Seleção italiana

Sem plano alternativo, Itália foi esmagada por Isco e pela Espanha

Coragem, Ventura! O meio-campo da Espanha não marca muito. Escala o Candreva. Deixa os 3 volantes para depois. Joga sem medo. Como Itália… E assim Gian Piero Ventura decidiu mandar a seleção italiana a campo no ultraofensivo 4-2-4 contra a Espanha, em pleno Santiago Bernabéu. Uma resolução ousada, mas lógica, pois a Nazionale precisava vencer para depender só de si na briga pela vaga direta para a Copa do Mundo de 2018. Valia a pena arriscar, não há dúvidas. O grande problema é que o treinador pareceu paralisado depois que seu plano de jogo deu errado. No fim das contas, 3 a 0 aplicado pelos espanhóis, com direito a baile, ficou barato para os azzurri, que devem se contentar com uma vaga na repescagem.

Durante toda a semana, a Itália treinou no esquema 3-4-1-2, com Verratti como trequartista e Chiellini reeditando o trio BBC na defesa, ao lado de Bonucci e Barzagli. A lesão do camisa 3 juventino e a falta de condições físicas de Montolivo (nem mesmo relacionado para a partida) acabaram impulsionando a escolha pelo módulo mais ofensivo. Chegou a ser cogitada a possibilidade de que a Squadra Azzurra atuasse em um 3-4-3, mas Ventura não quis abrir mão da dupla formada por Belotti e Immobile, artilheiro da equipe com cinco gols.

Com apenas dois homens no centro do campo foi impossível conter os espanhóis. Na verdade, dizer que eram dois jogadores no setor é muita bondade com Verratti, que fez a sua pior partida com a camisa da seleção: errou passes simples, levou um cartão amarelo com menos de cinco minutos de bola rolando, não acertou seu posicionamento e, para completar o combo, levou caneta e lençol de Isco. A apagada atuação do regista do Paris Saint-Germain só acentuou a debilidade azzurra no meio-campo, fator determinante para o desastre. A intensa movimentação de Asensio, Isco, Iniesta e Silva – que a todo momento mudavam de posição ou entravam e saíam da área – dava superioridade numérica ainda maior a La Roja nas trocas de passes. Isco, em especial, colocou seu grande futebol em prática e decidiu o jogo já no primeiro tempo, com dois chutes de fora da área – um deles, em cobrança de falta.

O doblete de Isco, que anotou aos 12 e aos 40 minutos, levou a partida para o intervalo com a larga vantagem de 2 a 0 para a Fúria. Poderia ser tarde demais para a Itália, mas Ventura tinha a chance de reconhecer que sua abordagem havia dado errado e que Verratti não estava em um bom dia. Poderia se espelhar nas vezes em que a Itália colocou a Espanha nas cordas, com Prandelli e Conte. No 1 a 1 na Euro 2012 e na vitória de tirar o chapéu na Euro 2016, sobretudo, a chave para os bons resultados foi povoar o setor e aproximar as linhas. O 3-5-2 sufocou a Fúria e não deixou seus jogadores tiraram vantagem de linhas de passe.

Sem Marchisio (machucado), Jorginho e Gagliardini (não convocados), sobravam Parolo e Pellegrini como opções para meia central. Ventura não os colocou em campo em nenhum momento. Pior: optou por não mexer no intervalo. Ainda mais grave: só decidiu fazer substituições 25 minutos após o intervalo, quando sacou Belotti e Candreva e lançou mão de Éder e Bernardeschi. Não precisaria nem dizer que não deu certo. À diferença da partida entre as seleções realizada um ano atrás, a Itália esteve tão perdida em campo que o terceiro gol saiu de um contra-ataque em que tinha três jogadores de vantagem sobre os espanhóis. Ainda assim, Sergio Ramos conseguiu encontrar Morata no meio de cinco italianos.

A surra aplicada pela Espanha foi simbólica. Manteve tabus, derrubou uma impressionante marca italiana e mostrou para quem duvidava que os espanhóis realmente tinham o time a ser batido no Grupo G. La Roja nunca foi derrotada em casa pelas Eliminatórias da Copa e não perde no Santiago Bernabéu desde 1982 – no mesmo estádio e no mesmo ano, a Itália foi tricampeã mundial. 35 anos depois da festa em Madrid, cai o recorde mundial construído pela Squadra Azzurra: havia 11 anos e 56 partidas (42 vitórias) que a seleção não perdia jogos em eliminatórias.

Apesar de tudo, cenário de terra arrasada não faz bem algum para a Itália. Em que pesem a passividade e os erros de Ventura neste sábado, seu trabalho é bom e há poucos treinadores mais adequados que ele para conduzirem o atual momento da Nazionale, que é de renovação – de filosofia e elenco. Nos três jogos restantes, a ordem é vencer para garantir um bom ranqueamento no sorteio para a repescagem. Neles, o técnico genovês terá muito tempo para refletir sobre seus erros deste 2 de setembro e fazer escolhas diferentes.

Espanha 3-0 Itália

Espanha (4-3-3): De Gea; Carvajal, Piqué, Sergio Ramos, Alba; Koke, Busquets, Iniesta (Morata); Silva, Asensio (Saúl), Isco (Villa). Técnico: Julen Lopetegui.

Itália (4-2-4): Buffon; Darmian, Barzagli, Bonucci, Spinazzola; Verratti, De Rossi; Candreva (Bernardeschi), Belotti (Éder), Immobile (Gabbiadini), Insigne. Técnico: Gian Piero Ventura.

Gols: Isco (2) e Morata
Local:
Santiago Bernabéu, em Madrid (Espanha)
Árbitro: Björn Kuipers (Holanda)

2 comentários

  • Bela análise Nelson!
    A superioridade espanhola no meio campo foi nítida. Realmente o Ventura deveria ter olhado para o exemplo deixado pelo Prandelli e pelo Conte quando neutralizaram a troca de passes envolvente dos espanhóis. Verrati ainda muito longe de representar o que Totti, Baggio ou Del Piero representaram para a nazionale. Desatento e omisso, dá a impressão de que pensa ser um jogador muito melhor do que de fato é. Num jogo como esse contra a Espanha, não tomar gol é fundamental, afinal, 1×0 já seria suficiente… às vezes arriscar não é inteligente… É apenas arriscar

  • Boa análise Nelson, eu observo que é um momento de transição, vem uma geração muito boa pós-2018, talvez seja a hora de queimar etapas e lançar alguns agora, ou convocá-los mais, principalmente no meio-campo. Enxergo que o melhor pra Azzurra é um 3-4-3 ou 4-3-3, mas sem essa de Belotti ou Immobile juntos, prefiro o primeiro. Chega de Candrevas, Parolos e Montolivos, é hora de Locatelli, Pellegrini, Insigne, Conti, Berardi, Bernardeschi, Gagliardini e cia. Pra não ficar só jovens, deixa os veteranos bons: Buffon, Bonucci, Chiellini, Darmian e De Rossi.

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