Serie A

Cheguei para incomodar

Benatia colocou ordem na defesa da Roma, a melhor da Europa (Foto: Site oficial da Roma)

Há dez meses, a Sky Italia caçoava da Roma ao dizer que o mundo acabaria apenas se a equipe tivesse a melhor defesa no fim da temporada, Bendtner fosse o artilheiro e Balotelli ficasse contente. Em outubro da temporada 2013-14, os giallorossi não veem ninguém a frente, lideram a Serie A, tem o melhor ataque da competição e a melhor defesa da Europa.

Teve um trator romano que destruiu o adversário nerazzurro no Giuseppe Meazza. O 3-0 aplicado na Inter reflete bastante o que a Roma tem feito e ainda pode produzir nesta época, sem participação em torneios continentais, ao contrário dos também invictos Napoli e Juventus. Na partida, a equipe chutou cinco vezes e marcou três gols; seu adversário acertou o alvo apenas quatro vezes em 18 finalizações. Foram sete remates bloqueados da Inter – dois de Benatia, Balzaretti e Torosidis, e um de Strootman. O padrão de jogo da Roma é bem simples, inclusive: chega de 4-2-Totti-e-mais-um-punhado-de-atletas. Rudi Garcia implantou certos traços do Lille campeão francês e transformou os giallorossi num time tão bom defensivamente quanto o do scudetto de 2001.

No time vencedor da Ligue 1 da temporada 2010-11, Garcia montou um 4-3-3 (tática mutável para o 4-1-2-3) que recebia, em média, 10,5 finalizações por jogo (o 4º melhor do campeonato francês). Isso tudo porque os meio-campistas Cabaye e Gueye fechavam os espaços pelo meio e eram auxiliados por Gervinho e Hazard nos flancos. Ofensivamente, o Lille era a segunda equipe que mais chutava (14,8 por partida), a que mais marcou gols em contra-ataques (foram 12, quase 20% do total) e insistia nos passes em profundidade. A equipe campeã, igualmente, não jogava a bola na área adversária a esmo: a média era de 20 cruzamentos por jogo (5º time que menos cruzou). Por que tentar o jogo aéreo com um único centroavante de 1,80m?

Em Roma tem sido bem parecido. De Rossi controla o meio de campo de trás, com Pjanic e Strootman centralizados. Florenzi, de fôlego inesgotável, joga pela esquerda da cancha; recuado, Totti pensa o jogo a partir da intermediária e Gervinho faz o que sabe melhor – correr. O motivo-Gervinho explica porque a Roma é a agremiação que mais usa o lado direito na primeira divisão da Itália. 

Roma tem, de longe, a melhor defesa da Europa. De longe mesmo (Experimental 3-6-1) – clique na imagem para ampliar

Sem o motor belga de Hazard, Garcia optou por explorar a bandeira romana. Totti, ao invés de lutar contra zagueiros corpulentos, vê a partida numa posição privilegiada e coordena os ataques giallorossi de maneira suprema até então. Defensivamente, a Roma é o quarto time da Serie A que menos deixa o adversário finalizar. São 11 por confronto (menos do que nas últimas duas épocas). 

A força ofensiva de Zdenek Zeman e a defensiva de Fabio Capello podem ser vistas de uma forma adaptada ao futebol italiano dominado pela Juventus nos últimos dois anos – mesmo que o posicionamento de Totti seja mais parecido com o desempenhado com Luciano Spalletti. Sem zemaniar, a Roma, organizada, não é a equipe que mais chuta no campeonato, mas é a segunda que mais acerta o gol. Também é o segundo time que menos tenta cruzamentos. Dos gols marcados, 25% são em jogadas de contra-ataque, como no Lille de Garcia. Ninguém fez mais tentos desta forma. Os melhores, após a Roma, são Napoli e Torino (dois cada contra cinco romanos). 

Entre os que mais chutam, a Roma é que o time que menos precisa finalizar para marcar um gol na Serie A (Reddit Soccer) – clique na imagem para ampliar

A maneira de Totti jogar na intermediária do adversário já rendeu seis assistências do capitão na Serie A 2013-14. Ele é o maior assistente do campeonato, seguido por Strootman, com quatro. O camisa 10 dá quase quatro passes decisivos por jogo, o dobro de Hamsík, Diamanti, Lodi e Pirlo.

A perda de Marquinhos para o Paris Saint-Germain foi quase irrelevante em vista a transferência de Benatia para a capital. O zagueiro da Udinese já era e continua sendo um dos melhores defensores do campeonato. Maicon, de passagem desprezível pelo Manchester City, tomou conta da lateral direita antes ocupada por Piris. Juntamente com Castán, essa zaga da Roma tem sido comparada à do título de 2000-01, com Antônio Carlos, Aldair e aquele então “desconhecido” menino chamado Walter Samuel. Atrás de todo mundo, na posição ingrata, Morgan De Sanctis segue como, também, um dos melhores goleiros da Itália, substituindo Stekelenburg e devolvendo Lobont aos reservas. Mesmo sofrendo apenas um gol em sete partidas, o ex-arqueiro do Napoli tem a melhor porcentagem de defesas entre os goleiros dos cinco maiores campeonatos europeus: 90,1%.

À Roma renascida, um brinde. 


Nota: os gráficos foram atualizados antes da 7ª rodada na Itália; por isso eles não computam a partida contra a Inter. Existem, também, os estudos sobre as defesas no Campeonato Italiano e os ataques mais poderosos da Europa.

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