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Ascensão e queda em azul, vermelho e branco

Pazzini e Cassano estão fora da Sampdoria no mercado de inverno. Sem a dupla de ataque titular, a promessa é de mais dificuldades para a Sampdoria em 2010-11 (migliorblog.it)
A temporada 2009-10 foi praticamente perfeita para os torcedores da Sampdoria. Apesar de em nenhum momento a equipe ter se credenciado para lutar pelo scudetto, a campanha na Serie A foi boa como havia muito tempo não era. A quarta colocação ao final do campeonato colocou os blucerchiati novamente na Liga dos Campeões da Europa, competição na qual o time brilhou no início dos anos 90. O momento, então, era de festa.

A conquista no torneio continental, motivo de êxtase para os torcedores, aconteceu devido às ótimas combinações táticas encontradas pelo então treinador Luigi Del Neri. Com um meio-campo leve, com volantes saindo bem para chegar ao ataque, o técnico conseguiu municiar bem a dupla letal formada por Cassano e Pazzini – este último uma máquina de fazer gols na temporada. O panorama para a temporada seguinte era, portanto, de imensa esperança para que os tempos de glória e ascensão na Europa voltassem.

A decepção é azul
Mas a esperança dos torcedores blucerchiati não durou muito tempo. As saídas do diretor esportivo Giuseppe Marotta – responsável por contratar e manter os atletas – e de Del Neri para comandar a Juventus logo ao final da temporada era o primeiro indício de que dias mais difíceis batiam à porta do Luigi Ferraris. Se para o lugar de Marotta, foi contaratado Sergio Gasparin, a chegada de Domenico Di Carlo, que vinha de bom trabalho no Chievo, foi a solução encontrada pela diretoria para suprir a ausência do técnico que agora era bianconero – e que mal sabia que se tivesse ficado na Sampdoria talvez tivesse mantido o sucesso e evitado o fracasso momentâneo em Turim.

A ira da torcida não tardaria a acontecer com os resultados negativos que Di Carlo apresentou logo em sua chegada. Nas primeiras e mais importantes partidas do ano, queda na Liga dos Campeões diante do Werder Bremen, que há alguns anos já não apresenta mais o futebol que o fez ser campeão alemão no já quase distante 2004. A decepção dos blucerchiati foi inevitável: se sonharam chegar novamente nos pontos mais altos do torneio europeu, quase reverteram uma desvantagem de 3 a 1, mas acordaram nocauteados por um gol de Rosenberg nos acréscimos, que levou o jogo para a prorrogação e jogou um balde de água fria que Di Carlo e jogadores não conseguiram superar.

A falta de criatividade é branca
Mas por que um time que abocanhou um ótimo quarto lugar na Serie A meses depois sucumbiria na principal competição da temporada? Simples: a forma de jogar da equipe montada por Di Carlo, embora utilizasse o mesmo 4-4-2 de Del Neri, arrasou o que a Samp tinha de melhor. O modo como o meio-campo do time fluía, sempre ligando com facilidade e criatividade os atacantes de área, morreu com a chegada do novo treinador. Por motivos aparentemente não explicados, o técnico passou a utilizar o meio-campista Poli, uma das revelações da última Serie A e em franca evolução, como reserva, em prol da titularidade de Tissone – um reserva com o antigo técnico.

É claro que Poli não é a solução de todos os problemas blucerchiati. Mas é a amostra de tudo que assola o time de Gênova nesta temporada. A pobreza tática da equipe é gritante e tem reflexos claros dentro de campo: no primeiro turno da Serie A, o time empatou oito dos 18 jogos que fez – lembrando sempre que o clássico contra o Genoa foi adiado. O panorama é ainda pior se considerarmos que em quatro dos oito empates, o zero não saiu do placar. Uma situação evidente de falta de criatividade que nem mesmo Cassano, antes de ser afastado, conseguia resolver decentemente.

O ataque não era problema na época de Del Neri. Isso porque o meio-campo era leve e fluía. A má fase do capitão Palombo, que pouco tem chegado no ataque e atua mais como volante do que como regista, ajudando na criação, e entrada de Tissone no lugar de Poli travou as investidas rápidas, deixando Pazzini em condições para marcar em raras oportunidades. Desta maneira, a Sampdoria ficou refém de seu 4-4-2: sem grande variação de jogadas, sem a imprevisibilidade de Cassano, quase todas as jogadas criadas vem de cruzamentos de Guberti, Koman e Ziegler. Pazzini sabe como poucos como cabecear e desviar cruzamentos à área, mas poderia render mais, caso houvesse mais alternativas na equipe.

O retorno de Poli ao time titular não é a solução dos problemas blucerchiati. Mas pode ser o começo. É por meio do jovem meio-campo que Di Carlo poderá tentar retomar o estilo de jogo que levou a Sampdoria de volta à Europa. Evidentemente o tempo perdido pela falta de criatividade que o treinador implantou dificilmente será retomado nesta temporada. Voltar ao passado, porém, pode ser a chave para um futuro um pouco melhor dentro de campo para a Samp.

A vergonha é vermelha
A queda precoce na Liga dos Campeões e o péssimo desempenho dentro de campo, por incrível que pareça, não foram os fatos que mais incomodaram os torcedores da Samp. A torcida está irritada com a administração da diretoria, ilustrada pelas ações de mercado do presidente Riccardo Garrone. Nem o mais pessimista doriano imaginaria que a Sampdoria terminaria a temporada com Maccarone, Macheda, Pozzi e Biabiany disputando as duas vagas no time titular, que eram de Cassano e Pazzini, já chamados de novos “gêmeos dos gols” em referência à dupla formada por Mancini e Vialli, fundamental na conquista do único scudetto da história do clube, no início dos anos 90.

Cassano (4 gols) e Pazzini (6), juntamente com Guberti (5), concentram 15 dos 20 gols marcados pela Sampdoria na Serie A. Se a média é baixa (igual a um gols por partida), imaginar que os responsáveis por metade deles deixaram o clube no mercado de janeiro faz pensar que o clube passa por um momento de redimensionamento de objetivos, talvez ligado a uma falta de interesse de Garrone em continuar na presidência. A falta de ambição é tal que o presidente achou melhor negociar com a Atalanta o promissor atacante Marilungo, de 21 anos, para ajudar a equilibrar as finanças do clube – que, a bem da verdade, investe muito pouco em contratações.

Além disso, a iminência do adeus de Ziegler em fim de contrato, sem render um centavo ao clube, desmontam quase toda a base que fez sucesso com Del Neri – sobram Gastaldello, Palombo e Guberti. Tal redimensionamento certamente foi percebido por Cassano e Pazzini, que não pensaram duas vezes antes de se transferirem para Milan e Inter, respectivamente, onde deverão prosseguir suas carreiras de sucesso, alternando inicialmente entre o time titular e o banco de reservas, mas frequentemente entrando em campo e tendo papel de importância.

As reposições, é claro, aconteceram, como a chegada ilustre de Macheda para o ataque, mas não parecem suficientes. O laziale Macheda, que chega do Manchester United para ter mais minutos de jogo, e a aquisição de Maccarone foram as fracas respostas dadas pela diretoria, mas parecem insuficientes para colocar a Sampdoria novamente nos trilhos. Podem, inclusive, queimar a carreira dos jogadores – principalmente do primeiro, que após ter tido algumas chances na Inglaterra e ter marcado gols importantes, aposta todas as suas fichas em deslanchar na carreira profissional na equipe de Gênova.

Macheda ganha, agora, status de salvador de uma pátria que parecia consolidada, mas que agora está em plena reconstrução. Tão cedo, aos 19 anos, terá de dar uma prova de maturidade, assim como Giuseppe Rossi, emprestado pelo mesmo Manchester United ao Parma em 2007 e grande responsável por evitar o rebaixamento dos gialloblù. Maccarone, por sua vez, ganha a grande oportunidade da carreira aos 31 anos. Depois de salvar o Siena do rebaixamento em cinco temporadas e decepcionar no Palemo, terá a missão de fazer gols que podem ajudar a Sampdoria a não aprofundar sua crise societária.

A bagunça é blucerchiata
O resumo da ópera é dramático. A Sampdoria tinha tudo para estar entre os melhores times da Serie A, lutando novamente por uma vaga na Liga dos Campeões, competição na qual também poderia ter ido mais longe.

Hoje, vive situação oposta por sua bagunça dentro e fora dos campos. Obviamente, o mais prejudicado acaba sendo o torcedor, que passou da esperança ao desespero em menos de um ano. O resultado? Revolta por parte da torcida, que já xingou diretoria, treinador e agora passa a focar sua ira nos jogadores. O caso é tão extremo que o capitão Palombo, há quase dez anos no clube, virou o novo judas da equipe para alguns torcedores após abraçar o “traidor” Cassano ao final do duelo com o Milan pela Coppa Italia. Sinal de que a bagunça na Sampdoria está longe do fim. Assim como tristeza de quem veste azul, vermelho e branco.

Colaborou Nelson Oliveira

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