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O argentino Gustavo Dezotti atravessou o céu e o inferno nos campos italianos



São vários os argentinos que ficaram marcados na história do futebol italiano. Gustavo Dezotti foi um deles e, ao contrário de muitos de seus compatriotas, teve uma trajetória singular: não escreveu sua história com a camisa de um dos gigantes italianos, e sim com a do modesto Cremonese. Se por um lado, o atacante foi reverenciado pela torcida grigiorossa e viveu sua grande fase na Itália, foi na Bota que também passou pelo pior momento de sua história. Dezotti foi expulso na final da Copa do Mundo de 1990, coroando uma desastrosa noite no Olímpico com a camisa albiceleste.

Gustavo Dezotti nasceu na pequena cidade de Monte Buey, a 170 quilômetros de Rosário, maior município da região. Logo na adolescência se mudou para o grande centro urbano e jogou nas categorias de base do seu clube de coração, o Newell’s Old Boys, até subir para o profissional, em 1982. Rápido e muito habilidoso, ele começou a carreira jogando como ponta-direita e ao longo dos anos se transformou em um camisa 9. Sua incrível velocidade lhe rendeu o apelido de El Galgo: uma referência aos cachorros mais rápidos do mundo, que podem atingir ate 72km/h.

Com 18 anos, Dezotti estreou marcando gol sobre o Platense na vitória por 4 a 0 do Newell’s, já na reta final da temporada argentina. Sua boa atuação no debute fez crescer ainda mais as expectativas sobre o jovem atacante, que conseguiu a convocação para o Mundial sub-20 de 1983. Apesar de não ter feito nenhum gol no na competição, participou da ótima campanha argentina: a Albiceleste foi vice-campeã, perdendo a final para o poderoso Brasil de Jorginho, Dunga, Bebeto e Geovani.

Aos poucos, Gustavo foi ganhando mais tempo de jogo no Newell’s, sob o comando de Jorge Solari. Em 1984 marcou cinco gols, entre eles o seu primeiro contra o Rosário Central, no clássico da cidade. A partir de 1986, El Galgo se tornou uma peça importante para o time rubro-negro, que teve condições de bater de frente com os grandes argentinos e brigar por títulos.

O bom elenco ainda contava com Roberto Sensini, Gerardo Martino, Abel Balbo e Sergio Almirón – pai do homônimo volante, ex-Juventus e Catania –, mas os primeiros anos foram repletos de frustrações. A primeira delas foi o vice-campeonato para um ótimo River Plate, que também se sagrou campeão da América naquele ano.

Logo no começo da temporada 1986-87 veio outro revés. O Ñuls perdeu a vaga na Libertadores ao ser derrotado de virada pelo Boca Juniors, na extinta Liguilla Argentina. Fora da principal competição continental, o Newell’s teve pela frente apenas o campeonato nacional e chegou a sonhar com o título em vários momentos, mas outro revés estava para acontecer. Os onze gols de Dezotti o consagraram como o um dos artilheiros do time na campanha, mas não bastaram para evitar o que seria o segundo vice-campeonato consecutivo – dessa vez para o Rosário Central, seu maior adversário.

Dezotti ficou apenas um ano na Lazio, que fez campanha apenas regular na Serie A (Centro de Estudos 9 de janeiro de 1900)

Os leprosos vieram mordidos para 1987-88 e, sob o comando de José Yudica, finalmente conseguiram o sonhado título argentino. Foi o primeiro da carreira de Dezotti, que superou a marca do ano anterior e conseguiu anotar 12 tentos. Líder do ótimo trio de ataque, que ainda tinha Almirón e Víctor Ramos, Gustavo chamou a atenção do futebol europeu e foi parar no principal campeonato da época: o Italiano.

Dezotti foi adquirido pela Lazio um mês depois de vencer o Campeonato Argentino. Chegou em Roma aos 24 anos com status de reforço de peso, para ajudar na reestruturação do time da capital, que acabava de retornar à Serie A, mas não correspondeu dentro de campo.

Jogando ao lado de Rubén Sosa e Paolo Di Canio, Gustavo atuou em 29 partidas e marcou apenas três gols – contra Inter, Sampdoria e o modesto Como –, colaborando com a campanha medíocre dos biancocelesti, que terminaram o campeonato no décimo posto. Mesmo vivendo um dos piores momentos de sua carreira, Dezotti conseguiu, em 1988, sua primeira convocação para a seleção nacional. Um chamado que se justificou mais pelos seus feitos no futebol argentino do que pelo apresentado na Lazio.

No ano seguinte, o atacante se transferiu para a modesta Cremonese, que havia acabado de ser promovida e disputaria a Serie A pela terceira vez em sua história. Dezotti teve sua contratação contestada por boa parte da torcida dos lombardos, tendo em vista o péssimo ano pela Lazio, mas defendeu a camisa rubrocinzenta por cinco temporadas. Mais: foi o destaque do período em que a Cremo assumiu o papel de “ioiô” no futebol italiano, já que alternou entre as séries A e B de 1990 a 1994. Gustavo conseguiu se tornar o quarto maior artilheiro da história do clube, com 55 gols.

Sua temporada de estreia foi muito acima das expectativas. Em 1989-90, Dezotti teve um início de campeonato brilhante: balançou as redes da campeã Inter em sua estreia no San Siro e, no estádio Giovanni Zini, marcou o gol da vitória contra o Milan de Paolo Maldini, Franco Baresi e várias outras estrelas, que venceria a Copa dos Campeões. Além da dupla milanesa, foi carrasco da Lazio em pleno Olímpico e também anotou num empate contra o Napoli de Diego Maradona, que ficaria com o scudetto.

O argentino terminou a temporada como o jogador da Cremo com mais presenças (32) e com a autoria de 45% dos gols da equipe – 13, no total, que o deixaram na sexta posição na tábua de artilheiros. No entanto, a Serie A era muito forte e nem mesmo o trio formado por Dezotti, Alviero Chiorri e Anders Limpar salvou os tigri da penúltima colocação e do rebaixamento.

Dezotti cumprimenta o parceiro Luigi Gualco, zagueiro da Cremo (Ivano Frittoli)

Se a temporada foi péssima para o time de Cremona, Dezotti teve um ótimo ano do ponto de vista individual. O número de gols e as prestações convincentes fizeram El Galgo ser premiado com três convocações de Carlos Bilardo para a seleção albiceleste, para amistosos contra Itália, Suíça e Israel. Mesmo sendo pouco testado, conseguiu sua vaga entre os 23 argentinos que disputaram a Copa do Mundo de 1990, principalmente por causa da lesão de Jorge Valdano as vésperas do torneio disputado em solo italiano.

Dezotti foi um dos atacantes reservas no Mundial e, por isso, teve pouco tempo de jogo. O jogador da Cremonese entrou no segundo tempo das partidas contra Romênia e Iugoslávia e passou em branco nas duas. A seleção de Bilardo foi capaz de bater os anfitriões e chegar à final contra a Alemanha Ocidental, mas um desastre estava para acontecer.

Claudio Caniggia ficou de fora da decisão por ter recebido o segundo cartão amarelo na semifinal. Portanto, a Argentina teria de se virar sem Cani, que era um dos jogadores mais importantes do elenco e havia crescido na fase de mata-mata. O estilo de jogo baseado nos contra-ataques pedia um atacante veloz e de muita explosão, o que levou Bilardo a optar por um atacante que tivesse as mesmas características do suspenso Caniggia: dessa forma, Dezotti herdou a titularidade para a final.

A atuação de Gustavo Dezotti, porém, foi pífia. Logo no quinto minuto de partida, o atacante tomou um cartão amarelo por ter dito algumas coisas indevidas no ouvido do árbitro enquanto o jogo estava parado – ou seja, uma advertência completamente desnecessária. Ao longo da partida o atacante fez várias faltas, mas o lance que provocou sua expulsão foi outro sem bola rolando, já aos 87 minutos, e num momento em que a Argentina já estava com um a menos, uma vez que Pedro Monzón fora expulso aos 65. O camisa 9 puxou Jürgen Kohler pelo pescoço, para evitar que ele fizesse “cera”, e tomou o vermelho. Combalida, em inferioridade numérica e com atuação discreta de Diego Maradona, a equipe sul-americana perdeu pela contagem mínima e foi vice-campeã. Depois daquele dia, Dezotti nunca mais voltou à seleção.

O atacante retornou à Cremona para disputar a Serie B e foi um dos mais importantes na campanha do acesso. Dezotti conseguiu ser decisivo em partidas contra Ascoli, Lucchese e Reggiana, três concorrentes diretos na briga pelo acesso, e foi pela segunda vez consecutiva o artilheiro da equipe. O argentino marcou 11 dos 28 gols da Cremonese, que curiosamente acabou promovida com o segundo pior ataque da competição.

Em 1991-92, a Cremonese conseguiu algumas façanhas, como vencer a Inter no San Siro – com doppietta de Dezotti, inclusive. O argentino também aplicou a lei do ex duas vezes contra a Lazio (uma delas num triunfo) e anotou nove gols no total, mas a Cremo foi saco de pancadas na Serie A, somou míseros 20 pontos e retrocedeu mais uma vez. Em 1992, os grigiorossi acertaram com o atacante Andrea Tentoni e assinaram com o técnico Luigi Simoni, que era considerado o rei do acesso na Bota. Com 16 tentos do reforço e outros 12 de Dezotti, Gigi conseguiu promover um time pela sexta vez em sua carreira.

O atacante argentino participou da maior glória da Cremonese: o título da Copa Anglo-Italiana (IMS)

A vaga na Serie A não foi o único grande feito da Cremonese naquela temporada. Inclusive, não foi nem o maior: a equipe rubrocinzenta também levantou a Copa Anglo-Italiana, torneio que envolvia equipes das segundas divisões da Inglaterra e da Itália. Na fase de grupos, a Cremo ficou à frente de Derby County, Tranmere Rovers, West Ham, Pisa, Reggiana, Cosenza e Bristol, avançando às semifinais, fase em que eliminou o Bari. A final seria disputada no lendário Wembley e o adversário seria novamente o Derby.

Na decisão contra os Rams, Dezotti começou no banco, como era habitual na competição – foi mais utilizado na segundona do que na Copa Anglo-Italiana. O esloveno Matjaz Florijancic substituiu Gustavo e se sagrou artilheiro do torneio, com sete gols, mas não fez uma grande final em Londres. Assim, o argentino entrou em campo no segundo tempo, quando a Cremo vencia por 2 a 1, com o dever de marcar e puxar contra-ataques. No fim das contas, Tentoni fez o terceiro e decretou a conquista da única taça internacional da Cremonese. Era o auge do clube, que havia completado 90 anos de existência três dias antes do jogo histórico.

A última temporada de Dezotti na Lombardia foi a de 1993-94, na qual a Cremonese terminou na décima posição na Serie A e conseguiu fazer sua melhor campanha na competição. No entanto, o argentino já tinha 30 anos e começava a entrar em declínio físico – amostras disso foram sua menor utilização e a queda na quantidade de gols marcados; apenas seis. El Galgo não corria da mesma forma e também perdia o protagonismo da equipe para Tentoni, além de ver a sombra de Florijancic aumentar. Ao final da temporada, Gustavo se despediu da Itália com status de ídolo da Cremonese e se transferiu para o futebol mexicano, com o intuito de conseguir um último contrato lucrativo.

O já veterano Dezotti não teve muito destaque no México, entretanto foi no país da América do Norte que o atacante alcançou a marca de 100 gols na carreira, atuando pelo León. El Galgo passou duas temporadas no clube de Guanajuato – que, na época, era apenas um coadjuvante do campeonato – e em 1996 se transferiu para o Atlas de Guadalajara, onde também teve passagem discreta.

Gustavo Dezotti voltou à Argentina repatriado pelo Quilmes, clube pelo qual passou muito rapidamente e sem sucesso, mas encerrou sua carreira no vizinho Uruguai, pelo Defensor. Após se aposentar, o ex-jogador trabalhou como dirigente esportivo do Newell’s Old Boys entre 2008 e 2011, sendo responsável pelas contratações de Nahuel Guzmán, Diego Mateo, Víctor Figueroa e Lucas Bernardi, que formaram o time-base da equipe semifinalista da Libertadores de 2013.

Gustavo Abel Dezotti
Nascimento: 14 de fevereiro de 1964, em Monte Buey, Argentina
Posição: atacante
Clubes: Newell’s Old Boys (1982-88), Lazio (1988-89), Cremonese (1989-94), León (1994-96), Atlas (1996-97), Quilmes (1997) e Defensor (1998)
Títulos: Campeonato Argentino (1988) e Copa Anglo-Italiana (1993)
Seleção argentina: 7 partidas e 1 gol



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