Coppa Italia

Quem manda na Itália são os ultrà?

Mais uma vez, na Itália o futebol ficou em segundo plano frente à violência. Antes da final da Coppa Italia, confrontos entre torcedores do Napoli e a polícia deixaram quatro feridos, um em estado grave, após ter sido baleado por um segurança – segundo a polícia romana, este último caso não tem relação direta com o jogo. No Olímpico, Fiorentina e Napoli jogariam, às 21 horas, horário local, mas a partida atrasou. Tudo porque os ultrà napolitano só dariam o aval para que o jogo começasse se a situação lhes fosse muito bem explicada. Este caso, mais uma vez, mostrou o enorme poder que as organizadas, muitas vezes violentas e ligadas a grupos criminosos, têm no futebol italiano. Claro, mostrou também a complacência das autoridades e a falta de segurança da maior parte dos estádios na Bota.

Nas arquibancadas, lotadas, havia muita gente importante. Os presidentes de Fiorentina, Andrea Della Valle, e Napoli, Aurelio De Laurentiis. O técnico da seleção, Cesare Prandelli, o treinador Ciro Ferrara, o presidente da Federação Italiana de Futebol, Giancarlo Abete, e o vice, Demetrio Albertini, além do presidente do Comitê Olímpico, Gino Petrucci, responsável pelo estádio. Além deles, uma série de políticos, como o primeiro-ministro, Matteo Renzi. E, mesmo com tantas autoridades, quem deu o apito inicial e o ok à realização da partida foi Genny ‘a Carogna, o “Carniça”. Quem?

Quem é Genny ‘a Carogna? A Gazzetta dello Sport explica. Segundo apurou o jornal italiano, ele nasceu Gennaro De Tommaso e é chefe dos Mastiffs, um dos grupos ultrà mais famosos do Napoli. Ele é filho de um homem filiado ao clã Misso, da Camorra, a máfia napolitana. O líder da organizada utilizava uma camisa com as seguintes frases: “Speziale livre” e Liberdade para os ultrà”. Em 2007, Antonio Speziale assassinou o policial Filippo Raciti, antes de um dérbi siciliano entre Palermo e Catania. O episódio, em tese, e apenas em tese, fez com que medidas de segurança fossem reforçadas nos eventos esportivos do país.

Dizemos “em tese” por uma série de motivos. Primeiro, “Carniça” já havia sido proibido de ir a estádios no passado, na medida conhecida em italiano como Daspo. Quatro anos atrás, foi relatada a possível ligação dele e de sua facção de ultrà com o crime organizado e grupos fascistas. Que raios, então, com o histórico que tem, ele estava fazendo ali? O Daspo, teoricamente mais rigoroso desde 2007, após o episódio na Sicília, não serviu neste caso. O cartão de identificação dos torcedores – tessera del tifoso –, obrigatório para alguns jogos fora de casa, também não tem servido. Em 2012, Genny ‘a Carogna comemorou de forma bastante íntima o título da Coppa Italia do Napoli. Olha só ele dentro de campo, segurando a taça, nessa reprodução da Rai.

Também em 2012, estive em Milão para ver o dérbi local. Os agentes de segurança que controlavam o ingresso ao estádio liberaram muito tranquilamente a minha entrada, mesmo que o nome no meu passaporte não fosse o mesmo que constava no ingresso. Eu havia comprado o bilhete com outra pessoa, mas não fiz a troca nominal, obrigatória para acessar o San Siro, e mesmo assim fui liberado. Também não fui revistado. E, por isso, entram no estádio bombas, facas e demais itens proibidos.

O “Carniça” liderava um setor de torcedores que não estava muito feliz com a presença dos stewards atrás do gol. Hamsík, capitão do Napoli, teria recebido ligações de ultrà antes do jogo e teve de ir conversar com o líder deles para que a partida começasse. Foi lhes explicar a situação e, quando chegava para conversar com Genny, uma chuva de sinalizadores e petardos caiu sobre os stewards e bombeiros que lhe davam segurança – um bombeiro saiu ferido e teve de ser atendido. Tudo isso, um mau exemplo para quem estava no estádio, aconteceu em frente a todos os mandatários do futebol e do país.

Enquanto isso acontecia, Hamsík foi recebido e conseguiu convencer os torcedores, numa situação surreal, de que deveria haver jogo. Segundo informações do jornalista Tancredi Palmeri, os seguranças foram orientados a não tentar impedir uma invasão de campo ao final do jogo – o que aconteceu. A complacência de quem tem poder para mudar este hábito aconteceu depois do jogo, quando De Laurentiis declarou que a partida só pode acontecer “graças aos torcedores, extremamente compreensivos e colaborativos”, como se eles tivessem a obrigação de dar o aval a qualquer coisa.

Nada aconteceu, ninguém foi punido. Tudo pareceu normal, como quando ultrà de Roma e Lazio foram a campo conversar com os capitães das equipes decidiram pelo adiamento de um clássico em curso por causa do boato da morte de uma garota. Ou normal como a paralisação de um Genoa-Siena por torcedores insatisfeitos que conversaram com Sculli, capitão genovês, durante o jogo. Ou como quando torcedores da Sampdoria ameaçaram e quase saíram aos tapas com Cavasin, então técnico do time, em pleno centro de treinamentos. Pelo histórico, nada acontecerá. Até porque, na Itália, muitas das autoridades estão, por debaixo dos panos (ou nem tanto), ligadas a mafiosos, ligados a ultrà, que, por sua vez, estão ligados a jogadores e clubes – e, muitas vezes, acabam influenciando em jogos. Uma mão lava a outra e quem perde é o futebol italiano.

Atualização: Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil, fez um texto com outros exemplos da brutalidade e poder dos ultrà na Itália. Vale ver. Aqui.

Napolitano, Insigne marcou dois gols para seu time do coração e foi destaque do título (AP)

O jogo

Após toda a confusão, os times entraram em campo com 45 minutos de atraso. A Fiorentina, sem Cuadrado e Gómez, desfalques importantes, improvisou Borja Valero no comando do ataque, ao lado de Ilicic e Joaquín. O Napoli, com Higuaín recuperado, ia quase completo. As atenções estavam voltadas para os bancos de reservas, também, uma vez que pelo lado violeta, Giuseppe Rossi voltava a ser relacionado após grave lesão, sofrida no dia 5 de janeiro, enquanto pelo lado azul, Zúñiga e Maggio também voltavam após tempo afastado.

O nervosismo dos minutos iniciais passou quando os times se deram conta de que havia um título em jogo. E, quando caiu a ficha, foi o Napoli, mais vivo, quem aproveitou, com dois contra-ataques, que aconteceram depois de Neto fazer uma defesa e Borja Valero tirar finalização quase em cima da linha. Aos 11, Hamsík avançou desmarcado e tocou para Insigne bater colocado, com a perna direita – a bola ainda beijou a trave e, longe do alcance de Neto, morreu nas redes. Aos 17, Higuaín cruzou de um lado, rasteiro, a bola atravessou a área da Fiorentina, com seis marcadores em volta de Callejón, e Insigne, livre, bateu para o gol. O toque em Tomovic enganou Neto e transformou o chute no segundo azzurro. Nascido em Nápoles e torcedor da equipe, um dos poucos jogadores campanos a defender as cores do Napoli, Insigne já começava a decidir a partida.

Ainda no primeiro tempo, a Fiorentina acordou, mas já era tarde. O gol de Vargas, após passe de Ilicic por elevação nas costas da defesa, ainda antes do intervalo, animou a Viola, que partiu com tudo no segundo tempo. Porém, nem mesmo as entradas de Matri e de Rossi – visivelmente fora de forma e sem ritmo de jogo – deram fôlego suficiente à equipe, que chegou a ter um a mais, com a expulsão de Inler, 17 minutos antes do fim do tempo regulamentar. A única chance clara caiu nos pés de Ilicic, que recebeu passe de Matri, mas, atrapalhado por Reina, bateu para fora. Nos acréscimos, Mertens ainda fez o terceiro, após um bate-rebate, selando o pentacampeonato do Napoli. E de Pandev, que conquistou seu quinto título da competição, todos eles nos últimos seis anos (apenas em 2013 passou em branco), por três equipes: Lazio, Inter e Napoli.

No fim das contas, duas coisas a se observar. Primeiro, no duelo com Insigne pela atenção de Prandelli, melhor para o talento napolitano, que fez temporada irregular, acabou ficando longe dos planos do selecionador e, pela boa partida, pode ter ganhado pontos. Rossi terá, ainda, três jogos pela Serie A para se readaptar.

Além disso, o título, somado à vaga na Liga dos Campeões, são um bom início de trabalho de Rafa Benítez no Napoli. Porém, não dá para esconder que a equipe gastou 80 milhões de euros nesta janela de transferências. Cavani foi bem substituído, mas a equipe tinha a obrigação de ter lutado mais com a Juventus pelo título italiano – atualmente, são 16 pontos atrás da Roma, vice-líder, e 24 atrás da Juve, algo incompatível com os custos do elenco. Também não deveria ter caído na Liga Europa tão cedo, frente a um Porto em crise. Ao menos, para a próxima temporada, espera-se que De Laurentiis gaste menos para manter a equipe na briga pelo topo do futebol italiano.

Ficha técnica: final da Coppa Italia 2013-14

Fiorentina 1-3 Napoli

Local: Estádio Olímpico, Roma

Fiorentina: Neto; Tomovic, Rodríguez, Savic, Pasqual (Mati Fernández); Pizarro, Aquilani (Matri), Vargas; Joaquín (Rossi), Borja Valero, Ilicic.

Napoli: Reina; Henrique, Fernández, Albiol, Ghoulam; Jorginho, Inler; Insigne (Behrami), Hamsík (Mertens), Callejón; Higuaín (Pandev)

Gols: Insigne (Napoli, 11, 17), Vargas (Fiorentina, 28), Mertens (N, 93)

Árbitro: Daniele Orsato

Cartão vermelho: Inler

Deixe um comentário