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Um dos grandes do futebol, Daniel Passarella passou pela Itália sem levantar troféus

Considerado um dos maiores zagueiros da sua época, Daniel Passarella marcou o futebol entre as décadas de 70 e 80 como um dos melhores intérpretes de uma função onde poucos se destacaram: a de líbero. De temperamento forte (sua ascendência siciliana explica muita coisa) mas muita qualidade técnica e visão de jogo, o argentino de Chacabuco é amado e odiado por muitos e tem o seu nome muito bem escrito na história do futebol.

A vida de Passarella no futebol começou em 1971, quando, no modesto Sarmiento, time da província de Buenos Aires, começou a dar seus primeiros passos para o que seria uma grande carreira. Dois anos depois foi observado por Néstor Rossi, que o chamou para o River Plate. Torcedor do Boca Juniors quando pequeno, era a chance de Passarella “vingar” por ter sido rejeitado na peneira do clube, e assim foi. Em oito anos nos Millonarios, foi um dos líderes do clube, conquistando seis títulos nacionais. Ganhou mais destaque ainda em 1977, quando marcou 24 gols no campeonato, um altíssimo número para um defensor. Não à toa, ganhou apelidos como “Rei da defesa” e “O Grande capitão”.

Capitão, líder da defesa e umas das referências na seleção argentina que venceu a Copa do Mundo em casa em 1978, Passarella apareceu de vez para o cenário europeu no Mundial de 82, quando ao lado de Maradona, Kempes, Valdano, Bertoni, Fillol e entre outros liderou o time que foi muito bem na primeira fase, porém caiu na segunda para Brasil e para a Itália, que se sagraria campeã.

Seu destino, porém, já estava traçado: após a Copa, foi para a Fiorentina, que já contava com Bertoni. Além de Passarella, outros dois argentinos foram para o futebol italiano: Patricio Hernández para o Torino e Ramón Díaz para o Napoli. Díaz foi companheiro do zagueiro nos tempos de River Plate e hoje é treinador do mesmo clube, presidido justamente por Daniel.

Na Toscana, sob o comando do ex-regista Giancarlo De Sisti liderou a terceira defesa menos vazada do campeonato ao lado de Galli, Cuccureddu e Pin, enquanto Antognoni, Massaro, Bertoni e Graziani trabalhavam na frente. Um raro líbero com qualidade técnica de sobra, sendo comparado a Beckenbauer e Scirea posteriormente, Passarella teve na Itália da Zona Mista o melhor terreno para se destacar. Na temporada seguinte, Passarella começou a mostrar sua categoria nas bolas paradas (principalmente após a gravíssima lesão de Antognoni) e eficiência nas jogadas aéreas, apesar da baixa estatura. Com 7 gols no campeonato, ajudou a colocar os viola na terceira colocação, atrás de Juventus e Roma.

Em 1984-85, o time toscano teve uma temporada ruim. De Sisti teve de ser afastado do cargo por uma doença, enquanto Antognoni teve a perna quebrada. Valcareggi e Sócrates chegaram para substitui-los, respectivamente, além dos reforços de Gentile e Pellegrini, mas em campo o sucesso não veio. A equipe sofreu com um ataque pouco prolífico, apesar da defesa sempre bem ajustada, com Passarella liderando ao lado dos veteranos Galli e Cuccureddu.

Gentile, Passarella e Sócrates, protagonistas na segunda fase do Grupo C na Copa do Mundo de 1982, nos tempos de Fiorentina em 1984 (Interleaning)

Para a temporada seguinte, mudanças drásticas no time viola. De passagens por Pisa, Padova e Perugia, Aldo Agroppi assumiu o comando técnico, enquanto foram contratados Berti, Battistini, Iorio, Maldera e um então jovem Roberto Baggio. Sócrates voltou para o Brasil e Antognoni de lesão (voltaria a sofrer outra no final da temporada).

Sempre ao lado de Galli, Oriali e Pin na defesa (novamente a terceira menos vazada), além de Gentile e Carobbi, Passarella viria a ter sua melhor temporada na Europa. Entre cobranças de falta, pênaltis e bola aérea, o líbero marcou 11 gols no campeonato. Foi o artilheiro do time e ficou atrás apenas de Pruzzo, Rummenigge e Platini na tábua de marcadores da Serie A. Sem dúvidas, foi fundamental para a quarta colocação na tabela e a invencibilidade da equipe em Florença.

No auge em plenos 33 anos, Passarella foi para sua quarta e última casa na carreira. Mesmo relegado ao banco por Carlos Bilardo no Mundial de 86, embora recuperado de problemas estomacais (a chamada “maldição de Montezuma”) e uma distensão, Passarella pode colocar no seu currículo o título de bicampeão mundial – até hoje, é o único jogador não-brasileiro ou italiano a conquistar o feito. Após a Copa, foi comprado sob muita expectativa por Ernesto Pellegrini para dar fim à seca de títulos da Inter e comandar a defesa do também recentemente contratado Giovanni Trapattoni.

Com Zenga no gol e parceiros de defesa do nível de Bergomi, Ferri, Beppe Baresi, Matteoli e Marangon, Passarella ajudou a tornar aquela defesa nerazzurra praticamente intransponível. Naquela temporada, o time de Trap teve a defesa menos vazada, com apenas 17 gols sofridos em 30 jogos. Na frente, um Altobelli já em final de carreira ainda foi importante, mas, sem um parceiro (Rummenigge teve muitos problemas físicos), não foi capaz de colocar o time à frente da Juventus de Platini e do Napoli liderado pela primeira versão do trio MaGiCa (Maradona, Giordano e Carnevale).

Curiosamente, Passarella foi o primeiro argentino na Inter desde o técnico Helenio Herrera em 1973, ou Maschio e Pagani em campo na temporada 1962-63 – algo improvável para um time que teve e até hoje tem tanta ligação com os albicelestes. Após a boa primeira temporada, Passarella seguiu para mais uma temporada em Appiano Gentile. Já com idade avançada, o desempenho começou a cair. Após ter agredido um gandula, foi punido em seis jogos na que seria sua última temporada na Itália, quando ainda marcou cinco gols.

Apesar de bons jogos, Passarella não conseguiu levantar o scudetto pela Inter (Wikipedia)

A temporada abaixo das expectativas da Beneamata acabou levando a uma reformulação no elenco, e Passarella voltou para o seu River Plate. Sem o tão desejado scudetto, acabou vendo a Inter campeã e quebrando todos os recordes possíveis na temporada seguinte, com a chegada dos alemães Brehme e Matthäus, além de seus ex-companheiros Berti e Díaz, fundamentais na conquista nerazzurra.

Já com 36 anos, Passarella jogou por apenas mais um ano profissionalmente no River Plate, quando logo depois, em 1989, assumiu o comando técnico do time de Buenos Aires. Como treinador, contudo, o sucesso não foi o mesmo, ainda que nos primeiros anos nos Millionarios tenha levado dois Apertura e um nacional, o bastante para lhe candidatar como o novo treinador na seleção argentina, substituindo Alfio Basile.

Tão arrogante e durão como quando jogador, o ex-zagueiro protagonizou episódios no mínimo controversos ao proibir que os jogadores tivessem cabelos longos e brincos – chegou até mesmo a barrar homossexuais. Entre os jogadores ignorados estavam Fernando Redondo e Claudio Caniggia, o que lhe rendeu muitas críticas. Em campo o rendimento também não foi dos melhores, ainda que a Albiceleste tenha levado o ouro no Panamericano de 1995 e a prata na Olimpíada de 1996. Além disso, a seleção foi vice-campeã da Copa das Confederações, em 1995, e alcançou as quartas de finais do Mundial de 1998, caindo nos minutos finais para a semifinalista Holanda com golaço de Bergkamp. O insucesso acabou colocando Marcelo Bielsa em seu lugar.

Um ano depois assumiria o comando do Uruguai para um passagem curta, já que saiu em 2001 alegando problemas com alguns jogadores. No final deste ano, teve provavelmente seu pior trabalho como treinador: substituiu Renzo Ulivieri no Parma, porém foi demitido após cinco partidas, todas perdidas (Juventus, Milan, Udinese, Roma e Atalanta). Em 2003, pouco depois de assumir o comando do Monterrey, conquistaria seu último título como treinador, o campeonato nacional, saindo do clube mexicano em 2004. Não bastasse a péssima passagem por Parma, Passarella assumiu o Corinthians da MSI e voltou a fracassar em grande estilo, durando pouco mais de um mês no clube paulista após derrotas humilhantes contra Cianorte e São Paulo, além de vários problemas com jogadores, como Roger, Gil e Fábio Costa.

Em 2006 voltaria ao River Plate depois de 12 anos, porém, após resultados abaixo das expectativas e a queda nas semifinais da Sulamericana de 2007, pediu a demissão do clube, em seu último trabalho como treinador. Ficou um tempo afastado até que no final de 2008 se candidatou para a presidência do clube, cargo que assumiria em 2009.

Daniel Alberto Passarella
Nascimento: 25 de maio de 1953, em Chacabuco, Argentina
Posição: zagueiro
Carreira como jogador: Sarmiento (1971-73), River Plate (1974-82 e 1988-89), Fiorentina (1982-86) e Inter (1986-88).
Carreira como treinador: River Plate (1988-94 e 2006-07), Seleção argentina (1994-98), Seleção uruguaia (2000-01), Parma (2001), Monterrey (2002-03), Toluca (2004-05) e Corinthians (2005).
Títulos como jogador: 7 Campeonatos Argentinos (Metropolitano e Nacional – 1975, Metropolitano – 1977 Metropolitano e Nacional – 1979, Metropolitano – 1980 e Nacional – 1981) e 2 Copas do Mundo (1978 e 1986)
Títulos como treinador: 4 Campeonatos Argentinos (1988-89, Apertura 1991, Apertura 1993, Apertura 1994), 1 Campeonato Mexicano (Clausura 2004) e 1 Jogos Panamericanos (1995)
Seleção argentina: 70 jogos e 22 gols.

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