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Versátil, Angelo Alessio foi útil para uma Juventus em busca de reconstrução

No futebol, é comum que alguns jogadores não chamem muita atenção mesmo que tenham boas atuações sucessivamente. Às vezes, o seu time tem um grande nome no elenco, capaz de atrair todos os holofotes e fazer com que peças que façam a bola rodar não sejam devidamente valorizadas. Isso aconteceu com Angelo Alessio na Juventus: versátil, ele desempenhou várias funções no meio-campo e no ataque, permitindo que outros brilhassem, e foi um coadjuvante importante da equipe na transição entre as décadas de 1980 e 1990.

Angelo nasceu em Capaccio Paestum, cidadezinha localizada na província de Salerno, na região da Campânia. Na sua infância, durante os anos 1960 e 1970, Alessio teve como ídolo o atacante Luigi Riva, do Cagliari, e se inspirou nele nas peladas com os amigos e os irmãos – seus pais tiveram 11 filhos. Dali, o jovem passou pelos minúsculos Gromola e Solofra até ser notado pelo Avellino, aos 19.

Com a mesma idade, Alessio fez a sua estreia profissional, num jogo da fase de grupos da Coppa Italia, no qual o Avellino perdeu para a Inter. Formado como segundo atacante, Angelo frequentou bastante o banco biancoverde no início de sua trajetória e só fez a sua primeira partida pela Serie A na última rodada da temporada 1984-85.

Na campanha seguinte, o atacante foi usado esporadicamente pelos técnicos Enzo Robotti e Tomislav Ivic, ganhando espaço entre os titulares dos irpini ou como alternativa a Alessandro Bertoni e Ramón Díaz. Depois de atuar 21 vezes na temporada, Alessio ganhou uma oportunidade de jogar regularmente no Torneio de Verão promovido pela Lega Calcio. Participavam da competição os clubes da Serie A eliminados antes da semifinal da Coppa Italia, muitos deles desfalcados de convocados para a Copa do Mundo de 1986.

Alessio teve desempenho muito bom na copa estival. Após eliminar Inter e Napoli na primeira fase de grupos, e Udinese e Juventus na etapa seguinte, o Avellino bateu o Bari por 3 a 1 na final, com doppietta de Angelo. O atacante foi o vice-artilheiro do torneio, com seis gols – ficando atrás de Bertoni, companheiro de time, autor de sete. O ótimo futebol foi um aperitivo do que o jovem de 21 anos mostraria em 1986-87.

Com a chegada do brasileiro Luís Vinício ao comando dos lobos, Alessio foi elevado ao posto de titular absoluto, juntamente a Bertoni e ao centroavante austríaco Walter Schachner, que substituía o argentino Díaz. Com Dirceu sendo responsável por armar as jogadas, Angelo teve regularidade como ponta pela direita e foi um dos destaques da ótima campanha do Avellino: o time foi oitavo colocado, cinco pontos abaixo do Milan, último classificado à Copa Uefa. Inclusive, o garoto campano teve como melhor momento um gol anotado no triunfo por 2 a 1 sobre os rossoneri – um dos seis que marcou naquela Serie A.

Notado pelo Avellino, Alessio teve um triênio positivo vestindo biancoverde e acabou adquirido pela Juventus (Arquivo/Avellino Calcio)

O forte desempenho no Avellino levou Alessio à seleção olímpica italiana e para a Juventus, que o contratou por 5 bilhões de liras. A diretoria viu no jovem da Campânia o perfil ideal para a renovação pela qual o elenco passava: Giovanni Trapattoni deixara o comando um ano antes, abrindo espaço para Rino Marchesi, Michel Platini se aposentara naquele verão e, para completar, Gaetano Scirea, Antonio Cabrini e Sergio Brio também iam chegando ao fim de suas carreiras.

Alessio estreou numa vitória por 3 a 0 sobre o Lecce, na Coppa Italia, e marcou os seus dois primeiros gols pela Juventus em triunfo por 4 a 0 ante o pequeno Valletta, de Malta, na fase inaugural da Copa Uefa. Na Serie A, teve uma temporada de debute relativamente consistente: começou no banco, mas participou de 27 dos 30 jogos da Velha Senhora, sendo 14 deles como titular. Durante a campanha, Angelo balançou as redes seis vezes, incluindo duas em confrontos com o Avellino e uma no clássico do Piemonte contra o Torino.

Em seu primeiro ano de Turim, Alessio descobriu a sua polivalência. Antes utilizado usualmente como segundo atacante ou ponta-direita, o jogador aprendeu a se sacrificar pelo time da forma que fosse necessária: do meio-campo para frente, só não atuou como volante e centroavante. De resto, fazia o que Marchesi pedia, em ambos os flancos ou mais centralizado.

Angelo mostrou qualidade e acabou chamando a atenção do Bologna, que o adquiriu por empréstimo. O campano se sentiu ameaçado pelas contratações de Oleksandr Zavarov e Rui Barros pela Juventus, de modo que aceitou rumar à Emília-Romanha para ganhar ritmo de jogo como titular. O time treinado por Luigi Maifredi conseguiu permanecer na Serie A e o seu contratado teve um bom desempenho, sendo autor de tentos importantes no empate com o Torino e na vitória sobre o Pescara – concorrentes diretos dos felsinei e rebaixados, com dois pontos a menos. Alessio ainda anotou uma doppietta em derrota para a Juve.

Pelas boas atuações, retornou a Turim para ficar, ser aproveitado pelo técnico Dino Zoff e ter uma fantástica segunda estadia no Piemonte. Em 1989-90, o clube bianconero conquistaria a Coppa Italia e a Copa Uefa, batendo Milan e Fiorentina, respectivamente: no confronto de ida da decisão continental, Alessio fez ótima jogada e participou do segundo gol na vitória juventina por 3 a 1. Ao longo da temporada, Angelo teve o mesmo papel de antes no time, com utilização frequente onde e quando surgisse a oportunidade.

As expectativas eram altas para a temporada seguinte, na qual a Juventus passou por uma revolução na diretoria, no comando técnico e no mercado. O presidente Giampiero Boniperti saiu, juntamente a Zoff, e Luca Cordero di Montezemolo surgiu como homem forte do futebol, levando Maifredi consigo. Gigi, que treinara Alessio no Bologna, preconizava uma abordagem ofensiva do esporte.

Alessio começou como segundo atacante e ponta-direita, mas mostrou polivalência em Turim (imago)

Angelo, porém, perdeu espaço com as chegadas de Roberto Baggio e Thomas Hässler, sendo menos utilizado do que estava acostumado e pouco contribuindo para uma campanha decepcionante: a Velha Senhora ficou com o sétimo lugar na Serie A e foi semifinalista da Recopa. Quando chamado em causa, o polivalente jogador correspondeu, com doppietta na vitória por 2 a 1 sobre a Fiorentina e gol no empate por 1 a 1 com o Napoli.

Em 1991-92, Alessio teria a sua última temporada na Juventus. Treinado por Trapattoni, passou a ter um papel menos ofensivo, mas que lhe garantiu uma utilização maior – foi o ano em que teve a sua maior minutagem como bianconero pela Serie A. A Vecchia Signora melhorou de rendimento com o lendário técnico e foi vice-campeã nacional e da Coppa Italia, ficando atrás de Milan e Parma, respectivamente.

Ao fim daquela campanha, a Juventus voltou ao mercado e mirou outros jogadores versáteis, de nível superior ao de Alessio: Andreas Möller, campeão mundial pela Alemanha, e David Platt, que ajudara a Inglaterra a ficar com o quarto posto da Copa de 1990. Com 27 anos recém-completados e chegando ao auge físico, Angelo podia ser titular em um time mais modesto e recebeu a chance de sê-lo no Bari, que negociou a sua inclusão na venda de Platt à gigante de Turim.

Depois de 142 partidas e 21 gols pela Juve, o campano rumou à Apúlia e voltou ao sul da Itália. O Bari acabara de ser rebaixado à segunda divisão e contava com um elenco forte para a disputa, formado por jogadores como Giuseppe Taglialatela, Robert Jarni, Sandro Tovalieri, Igor Protti e o brasileiro João Paulo. No entanto, um trabalho muito ruim de Sebastião Lazaroni condenou os galletti à permanência na Serie B.

Alessio foi um dos melhores do time em 1992-93, com oito gols marcados, e manteve o nível em sua segunda temporada pelo Bari. Assim, ajudou os biancorossi a conseguirem o acesso graças ao vice-campeonato na categoria e permaneceu para disputar a Serie A na campanha seguinte. Angelo começou o certame como titular, mas problemas físicos limitaram muito a sua presença nos gramados: foram apenas 14 jogos, sendo apenas oito como titular, e nenhuma bola na rede.

Em 1995, o faz-tudo campano se transferiu ao Cosenza, da Serie B, e só se recuperou das lesões em novembro daquele ano. Na primeira temporada, Alessio foi o fiel escudeiro do goleador Cristiano Lucarelli e ajudou o time da Calábria a ficar na metade da tabela. Porém, a saída do artilheiro diminuiu o poder de fogo dos rossoblù, que contariam com Stefano Guidoni, um jogador bastante inferior ao bomber, em 1996-97. Angelo precisou assumir a responsabilidade de colocar a bola na casinha (o fez sete vezes) e foi o melhor dos lobos na campanha, mas não conseguiu evitar o rebaixamento cosentino para a terceira divisão.

Alessio celebra, com Tacconi e Zoff, o título da Coppa Italia de 1990 (imago)

Chegando ao final de carreira, Alessio voltou ao Avellino, que também estava na Serie C1. O retorno ao time em que foi revelado durou apenas alguns meses, tempo de jogar somente cinco partidas e anotar um gol em vitória de virada, por 2 a 1, sobre o Palermo. Em outubro de 1997, Angelo se transferiu ao Modena, militante no outro grupo da terceirona, e lá se aposentou, aos 33 anos.

Assim que pendurou as chuteiras, o ex-jogador se tornou treinador nas categorias de base do Napoli e, depois, participou da da comissão técnica do time principal – onde, por exemplo, auxiliou Franco Colomba, seu colega como atleta no Avellino. Em seguida, Alessio tentou voo próprio à beira do gramado, mas acumulou experiências desastrosas por Imolese, Massese e Spal: pela equipe de Massa, chegou a ser rebaixado para a quarta divisão.

Esse começo complicado fez com que Alessio voltasse ao posto de assistente. Em 2010, pouco depois de se demitir da Atalanta, Antonio Conte encontrou Angelo, de quem havia sido colega na Juventus, e lhe perguntou se gostaria de auxiliá-lo em seu trabalho seguinte. Pau para toda obra, o campano aceitou o desafio e, em maio daquele ano, a dupla foi contratada pelo Siena. Com a bela campanha na Serie B e o acesso à elite, os dois receberam uma oferta da Juve e, de pronto, a aceitaram: seriam, portanto, os precursores da dinastia bianconera na década de 2010.

Na temporada 2011-12, um escândalo de manipulação de resultados foi revelado, com envolvimento de jogadores do Siena. Conte e Alessio, por não terem denunciado a fraude nos duelos contra Novara e Albinoleffe para os órgãos competentes, acabaram punidos com suspensões de quatro e dois meses, respectivamente. Massimo Carrera ficou responsável pelo time durante o gancho simultâneo dos dois e, após ser liberado, Angelo comandou a Juventus até Antonio retomar o posto.

Como auxiliar, Alessio foi tricampeão nacional e acompanhou Conte nos seus dois trabalhos seguintes: na seleção italiana, entre 2014 e 2016, e no Chelsea, nos dois anos posteriores. Na Inglaterra, colaborou com os títulos da Premier League e da FA Cup.

Em janeiro de 2019, seis meses depois de deixar o clube de Londres juntamente a Conte, Alessio anunciou a “separação” do companheiro para trilhar de novo uma carreira solo como treinador. Desde então, tem girado o mundo: teve uma passagem semestral mediana pelo Kilmarnock, da Escócia, e, após ter sido sondado pelo Esteghlal, do Irã, foi anunciado em junho de 2021 como o novo técnico do Persija Jakarta, um dos mais antigos times da Indonésia.

Angelo Alessio
Nascimento: 29 de abril de 1965, em Capaccio Paestum, Itália
Posição: meio-campista e atacante
Clubes como jogador: Avellino (1984-87 e 1997), Juventus (1987-88 e 1989-92), Bologna (1988-89), Bari (1992-95), Cosenza (1995-97) e Modena (1997-98)
Títulos como jogador: Torneio de Verão (1986), Coppa Italia (1990) e Copa Uefa (1990)
Clubes como técnico: Imolese (2004-05), Massese (2006-07), Spal (2008), Kilmarnock (2019) e Persija Jakarta (2021)

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