Jogadores Técnicos

Antes da glória, Enzo Bearzot passou pela Inter e foi ídolo de um Torino em reconstrução

Popularmente conhecido por seu trabalho como treinador à frente da seleção italiana, Enzo Bearzot foi um polivalente jogador entre as décadas de 1940 e 1960. Zagueiro de ofício que também fazia as vezes de volante, ele se tornou bandeira de um Torino que juntava os cacos após a tragédia de Superga e também defendeu a Inter por quatro anos. Em sua carreira como jogador, Bearzot conseguiu o respeito e o apreço das torcidas que representou mesmo sem ter conquistado um título expressivo.

Enzo é natural de Aiello del Friuli, província friulana de Údine. Seus pais almejavam um futuro totalmente diverso ao que Bearzot buscaria: eles queriam que o jovenzinho tentasse ser médico, farmacêutico ou pelo menos seguisse os passos de seu pai, Egidio, e trabalhasse como bancário. Seria o futebol, contudo, a profissão em que o garoto friulano se destacaria. Seu Egidio torceu o nariz, mas logo perceberia que Enzo teria sucesso na empreitada.

Em 1946, após chamar a atenção de um dirigente do Pro Gorizia, Bearzot deixou o futebol amador e reforçou o time biancazzurro, que, à época, disputava a Serie B. Em seus dois anos na equipe, realizou 52 jogos e balançou as redes duas vezes, até ser notado pela Inter, seu time de coração, após um amistoso disputado no verão europeu de 1948. Na Beneamata, Bearzot teria a chance de jogar ao lado de seu maior ídolo, Aldo Campatelli.

O jovem de 21 anos era tão fã de Campatelli que, na adolescência, até chegou a dormir com uma foto dele debaixo do travesseiro. Na estreia pela Inter, Enzo se empolgou tanto que vestiu a camisa ao contrário, com o número 5 estampado em seu peito. O debute pelos nerazzurri ocorreu em novembro de 1948, contra o Livorno, em San Siro, pela 11ª rodada da Serie A – os donos da casa venceram por 3 a 1.

Em sua primeira passagem pela Inter, seu time do coração, Bearzot não teve tantas oportunidades (Arquivo/Inter)

Apesar do fascínio por atuar em seu clube de coração e ser companheiro de vestiário de Campatelli, Bearzot não teve muitas oportunidades na Inter. O zagueiro, que também poderia atuar como volante, entrou em campo somente 19 vezes durante suas três temporadas em Milão. Nesse período, a equipe interista terminou a Serie A na segunda colocação em duas oportunidades. Porém, em seu tempo de Beneamata, Enzo conheceu Luisa, que se tornaria sua esposa por mais de meio século, e descobriu sua paizão pelo jazz.

Depois de sua aventura por San Siro, Bearzot se mudou para a Sicília, onde firmou vínculo com o Catania. Incansável dentro de campo, o jogador defendeu o time rossoazzurro entre 1951 e 1954 e ajudou a levá-lo da segundona para a elite. Na temporada 1953-54, o polivalente jogador atuou em todos os combates da equipe na campanha que culminou no título da Serie B.

Após o bom desempenho pelo Catania, Enzo aceitou fazer parte da reconstrução do Torino, fragmentado devido à Tragédia de Superga. O acidente aéreo, que ocorreu no dia 4 de maio de 1949, pôs fim a um dos melhores times italianos de todos os tempos. Assim, a agremiação viu em Bearzot um atleta capaz de ajudar a trazer esperança aos torcedores em um período tão deprimente.

Em sua temporada de estreia pelos grenás, ganhou o posto de titular logo na rodada de abertura da Serie A. Bearzot desfalcou o time em somente um jogo em 1954-55 – empate em 2 a 2 com a Fiorentina, em Florença. Curiosamente, o primeiro gol pelo Torino saiu logo contra o Catania, sua antiga equipe. Durante esse período, Enzo disputou seu único jogo pela seleção italiana: contra a então poderosa Húngria, ele recebeu a incumbência de marcar Ferenc Puskás. A Itália perdeu por 2 a 0, mas o zagueiro não deu trégua ao craque húngaro.

Capitão do Torino, Bearzot entrega ao interista Sandro Mazzola uma camisa vestida por Valentino, seu pai, morto em Superga (Arquivo/Inter)

O friulano manteve a regularidade na temporada 1955-56, a ponto de perder somente dois duelos do campeonato. Pelo bom nível mostrado, acabou retornando à Inter. Mais maduro em relação à primeira passagem por Appiano Gentile, estava bem fisicamente, possuía ótimo jogo aéreo e era inteligente taticamente. Na Inter de Lennart Skoglund, Benito Lorenzi e Giorgio Ghezzi, deixou a zaga e passou a executar o papel de volante, vestindo a camisa nerazzurra em 27 das 34 rodadas. Ao fim da temporada, todavia, ele se despediu novamente do clube e rumou a Turim. Juventus? Nada disso. O atleta retornaria ao Torino, onde iniciaria um caminho de idolatria.

Quase sempre como titular, Bearzot permaneceu no Toro por sete temporadas. Ele desceu as escadas da Serie B com o time, em 1959, mas, no ano seguinte, voltou à elite – a equipe granata, inclusive, ganhou a segundona e o jogador conquistou seu segundo título da Serie B. Na reta final da carreira, Enzo chegou a usar a braçadeira de capitão do Toro, sendo, de fato, uma referência para o elenco. Ao fim de 1963-64, após dois vice-campeonatos seguidos da Coppa Italia, Bearzot pendurou as chuteiras para, alguns anos depois, dar início à sua trajetória como técnico.

À beira do gramado, Bearzot viria a se tornar unanimidade – um ídolo nacional. Munido de seu inseparável cachimbo, o treinador dirigiu a Itália em uma Eurocopa e em três Copas do Mundo, sendo o comandante do tricampeonato de 1982. O Vecio faleceu em 2010, de causa não informada.

Enzo Bearzot
Nascimento: 26 de setembro de 1927, em Aiello del Friuli, Itália
Morte:  21 de dezembro de 2010, em Milão, Itália
Posição: zagueiro e volante
Clubes: Pro Gorizia (1946-48), Inter (1948-51 e 1956-57), Catania (1951-54) e Torino (1954-56 e 1957-64)
Títulos: Serie B (1954 e 1960)
Carreira como treinador: Prato (1968-69), Seleção italiana Sub-23 (1969-75) e Seleção italiana (1977-1986)
Títulos como treinador: Copa do Mundo (1982)
Seleção italiana: 1 jogo

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