Brasileiros no calcio

Como João Paulo se tornou um dos grandes da história do Bari

Listar a quantidade de time em que jogou o atacante Sérgio Luís Donizetti, o João Paulo, é uma tarefa difícil. Foram 14 em mais de 20 anos de carreira. Entre idas e vindas ao União São João de Araras (quatro) e o início de carreira no Guarani, João Paulo quase sempre teve passagens breves nas equipes por onde atuou. Sua trajetória no Bari, porém, foi um ponto fora da curva em sua carreira, ou melhor, seu ponto alto como jogador de futebol.

Formado nas categorias de base do Guarani, João Paulo estreou como profissional em 1984, aos 20 anos, mas chamou a atenção apenas em 1986, quando levou o Bugre à final do Campeonato Brasileiro. Não demorou para que o então técnico da seleção brasileira, Carlos Alberto Silva, desse a primeira oportunidade ao jogador campineiro com a camisa canarinho. João Paulo não só convenceu como também confirmou seu lugar no grupo que traria a medalha de prata na Olimpíada de Seul, em 1988. Ele também disputou a Copa América um ano antes.

Aproveitando a debandada de brasileiros para o futebol europeu, João Paulo aceitou a oferta do Bari, recém-promovido à Serie A da temporada 1989-90, e virou companheiro do meia Gérson Caçapa, ex-Palmeiras. Em seu primeiro ano na Velha Bota, jogou fora de sua posição original, como trequartista, ao lado de Pietro Maillaro, ambos servindo o avante Paolo Monelli.

Discreto para quem brilhava nos campos brasileiros, João Paulo não teve o mesmo destaque, mas, juntamente com a dupla ofensiva, ajudou os galletti a permanecerem sem dificuldades na elite. O atacante ainda ajudou a equipe a conquistar seu primeiro troféu internacional, a Copa Mitropa, disputada ao final da temporada. Ao todo, ele marcou sete gols em 33 jogos e foi o artilheiro barês no ano. Mesmo assim não foi convocado por Sebastião Lazaroni para a disputa da Copa de 1990, na própria Itália.

Brasileiro é um dos maiores ídolos dos galletti (Mondo Pallone)

No ano seguinte, a situação do Bari foi totalmente oposta a 1989-90. Os biancorossi brigaram até o final do campeonato contra o descenso, salvando-se apenas na penúltima rodada, quando venceram o Milan de Arrigo Sacchi, por 2 a 1, com os dois gols anotados justamente por João Paulo. O último foi um golaço, com direito a drible no goleiro Sebastiano Rossi e chute entre as pernas de Alessandro Costacurta, levando o estádio San Nicola ao delírio. Outra vez, o brasileiro foi o artilheiro dos galletti no campeonato, com 12 tentos marcados, e ficou entre os dez maiores goleadores daquela edição da Serie A. Seu maior dever era acionar o centroavante Florin Raducioiu, mas o romeno decepcionou naquela temporada e João Paulo assumiu o compromisso.

Depois de livrar a equipe do rebaixamento, consolidou-se na Itália, a ponto de ser considerado o melhor jogador estrangeiro daquela temporada. “Aquele foi o ano mais belo de minha carreira e aquela partida contra o Milan foi inesquecível”, diz o jogador toda vez que fala sobre sua passagem na Europa. O grande desempenho em 1990-91 fez com que Paulo Roberto Falcão o convocasse para a disputa da Copa América de 1991, no Chile. O atacante, camisa 11 e titular, marcou contra Uruguai e Argentina, mas viu o Brasil ficar com o vice-campeonato.

Para 1991-92, o Bari prometia incomodar mais. O técnico Giuseppe Salvemini ganhou os reforços do ala croata Robert Jarni e do trequartista Zvonimir Boban, seu compatriota. Chegaram também o atacante australiano Frank Farina e o meia-atacante inglês David Platt, ex-Juventus. A temporada tinha tudo para dar certo, mas só Jarni e Platt se tornaram importantes. Para piorar, João Paulo, que chegara ao auge, sofreu uma fratura na perna, logo no início da temporada. A lesão praticamente destruiu sua carreira.

No confronto contra a então campeã Sampdoria, na terceira rodada, o zagueiro blucherchiato Marco Lanna fez uma falta duríssima, tentando parar João Paulo com um carrinho violento – a entrada o deixou longe dos gramados por 18 meses. Após tanto tempo parado e longe das principais partidas, perdeu espaço também na seleção brasileira, justamente quando começava a se formar o time que viria a sagrar-se tetracampeão mundial, em 1994, nos Estados Unidos.

Quando retornou, o Bari já havia sido rebaixado – caiu em 1991-92 mesmo, quando ficou em 15º na Serie A – e até tinha sido treinado por Sebastião Lazaroni, que não teve como o colocar em campo nas 18 rodadas em que dirigiu os galletti na segundona. João Paulo ficou para disputar a Serie B, mesmo sem a mesma capacidade atlética. Anotou seis gols nas 41 partidas que fez, desempenho bem abaixo do anterior à lesão, quando fez 18 gols em 62 jogos.

Não conseguiu levar o time de volta à elite e, aos poucos, foi perdendo espaço no elenco, a ponto de preferir um retorno ao Brasil, ainda com a temporada 1993-94 em andamento – no final, o Bari estaria de volta à primeira divisão. João Paulo deixou o clube da Puglia após quase 5 temporadas, 107 jogos (62 na Serie A) e 24 gols, e como um dos grandes ídolos da história biancorossi. Não à toa, segundo o próprio brasileiro, seu período na Itália foi mágico.

Durante um dérbi da Puglia em 1990-91, vemos João Paulo ser perseguido pelo compatriota Mazinho (D), jogador do Lecce (Cristiano Carriero)

Em 1993, ele retornou ao Brasil para defender o Vasco, mas novamente os problemas físicos atrapalharam sua passagem pelo Gigante da Colina. Em um ano, apenas 15 jogos e 4 gols marcados. Sem destaque, voltou à sua terra natal para jogar pela Ponte Preta, numa passagem relâmpago antes de acertar com o Goiás. Em 1996, jogou o Campeonato Paulista pelo Corinthians e mostrou-se em forma novamente. Terminou a temporada no Sport, com 45 jogos realizados, e com a perspectiva de enfim conseguir retomar o futebol que o consagrou.

Depois disso, porém, sua carreira apenas decaiu. Rodou por União São João, Etti Jundiaí, Vitória, futebol japonês e até para o Guarani voltou, tentando apenas uma sequência de jogos, mas acabou abandonando o futebol em 2004, aos 40 anos. Muito para quem quase precisou abandonar o futebol antes dos 30, mas pouco pelo talento que apresentou no futebol brasileiro e italiano.

Veja abaixo todos os gols de João Paulo pelo Bari.

Sérgio Luís Donizetti, o João Paulo
Nascimento: 9 de julho de 1964, em Campinas
Posição: atacante
Clubes como jogador: Guarani (1983-89 e 2002); Bari (1989-94), Vasco (1994), Ponte Preta (1995 e 1998), Goiás (1995), Corinthians (1996), Sport (1996), Portuguesa Santista (1997-98), Vitória (1998), União São João (1998-99, 2000, 2001 e 2003), Etti Jundiaí (1999), Mito HollyHock-JAP (2000), CSA (2001), Taquaritinga (2004) e Inter de Limeira (2004)
Título: Copa Mitropa (1990)
Seleção brasileira: 15 jogos e 4 gols

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