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Ambidestro, técnico e versátil, Gianluca Zambrotta foi um dos maiores laterais da Itália

Poucos laterais conseguiram ser tão completos, eficientes e multifuncionais como Gianluca Zambrotta nos anos 2000. Ambidestro e polivalente, o jogador fez sucesso defendendo Juventus e Milan e serviu à seleção italiana por quase 12 anos. No auge da carreira, realizou uma Copa do Mundo de 2006 primorosa, sendo peça essencial na conquista do tetracampeonato italiano, e foi eleito o melhor lateral-direito nas competições Uefa. Nas dois flancos da defesa ou mais avançado no meio-campo, Zambro mostrou-se pau para toda obra.

No entanto, antes de transformar-se em um grande lateral, Zambrotta atuava mais adiantando, como um meia aberto pela direita, no Como, time de sua cidade natal. O jovem estreou pelo clube em 1995, aos 17 anos, contra o Cesena, em casa, pela Serie B. Foi o único jogo do prodígio Zambro naquela temporada. Os biancoblù, contudo, ficaram em penúltimo lugar e foram rebaixados.

Com poucas chances no Como, Zambrotta foi negociado com o Bari em 1997. A partir daí sua carreira começou a deslanchar. Na equipe apuliana, que à época havia conseguido o acesso à Serie A, o jogador se firmou na lateral esquerda, pois trabalhava bem com ambas as pernas e demonstrava muito potencial técnico e tático. Em sua primeira temporada em Bari, marcou quatro gols e disputou 30 jogos.

Devido às boas apresentações pelos biancorossi, o atleta disputou seis partidas pela Itália sub-21 em 1998. Um ano depois, já com 22 anos, ele foi premiado por suas boas aparições sendo convocado para a seleção italiana principal, então dirigida pelo técnico Dino Zoff. A estreia ocorreu em um amistoso sem gols contra a Noruega, em Pisa. Assim, o defensor se tornou o primeiro jogador do Bari a atuar pela Nazionale depois de 50 anos – o barês anterior havia sido o goleiro Giuseppe Moro, em 1949.

Zambrotta manteve o alto nível na temporada 1998-99 e mostrou mais uma vez seus dotes ofensivos. Na vitória por 2 a 1 sobre o Empoli, em casa, o jogador subiu ao ataque e marcou um gol de bicicleta, arrematando a bola com a perna esquerda dentro da área. As boas exibições do defensor chamaram a atenção de Carlo Ancelotti, então treinador da Juventus. O técnico solicitou sua contratação, fazendo a diretoria bianconera pagar a bagatela de 30 milhões de velhas liras. Cerca de 15 milhões de euros, o que, para a época, era muita grana.

Um jovem Zambrotta, ainda no Bari, enfrenta a Inter em San Siro (Ansa)

Na Juventus, Zambrotta continuou sua curva ascendente. Ancelotti o encaixou no time como lateral-direito numa linha defensiva que contava com cinco homens. Atuando dessa maneira, participou da conquista da Copa Intertoto – seu primeiro título relevante na carreira – e perdeu somente dois dos 38 jogos da Serie A daquela temporada. É preciso salientar que ele foi expulso de forma direta no último duelo do campeonato, contra o Perugia, e prejudicou sua equipe. A Juve perdeu aquela partida – uma verdadeira batalha num campo alagado – por 1 a 0 e entregou o scudetto de bandeja à Lazio.

Já considerado uma figura importante na seleção italiana de Zoff, Zambrotta foi titular na Eurocopa de 2000. A Itália alcançou a final do torneio, mas perdeu para a França pelo já extinto gol de ouro. Gianluca não jogou a decisão porque foi expulso na semifinal, contra a Holanda: tomou dois cartões amarelos num intervalo de 19 minutos. O lombardo também disputou a Olimpíada de 2000, uma vez que ainda tinha idade olímpica.

Na temporada 2000-01, Zambrotta amargou mais um vice-campeonato. A Juventus concluiu aquela edição da Serie A dois pontos atrás da Roma. Com isso, o ciclo de Ancelotti em Turim chegava ao fim e Marcello Lippi assumia o time. Renovada, a Juve não deu bobeira e faturou o scudetto 2001-02 – o primeiro título italiano de Zambrotta. Além disso, a Vecchia Signora também poderia ter levantado a taça da Coppa Italia, mas sucumbiu diante do Parma na decisão.

A seleção italiana trocou de técnico após a Euro 2000: saiu Dino Zoff, entrou Giovanni Trapattoni. Mesmo com a mudança, Zambrotta seguiu como titular do lado direito da defesa azzurra. Ele jogou a Copa do Mundo de 2002, na qual a Itália caiu nas oitavas de final perante à seleção dona da casa, a Coreia do Sul, com um gol de ouro. Inclusive, o lateral se machucou naquele jogo famoso pela péssima arbitragem de Byron Moreno e, por isso, perdeu o início da temporada 2002-03.

Assim, Lippi improvisou o recém-contratado Mauro Camoranesi na lateral direita. O ítalo-argentino se saiu muito bem na função, então o comandante optou por usar Zambrotta, já recuperado de lesão, na outra extremidade do campo. Deu certo. Ambidestro, adaptou-se rapidamente à lateral esquerda e fez boa temporada, contribuindo de forma eficaz tanto na defesa quanto no ataque.

Zambrotta passou quase uma década na Juventus e ocupou função importante (Getty)

Lippi gostou do que viu e manteve o lombardo atuando pelo lado esquerdo da defesa – ou mais adiantado, na linha de meio-campistas – nos anos seguintes. A capacidade de conduzir a bola, a habilidade tática, a técnica, o porte físico e a velocidade foram algumas das características que transformaram o camisa 19 num pilar defensivo da Juve na metade da década de 2000.

Em 2003, Zambrotta sofreu um de seus maiores baques como jogador profissional: a perda do título da Liga dos Campeões, nos pênaltis, para o rival Milan. Ele jogou aquela partida como meia aberto pela esquerda, no 4-4-2 em linha montado por Lippi. Superada a derrota – ou nem tanto, porque Gianluca afirmou em entrevistas posteriores que faria de tudo para jogar a final novamente –, o comasco marcou seu primeiro gol pela seleção italiana, num amistoso vencido por 4 a 0 contra a Tunísia. Depois disso, disputou a Eurocopa de 2004 como lateral-esquerdo, já que Paolo Maldini se aposentara da Squadra Azzurra em 2002. A Itália teve uma performance pífia, visto que nem passou da fase de grupos, mas Zambro foi eleito um dos melhores defensores do torneio.

Ainda em 2004 ocorreu uma nova mudança técnica na Juventus, porque Marcello Lippi acertou com a Nazionale e foi substituído por Fabio Capello. Sob o comando do sisudo friulano, os bianconeri sobraram no Belpaese e soltaram o grito de campeão italiano duas vezes seguidas (em 2004 e 2005), mas os títulos foram cassados devido ao envolvimento de dirigentes do clube com o Calciopoli, o escândalo de manipulação de resultados que sujou o futebol italiano. Além dos scudetti revogados, a Juve foi punida com o rebaixamento à segunda divisão.

Todo o desenrolar do caso e as audições que resultaram na sentença aconteceram durante a disputa da Copa do Mundo de 2006. Por isso, imprensa e torcedores estavam céticos quanto a uma boa campanha da Itália na competição, principalmente depois da fraca jornada na Eurocopa de 2004. Contudo, a Nazionale surpreendeu o mundo e triunfou na Alemanha, depois de vencer a França nos pênaltis.

Zambrotta, que chegou a ser utilizado em quatro posições na Juventus de Capello – lateral-direito, lateral-esquerdo, meia-direita e meia-esquerda –, foi impecável na lateral direita azzurra. Não atuou na estreia da Itália na Copa, contra Gana, porque se recuperava de uma lesão na coxa esquerda que sofrera um mês antes. No entanto, jogou as outras seis partidas no mais alto nível. Vale destacar que ele também desempenhou as funções de lateral-esquerdo, diante dos Estados Unidos (segunda partida da fase de grupos), e meia-esquerda, no segundo tempo contra a Ucrânia (quartas de final), após Lippi fazer alterações.

Alegria original: Totti e Zambrotta celebram o gol do lateral contra a Ucrânia (Getty)

No embate perante os ucranianos, o camisa 19 foi decisivo. Salvou uma bola em cima da linha, quando o jogo estava um 1 a 0 para a Nazionale, deu uma assistência para o segundo gol de Luca Toni e marcou um golaço: tabelou com Francesco Totti e soltou uma bomba indefensável, de canhota, de longa distância. A propósito, o arremate de fora de área, alinhando potência e precisão, foi uma grande arma do atleta em sua longa e vitoriosa carreira. Dos seus 15 gols marcados na Serie A, cinco foram soltando uma cacetada do meio da rua, seja com a perna direita ou a esquerda.

Voltemos à Copa de 2006. O rendimento do defensor no Mundial lhe reservou uma vaga entre os 23 melhores do torneio, junto com outros seis compatriotas: Gianluigi Buffon, Fabio Cannavaro, Andrea Pirlo, Gennaro Gattuso, Totti e Toni. Foi a sua segunda premiação de prestígio vestindo a camisa da Itália. Isso porque, na Eurocopa de dois anos antes, ele também havia sido eleito para o elenco da competição. Zambro também integrou, em 2005-06, a equipe da FIFPro – todo ano, a associação dos atletas elege os melhores da temporada vigente –, e o time do ano da Uefa, em 2006.

Passada a euforia pela conquista do tetra, Zambrotta pediu à diretoria da Juventus para ser negociado. O excelente lateral vivia seu auge e não estava disposto a jogar a Serie B. Depois de compor uma das defesas mais sólidas dos anos 2000, o lombardo deixou o Piemonte junto com o francês Lilian Thuram para assinar com o Barcelona, em agosto de 2006. Os blaugranas desembolsaram 14 milhões de euros só pelo italiano, mas logo viriam a se decepcionar com o investimento.

Com maiores atribuições ofensivas, Zambrotta teve dificuldades em se adaptar à cidade e ao futebol espanhol e foi perdendo espaço. Também sofria com algumas restrições do treinador Frank Rijkaard, que nunca havia pedido sua contratação e não gostava do estilo do jogador. É fato que o polivalente italiano havia reforçado um time que havia acabado de vencer a Liga dos Campões, mas o ciclo da era Rijkaard já estava próximo do fim. Não à toa, atletas como Ronaldinho Gaúcho, Deco e Samuel Eto’o já não eram os mesmos jogadores das temporadas anteriores.

Desempenho inconstante marcou passagem do italiano pelo Barcelona (Getty)

Em dois anos de Barcelona, Zambrotta fez 85 partidas e contribuiu com três gols e cinco assistências. Teve um rendimento regular, considerando o investimento que o Barça fez – à época, pagar 14 milhões de euros por um lateral não era comum. Em sua segunda e última época pelos culés, Zambro ficou manchado pelo erro crucial no confronto de volta das semifinais da Liga dos Campeões 2007-08 contra o Manchester United. Embora tenha marcado bem Cristiano Ronaldo, ele deu uma “assistência” para o inglês Paul Scholes soltar um balaço de fora da área e garantir a vitória por 1 a 0 no Old Trafford. Como na ida os times haviam empatado sem gols no Camp Nou, os Red Devils avançaram à decisão, na qual venceram o Chelsea nos pênaltis.

Com a promoção de Pep Guardiola para a equipe principal do Barça – ele estava no Barça B – e a iminente contratação do brasileiro Daniel Alves, Zambrotta colocou ponto final à curta passagem pela Espanha ao fim da temporada 2007-08. Em maio de 2008, assinou por três anos com o Milan, que já havia tentado comprá-lo quando o lombardo estava de saída da Juventus. O lateral aportava no clube que dava seus primeiros passos rumo à crise institucional desencadeada pelas saídas de Kaká e Ancelotti.

Mesmo com 31 anos nas costas e em um time bem envelhecido, Zambrotta conseguiu grande destaque na temporada 2008-09. Inclusive, forçou o empréstimo de Massimo Oddo ao Bayern de Munique – o ex-laziale, que havia sido reserva do próprio Gianluca no Mundial de 2006, visava mais tempo de jogo. O novo titular rossonero deu seu cartão de visitas logo na terceira rodada da Serie A, quando marcou um golaço num chute de mais de 30 metros de distância no 4 a 1 sobre a Lazio. De quebra, terminou a temporada como o jogador que mais vezes entrou em campo pelo Diavolo: 41 partidas, somando Italianão, Copa Uefa e Coppa Italia.

Ainda que desse indícios de decadência, Zambrotta manteve o posto de titular da seleção italiana na Eurocopa de 2008, na Copa das Confederações de 2009 e na Copa do Mundo de 2010. O lateral foi titular em todos os jogos nessas três competições, e, assim como seus companheiros de geração, teve rendimento abaixo da média. O Mundial da África do Sul foi seu último torneio pela Nazionale. Com 98 partidas, o defensor é o oitavo jogador com mais aparições pela seleção italiana.

Após sua primeira temporada no Milan, Zambrotta passou a ser utilizado pelo brasileiro Leonardo no flanco esquerdo da defesa milanista, setor em que disputou posição com Luca Antonini e Marek Jankulovski. A lateral direita ficaria a cargo de Ignazio Abate. Na época, o loirinho era tido como uma promessa rossonera, mas anos mais tarde se mostraria um jogador limitado – especialmente se considerarmos as expectativas colocadas sobre ele no início da carreira.

Milan foi o último clube relevante defendido pelo jogador lombardo (Getty)

Em meados de 2010, Zambro renovou com o Milan até o verão europeu de 2012. Um ano depois, conquistou seus últimos dois títulos da carreira: a Serie A e a Supercopa Italiana. Nas duas campanhas, o jogador foi reserva, sendo utilizado eventualmente para substituir Antonini e Abate nas duas laterais. Ao fim da temporada 2011-12, Zambrotta se despediu do clube juntamente a outros quatros jogadores experientes do plantel rossonero: Alessandro Nesta, Gennaro Gattuso, Mark van Bommel e Filippo Inzaghi. A diretoria não quis renovar seus contratos, pois aspirava a formação de um grupo mais jovem na época seguinte.

Livre no mercado, Zambrotta voltou para sua cidade natal e começou a treinar no Como, clube do qual já era presidente honorário desde 2007. Enquanto aguardava propostas de equipes da primeira divisão (os comascos estavam na terceirona), o lateral ingressou, em outubro de 2012, no curso de treinadores promovido pela Federação Italiana de Futebol junto à Uefa, em Coverciano. Finalmente, em julho de 2013, foi contratado pelo Chiasso, da Suíça: nem precisou se mudar, já que a cidade, pertencente a um dos cantões italianos helvéticos, fica a menos de 10 km de Como. O contrato anual previa uma opção para o italiano se tornar auxiliar técnico do comandante Ernestino Ramella.

Mas o futuro chegou mais rápido para Zambrotta. Em setembro de 2013, Ryszard Komornicki, então técnico do time do Cantão Tessino, foi exonerado e deu lugar ao atleta, que virou um jogador-treinador. Ele pegou o Chiasso na última colocação do Campeonato Suíço, mas conseguiu salvá-lo do rebaixamento ao fim da temporada. Em maio de 2014, anunciou oficialmente sua aposentadoria dos gramados para se dedicar à carreira de comandante. Ele seguiu à frente dos rossoblù na época seguinte, porém foi demitido em abril de 2015.

Depois que deixou o Chiasso, Zambrotta passou uma temporada no Delhi Dynamos, da Índia, e foi auxiliar técnico de seu velho amigo Capello no Jiangsu Suning, da China. A aventura na Ásia, contudo, encerrou-se em maio de 2018, após a demissão de Don Fabio. Atualmente, Zambrotta é conselheiro da FIGC, a Federação Italiana de Futebol.

Gianluca Zambrotta
Nascimento: 19 de fevereiro de 1977, em Como, Itália
Posição: lateral-direito e lateral-esquerdo
Clubes como jogador: Como (1994-97), Bari (1997-99), Juventus (1999-2006), Barcelona (2006-08), Milan (2008-12) e Chiasso (2013-14)
Títulos como jogador: Coppa Italia da Serie C (1997), Copa Intertoto (1999), Supercopa Italiana (2002, 2003 e 2011), Serie A (2002, 2003 e 2011), Copa do Mundo (2006) e Supercopa da Espanha (2006)
Clubes como treinador: Chiasso (2013-15) e Delhi Dynamos (2016)
Seleção italiana: 98 jogos e dois gols

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