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Tchau, Davide Astori

Começamos o domingo da pior maneira e agora escrevemos sobre o tipo de notícia que ninguém se sente confortável de levar: a da morte, principalmente a que chega de forma inesperada. Assim como na manhã do dia 29 de novembro de 2016, quando caiu o avião que transportava a delegação da Chapecoense e profissionais da imprensa, acordamos chocados e profundamente abalados com uma tragédia. O futebol está de luto: faleceu, aos 31 anos, o zagueiro Davide Astori, capitão da Fiorentina. Todas as partidas marcadas para hoje na Itália, pelas séries A e B, foram adiadas e novas datas ainda não foram definidas.

Astori foi encontrado sem vida no quarto do hotel em que a Fiorentina se concentrava para a partida deste final de semana, contra a Udinese. Segundo a assessoria de imprensa do clube e a procuradoria de Údine, que investiga o caso, os primeiros exames indicam que Davide faleceu enquanto dormia. A morte teria sido causada por parada cardiorrespiratória causada por motivos naturais, “ainda que pareça estranho que isto tenha acontecido a um esportista profissional, com saúde monitorada e sem quaisquer indícios detectados em exames”, nas palavras do procurador Antonio De Nicolo. A autópsia será realizada amanhã e confirmará o que acometeu o jogador, que deixa a esposa Francesca Fioretti e a filha Vittoria, de dois anos.

O defensor faleceu no hotel La’ di Moret – ironicamente, o mesmo local que abrigou Zico em seus primeiros dias em Údine e que havia sido palco de muitos momentos felizes. Nesta manhã, causou estranheza ao staff do clube o fato de o capitão, profissional exemplar e sempre pontual, não aparecer para o café da manhã com o grupo, marcado para 9h30. Principalmente porque o goleiro Sportiello, último a vê-lo na noite anterior, afirmava que ele parecia estar se sentindo bem enquanto disputavam algumas partidas no PlayStation. Alguns jogadores dormiam em quartos duplos e outros em aposentos simples: Davide era um dos que não dividia o cômodo com outros companheiros.

Neste momento, seus parentes estão se deslocando ao Friuli a partir de Bérgamo e Florença. Homenagens da torcida da Fiorentina já estão sendo realizadas no estádio Artemio Franchi e o clube também publicou um tributo em suas redes sociais. Outros clubes, a federação italiana e associações de classe também prestam condolências a Astori e seus entes queridos. Alguns, mais emocionados, chegaram a passar mal: caso de Diego López, atual técnico do Cagliari e colega de defesa de Astori no próprio clube sardo. Carlos Sánchez, atualmente no Espanyol, ficou atordoado ao receber, ainda em campo, a notícia da morte do ex-companheiro e pegou imediatamente após o final da partida um voo para a Itália. Gigi Buffon, Borja Valero, Claudio Marchisio, Ciro Immobile, Davide Calabria, Ignazio Abate, Manuel Pasqual e Massimiliano Allegri foram outros que deixaram mensagens emocionadas para Astori.

Segundo o dono da Fiorentina, Andrea Della Valle, o zagueiro iria renovar seu contrato com o clube amanhã: o caos climático havia adiado a reunião definitiva, que aconteceria na última quinta. Astori pretendia encerrar sua carreira em Florença.

Astori: a carreira

Nascido em San Giovanni Bianco, na província de Bérgamo, em 1987, Astori começou no Ponte San Pietro, equipe satélite do Milan. Observado pelos rossoneri, acabou concluindo sua formação como atleta na base milanista, onde aprendeu a idolatrar Alessandro Nesta. Não por acaso, utilizou o número 13 durante quase toda a extensão de sua carreira. Somente na Roma não teve a oportunidade de vestir a camisa em homenagem ao ex-jogador da Lazio.

Sem chances no Milan, Astori foi emprestado a Pizzighettone e Cremonese, que militavam na terceira divisão. Pela equipe de Cremona, o defensor se destacou bastante: aos 21 anos, em 2007-08, foi o jogador mais utilizado na campanha que culminou com a segunda posição no Grupo A da Serie C1. Os grigiorossi acabaram eliminados no play-off e baterem na trave pelo acesso.

Astori acabou se transferindo para o Cagliari, equipe em que se afirmou. Sob o comando de Massimiliano Allegri, se transformou em um dos jovens defensores mais seguros e cobiçados da Serie A: após chegar a jogar até improvisado na lateral esquerda, Davide virou titular quando Diego López já beirava os 36 anos. Marcou seu primeiro gol na Serie A, vejam só, contra a Fiorentina, em fevereiro de 2010.

O zagueiro lombardo se tornou a principal peça defensiva da equipe, que fez boas campanhas sob o comando de Allegri na elite. Após a saída do treinador, em 2010, Davide manteve o bom nível e recebeu as primeiras convocações para a seleção italiana, comandada por Cesare Prandelli. Uma lesão na fíbula, no final de 2011, fez com que ele tivesse dificuldades nos anos seguintes: seu rendimento caiu um pouco, junto ao de toda a equipe, mas ele ainda mantinha seu valor.

Mesmo não jogando tudo o que podia, Astori continuou a fazer parte da seleção. Foi cortado de última hora da Euro 2012, mas integrou o elenco italiano que disputou a Copa das Confederações, no ano seguinte. A Itália ficou com o terceiro lugar na disputa contra o Uruguai, após um jogo tenso e cobranças de pênaltis sob o sol de Salvador. O zagueiro marcou seu único gol pela Nazionale justamente naquela partida disputada na Fonte Nova: com o tento que abriu a contagem do empate por 2 a 2, foi o primeiro jogador do Cagliari a marcar pela seleção em 40 anos. O último havia sido o mitológico Gigi Riva. Ao todo, Astori fez 14 partidas com a camisa italiana.

Aos 27 anos, o zagueiro reforçou a Roma para a temporada 2014-15. Não foi titular da equipe de Rudi Garcia e teve passagem apagada, mas acabou sendo bastante utilizado na campanha do vice-campeonato giallorosso. Sua partida de estreia aconteceu contra a Fiorentina. Seu único gol foi anotado contra a Udinese.

Depois do parênteses em Roma, Astori assinou com a Fiorentina, equipe com a qual desenvolveria uma relação de amor. Subitamente se tornou titular da equipe treinada por Paulo Sousa e fez uma excelente temporada em 2015-16, ajudando a equipe a ficar com a quinta posição e uma vaga na Liga Europa. No segundo ano em Florença, o treinador português não conseguiu levar a equipe ao mesmo nível de atuações e acabou expondo a defesa a um número maior de erros. Ainda assim, a seriedade de Astori conquistou a torcida. Com a saída de Gonzalo Rodríguez e o aval de Manuel Pasqual, foi escolhido como capitão para a temporada 2017-18.

Na campanha em curso, Astori recuperou o nível do seu futebol. Era um dos melhores jogadores da Fiorentina na temporada e liderou a equipe em algumas boas sequências – como a de quatro partidas sem sofrer gols, no fim de 2017. Com a camisa da Fiorentina, estava prestes a fazer seu 300º jogo na Serie A – diante da Udinese, faria o 290º. Pelas boas atuações, o zagueiro voltou à seleção, com a qual fez sua última partida em setembro, contra Israel. No fatídico dia da queda contra a Suécia, o zagueiro era uma das opções no banco de reservas.

Fora dos campos, Astori era tido como uma pessoa exemplar, cultivada e muito gentil. Tinha gostos amplos: gostava de falar de viagens (foi assim que conheceu a esposa), amava arquitetura e também já tinha sido proprietário de um teatro e de uma sorveteria na Sardenha. O conhecimento em áreas diversas o ajudava no trato humano e a valorizar esta dimensão da vida. Por isso, havia recusado propostas de outras equipes e pensava em permanecer em Florença até encerrar a carreira.

Sua presença no elenco da seleção italiana durante tantos anos se devia também ao fato de ser um jogador de grupo. A qualidade estava ali: ele era bom em jogadas aéreas, no posicionamento tático e tinha técnica para iniciar as saídas de bola. Mas, sobretudo, Davide era um homem maduro, responsável e capaz de alegrar o ambiente. Sua ideia era continuar na seleção após o vexame e atuar como conselheiro dos mais jovens, como Caldara, Rugani e Romagnoli.

Conselhos. Disso ele gostava. Em sua última entrevista à Gazzetta dello Sport, Davide deixou dicas para os companheiros Cholito Simeone, Federico Chiesa e Nikola Milenkovic, sérvio que tinha como pupilo e do qual era uma espécie de tutor. A generosidade, seja auxiliando os mais jovens ou se sacrificando pelas cores que defendia, foi mesmo a marca de sua carreira. E é assim que lembraremos de Davide Astori.

1 comentário

  • Antigamente se falava muito na tal síndrome do coração de atleta, mas a morte de jogadores em plena atividade não era comum. Mas aí veio a morte do Serginho do São Caetano em campo dentre outras logo em seguida que precisariam todas serem lembradas junto com agora mais essa do Astori em concentração demostrando que os riscos de morte súbita entre os jogadores é muito maior do que se poderia estimar. Tenho certeza que todos os jogares que tiverem detectada alguma pequena anomalia em seus exames por amor ao esporte e a profissão de certo continuariam na curta carreira de jogador assumindo todos os riscos e eximindo o clube de qualquer responsabilidade, mas penso que a medicina esportiva precisa dar uma resposta sobre o tamanho desse risco.

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