Serie A

O dia em que Cruyff jogou pelo Milan

Um dia para se esquecer: após má atuação, Cruyff foi dado como acabado para o futebol (Sport.es)

Silvio Berlusconi sempre foi um homem de negócios astuto. Em 1980, o Canale 5, de sua propriedade até hoje – faz parte do grupo Mediaset, do qual o Cavaliere é dono – resolveu comprar os direitos de transmissão da Copa de Ouro dos Campeões Mundiais, mais conhecida mundialmente como Mundialito. Era um torneio que reunia as seleções campeãs mundiais – a Inglaterra renunciou à participação, dando lugar à Holanda. O torneio foi  um fracasso técnico, mas um sucesso midiático. E, aí, Berlusconi resolveu lançar moda.

Em 1981, Berlusconi ainda não havia comprado o Milan – o faria apenas em 1986. Mas, como dono do canal televisivo, sediado em Milão, resolveu criar uma competição semelhante ao Mundialito, mas envolvendo clubes, que jogariam as partidas no San Siro. A ideia era reuni-los em um campeonato maior (e não na fórmula de dois jogos ou jogo único, que prevalecia). Assim, nasceu a Copa Super Clubes ou Mundialito de Clubes, que aconteceria em quatro edições bienais, de 1981 a 1987. E, na primeira edição, o Milan levou uma surpresinha: Johan Cruyff.

Cruyff em rubro-negro (Wikipédia)

No Mundialito de 1981, o Milan enfrentaria Inter, Independiente, Santos e Feyenoord, todos já vencedores do Mundial Interclubes em alguma oportunidade – Real Madrid e Boca Juniors acabaram por declinar o convite pouco antes do início da competição. O regulamento permitia que até dois jogadores que não fossem contratados pelo clube jogassem, afinal, se tratava de um torneio de verão, preparatório para a temporada europeia. No Milan, um desses jogadores era nada mais nada menos que o craque holandês, que já tinha 34 anos. Falava-se, à época, que o clube duelava com a Sampdoria, que também queria contar com ele.

Cruyff estava sendo sondado pelo Milan para ser o craque de um time em reconstrução. Em 1980, a equipe teve envolvimento no escândalo Totonero e acabou rebaixada para a Serie B, da qual estava de volta apenas um ano. O time não tinha a grandeza do Diavolo e era formado por jovens como Alberigo Evani, Mauro Tassotti e Franco Baresi, além de outros mais experientes, como Aldo Maldera, Fulvio Collovatti, Walter Novellino e Joe Jordan. Cruyff adicionaria experiência e muita classe àquela equipe. Seu primeiro teste seria contra um velho conhecido, o Feyenoord, maior rival do Ajax, equipe pela qual foi formado e passou 11 anos.

No dia 16 de junho de 1981, os presentes a San Siro não viram apenas o jogo de estreia de uma competição que tinha tudo para ser empolgante, mas a única partida de “El Flaco” Cruyff pelo Milan. O histórico número 14 da Laranja Mecânica, do Ajax e do Barcelona, claro, começou jogando, para a empolgação dos mais de 30 mil presentes no velho San Siro, que no ano anterior havia ganhado o nome oficial de Giuseppe Meazza. 

Cabisbaixo, o holandês deixa o campo

Do alto de seus 34 anos, porém, Cruyff frustrou a todos. O holandês deixou o Barça em 1978 e vinha de passagens pelo Los Angeles Aztecs e pelo Washington Diplomats, da North American Soccer League, e de três meses frustrantes pelo Levante, que jogava a segunda divisão espanhola e, desde sua chegada, só caiu de produção e aumentou as dívidas. Totalmente fora de forma, a exibição de Cruyff no San Siro foi, dizem os jornalistas da época, digna de pena. O jornal La Stampa, de Turim, escreveu: “No primeiro tempo, se limitou a tocar poucas bolas, evitando claramente o contato com outros jogadores”.

Visivelmente fora de forma e completamente desconexo do jogo, Cruyff acabou vaiado pela torcida milanista quando o árbitro anunciou o intervalo. E, ali, 45 minutos depois, acabava a passagem do holandês pelo clube rubro-negro. Cruyff acabou sendo substituído pelo técnico Luigi Radice, que preferiu colocar em seu lugar o meia Francesco Romano, de 21 anos. Ele não mudou o jogo, que acabou empatado em 0 a 0.

Após o jogo, Cruyff se defendeu das críticas. Disse que estava lesionado e que havia alertado ao clube sobre suas condições, com as quais o staff médico e técnico do Milan haviam consentido. Também se defendeu das acusações de mercenário, que alguns lhe atribuíam – Cruyff andava necessitado de dinheiro, porque havia perdido tudo em maus investimentos. Três dias depois da única partida em que defendeu o clube de Milão, Cruyff retornaria aos Estados Unidos para assinar com o Washington Diplomats, pelo qual havia jogado no ano anterior. E, 12 dias após o jogo, a Inter fazia 3 a 1 sobre o Milan e assegurava o título do Mundialito. As coisas ainda ficariam ruins para o Milan, que seria novamente rebaixado em 1981-82, depois de terminar na 14ª colocação da Serie A, em campeonato com 16 equipes.

Antes de se aposentar, em 1984, Cruyff ainda desfilou futebol pelo Ajax, entre 1981 e 1983, e no rival Feyenoord, em uma única temporada, a de 1983-84. No Ajax, chegou a jogar junto com Frank Rijkaard e Marco van Basten, e no Feyenoord, com Ruud Gullit. Certamente, lhes ensinou muito. E, escrevendo certo por linhas tortas, acabou ajudando o Milan do novo presidente Berlusconi a brilhar nacional e internacionalmente, tornando-se o time a ser temido até meados dos anos 90, muito graças ao fortíssimo trio holandês.

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