Técnicos

Lenda em Madrid e errante na Itália, Luis Carniglia foi um dos grandes argentinos na Europa

Dos gramados argentinos para os campos europeus, Luis Antonio Carniglia se tornou um grande treinador de futebol. Como jogador, teve lampejos de talento, mas viu a sua carreira ser praticamente dizimada por uma grave fratura na perna. Como comandante, porém, atingiu o sucesso completo anos depois. Primeiro na França, à frente do Nice, mas, principalmente, guiando o Real Madrid a dois títulos europeus no final da década de 1950. Na Itália, também realizou bons e conturbados trabalhos em grandes clubes.

O problema é que Carniglia não era uma pessoa fácil. E seu temperamento rebelde lhe custou uma demissão mesmo sendo bicampeão da Europa. O argentino, vejam só, decidiu deixar ninguém menos que o craque húngaro Ferenc Puskás de fora da decisão do campeonato continental, em 1958. Perdoável? Não para Santiago Bernabéu, presidente do clube madrilenho.

A vitória na final não foi suficiente para livrá-lo desta terrível heresia e, daí em diante, Carniglia se tornou um errante em terras italianas. Dirigiu Fiorentina, Bari, Roma e Milan. Em todos estes, contudo, permaneceu por pouco tempo. Depois, já na parte final da década de 1960, obteve algum sucesso no Bologna, onde ficou por três anos. Isso, antes de encerrar o ciclo pela Itália com uma passagem bizarramente meteórica na Juventus.

Com seu jeito ranzinza e truculento, Luis Carniglia conquistou tantos títulos quanto desafetos. Se tornou um dos maiores treinadores estrangeiros de todos os tempos no futebol europeu e, certamente, um dos mais importantes dentro da rica história do Real Madrid. Mas, com ele, não havia meias palavras. Ele dizia o que pensava, sem pestanejar — fosse seu jogador ou até mesmo adversário. Taxado de mau caráter, o comandante rebate que somente era sincero no campo e prezava pelo trabalho e disciplina. Em campo, aliás, Carniglia esteve frente a frente com Pelé, na disputa do Mundial Interclubes de 1963. Pior para o Milan, do argentino. Melhor para o Santos, do Rei do Futebol.

Das chuteiras para as pranchetas

Luis Carniglia nasceu em 4 de outubro de 1917, em Olivos, sede do departamento de Vicente López, na província de Buenos Aires. Aos 15 anos de idade, ele já atuava na equipe de sua cidade, que disputava a quarta divisão nacional. Foi somente em 1936, porém, que o atacante realizou seu sonho de infância: jogar pelo Boca Juniors. Foram cinco anos pelos xeneizes antes de uma grave lesão. Em 1941, numa partida contra o San Lorenzo, Carniglia quebrou a perna e precisou ser hospitalizado devido à gravidade do problema. Pior. A recuperação completa da fratura durou cerca de três anos. De volta aos gramados, o atacante argentino jamais voltou a ser o mesmo atleta ágil, de ótima inteligência e visão de jogo de antes.

Ainda assim, estendeu a carreira atuando por Chacarita Juniors e Tigre, da Argentina, e Atlas, do México, enquanto se recuperava do problema na perna. A partir de 1949, ele fez uma pausa que durou três anos, mas acabou retornando à ação em 1952, pelo Nice, da França. Embora veterano, conquistou o título francês e o da Copa da França na temporada de retorno ao futebol. Le Gym era um dos melhores times do país naquela época e, inclusive, se sagrou tetracampeão nacional durante a década de 1950. Carniglia ainda passou pelo Toulon, da segunda divisão francesa, antes de retornar ao próprio Nice para encerrar de vez a carreira como jogador no ano de 1955.

A transição de dentro do gramado para a beira dele foi imediata. O argentino se tornou treinador do Nice em 1955-56, com 38 anos de idade. Logo em sua época de debute, Carniglia já levantou mais um troféu de campeão francês, carimbando a dominância das águias no futebol local naquele período. Na temporada seguinte, levou o time às quartas de final da segunda edição da Copa dos Campeões. O Nice, contudo, acabou eliminado pelo Real Madrid, que se sagraria bicampeão do torneio – venceu o Reims, também da França, em 1956, e a Fiorentina, em 1957.

Para Carniglia, a caminhada no torneio continental não mascarou o resultado ruim na liga doméstica, na qual o Nice ficou apenas na 13ª colocação. Como resultado da campanha frustrante, o argentino acabou demitido do clube francês, mas não tardou a encontrar um novo rumo. O time? Justamente o Real Madrid, algoz do sul-americano na Copa dos Campeões, prestes a se tornar hegemônico em termos continentais.

Títulos no Real Madrid

Na equipe madrilenha, Luis Carniglia substituiu José Villalonga, que deixava o Real para trabalhar na Federação Espanhola de Futebol. Em 1957, os merengues eram bicampeões da Copa dos Campeões e atuais detentores do título doméstico. Alfredo Di Stéfano (então Bola de Ouro), Francisco Gento, Raymond Kopa e Héctor Rial eram alguns dos nomes lendários daquele elenco, que seguiu imponente sob comando do argentino.

Carniglia chegou ao Milan respaldado, mas não entregou resultados muito positivos (Newsmondo)

Carniglia conduziu o Real ao tricampeonato europeu. No caminho, bateu o Royal Antwerp, da Bélgica, além do rival caseiro Sevilla e o Vasas SC, da Hungria. Na finalíssima, diante do Milan, o esquadrão espanhol saiu atrás, mas virou o placar. Ainda no tempo normal, os rossoneri empataram, levando a partida para a prorrogação. Só que, no tempo extra, Gento marcou o gol decisivo para o Real. O triunfo por 3 a 2 deu ao Madrid o terceiro título em três anos da competição continental.

Em âmbito doméstico, mais sucesso para o comandante argentino. Carregado por Di Stéfano, autor de 36 gols em 44 jogos, Carniglia comemorou mais um troféu nacional. Os merengues perderam somente cinco vezes em 30 rodadas, superando o rival Atlético e, dessa forma, faturaram também o título do Campeonato Espanhol — o sexto da história do clube. Somente na Copa da Espanha (então chamada de Copa do Generalíssimo), o Madrid sofreu um revés, por 2 a 0, para o Athletic Bilbao na grande decisão.

Apesar dessa derrota, as coisas iam muito bem para o técnico argentino, que ainda foi presenteado no início de 1958-59, com mais reforços. Os principais foram o defensor José Santamaría e, claro, Ferenc Puskás, uma verdadeira lenda nascida na Hungria, mas que não jogava futebol havia dois anos devido a uma proibição da Fifa. Puskás encontrou exílio na Espanha, mas estava nitidamente acima do peso, algo que não agradava Luis Carniglia. O sul-americano colocou o atacante para suar, e o resultado foram cerca de 15 quilos perdidos logo no início da temporada.

Em forma — e com a canhota poderosa — Puskás fez um dueto letal com Di Stéfano. Ambos combinaram para 59 gols (34 do argentino e 25 do húngaro), em uma campanha de certa forma surpreendente, devido às incertezas quanto às condições físicas dos veteranos da equipe. Liderado por seu ataque, o Real bateu na trave no Campeonato Espanhol e na Copa da Espanha, sempre superado pelo Barcelona. Na Copa dos Campeões, contudo, outra campanha praticamente impecável. Vitórias sobre Besiktas, da Turquia, Wiener SC, da Áustria (com direito a um 7 a 1 em casa), e Atlético de Madrid, na semifinal. A decisão foi contra um velho conhecido dos blancos e de Carniglia: o Reims, que também foi finalista do torneio em 1955-56. O time compartilhava o protagonismo do futebol francês na década de 1950 com o Nice, antigo clube do treinador argentino.

Vale dizer que, em 1959, Carniglia precisou ficar afastado do comando do Real devido a uma cólica renal. O período longe dos gramados durou dois meses, entre fevereiro e abril, quando o time acabou dirigido por Miguel Muñoz — que voltaria ao cargo futuramente. Carniglia, porém, retornou para a fase final da Copa dos Campeões e, portanto, esteve presente na decisão, realizada no dia 3 de junho, em Stuttgart, Alemanha. Este também seria, curiosamente, o último confronto do argentino como treinador dos merengues.

Adeus, Real… Olá, Itália!

Foi contra o Reims, valendo o título da Copa dos Campeões, que Luis Carniglia consolidou sua fama de teimoso e revoltado. O treinador decidiu simplesmente sacar Ferenc Puskás da final, deixando a estrela no banco, numa época em que ainda não haviam substituições. Ele levou a campo uma espécie de 3-2-5, com Enrique Mateos e Héctor Rial pelo meio, Francisco Gento e Raymond Kopa nas pontas, além de Alfredo Di Stéfano no ataque. Mateos e Di Stéfano foram os autores dos dois gols do jogo — um no início de cada tempo. Sem grandes dificuldades, o Real bateu o Reims pela segunda vez em uma final de Copa dos Campeões e, de quebra, faturou seu quarto título da competição continental. O segundo sob comando de Carniglia.

No entanto, a decisão impopular do sul-americano com relação a Puskás não deixou nada satisfeito o presidente do Real Madrid, Santiago Bernabéu. Sendo assim, mesmo após mais esta conquista, Luis Carniglia acabou sendo demitido do comando dos merengues. O fim repentino, porém, não apaga a história. Os seus títulos europeus foram os primeiros conquistados por um treinador nascido fora do Velho Continente. E, na verdade, somente Helenio Herrera (também argentino) repetiria tal feito, com a Inter, nos anos 1960. Desde então, mais nenhum estrangeiro foi capaz de conduzir uma equipe campeã da Europa.

Carniglia passou três meses desempregado, até receber um chamado da Fiorentina. A agremiação de Florença, cujo presidente era Enrico Befani, vivenciava um período de revolução e protagonismo na Itália. A Viola, vale lembrar, também havia sido derrotada pelo Real Madrid em uma final de Copa dos Campeões, em 1957, um ano após vencer o scudetto. Luis ficou por uma temporada completa na equipe. E o desempenho não foi ruim.

Vice-campeã italiana, a Fiorentina tentou, mas não conseguiu competir com a forte Juventus — embora tenha vencido um dos confrontos diretos com a Vecchia Signora na campanha. Já na Coppa Italia, o time avançou até a decisão, eliminando Como, Inter e Torino. Contra a equipe grená, a Viola contou com três gols de Gianfranco Petris para vencer por 5 a 3. Este jogo foi realizado em 19 de junho de 1960, mas a grande final acabou marcada somente para três meses depois, já com a temporada seguinte em andamento.

Em 1963, o Santos de Pelé encontrou o Milan de Carniglia no Mundial de Clubes; na Itália, os dois se encontraram num café (Il Giornale)

Neste meio tempo, Carniglia acabou deixando a Fiorentina e, portanto, não participou da grande decisão pelo título da Coppa Italia. No fim, a Viola acabou derrotada em mais uma batalha memorável com a Juve. Foi na prorrogação que a esquadra de Turim levou a melhor, triunfando por 3 a 2 e conquistando seu quarto troféu no torneio.

Já Luis Carniglia só voltou a trabalhar na virada de 1960 para 1961. Assumiu o Bari, mas permaneceu por apenas seis meses. No fim do certame acabou rebaixado com a equipe, após campanha de apenas 29 pontos e a 16ª colocação na tabela. De prontidão, emendou sua passagem pelo Bari com o cargo de treinador na Roma. Pelo time da capital, voltou a completar uma temporada, tal qual fez com a Fiorentina. E o mais curioso: viveu situação exatamente oposta ao que aconteceu um ano antes em Florença.

Se na Viola o argentino conduziu a equipe a uma final, mas não fez parte da decisão, na Roma ele herdou um time que estava na finalíssima de um torneio que também teve os jogos derradeiros adiados para a temporada posterior. Tratava-se da Copa das Feiras, uma espécie de precursora da Copa Uefa. Após avançar por quatro fases eliminatórias, a Roma enfrentou o Birmingham pelo troféu. Já sob comando de Carniglia, os romanos deixaram escapar uma vantagem de 2 a 0, na Inglaterra. A partida terminou empatada, e a decisão ficou para o Olímpico. Enfim, atuando em casa, os giallorossi não vacilaram novamente e venceram por 2 a 0, faturando o troféu continental.

O restante da temporada foi mediano para a Roma, que alçou as quartas de final da Coppa Italia e terminou o Campeonato Italiano com a quinta colocação. No entanto, no meio de 1962, antes do início da nova época, a equipe viveu dias conturbados em seus escritórios. O presidente Anacleto Gianni, único a ter vencido um torneio continental com o time da capital italiana até hoje – embora não reconhecido pela Uefa –, renunciou ao cargo. O que se deu, então, foi uma série de desentendimentos entre Carniglia e os novos dirigentes. Após uma derrota de 3 a 0 para a Spal, a situação do treinador argentino se tornou insustentável, e ele deixou o comando da Roma após 44 partidas e pouco mais de um ano.

O Mundial com o Milan…

Demorou até que Carniglia assumisse uma nova equipe. Na verdade, isso aconteceu somente no início de 1963-64. E não foi um clube qualquer. O argentino herdou o Milan, então campeão continental, e que contava com excelentes craques. Os rossoneri haviam vencido o então bicampeão europeu Benfica na decisão da Copa dos Campeões por 2 a 1, com dois gols do atacante brasileiro José Altafini, o Mazzola. Para a temporada 1963-64, outro jogador tupiniquim reforçou o time: Amarildo, bicampeão mundial com o Brasil em 1962.

Com um verdadeiro esquadrão em mãos, o comandante teve um bom início de trajetória no Milan. Ele se manteve invicto nas primeiras oito rodadas do Campeonato Italiano, além de bater o Santos, em Milão, no primeiro jogo da final do Mundial. As coisas começaram a desandar, porém, quando o time rossonero veio ao Brasil disputar o segundo confronto, cerca de um mês depois, em novembro de 1963. Sob rumores de que o clube da Baixada Santista havia comprado o juiz argentino Juan Régis Brozzi, Carniglia viu sua equipe ser derrotada pelo mesmo placar que havia construído na peleja de ida: 4 a 2. Como desempate, uma terceira partida foi disputada menos de 48 horas depois — e sob apito do mesmo árbitro. Sem Pelé, machucado, o Santos contou com um gol de pênalti de Dalmo para se sagrar bicampeão mundial. No ano anterior, vale lembrar, o Peixe havia superado o Benfica de Eusébio.

Perdida a chance de mais um título, Carniglia retornou à Itália e até emendou uma sequência de cinco triunfos. No entanto, a eliminação para o seu antigo clube, Real Madrid, nas quartas de final da Copa dos Campeões, serviu para derrubar, de vez, o ambiente milanista. Daí em diante o time caiu de produção. Em março de 1964, o argentino acabou sendo mandado embora após derrota por 2 a 1 para o Bologna, em casa. Aquele já era o terceiro jogo seguido sem vitória, algo que prejudicou bastante a temporada do Milan, que terminou somente na quinta colocação geral.

Após uma passagem curta pelo Deportivo La Coruña, Luis Carniglia retornou à Itália para treinar o Bologna, em 1965. Aquele era um bom time, que lutou por duas temporadas seguidas pelo título italiano. Pelos felsinei, o argentino teve a maior quantidade de jogos à frente de um só clube: 92. Uma mínima consistência, que propiciou aos rossoblù serem vice-campeões nacionais em 1965-66 e abocanharem a terceira colocação em 1966-67. Vale destacar que, em 1965-66, o scudetto ficou com um compatriota de Carniglia. Ninguém menos que o mago Herrera, então comandante da Inter, que encantou o mundo do futebol com um jeito diferente de praticar o esporte.

Isso, ao menos, de acordo com a opinião popular. Luis certamente não compartilhava desse pensamento e, inclusive, certa vez, perguntado sobre o que achava da Inter, zombou do repórter. Disse que tinha duas respostas para a questão: a “oficial” e a “para os amigos”. A oficial era de que a Beneamata era uma grande equipe. No entanto, entre amigos, Carniglia revelou que achava aquele time uma “grande merda”.

Carniglia treinou Haller com sucesso no Bologna, mas não repetiu a dose na Juventus (imago/WEREK)

Em resumo, este era o argentino, que não resistiu aos maus resultados já em sua terceira temporada pelo Bologna. Na virada do ano de 1967 para 1968 foi, então, demitido. Seu último jogo à frente dos rossoblù foi, justamente, uma derrota por 4 a 2 para o Milan no derradeiro dia de 1967. Para além do par de boas campanhas no Campeonato Italiano, Carniglia ainda conseguiu chegar uma vez às quartas de final da Coppa Italia e, em outra oportunidade, à mesma fase da Copa das Feiras.

… E o fim na Juventus

Foram necessários dois anos para Luis retornar ao comando de um clube. E foi logo na Juventus, no início da temporada 1969-70. Naquele período, a Vecchia Signora estava focada em investir e consolidar uma nova estrutura de futebol, com o intuito de retornar ao topo na Itália. Sendo assim, foram muitas as contratações para tornar o time competitivo. No entanto, Carniglia sequer teve tempo para tentar implementar suas ideias.

De cara, o argentino já arrumou conflitos com o plantel. Ele criticava jogadores do próprio elenco — até mesmo as novas aquisições. O treinador, por exemplo, debochou da falta de velocidade do jovem Bob Vieri (pai de Christian Vieri) e de Sandro Salvadore que, segundo ele, tinha “uma marcha a menos”. Além disso, também não poupou críticas à suposta limitação técnica de Francesco Morini, outro jovem recém-chegado a Turim. Helmut Haller, meia que comandara no Bologna, era um dos poupados.

Enfim, as memórias daquele elenco da Juve não são nada amigáveis para com o treinador. Pietro Anastasi, atacante que “não tinha classe”, de acordo com o argentino, relembra: “[Luis Carniglia] tinha o hábito de falar mal dos jogadores. Não tenho uma boa memória dele. E acredito que nem mesmo o clube, já que ele foi demitido quase que imediatamente”. De fato, o fim da trajetória do técnico falastrão na Juve veio após somente 12 partidas — sendo seis delas pelo campeonato nacional.

Ali se escancarou a prova de que Carniglia já não tinha mais a mesma paciência e sequer o tato necessário para lidar com o esporte tão de perto. Ao menos como treinador. Ele chegou a assinar com San Lorenzo, em 1973, Vélez Sarsfield, em 1974, e Bordeaux, em 1979, mas teve passagens bastante curtas por essas equipes. Contudo, após o fim da carreira como técnico, se manteve no meio futebolístico, tornando-se gerente geral do Boca Juniors. Depois, ainda foi alçado à posição de presidente da FAA (Futbolistas Argentinos Agremiados), o sindicato dos jogadores de futebol da Argentina. Além disso, seu filho, Luis César Carniglia, também se tornou atleta: passou toda a carreira na Itália, com destaque para uma passagem rápida pela Sampdoria. No mais, o meia atuou em times de divisões inferiores e costuma ser confundido com o pai em algumas estatísticas e referências.

O pai, Luis Carniglia, morreu em 2001, em Buenos Aires, aos 83 anos de idade. Um treinador que deve ser considerado lenda do futebol argentino e europeu por sua contribuição em um dos times mais letais e vitoriosos da história: aquele Real Madrid dos anos 1950. Com frequência, o técnico sul-americano é mencionado na lista de maiores comandantes da história merengue. E olha que a concorrência é boa.

Fora de França e Espanha, porém, Carniglia encontrou dificuldade para impor seu estilo. Entusiasta de um futebol mais bonito, ele esbarrou nos ferrolhos e pancadas típicas do catenaccio, estilo que tomou conta da Itália na década de 1960. Herrera era um dos técnicos entusiastas deste modelo. Luis, não. O segundo, porém, era muito orgulhoso para alterar suas percepções sobre o jogo. E, por isso, sofreu.

Ainda assim, as dificuldades no campo talvez tenham ficado em segundo plano diante de suas declarações polêmicas e atitudes indomáveis. “Dizem que tenho um temperamento ruim. Não tenho. O que tenho é um personagem, ao contrário de todos os outros”, dizia o próprio Carniglia. Se não era, de fato, ruim, com certeza ele era forte. A ponto de comprar briga com um tal de Puskás e criticar publicamente todo o elenco estrelado de uma Juventus tentando se reencontrar com os sucessos. Realmente, não haviam meias palavras para o comandante, e sequer faltava sinceridade nas respostas. O que ficou em falta foram alguns títulos a mais, que ele certamente mereceu. De qualquer forma, seu legado segue intacto no maior campeão da história da Champions League, tal qual para toda uma geração bem sucedida de treinadores argentinos na Europa.

Luis Antonio Carniglia
Nascimento: 4 de outubro de 1917, em Olivos, Argentina
Morte: 22 de junho de 2001, em Buenos Aires, Argentina
Posição: atacante
Clubes como jogador: Tigre (1933-36 e 1949), Boca Juniors (1936-41), Chacarita Juniors (1942-45), Atlas (1945-48), Nice (1951-52 e 1953-55) e Toulon (1952-53)
Títulos como jogador: Campeonato Argentino (1940), Copa Ibarguren (1940), Copa do México (1946), Campeão dos Campeões (1946), Campeonato Francês (1952) e Copa da França (1952 e 1954)
Clubes como treinador: Nice (1955-57), Real Madrid (1957-59), Fiorentina (1959-60), Bari (1961), Roma (1961-63), Milan (1963-64), Deportivo La Coruña (1964-65), Bologna (1965-68), Juventus (1969), San Lorenzo (1973), Vélez Sarsfield (1974) e Bordeaux (1978-79)
Títulos como treinador: Campeonato Francês (1956), Campeonato Espanhol (1958), Copa dos Campeões (1958 e 1959) e Copa das Feiras (1961)

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