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Maestro da Celeste em 1950, Juan Alberto Schiaffino também brilhou na Itália

Atire a primeira pedra quem nunca foi admirador de um jogador uruguaio. A escola charrua produziu muito mais ídolos do que a pequena extensão territorial do país poderia explicar e o time campeão mundial de 1950 contava com um dos maiores de todos os tempos: Juan Alberto Schiaffino.

Descrito como um jogador longilíneo e com grande talento e controle da bola, Schiaffino foi um meio-campista completo e polivalente: passava a bola com competência, foi o precursor das roubadas de bola com carrinho, e tinha um senso de posicionamento acima do normal. Muito inteligente, sempre foi muito maduro, desde os tempos de juvenil, e tinha o hábito de ditar o ritmo dos jogos. Além disso, era um grande finalizador, e colocava a bola aonde queria. Sortudos, os italianos puderam ver de perto o vasto talento de um dos maiores jogadores da história do futebol por muitos anos.

Nascido em Montevidéu em 1925, ‘Pepe’ Schiaffino já jogava nas ruas da capital desde pequeno e na adolescência, enquanto quebrava o galho como padeiro, jogou na base do Palermo. Tentou a sorte no Nacional, mas acabou no Peñarol por intermédio de seu irmão, aos 18 anos. Para se ter uma ideia da força do time aurinegro na época, Schiaffino estreou na equipe principal apenas em 1946, mas fez sua primeira partida na seleção celeste um ano antes.

Depois de gloriosos anos no Peñarol, formando a melhor equipe da história do clube, Schiaffino foi para a Copa de 1950 e nela marcou três gols. Embora os brasileiros amaldiçoem Ghiggia pelo segundo gol da celeste (e muito mais Barbosa, por ter sofrido o tento), Schiaffino foi eleito o melhor jogador do Mundial e foi tão responsável pelo Maracanazo quanto o seu companheiro. Foi dele o primeiro gol do Uruguai, que então empatou a final em 1 a 1. Após a vitória por 2 a 1, que deu o título à Celeste, o técnico do Brasil, Flávio Costa, declarou que Schiaffino “foi o imponderável que acabou com todas as pretensões do Brasil”.

Apesar de uma sondagem do Genoa, que tentou convencer o jogador pelas suas origens (seu avô havia nascido na Ligúria) o meia seguiu no Peñarol até 1954, quando disputou outra Copa do Mundo (caiu para a magnífica Hungria de Puskás nas semifinais, na chamada “partida do século”) e dessa vez nem voltou para o Uruguai. Quase com trinta anos e após conquistar 18 títulos no Uruguai, Schiaffino foi desfilar sua classe na Itália, pelo Milan. O rossonero pagou 52 milhões de liras e tornou o tetracampeão uruguaio o jogador mais caro da história até então.

Schiaffino se juntou a um grupo mítico e já em sua primeira temporada conquistou o primeiro título da Serie A (o quinto do Milan). Na estreia, o uruguaio marcou dois gols contra a Triestina e o time liderou a competição desde o começo, quando ganhou os sete primeiros jogos. O uruguaio chegou para substituir Gunnar Gren e tinha companheiros de calibre tão alto quanto ele: Lorenzo Buffon, Nils Liedholm, Cesare Maldini e Gunnar Nordahl, entre outros.

A missão de ‘Pepe’ era organizar o meio-de-campo com seu futebol cerebral, municiar o ataque e, quando desse, aí sim tentar marcar uns golzinhos. Na itália, o uruguaio começou a jogar mais recuado do que no Uruguai, e se tornou um verdadeiro regista. fez isso com louvor. Contando com muitos dos seus passes, o sueco Nordahl foi o artilheiro do campeonato, com 27 gols. Além disso, o próprio Schiaffino balançou as redes 15 vezes. O jogador era ambidestro, mas as finalizações eram na maior parte das vezes executadas pela perna esquerda e os chutes eram mais colocados do que potentes. Apesar de participar muito no setor ofensivo, o uruguaio também fazia muitos desarmes graças a um ótimo senso de antecipação. Cesare Maldini, certa vez, declarou que Schiaffino tinha “um radar no lugar do cérebro”.

A presença de Pepe na Velha Bota encantou a todos e o jogador teve a oportunidade de retribuir o carinho defendendo o país que o acolheu, já que as regras da Fifa à época assim o permitiam. No dia cinco de dezembro de 1954, Schiaffino, neto de um genovês, deixou de envergar o azul celeste do Uruguai, onde fora chamado de ‘Deus do Futebol’, e vestiu a farda da Squadra Azzurra pela primeira vez na vitória sobre a Argentina, por 2 a 0.

Em 1956, uma das melhores equipes da Fiorentina na história, comandada pelo brasileiro Julinho Botelho, bateu o Milan e ganhou seu primeiro scudetto sofrendo apenas uma derrota em 34 jogos, mas Schiaffino manteve sua boa média e marcou 16 gols na Serie A. O segundo título do uruguaio veio um ano depois e ele teve boa participação: disputou 29 dos 34 jogos. Schiaffino marcou apenas nove vezes, mas deixou sua marca na vitória sobre os então campeões por 3 a 0.

Em 1957, Schiaffino ficou no centro de uma grande gafe: o presidente da Roma, Renato Sacerdoti, negociou com o presidente milanista, Andrea Rizzoli, pela contratação do jogador. Alguns telefonemas definiriam a saída do uruguaio para a equipe capitolina, o que animou Sacerdoti. O presidente romano chegou a anunciar a contratação, mas o Milan decidiu por não vender o seu craque, o que gerou revolta do mandatário romano. Ele chegou a recorrer à federação, mas como não havia nenhum documento firmado, apenas pode se lamentar.

Após a confusão, o Milan acabou indo mal no Campeonato Italiano 1957-58. Porém, a equipe milanesa entrou com tudo na Taça dos Clubes Campeões Europeus (a Liga dos Campeões da época). O time passou por Rapid Viena, Rangers, Borussia Dortmund e Manchester United, chegando na final, contra o Real Madrid. A decisão foi disputada no Estádio de Heysel, em Bruxelas, e quem abriu o placar do jogo foi justamente Schiaffino. O uruguaio se deslocou como um atacante, recebeu nas costas da zaga e fuzilou o goleiro Juan Alonso. A equipe do Real Madrid, porém, tinha jogadores fenomenais, como Gento e Di Stéfano (que rivalizava com Schiaffino pelo título de melhor do mundo), e os espanhois acabaram vencendo na prorrogação, por 3 a 2.

Também nesta temporada o jogador voltou a ser chamado pela seleção italiana e disputou suas três partidas finais pelo país: 2 a 2 contra a Irlanda do Norte, vitória sobre Portugal por 3 a 0 e derrota para a Irlanda do Norte por 2 a 1. A derrota para os norte-irlandeses, inclusive, decretou a eliminação da Itália, que ficou de fora da Copa de 1958. Foi a única vez em que a Nazionale não conseguiu qualificar-se para um Mundial – em 1930, outra ocasião em que a Itália ficou fora de uma Copa, a seleção não quis participar.

Em 1958, o Milan deixou de chorar a saída de Nordahl e passou a comemorar os gols de José Altafini, que chegara do Palmeiras. O brasileiro, conhecido por aqui como Mazzola, foi o artilheiro da Serie A, o Milan foi campeão e Schiaffino comemorou seu terceiro e último título italiano. O ciclo do uruguaio no clube milanês chegou ao fim em 1960, quando Schiaffino acabou deixando o clube, que vivia uma revolução: para o seu lugar, do pequeno Alessandria, chegava Gianni Rivera, de apenas 16 anos. Dali em diante, Rivera jogaria apenas pelo Diavolo e se tornaria mito, mas antes disso houve rebelião da torcida pela venda do uruguaio, que era idolatrado.

Dessa vez, as negociações com a Roma deram certo e Schiaffino aceitou deixar o Milan por 102 milhões de liras, um valor considerável para a época – mas, por causa da inflação, inferior ao que o Milan havia pagado por ele em 1954. Assim, o esguio jogador tentou mostrar que ainda tinha lenha para queimar, já com 34 anos, e jogou pela equipe da capital até o final de sua carreira, dois anos depois. Pelo time da capital, recuou ainda mais em campo e atuou sempre como líbero, à frente da defesa. Mesmo sem jogar a final, conquistou a Copa das Feiras, precursora da Copa Uefa, e por duas vezes consecutivas, viu sua equipe obter a 5ª posição na Serie A.

Já de volta ao Uruguai, Pepe se arriscou na carreira de treinador, sem muito sucesso. Comandou a seleção na Copa América de 1975 e teve passagem pelas categorias de base do Peñarol, até desistir da nova carreira em 1976. A partir de então, dedicou-se apenas à vida como empresário e investidor, algo que já fazia paralelamente à vida de jogador profissional – em suas folgas, no Milan, viajava para a Suíça, para atuar com especulação financeira, e investia grande parte de seu salário na compra de imóveis.

Em novembro de 2002, seis meses após a morte de sua esposa, Angelica, com quem não teve filhos, Schiaffino se despediu, aos 77 anos. O dono de uma das mais precisas esquerdas que o mundo já viu faleceu em Montevidéu e foi sepultado no Panteão dos Olímpicos, reservado especialmente para os jogadores uruguaios campeões olímpicos em 1924 e 1928, e os campeões mundiais em 1930 e 1950.

Juan Alberto Schiaffino Villano
Nascimento: 28 de julho de 1925, em Montevidéu, Uruguai
Morte: 13 de novembro de 2002, em Montevidéu, Uruguai
Posição: meio-campista
Clubes como jogador: Peñarol (1943-1954), Milan (1954-1960) e Roma (1960-62)
Carreira como treinador: Uruguai (1974-1975) e Peñarol [categoria de base] (1975-1976)
Títulos como jogador: 8 Torneios Honor (1945, 1946, 1947, 1949, 1950, 1951, 1952, 1953), 5 Torneios Competencia (1946, 1947, 1949, 1951, 1953), 5 Campeonatos Uruguaios (1945, 1949, 1951, 1953 e 1954), 3 Serie A (1954-55, 1956-57 e 1958-59), Copa Latina (1956), Copa das Feiras (1960-61) e Copa do Mundo (1950)
Seleção italiana: 4 jogos.
Seleção uruguaia: 21 jogos.

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