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Em 1962, a Suíça esteve envolvida em mais um episódio indigesto para a Itália

Se a Itália ficou de fora da Copa do Mundo de 2022, deve muito à Suíça, que assumiu o papel de algoz dos azzurri. Ainda que não tenham batido os comandados de Roberto Mancini, os helvéticos foram a pedra no sapato dos rivais e, com dois pontos a mais em sua chave das eliminatórias, ganharam a vaga direta para a disputa da competição, no Catar. As ocasiões em que os italianos encararam os rossocrociati em jogos válidos por Mundiais, a propósito, também não terminaram com sentimentos positivos para a Nazionale. Nem quando se sagrou vitoriosa no duelo, como na edição de 1962.

A Suíça é a seleção que a Itália mais vezes enfrentou em sua história: até o fim de 2022, italianos e helvéticos realizaram 61 partidas entre si, o que resultou numa notável rivalidade cultivada ao longo dos anos. A quantidade de jogos que a Squadra Azzurra disputou com os alpinos supera com folga qualquer marca estabelecida por outras adversárias frequentes da Nazionale, como as de um segundo pelotão composto por Alemanha, Áustria, França, Espanha e Hungria – os confrontos com esse grupo oscilam entre os 36 e os 39.

Os azzurri somam 29 vitórias e sofreram somente oito derrotas no confronto com os alpinos, mas o alto número de empates (24) mostra como os rivais não costumam dar folga à equipe nacional da Velha Bota. Isso ficou claríssimo em 1954, quando ocorreram as principais quedas da Itália para a Suíça. Jogando a Copa do Mundo na casa da adversária, os italianos perderam a estreia em Lausanne, por 2 a 1. Depois, as seleções ficaram igualadas em pontos no Grupo 4 e tiveram de fazer um duelo extra para definir quem avançaria às quartas. A partida foi parelha, mas dois gols no fim resultaram num 4 a 1 favorável aos rossocrociati. Oito anos após, em 1962, uma renovada Nazionale teria a oportunidade de dar o troco na maior competição futebolística do planeta, cuja sede, naquele momento, era o Chile.

O sorteio da fase de grupos aconteceu em janeiro de 1962 e colocou a Itália na chave 2, ao lado da Suíça, da Alemanha Ocidental – campeã em 1954 – e do Chile, anfitrião. Já seria uma combinação de adversários complicada para todas as seleções, mas a imprensa italiana fez o favor de dificultar a vida da Nazionale.

Antonio Ghirelli, experiente cronista do Corriere della Sera, e Corrado Pizzinelli, correspondente para os diários La Nazione e Il Resto del Carlino, escreveram vários textos indelicados, inoportunos e até preconceituosos sobre o país sul-americano, que havia atravessado uma tragédia em 1960 – dois anos antes do Mundial, o Chile foi atingido pelo Sismo de Valdivia, mais intenso terremoto já registrado na história, que resultou na morte de cerca de 6 mil chilenos. Os jornalistas revoltaram a população local e foram escorraçados para a Europa. Como efeito de suas baboseiras, os jogadores de La Roja receberam uma missão da torcida: derrotar a Itália de forma humilhante, como forma de vingar a honra andina.

Antes amistosos, os chilenos se tornaram absolutamente hostis com os italianos. Por isso, os jogadores da Itália sabiam que teriam de vencer em sua estreia, contra a Alemanha Ocidental, se quisessem ter mais tranquilidade na segunda rodada, ante o Chile – se é que isso seria possível. No entanto, tudo deu errado para os azzurri, e a Suíça teve certa responsabilidade para que esse quadro se desenhasse.

Na primeira rodada, o Chile entrou em campo antes dos italianos e aplicou 3 a 1 sobre a Suíça. Pressionada, a Itália estreou no dia seguinte e não saiu do zero com os alemães. Na jornada posterior, foi a vez de La Roja receber a Squadra Azzurra para o acerto de contas – e as seleções protagonizaram aquele que é conhecido como o jogo mais violento da história das Copas, tendo sido o catalisador para a adoção de cartões como medida disciplinar. Em clima de guerra, a Batalha de Santiago fez o estádio Nacional ferver e, ao fim dos rounds, os donos da casa celebraram uma vitória por 2 a 0. A situação da Nazionale se complicou mais ainda porque os helvéticos levaram 2 a 1 dos germânicos.

Com apenas 1 ponto após duas rodadas, a Itália se via atrás do Chile, classificado, com 4, e da Alemanha Ocidental, com 3. Na jornada de encerramento da fase de grupos, chilenos e germânicos ainda se enfrentariam um dia antes de a Nazionale encarar a Suíça. Como era de se esperar, devido ao rancor desenvolvido por conta do preconceito da imprensa italiana, os sul-americanos tiraram o pé contra os alemães e perderam o jogo de compadres por 2 a 0. O duelo entre azzurri e rossocrociati, já eliminados, não valeria absolutamente nada, portanto. Ao menos para a turma da Velha Bota.

O ítalo-brasileiro Sormani foi um dos principais nomes da Itália num jogo pouco célebre com a Suíça (Keystone/Getty)

Para os chilenos, valia muito ver a Itália jogar com a Suíça sem qualquer objetivo, como se estivesse sendo castigada. As arquibancadas do estádio Nacional de Santiago foram preenchidas por quase 60 mil pessoas. Foi o menor público que a praça recebeu durante aquela Copa do Mundo, mas não ficou tão abaixo das outras partidas da fase de grupos – que oscilaram de 65 a 67 mil presentes. Os moradores da capital queriam ver, bem de perto, as faces humilhadas dos azzurri e os seus rabos entre as pernas. O prazer dos andinos era ainda maior porque o elenco italiano contava com Humberto Maschio e Omar Sívori, nascidos na vizinha Argentina, uma de suas rivais geopolíticas.

Como o jogo só servia para cumprir tabela, Giovanni Ferrari e Paolo Mazza, técnicos da Itália, decidiram mudar quase todo o onze inicial de sua equipe: dos presentes na Batalha de Santiago, permaneceram apenas o ponta Bruno Mora e os zagueiros Enzo Robotti e Sandro Salvadore. Os treinadores montaram um time similar ao da estreia contra a Alemanha Ocidental e permitiu que Giacomo Bulgarelli, meia do Bologna, e Angelo Sormani, do Mantova, debutassem com a camisa azul. Inclusive, o ítalo-brasileiro, ex-Santos, ganhava a posição do compatriota José Altafini, ex-Palmeiras, campeão mundial pelo Brasil em 1958 e ícone do Milan.

Antes de a bola rolar, a delegação da Itália teve humildade: repetiu a tentativa de fazer as pazes com os torcedores chilenos, que haviam rejeitado a iniciativa cinco dias antes, no confronto com La Roja. Dessa vez, o público foi receptivo e aceitou os buquês de flores e souvenirs entregues pelos jogadores da Nazionale. Com o ambiente distensionado, os azzurri se despediram da América do Sul com uma vitória.

A Suíça, apesar das duas derrotas na fase de grupos, não era uma adversária qualquer. Para começar, era treinada pelo austríaco Karl Rappan, tido como um dos maiores revolucionários do futebol: além de ter criado a primeira competição europeia de clubes nos moldes que a Uefa viria a adotar, a partir de coeficientes e colocações nos campeonatos nacionais, foi o inventor do “ferrolho suíço”, estratégia fundamental para o advento do catenaccio italiano. Ademais, a seleção helvética contava com os atacantes Roger Vonlanthen, que atuara por Inter e Alessandria, e Anton Allemann, fiel escudeiro de Sormani num bom time do Mantova.

Méritos suíços à parte, a Itália era mais forte e tinha mais motivos para tentar vencer aquele jogo sem muita importância – nem que isso significasse apenas a redução do impacto de uma de suas piores campanhas em Mundiais. Aos 2 minutos, inclusive, os azzurri saíram na frente após o goleiro Karl Elsener rebater um forte chute cruzado de Sormani e Mora completar para as redes.

O resto do jogo foi dominado pela Itália, que ainda viu Elsener fazer duas ótimas defesas. Já no segundo tempo, o goleiro espalmou uma cobrança de falta perigosa de Bulgarelli e ainda contou com o travessão para não ser vazado; no rebote, pegou o chute de Sormani. Porém, nada pode fazer em duas infiltrações consecutivas do meia do Bologna. Aos 65 minutos, Giacomo recebeu em profundidade de Mora e, na saída do arqueiro, anotou; aos 67, Ezio Pascutti aproveitou trapalhada da zaga suíça e só rolou para o companheiro dar números finais à peleja.

Depois de eliminar diretamente a Itália da Copa de 1954 e, por linhas tortas, fazer o mesmo com a rival na edição de 1962 do torneio, a Suíça demorou a ser realmente indigesta para a Nazionale, num contexto como aquele. A bem da verdade, precisou de quase 60 anos e mais de 20 partidas para sê-lo, ao impedir que a Squadra Azzurra disputasse seu 19º Mundial.

Curiosamente, tal qual na década de 2010, a seleção italiana não obtinha grandes resultados na Copa do Mundo. Naquela época, quatro remanescentes do grupo de 1962 (Salvadore, Bulgarelli, Enrico Albertosi e Gianni Rivera) ainda viriam a se frustrar terrivelmente na campanha de 1966. Depois, ao lado de seus colegas, eles tiveram a força mental necessária para dar a volta por cima e levarem a Itália ao título da Euro 1968 – os dois últimos citados ainda seriam vice-campeões mundiais em 1970. O exemplo permanece para as novas gerações.

Itália 3-0 Suíça

Itália: Buffon; Robotti, Salvadore, Losi, Radice; Bulgarelli, Maldini; Mora, Sormani, Pascutti; Sívori. Técnicos: Giovanni Ferrari e Paolo Mazza.
Suíça: Elsener; Grobéty, Tacchella, Schneiter; Antenen, Dürr, Weber, Allemann; Wüthrich; Vonlanthen, Meier. Técnico: Karl Rappan.
Gols: Mora (2′) e Bulgarelli (65′ e 67′)
Árbitro: Nikolay Latyshev (União Soviética)
Local e data: estádio Nacional, Santiago (Chile), em 7 de junho de 1962

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