Técnicos

Ilario Castagner, vice-campeão invicto com o Perugia

Para voltar à Serie B, o Prato, em 1964, contratou Ilario Castagner, centroavante de muitos gols no Perugia. O atacante, porém, não escreveu sua história no futebol italiano dentro de campo. Técnico desde os 28 anos, ele comandou uma equipe provinciana a uma disputa ferrenha com o todo-poderoso Milan em 1978-79, que culminou no vice-campeonato invicto pelo Perugia.

Natural do Vêneto, mas formado pela Reggiana, da Emília-Romanha, Castagner teve apenas dez anos de uma carreira futebolística pouco notável, nas divisões inferiores. Após pendurar as chuteiras, recebeu uma proposta para auxiliar Corrado Viciani, na equipe juvenil da Atalanta. A primeira chance num time profissional foi em 1974, no Perugia, equipe pela qual havia vivido o melhor momento da carreira, entre 1961 e 1964, na antiga Serie C. O clube estava endividado até à cabeça e acabara de ser comprado por Franco D’Attoma, recém-nomeado presidente da agremiação e sócio da Ellesse, uma das maiores empresas de roupas da Itália.

Em um ano de comando técnico do clube, o jovem treinador levou o time à elite do futebol italiano pela primeira vez na história, com uma equipe formada por jogadores praticamente desconhecidos, mas úteis em campo como operários em fábricas. Os biancorrossi não fizeram feio nos primeiros anos na elite: ficou na 8º e 6º posições, respectivamente.

A equipe ia ganhando ainda mais corpo quando aconteceu um triste episódio em partida contra a Juventus: na sexta rodada do campeonato de 1977-78, o meio-campista Renato Curi caiu no gramado, sozinho, e morreu antes de chegar ao Hospital Policlínico de Perugia. Mesmo abalada, a equipe umbra ainda fez uma ótima temporada e terminou na sétima competição da Serie A, além de ter sido uma das vencedoras da Copa Piano Karl Rappan, antecessora da Copa Intertoto. Tudo isso com um time bem mediano, que não tinha grandes destaques. Em campo, os destaques eram o zagueirão Pierluigi Frosio, o meia Salvatore Bagni e os atacantes Walter Novellino (o mesmo que se tornou técnico) e Walter Speggiorin. Todos apenas coadjuvantes no restante de suas carreiras.

O toque de maestria era dado mesmo por Ilario Castagner. Ele usava a posse de bola e a marcação por pressão como táticas defensivas. Os biancorossi eram um time duro de enfrentar. À época, a imprensa até comparava o Perugia com o Ajax tricampeão europeu – e consequentemente à Holanda do Mundial de 1974. Quando começou a Serie A de 1978-79, deu para entender o porquê.

Malizia era o goleiro; Frosio, líbero e capitão; Nappi, Della Martira e Ceccarini formavam uma linha atrás dos volantes Butti e Dal Fiume. Na meia-direita, Bagni era uma das peças-chaves do time; Vannini cobria a esquerda e Cesarsa centralizava. Isolado e não menos importante, Speggiorin, o homem-gol. Um 1-3-2-3-1 que deu a vitória na estreia da época diante do Vicenza, em casa, por 2 a 0.

Castagner sabia tão bem como armar a equipe que o Perugia sofreu apenas 16 gols no campeonato e acabou tendo a melhor defesa daquele ano – mesmo com Frosio machucado por, praticamente, todo o returno. A invencibilidade nas 34 partidas do campeonato valeram o segundo lugar ao fim da temporada foram mais do que um alento para a agremiação provinciana. Aquele time ficou conhecido como “Perugia dos milagres” e só teve o recorde de imbatibilidade superado pelo Milan de Arrigo Sacchi, no início do anos 90. Por tudo o que fez, Castagner foi eleito o técnico do ano no Belpaese.

Para disputar a Copa da Uefa, o Perugia contratou Paolo Rossi, por empréstimo junto ao Vicenza. Para isso, o presidente buscou apoio financeiro do grupo alimentício Ponte, e para driblar o regulamento italiano, que só permitia que os fornecedores de material esportivo estampassem a camisa dos clubes, criou uma marca de material com o mesmo nome. Mas nem mesmo o apoio financeiro e a adição de um atacante goleador ajudaram a equipe.

O time não soube jogar a competição europeia e foi eliminado na segunda fase pelo Aris, da Grécia. Após deixar o Perugia em 10º lugar na tabela de classificação – a pior temporada desde que chegou à elite, mas com mais dinheiro investido -, o técnico deixou a Úmbria em 1980. Outro motivo para abandonar o Perugia foi o escândalo de apostas Totonero, que envolveu uma série de jogadores, inclusive Rossi. Pela participação no escândalo, o Perugia perdeu cinco pontos para a temporada seguinte e acabou caindo para a segundona. Retornaria à elite apenas 15 anos depois, sob a tutela do excêntrico empresário Luciano Gaucci.

Entretanto, Castagner também se rebaixou à Serie B: foi contratado pela Lazio, que havia caído como resultado das sentenças do escândalo. Em duas temporadas, nada de conseguir o acesso. Em 1982-83, o Milan, que também havia sido condenado pelo escândalo e passava por uma fase de renovação e uma gangorra de acessos e descensos, resolveu apostar no ex-comandante do “Perugia dos milagres”.

Na segundona, nada parou o Diavolo de Mauro Tassotti, Franco Baresi e Joe Jordan. Foram 77 gols marcados no campeonato, sendo 11 de Battistini, artilheiro. Jordan, Damiani e Verza marcaram dez vezes cada. Na temporada seguinte, contudo, o Milan ficou em 8º lugar na volta à elite e acabou licenciando o técnico vêneto. Na temporada seguinte, Castagner assumiu a Inter, sendo o primeiro treinador a trocar um clube pelo outro na história – apenas Leonardo faria o mesmo um quarto de século depois.

Na equipe nerazzurra, Castagner teve uma boa primeira temporada, levando a equipe que tinha Zenga, Bergomi, Altobelli e Rummenigge ao terceiro posto no campeonato – vencido pelo Verona – e às semifinais na Copa Uefa, perdida ante ao Real Madrid. Chegou a iniciar a temporada seguinte, mas foi demitido pelo presidente Ernesto Pellegrini  após cinco vitórias em 10 partidas. No ano seguinte, teve os méritos de salvar um fraquíssimo Ascoli do rebaixamento, mas não voltou a treinar grandes clubes. Teve apagadas pessagens por Pescara e Pisa, até dar uma pausa, em 1991.

Em 1993, voltou a Perugia, para dirigir a equipe na Serie C, nas partidas de desempate, conhecidas na Itália por spareggio – Walter Novellino, que havia sido seu treinador, havia sido demitido pelo intempestivo Gaucci. A equipe venceu o Acireale, mas não subiu por fraude: Gaucci havia presenteado o árbitro de uma das finais com um cavalo e teve a desonestidade descoberta. Castagner permaneceu na Úmbria na temporada seguinte, fazendo a equipe subir com muita facilidade à segundona. Só que acabou demitido por Gaucci.

Em 1998, foi chamado pelo presidente para dirigir a equipe novamente, desta vez na Serie B. Com um sprint histórico, a equipe umbra alcançou o Torino em número de pontos e venceu o spareggio, subindo novamente à elite. Na primeira divisão, o time contou com o talento de um promissor Hidetoshi Nakata e até estava em posições intermediárias da tabela, mas Castagner decidiu deixar o futebol, sendo substituído por Vujadin Boskov, ex-técnico da Sampdoria campeã italiana em 1991.

Entre 2005 e 2006, Castagner esteve novamente envolvido com o Perugia: foi diretor técnico e tornou-se presidente honorário do clube. Hoje, o ex-treinador é comentarista da Mediaset e da RAI.

Ilario Castagner
Nascimento: 18 de dezembro de 1940, em Vittorio Veneto
Posição: atacante
Clubes como jogador: Reggiana (1959-60), Legnano (1960-61), Perugia (1961-64), Prato (1964-67) e Rimini (1967-69)
Clubes como treinador: Atalanta (1969-73), Perugia (1974-80, 1993-95 e 1997-99), Lazio (1980-82), Milan (1982-84), Internazionale (1984-86), Ascoli (1986-89), Pescara (1989-90) e Pisa (1991-92)
Títulos como treinador: Serie B (1982-83), Copa Piano Karl Rappan (1977-78)

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