Dérbis

Dérbis: Sampdoria x Genoa

Quase dois anos depois, Gênova volta a ser o centro das atenções do futebol italiano, ao menos por algumas horas. O Derby della Lanterna, entre Sampdoria e Genoa, está de volta, após uma temporada em que a Samp esteve na Serie B. E os “primos” compartilham da mesma necessidade de uma vitória, para afastar-se do descenso, fazendo alguns membros da imprensa lígure chamarem o atual confronto de “o dérbi da pobreza”.

Com a Samp em 17º lugar, com dez pontos, e o Genoa em 18ª, com nove, é a terceira vez na história que os dois times se enfrentam em péssima situação na tabela da Serie A. Em 9 de março de 1958, na 24ª rodada daquela temporada, os dois times foram a campo com a última (Samp) e a penúltima (Genoa) colocações da tabela. Já no dérbi de 17 de março de 1974, na 21ª rodada,  quando o Genoa retornava à Serie A após oito temporadas nas divisões inferiores, as posições eram exatamente as mesmas.

Significado do atual dérbi

Apesar das saídas de Gilardino e Palacio, o torcedor do Genoa começou a temporada com otimismo, após um ano de sofrimentos no qual o time ficou apenas uma posição fora da zona de rebaixamento. Na partida de estreia, uma vitória por 2 a 0 sobre o Cagliari.

Depois de uma derrota fora de casa para o Catania na segunda rodada, o torcedor rossoblù teve um instante de certeza de que a temporada seria melhor, quando o recém-chegado Immobile abriu o placar na partida contra a Juventus, em um Marassi lotado. Mas tudo desmoronou no segundo tempo, com três gols dos bianconeri. Até mesmo a temporada genoana parece ter desmoronado ali.

Depois desse jogo, uma  grande vitória sobre a Lazio, em pleno Olímpico, com gol de Borriello, mas oito rodadas consecutivas sem vencer, com cinco derrotas e três empates. Luigi De Canio deu adeus ao comando técnico do time após a derrota por 4 a 2 para a Roma em Gênova, sendo que a equipe fez 2 a 0 antes dos 20 minutos de jogo. Luigi Del Neri, que fez um grande sucesso em Gênova há dois anos, levando a Samp para a Liga dos Campeões, foi quem entrou em seu lugar, para despertar o ódio da metade blucerchiata da cidade.

Chegando para encarar seu maior rival, o Grifone tem apenas nove pontos e está na zona de rebaixamento. Mas, com uma vitória, além de mandar o arquirrival para a zona vermelha, o time de Del Neri pode subir até quatro posições.

Já pelo lado blucerchiato, as coisas não estão muito diferentes. O campeonato começou da melhor maneira possível, com três vitórias seguidas, incluindo uma sobre o Milan, em San Siro, na primeira rodada. Até a sexta rodada, quando deu trabalho para o Napoli e perdeu com um erro grave da arbitragem, o time de Ciro Ferrara estava na zona de classificação para a Liga dos Campeões. Mas, como para seus rivais, o trem desandou depois disso.

Cassano e Mancini, dois carrascos dorianos (Divulgação)

A derrota para o Napoli em Gênova deu início a uma sequência de sete derrotas consecutivas, o que colocou uma grande interrogação na cabeça de seu torcedor: como um time que havia feito partidas excepcionais contra Milan, Roma e Napoli pôde cair tanto?

É quase unânime a oposição do torcedor doriano ao Ferrara. É enorme a pressão pelo retorno de Giuseppe Iachini, que assumiu o time na metade da Serie B do ano passado, mas que não teve seu contrato renovado ao fim da temporada. Edoardo Garrone, vice-presidente do clube, porém, vem garantindo o cargo de Ferrara, mesmo no mau momento. Mas aquele velho ditado que diz que “uma verdade não dura 24 horas no futebol” deixa a situação de Ferrara em dependência do resultado deste domingo. Torcedores se reuniram com o técnico e o capitão Gastaldello durante a semana e garantiram que, até o derby, não irão contestar, reclamar ou protestar contra o time, mas apenas apoiá-lo. Mas tudo pode acabar após os 90 minutos de domingo.

Em caso de vitória, os marinheiros poderão subir até três posições e, melhor (para os torcedores da Samp, claro) ainda, têm a possibilidade de jogar o arquirrival para a lanterna do campeonato, dependendo de uma combinação de resultados.

Os últimos dérbis*

*Na temporada passada, o duelo não aconteceu. Os últimos dois jogos datam da temporada 2010-2011.

17ª rodada – Sampdoria 0 x 1 Genoa

Já no processo de derrocada da Sampdoria na temporada, o Genoa deu a primeira de suas duas contribuições para o rebaixamento do rival. Depois de um primeiro tempo sem gols e com chances de ambos os times, o brasileiro Rafinha foi o responsável por marcar o único gol do jogo, aos 9 minutos do segundo tempo.

36ª rodada – Genoa 2 x 1 Sampdoria

Praticamente fechando a tampa do caixão, o Grifone conseguiu nova vitória no fim do campeonato. Uma inacreditável vitória. Depois de um jogo tenso, em que o rossoblù abriu o placar no primeiro tempo com o ex-doriano Floro Flores e a Samp empatou com Pozzi no segundo tempo, o jogo estava encaminhado para o empate. Com várias confusões entre os atletas, o árbitro assinalou seis minutos de acréscimo e o Genoa marcou com Boselli, aos 51:12.

Estatísticas gerais

O duelo entre os primos não tem grande histórico na Serie A. Diferentemente de outros dérbis do país, que já se aproximam ou superaram a marca de 150 partidas na primeira divisão, o clássico de Gênova ainda não passou dos 60 confrontos. É válido lembrar que a Samp foi fundada em 1946, sendo um dos times mais jovens da elite do futebol italiano.

Outro fator que contribui para o baixo número de duelos em Serie A são os rebaixamentos. De 1946 até hoje, o Genoa disputou 34 temporadas (não sequenciadas) na Serie B ou na Serie C. A Samp, por sua vez, tem 56 temporadas de Serie A e outras 11 na Serie B. Os dois times estiveram na Serie B simultaneamente em oito oportunidades, totalizando 16 jogos, com cinco vitórias para cada lado.

Em Serie A, os números mostram 58 partidas, com 20 vitórias da Sampdoria, 15 vitórias do Genoa e 23 empates. São 72 gols blucerchiatos e 59 rossoblù. Ao todo, são 104 confrontos, com 35 vitórias da Samp, 28 do Grifone e 41 empates.

Milito, dono da única tripletta da história do confronto (Sky.it)

Personagens históricos

Pela baixa quantidade de jogos disputados, as estatísticas ligadas ao duelo também são baixas. O artilheiro, com cinco gols marcados, é Giuseppe Baldini. Em 1945 ele foi jogar no Andrea Doria, um dos dois times que em 1946 se juntou para a fundação da Sampdoria. Ele permaneceu ali até 1950, quando se transferiu para o rival, Genoa por uma temporada. Em 1953, retornou à Samp, onde ficou até 1955. Dos seus cinco gols no dérbi, quatro foram pela Samp e um pelo Genoa. Posteriormente, como técnico, ele comandou o time blucerchiato em parte da temporada 1965-1966, mas foi sacado antes do fim. Foi o ano do primeiro rebaixamento doriano.

Mesmo que não tenha tido uma passagem longa por Gênova, Diego Milito já está marcado na história do duelo, no qual tem quatro presenças e quatro gols. Ele fez duas grandes temporadas com a camisa rossoblù, a de 2004-2005 e a de 2008-2009. Nesta última, ele marcou em ambos os dérbis: no primeiro turno, fez o único gol da partida, dando a vitória a sua equipe. E, no segundo turno, o argentino foi responsável por uma tripletta, que deu a vitória por 3 a 1 ao Grifone. Até hoje, é a única tripletta da história do duelo. Em 1996, Vincenzo Montella esteve perto de fazer uma (jogando pela Samp), mas teve o pênalti que originaria seu terceiro gol defendido pelo goleiro Gianluca Berti. Com os quatro tentos, ele é o maior artilheiro genoano do confronto.

Outro rossoblù que fez história foi o zagueiro Fosco Becattini. Nascido na Ligúria e torcedor do Grifone, o defensor jogou toda sua carreira no clube do coração, entre 1945 e 1961, sendo o segundo que mais vestiu a camisa do time, com 425 presenças totais. Destas, 17 foram no dérbi do farol, sendo ele o recordista de presenças do confronto. Bacattini só foi superado em número de presenças totais por Gennaro Ruotolo, que entre 1988 e 2002, realizou 444 partidas em rossoblù e também foi protagonista em dois dérbis: em 1993, marcou o gol mais rápido da história do confronto, com um tento antes da primeira volta do ponteiro. Em 1999, em um encontro pela Serie B, ele fez o gol de empate aos 41 do segundo tempo, evitando a derrota e fazendo explodir a arquibancada norte do Marassi.

Ídolo máximo blucerchiato, Roberto Mancini também tem história no duelo. Ele detém ambos, o maior número de jogos com a camisa doriana e o maior número de gols, com 566 e 173, respectivamente. Destes 173, quatro foram contra o Grifone. Seu primeiro gol foi quando ele tinha apenas 18 anos, em um dérbi da temporada 1982-1983, que terminou em empate de 1 a 1. Ele marcou também na temporada seguinte, dando a vitória por 2 a 0 à Samp, depois de quatro dérbis seguidos com empate e contribuiu para o posterior rebaixamento do rival. Com quatro tentos, Mancini se iguala a Baldini, que tem quatro de seus cinco gols no duelo feitos pela Samp e um pelo Genoa, mas não supera Adriano Bassetto, meia que jogou no clube entre 1946 e 1953, que marcou cinco só com a camisa blucerchiata.

Outro nome indispensável na lista de personagens do confronto é Gianluca Vialli. São mais de 327 partidas em oito temporadas pela Samp e 141 gols, sendo o segundo maior artilheiro do clube. Na temporada do título italiano, 1990-1991, ele foi o artilheiro da equipe com 19 gols e ainda fez sete na campanha histórica do vice campeonato da Liga dos Campeões, em 1991-1992. Mas os três gols em dérbis que ele fez são tão valiosos quanto estes. Em 1989, depois de cinco anos sem dérbi (hiato causado pela ausência do Genoa na Serie A), ele fez o único gol de um dérbi válido pela Copa da Itália, que deu a classificação doriana sobre o maior rival. Ele marcaria na mesma temporada, na virada da Samp do primeiro turno da Serie A, marcando o gol de empate. Mancini fez o gol da vitória no segundo tempo. Cassano é outro doriano que merece menção, apesar de não ter números expressivos. Ele estreou na Sampdoria em 2007 justamente contra o Genoa. Apesar de ter apenas um gol – o da vitória no 1 a 0 do segundo turno da Serie A 2009-2010 – ele sempre foi protagonista, com jogadas geniais e provocações.

Dérbis marcantes

O primeiro duelo da história foi em 3 de novembro de 1946. O combinado de Sampierdarenese e Andrea Doria já mostrava força: goleou por 3 a 0 no primeiro turno da Serie A daquela ano. Na mesma temporada, pelo segundo turno, nova vitória blucerchiata, por 3 a 2, com uma dopietta de Bassetto pelo lado doriano. Em 17 de outubro de 1948, no quinto dérbi da história, a maior goleada já registrada: um impiedoso 5 a 1 para a Samp, sendo, também, o dérbi com o maior número de gols totais e de um único time, em um clássico que dificilmente vê mais que dois gols de uma equipe.

A segunda maior goleada também é da Samp, com um 4 a 1 na temporada de 1992-1993. A melhor vitória genoana em méritos de placar (e não de relevância) foi na temporada 2009-2010, quando aplicou 3 a 0 sobre a empolgada rival, que vivia sua melhor Serie A desde o scudetto de 1991.

Dois dérbis recentes são marcantes na história do confronto. Na temporada 2002-2003, com os dois clubes disputando a Serie B, foram três partidas no ano, sendo uma pela Copa da Itália, todos vencidos pela Samp de Francesco Flachi. Mas a última vitória, na 31ª rodada, foi, talvez, o resultado de maiores implicações de toda a história. Com a vitória por 2 a 0, gols de Zivkovic e Conte, a Samp conseguiu o gás e a empolgação para terminar o campeonato na segunda posição, voltando à Serie A depois de cinco anos. Mas, além disso, o resultado também foi preponderante para que o Genoa terminasse o campeonato na zona de rebaixamento, na 18ª posição, com 39 pontos. Em um primeiro momento, o time foi rebaixado à  Serie C1, mas foi resgatado pelo Caso Catania, mantendo-se na Serie B.

Oito anos depois, porém, foi a vez de o Grifone responder na mesma moeda. Na temporada em que a Samp foi da Liga dos Campeões para a Serie B, o Genoa foi um dos principais responsáveis. Foram seis pontos somados pelos rossoblù nos dois dérbis, exatamente a quantidade de pontos que serviria para a salvação doriana. Mas, ainda pior, foi a vitória do jogo do segundo turno, quando o Genoa fez 2 a 1 com o gol da vitória vindo aos 51 do segundo tempo. Foi o golpe de misericórdia que serviria por matar de vez a Samp na péssima temporada e mandá-la para a segunda divisão, para o delírio do torcedor genoano, que desfilou nas ruas de Gênova com um cortejo fúnebre, no velório do rival.

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