaço no time titular para jogadores mais jovens. Afinal, Michel Platini chegou a Turim em 1982 e modificou o estilo de jogo coletivo da Juve que o siciliano liderava: o francês não tinha obrigações de marcador e seria necessário que a Velha Senhora tivesse jogadores que pudessem correr com vigor durante os 90 minutos para manter a Juventus equilibrada, algo que Furino teria mais dificuldades físicas para conseguir.

Do banco, Furino acabou assistindo o surgimento de seus sucessores, como Cesare Prandelli, e notou que a Juve apostava cada vez mais em Bonini, deixando-o de lado. Assim, Furino chegou a pensar em deixar a equipe em 1983, mas permaneceu mais uma temporada vestindo bianconero. Ele não havia feito nenhuma partida na temporada 1983-84, mas recebeu um presente de Trapattoni: em 6 de maio de 1984, quando a Juventus já havia conquistado matematicamente o scudetto, o palermitano jogou seus últimos minutos em um jogo ante o Avellino e colocou seu nome na campanha do oitavo título nacional.

Depois de 528 partidas pela Juve, despedia-se ali o jogador que mais vezes havia vestido a camisa bianconera até então – hoje, Furino é o quarto da lista, atrás de Del Piero, Buffon e Scirea. Em 16 anos, o siciliano levantou 12 taças e conquistou praticamente tudo pela Juventus, à exceção da Copa dos Campeões, que a Juventus venceria na temporada seguinte à sua aposentadoria, e do Mundial Interclubes.

Após deixar a Velha Senhora, o veterano volante ainda recebeu uma proposta contratual do presidente do Torino, seu amigo Sergio Rossi, mas recusou prontamente. “Seria um ato contrário à minha natureza. Sempre fui juventino”, disse ao Guerin. Além disso, à época Furino já atuava no ramo de seguros, que continuou a desempenhar após pendurar as chuteiras.

Em 1991, Giuseppe Furino voltou à Juventus: foi convidado por Giampiero Boniperti e chegou a trabalhar por alguns anos como responsável pelas categorias de base do clube. Em sete anos no cargo, conquistou os principais torneios da categoria, como a Copa Viareggio e a Coppa Italia Primavera. Até hoje, o ex-volante mora nas proximidades de Turim e até se candidatou a prefeito de sua cidade: em 2015, formou a chapa de uma coalizão de centro-direita, mas não se elegeu como o alcaide de Moncalieri.

Giuseppe Furino
Nascimento: 5 de julho de 1946, em Palermo, Itália
Posição: volante
Clubes como jogador: Juventus (1965-66 e 1969-84) Savona (1966-68), Palermo (1968-69)
Títulos conquistados: Campeonato Italiano (1972, 1973, 1975, 1977, 1978, 1981, 1982 e 1984), Coppa Italia (1979 e 1983), Copa Uefa (1977) e Recopa Uefa (1984)
Seleção italiana: 3 jogos

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