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Bad boy, Philippe Mexès ‘tretou’ com rivais e marcou golaços por Roma e Milan

Encrenqueiro, marrento e zagueiro-artilheiro. Todas essas características se enquadram no perfil de Philippe Mexès. Aposentado desde o ano passado, o defensor francês passou quase três quartos de sua carreira na Itália, onde construiu fama de bad boy defendendo as camisas de Roma e Milan.

Mexès começou a jogar bola bem cedo. Ele passou a infância e adolescência a serviço do time de sua terra natal, o Toulouse, até chegar ao Auxerre em 1997, quando se juntou aos garotos do sub-16. Progrediu bem nas divisões de base do clube da Borgonha, de modo que foi incorporado ao plantel principal dois anos depois. A estreia do beque aconteceu em 10 novembro de 1999, contra o Troyes, pela Ligue 1, e seu primeiro gol como profissional veio um mês depois, em duelo diante do Monaco.

Na virada do século, Mexès se firmou como um dos pilares defensivos do Auxerre, e seu nome foi ventilado no Manchester United. Porém, ele permaneceu no AJA, que acabou se classificando para a Liga dos Campeões. Além disso, foi chamado para disputar o Europeu Sub-18 com a seleção francesa. Embora fosse titular, acabou sendo punido pela Uefa com três jogos de suspensão por ter sido expulso na segunda partida do torneio – vitória por 2 a 0 ante a República Checa. Mesmo assim, os franceses venceram aquela edição do Europeu, derrotando a Ucrânia por 1 a 0 na decisão.

Na temporada 2002-03, Mexès ajudou seu time a superar o Paris Saint-Germain por 2 a 1 e ficar com o título da Copa da França. As boas atuações o levaram à seleção francesa sub-21, por onde atuou duas vezes na campanha que culminou no vice-campeonato do Europeu de 2002. Os Bleus perderam a final nos pênaltis (3 a 1) para a República Checa de Petr Cech, Zdenek Grygera e Milan Baros.

Seu debute com a seleção principal da França ocorreu em outubro de 2002, aos 20 anos: ele substituiu Lilian Thuram nos últimos minutos do segundo tempo da partida contra o selecionado de Malta, válida pelas Eliminatórias da Eurocopa de 2004. Mexès jogaria a Copa das Confederações de 2003, cujo título fora para os gálicos, mas não seria convocado para a Euro do ano seguinte por escolha do técnico Jacques Santini. Cobiçado no mercado, o zagueiro ficaria apenas mais uma época no Auxerre. A capital da Itália o esperava.

Zagueiro-artilheiro, Mexès comemorou 15 vezes na Cidade Eterna (AS Roma)

Em agosto de 2004, Mexès assinou por quatro anos com a Roma, que desembolsou 4 milhões de euros para contar com seu serviço. No entanto, a transferência trouxe dores de cabeça para as três partes envolvidas. É que o Auxerre alegou uma quebra de contrato por não ter dado o aval à negociação – foi uma decisão tomada apenas pelo jogador. A diretoria do AJA acionou a Uefa, que impôs um gancho de seis semanas ao atleta por haver firmado vínculo com os italianos ainda sob contrato com o Auxerre.

Contudo, o TAS (Tribunal Arbitral do Esporte, em tradução literal) aceitou um pedido de efeito suspensivo da Roma, liberando Mexès para atuar um mês depois do início do imbróglio. Em 12 de setembro de 2004, ele entrou em campo pela primeira vez para defender a camisa giallorossa. Em fevereiro de 2005, depois de Auxerre e Roma recorrerem, a Câmara de Resolução de Disputas da Fifa determinou que a Roma teria que pagar não mais 4, mas sim 7 milhões de euros aos franceses. Ademais, o agente do zagueiro, Olivier Jouanneaux, foi suspenso por seis meses pela Fifa devido a seu envolvimento na quebra unilateral de contrato do jogador.

Superado os problemas extracampo, Mexès começaria a lidar com um time romanista em situação complicada. Com pouca grana no caixa, a Roma vendeu Walter Samuel ao Real Madrid, enquanto Jonathan Zébina e Emerson seguiram o mesmo caminho do técnico Fabio Capello e reforçaram a rival Juventus. Único francês do elenco, Mexès teve que se adaptar sozinho à Itália.

Para piorar o cenário, Cesare Prandelli, contratado para o lugar de Capello, renunciou ao cargo antes do início da temporada 2004-05 para começar a cuidar de sua esposa, que estava com câncer. O ídolo romanista Rudi Völler foi a solução da diretoria para a vaga de técnico, mas o alemão durou apenas quatro jogos. No total, quatro treinadores – e um interino – passaram pela Roma na época 2004-05.

Apesar de todos esses fatores que naturalmente afetaram o ambiente, Mexès encerrou a temporada com 37 jogos. Por outro lado, começou a mostrar ao mundo seu lado explosivo. Parceiro de zaga do romeno Cristian Chivu, o francês foi expulso a caminho do intervalo na partida diante do Dynamo Kyiv, no Olímpico, pela fase de grupos da Liga dos Campões, por empurrar o atacante Maris Verpakovskis.

Enfurecida pela decisão do árbitro Anders Frisk, a torcida da casa começou a atirar objetos ao campo. Um isqueiro atingiu a cabeça do juiz, que suspendeu o jogo 50 minutos após o incidente. Dias depois, a Uefa declarou a derrota da Roma – os italianos estavam perdendo por 1 a 0 quando a “treta” teve início – e sancionou a equipe a jogar os dois compromissos posteriores de portões fechados. Além disso, a entidade puniu Mexès com dois jogos de gancho devido à “conduta particularmente antidesportiva”.

Estilo polêmico marcou os sete anos de Mexès na Roma (Reuters)

Para a temporada seguinte, a Roma contratou Luciano Spalletti, que tirou a titularidade de Mexès e a conferiu ao recém-contratado Samuel Kuffour. Sem jogar na Roma, Mexès acabou sendo deixado de lado por Raymond Domenech, técnico da França na Copa do Mundo de 2006. Mas o defensor de cabelos cheios de luzes recuperou sua posição em dezembro de 2005, numa época que coincidiu com uma sequência de 11 vitórias dos giallorossi – na época, foi um recorde na Serie A. Devido ao esquema Calciopoli, a Roma subiu para o segundo lugar do campeonato, após as sentenças da justiça italiana, e, assim, se classificou para a Liga dos Campeões. O defensor marcou três gols na Serie A 2005-06.

Ao lado de Chivu, Mexès virou titular absoluto da Roma de Spalletti na temporada 2006-07. Apesar da goleada sofrida no Old Trafford para o Manchester United, um 7 a 1 pela Champions, a equipe da capital fez uma excelente época: terminou a Serie A na segunda colocação, atrás de uma indomável Inter – os nerazzurri concluíram aquela edição com 22 pontos a mais que os romanistas –, e venceu a Coppa Italia, batendo na final a própria Beneamata. Foi o primeiro título de Mexès em solo italiano, e o camisa 5 encerrou a temporada como um dos melhores zagueiros do país, de modo a ser nomeado para o “Oscar del Calcio”, a principal premiação para os jogadores da Serie A.

Desejado por clubes europeus, Mexès renovaria contrato com a Roma até 2011. As extremidades da temporada 2007-08 ficaram marcadas com confrontos entre Roma e Inter valendo título. No começo dela, os giallorossi faturaram a Supercopa Italiana, em Milão, por 1 a 0; no fim, outro triunfo dos romanistas, desta vez por 2 a 1, na capital, com o francês marcando o gol do título. Apesar de seu bom momento no clube, o zagueiro não foi convocado pelo excêntrico Domenech para a Eurocopa de 2008.

Mexès nunca fugiu de boas encrencas dentro de campo. Mas no dia 29 de fevereiro de 2009, ele e seu colega de grupo Jérémy Ménez se envolveram em uma briga com torcedores da Lazio. De acordo com a rádio Rete Sport, ambos estavam em uma boate de Roma quando foram reconhecidos pelos laziali, que os provocaram e os xingaram. Ainda de acordo com o relato, Mexès recebeu um golpe no rosto, provavelmente com uma fivela de cinto. Segundo a agência Ansa, policiais chegaram ao local e acabaram com a confusão: um aperto de mão entre os jogadores e os torcedores selou a paz.

Na temporada 2009-10, ele dividiu a titularidade da Roma com Nicolás Burdisso, que fora emprestado à Loba pela Inter. Mesmo assim, Mexès ajudou os giallorossi a terminarem a Serie A em segundo lugar – novamente atrás dos interistas –, com a terceira melhor defesa do torneio ao lado da Sampdoria, quarta colocada. Os romanistas ainda ficaram com o vice da Coppa Italia. Na decisão da copa, vencida pela Beneamata por 1 a 0, o atleta deu um soco nas costelas do também encrenqueiro Marco Materazzi. Por causa desse episódio ou não, o certo é que Philippe não disputaria a Copa do Mundo de 2010.

Acredite: Montolivo ficou entre Mauri e Mexés tentando separar os dois (AP)

Em 3 de abril de 2011, Mexès romperia o ligamento cruzado do joelho esquerdo, em partida contra a Juventus pela Serie A, e não jogaria mais pelo time romano. Com a camisa giallorossa, disputou 267 jogos, marcou 15 gols, deu oito assistências e recebeu 11 cartões vermelhos; três deles de forma direta. Segundo levantamento da Roma, o francês é o quinto defensor que marcou mais tentos pelo clube, atrás de Vincent Candela (16), Sebastiano Nela (19), Aldair (20) e Christian Panucci (31).

Livre no mercado, visto que não renovou com a Roma, Mexès fechou com o Milan. Por causa da grave lesão que sofrera, o defensor só foi jogar sua primeira partida oficial pelos rossoneri em outubro de 2011, contra o Bate Borisov, no San Siro, pela fase de grupos da Liga dos Campeões. Entrou no segundo tempo, substituindo Alessandro Nesta, que deixaria a agremiação ao fim da temporada após dez anos em Milão. Thiago Silva, um dos pilares defensivos do Diavolo nas temporadas anteriores, também sairia do clube. Caminho livre para Mexès, que formaria dupla de zaga com o recém-chegado Cristián Zapata.

Um dos maiores momentos de Mexès com a camisa rossonera aconteceu em 2012: Riccardo Montolivo cobrou falta, ele dominou no peito e, de fora da área, acertou uma linda bicicleta, encobrindo o goleiro do Anderlecht. Um gol antológico que classificou os milanistas para o mata-mata da Liga dos Campeões. Na mesma temporada, o camisa 5 foi decisivo novamente no ataque ao anotar o gol que deu a vitória sobre a Fiorentina, em Florença, na última rodada da Serie A 2012-13. O gol fez os rossoneri subirem para a terceira posição e, assim, se classificarem para a Champions.

Em 2012, Mexès voltou a defender a seleção da França em uma competição oficial. O nome do jogador figurou entre os 23 selecionados de Laurent Blanc para a Eurocopa, realizada na Polônia e na Ucrânia. Homem de confiança do treinador, ele formou dupla de zaga com Adil Rami, seu futuro colega de clube. Os Bleus caíram nas quartas de final (2 a 0) perante a campeã Espanha. Com a saída de Blanc, o beque não foi mais chamado para defender a seleção francesa.

No Milan, Mexès foi expulso três vezes e tomou 47 amarelos, mas fez gols importantes (AP)

Embora viesse se destacando no Milan por seus gols decisivos, Mexés não deixou de lado seu “lado sujo”. Na derrota por 3 a 2 para a Juventus, em Turim, pela Serie A 2012-13, Philippe recebeu o segundo cartão amarelo por acertar um soco na cara de Giorgio Chiellini. Ironicamente, logo após o milanista ir para os vestiários, o camisa 3 juventino marcou um gol. No entanto, essa expulsão contra a Juventus não se compara ao surto de raiva de Mexès contra Stefano Mauri, da Lazio.

Em janeiro de 2015, no Olímpico, o Milan perdia para os biancocelesti por 3 a 1. A partida já estava nos acréscimos do segundo tempo. Mauri chutou Mexès numa disputa de bola. O francês levantou rapidamente e foi tirar satisfações. O laziale continuou provocando o rossonero, que caiu na pilha e o enforcou. O árbitro não pensou duas vezes e expulsou o camisa 5. Não satisfeito, Mexès foi para cima de Mauri e lhe deu uma gravata, numa clássica cena de filme de ação. O ato de indisciplina rendeu quarto partidas de suspensão ao “esquentadinho”.

Em julho de 2015, Mexès estendeu seu vínculo com o Milan por mais uma temporada. No mesmo mês, marcou um golaço num amistoso contra a Inter, que o credenciou a concorrer ao prêmio Puskás. Ele não era um dos favoritos de Sinisa Mihajlovic, técnico rossonero à época. Por isso, entrou em campo apenas sete vezes na temporada 2015-16. Curioso é que, mesmo que tenha participado de poucos jogos, Mexès recebeu cinco cartões amarelos. O camisa 5 não renovou contrato com o Diavolo ao fim da época, não encontrou outro clube para jogar e anunciou aposentadoria em novembro de 2017.

Virar dirigente ou se tornar treinador? Não, nenhuma dessas opções combinam com o bad boy Mexés. “Fui um pouco estúpido, como muitos outros. Não nego. Sempre assumi essa imagem. Também era uma espécie de galã, não vou dizer que não e até gostava disso às vezes. As meias subidas até ao joelho, o cabelo longo, barbeado ou não, era tudo parte do meu estilo, do meu caráter”, disse Philippe, à France Football. “Voltei à vida real sem me fazer notar. Não era um Zidane, Totti ou Thuram. O que quero é ser como os demais”, finalizou.

Philippe Mexès
Nascimento: 30 de março de 1982, em Toulouse, França
Clubes: Auxerre (1999-2004), Roma (2004-11) e Milan (2011-16)
Títulos: Europeu sub-18 (2000), Copa da França (2003), Copa das Confederações (2003), Coppa Italia (2007 e 2008) e Supercopa Italiana (2007 e 2011)
Seleção francesa: 29 jogos e um gol

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