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Figurinhas Panini: a Itália que vai para a Copa

Todo mundo viu o que aconteceu. No dia 13 de novembro do ano passado, a Itália empatou com a Suécia em um San Siro explodindo de gente. Pela primeira vez depois de 60 anos, o país não participa de uma Copa do Mundo.

Ou será que participa?

Em qualquer escola, escritório, banca e até nos lugares mais improváveis, uma parte importante da Bota está representada. O álbum da Copa é como um sino que anuncia: “o maior torneio do mundo está chegando” e não tarda para as trocas de figurinhas, as disputas no bafo e a busca incessante pelos cromos raros começarem.

Toda essa tradição é comandada há anos pela empresa que produz o álbum: a Panini, fundada na Emília-Romanha, no nordeste da Itália.

A família e o início

A história começa com um casal italiano e muitos filhos – oito, no caso. Antonio e Olga se mudaram para Módena em 1934: o marido foi trabalhar na Academia Militar e contou com a companhia da esposa e de sua prole. Sete anos depois da chegada dos Panini, Antonio faleceu. Olga juntou então as economias para, mais à frente, comprar uma pequena banca de revistas no centro da cidade. Não tardou para os filhos assumirem o negócio.

Com tantos irmãos, também viriam muitas ideias. A primeira delas foi um jornal fundado por Benito e Giuseppe Panini. Tempos depois, os dois começariam o que seria realmente a grande virada na história da família: as figurinhas.

No final dos anos 1950, em uma viagem para Milão, os irmãos encontraram um lote de figurinhas antigas, fabricadas por uma editora chamada Nannina. Assim, resolveram sem muitas pretensões, organizar aqueles cromos em pacotinhos e levá-los à venda em Módena.

O começo de tudo: as figurinhas Nannina

O sucesso foi absoluto. Tanto que os Panini trabalhavam para começar suas próprias produções já em 1961, fabricando tudo em um laboratório na cidade, o que quintuplicou as vendas. Assim nasceu a primeira e histórica coleção da família que virou banca e agora já atendia por empresa: a série “Calciatori” trazia os elencos da Serie A italiana na temporada 1961-62.

Envergando a camisa do Milan, o meio-campista sueco Nils Liedholm foi o jogador escolhido para estrelar a capa do álbum. Enquanto o interista Bruno Bolchi, que também atuava na meia cancha, foi o primeiro jogador a ter sua figurinha impressa na gráfica Panini – criando assim um pequeno dérbi na publicação.

Nils Liedholm na capa do álbum e equilibrando a bola na imagem acima, enquanto Bruno Bolchi posa em imagem ao lado de sua clássica figurinha

Na disputa das figurinhas mais valiosas, no entanto, foi um jogador de outro time da Lombardia que roubou a cena. O cromo do goleirão Pier Luigi Pizzaballa foi considerado pela família Panini a primeira figurinha rara da produção e virou uma lenda, aparecendo até hoje em matérias e listas como a figurinha mais preciosa do mundo futebolístico.

A explicação para isso envolve um pouco daquela ansiedade de completar o livrinho. O álbum sempre é organizado de forma alfabética e o goleiro é a primeira figurinha da página. Sendo assim, a Atalanta vinha antes de todos e Pizzaballa era a primeira figurinha a ser colada. Tapar aquele espaço do álbum era a primeira vontade de todos que o compravam e assim começaram as buscas pelo arqueiro. Essa história chegou até a inspirar um livro de nome “Pizzaballa ti odio”, facilmente traduzido para “Pizzaballa, te odeio” escrito por Massimo Volpi.

O goleiro Pier Luigi Pizzaballa em jogo, na figurinha e segurando o legendário cromo

O tamanho dessa repercussão mostra também o alcance que a Panini tinha no início da caminhada com as figurinhas. Alcance ampliado por homenagens feitas no final dos álbuns: o primeiro deles teve figurinhas especiais do Grande Torino, desaparecido em 1949 após um acidente aéreo, e os subsequentes tinham estampas relacionadas às copas europeias e torneios mundiais.

Além de completar os álbuns, as pessoas guardavam os cromos de seus jogadores favoritos como santinhos e símbolos da sorte, deixando sempre um lugar reservado na carteira para seu Gianni Rivera ou Sandro Mazzola.

Os novos voos e a revolução

Já estabelecida como empresa de figurinhas, a Panini precisava de um símbolo e foi buscá-lo na história do futebol italiano, mais especificamente em um jogo de 1950 entre Fiorentina e Juve.

O placar estava em branco e a bola viajava em um lançamento preciso para Egisto Pandolfini, atacante da viola, que ficaria livre para fazer o gol. Mas no meio do caminho surgiu o líbero juventino Carlo Parola. Com um plástico voleio, o defensor cortou o lance e decretou o zero no marcador.

A antológica jogada de Parola

O jornalista Corrado Banchi fez a foto que rodou o mundo e aterrissou na história italiana, descrevendo a cena como: “um voo no céu”.

Na metade da década de 1960, a Panini se inspirou na imagem para criar o ícone de todas publicações futebolísticas na empresa, um selo da editora. No entanto a camisa “bianconera” foi substituída por uma mais imparcial, na cor vermelha.

Adaptação do voleio de Parola que foi para os álbuns

A mania das figurinhas só crescia e ganhou mais força ainda em 1973. O ano marcou uma revolução na indústria e todos os cromos passaram a ser autoadesivos. À época, os escudos das equipes das séries A, B e C já eram brilhantes. Ainda nos anos 1970, a empresa experimentou até mesmo figurinhas dos brasões dos clubes impressas em jeans.

Não demorou para muros, cadernos, carros, quartos e qualquer lugar com o mínimo de espaço receber uma figurinha, agora tão fácil de ser colada.

Da paixão às cifras

Na infância, as figurinhas eram o fascínio de Giuseppe Panini. Quando adulto, a paixão virou negócio.

O produto mais recente da empresa, o álbum do Mundial de 2018, inclusive foi muito criticado pelos brasileiros por conta dos preços dos pacotinhos. Eles subiram em percentuais superiores aos da inflação, se comparados aos da edição da última Copa do Mundo.

Uma reportagem de Gabriela Sarmento para o portal G1 fez a contas e explicou como os colecionadores terão vida mais dura e gastarão mais neste ano. A inflação em quatro anos foi de 28,05%, enquanto a alta no preço do álbum foi de 33,9%. O valor do pacote com cinco figurinhas ainda aumentou em 100%, o que gerou uma alta de 113,13% no custo mínimo para completar o álbum.

O mais recente álbum, o da Copa de 2018, ainda tem o jogador voando para acertar a pelota

 

 

As edições da Copa do Mundo viraram carro-chefe da empresa. A Panini é responsável pela publicação do álbum oficial da competição desde 1970. Pela primeira vez, o produto não terá a seleção de seu país de origem em suas páginas.

Assim, enquanto os italianos sofrem pela decepção de não se verem no álbum, os brasileiros sofrem para preenchê-lo.

“Intercâmbios” e o retorno à Módena

A Panini deixou de ser administrada pela família em 1986 e deixou também de ser italiana no mesmo ano. A companhia inglesa Maxwell comprou a empresa dos irmãos e imprimiu uma gerência australiana.  Desinteressado pela cultura italiana, o CEO só falava inglês e a nova diretoria penou para desenvolver uma administração eficiente.

Os anos 1990 trouxeram turbulências para a editora, que mudou de comando algumas vezes, até voltar à Itália no final da década e conseguir se restabelecer. A sede da empresa hoje retornou à Módena, cidade com uma longa história esportiva. Foi lá que nasceu o fundador da icônica escuderia vermelha na Fórmula 1, Enzo Ferrari. Também no mesmo local se estabeleceu o time de vôlei com maior sucesso no país, o Modena Volley.

Nos campos de futebol, o time da cidade passou a maior parte de sua existência na Serie B e teve sua última aventura na elite na temporada 2003-04. Hoje, os gialloblù enfrentam um momento delicado. Em 2017, o Modena declarou falência e foi excluído da terceira divisão em novembro. Terá de reiniciar das divisões amadoras.

Três representantes de Modena: à esquerda e na parte de cima, Enzo Ferrari; em baixo, o Modena Volley do brasileiro Bruninho; e à direita, o “enterro” do Modena Calcio, recentemente falido

Volta ao mundo

Olga e Antonio podiam não imaginar, mas seu sobrenome conquistou o mundo todo. A Panini chegou a 130 países e virou o que Raul Seixas chamaria de “metamorfose ambulante”. Mesmo que tenha mudado de gerência algumas vezes, perdendo parte daquele romantismo e focando cada vez mais nas cifras.

Mesmo assim, com tantas histórias e milhares de acontecimentos depois, as figurinhas ainda têm a força para causar uma enorme ansiedade na abertura de um pacotinho; de oferecer uma satisfação instantânea a cada página completada e a de propor as mais diversas interações entre pessoas de diferentes idades.

Um poder de socialização desse jeito é realmente raro de se ver. Raro, talvez, como uma figurinha do “odiado” Pizzaballa.

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