Serie A

O sucesso de Kamil Glik abriu portas para a nova geração da Polônia no futebol italiano

Vice-capitão da Polônia, Kamil Glik é um dos líderes da principal geração polonesa desde a dos anos 1970 e 1980 liderada pelos habilidosos Grzegorz Lato e Zbigniew Boniek, que levou as águias a duas terceiras posições em Copas. Assim como Zibi, meia-atacante que passou Juventus e Roma, o zagueiro marca um ponto de virada para os seus compatriotas no futebol italiano. Mais de duas décadas separam a aposentadoria do “belo da noite” e a estreia de Glik, e desde então a presença de poloneses no Belpaese cresceu exponencialmente.

É provável que a Polônia nunca tenha revelado tantos bons jogadores em termos de quantidade e qualidade quanto hoje em dia: o resultado disso é que 18 dos pré-convocados para a Copa do Mundo atuam nas cinco principais ligas da Europa. Nove deles jogam na Itália e outros três já representaram clubes pelo Belpaese. Na lista final, sobraram sete atletas da Serie A e dois que já disputaram o campeonato.

O fim da geração de Lato e Boniek gerou um vácuo no futebol polaco, que sofreu muito durante os anos 1990 e início dos anos 2000 com atletas de muita força física e técnica quase inexistente. O desejo de voltar aos bons tempos mudou a forma de se revelar jogadores no país.

A disciplina e a força, que sempre foram o forte em todos os esportes em que a Polônia vai bem, continuam valorizadas, mas há espaço para o aprimoramento nos passes – num modelo muito similar ao da Alemanha. O futebol italiano ganha com o fato de que parte desses jogadores possam amadurecer na Serie A. O intercâmbio tem sido muito positivo para o campeonato, já que os polacos têm impactado na competição.

Ainda hoje o polonês com mais presenças na Serie A é Boniek, que jogou por Juventus e Roma entre 1982 e 1988, inicialmente acompanhado pelo zagueiro Wladyslaw Zmuda, que não teve a mesma sorte jogando por Verona e Cremonese. Até Glik acertar com o Palermo, em 2010, foram registrados pouquíssimos casos de outros jogadores polacos no Campeonato Italiano: somente três nos anos 1990 e mais três no início dos anos 2000.

Em tempos de Roma, Boniek posa ao lado do alemão Rudi Völler (PAP/DPA)

Glik teve um semestre com pouquíssimas oportunidades no Palermo e logo mudou de ares: estreou pelo Bari em janeiro de 2011. O forte zagueiro tinha em seu currículo uma passagem pelo segundo time reserva do Real Madrid e o fato de ter sido o primeiro jogador do Piast Gliwice a ser convocado pela seleção polonesa. Nos primeiros meses de Itália, mostrou que isso não era suficiente: agressivo, por vezes até violento e destemperado, cometia muitas faltas e levava cartões em profusão. Foram quatro amarelos e um vermelho em 16 jogos.

Após a experiência sem sucesso no sul do país, Glik tinha poucos admiradores. Um deles, porém, era especial: Gian Piero Ventura, que o treinou no rebaixado Bari por um mês. O polaco seguiu o técnico rumo ao Torino, clube em que se tornou titular alguns meses depois. Vestindo grená, se revelou um outro jogador e mais tarde viraria referência: em 2013, recebeu até a faixa de capitão, que utilizaria por três temporadas. Glik foi apenas o terceiro jogador estrangeiro a ostentar a braçadeira, após os suíços Friedrich Bollinger e Heinrich Bachmann, nas décadas iniciais do século XX.

No verão de 2016, após ajudar o Toro a se livrar de um jejum de duas décadas sem vencer a rival Juventus e a voltar às competições europeias após 21 anos, o zagueiro foi vendido para o Monaco. No total, Glik realizou 171 partidas pela equipe granata.

Enquanto o zagueiro se afirmava em Turim, um talentoso trequartista crescia em Údine, estreando na primeira divisão no final de 2012. Se trata de Piotr Zielinski, hoje um importante jogador no sistema de rotação do Napoli, como arma para descansar Marek Hamsík e Lorenzo Insigne. Desde que permaneça na liga na próxima temporada, será o polonês com mais presenças na elite do futebol italiano. Com contrato até 2021 e muito bem avaliado em Nápoles, isso parece uma questão de tempo.

O meia, inclusive, deverá atingir o objetivo com um compatriota ao lado: Arkadiusz Milik. Enfim recuperado de lesão, o centroavante voltou em boa forma no final da temporada e certamente trouxe algum alívio para o treinador da seleção polonesa, que conta com seus serviços ao lado do craque Robert Lewandowski. Pelo Napoli, foram quatro gols nas últimas oito rodadas, com a impressionante média de um tento a cada 88 minutos.

A utilidade de Zielinski também ajudou a ampliar o número de jogadores poloneses na Itália (Getty)

Milik, porém, não chegou ao Belpaese graças a um trabalho de prospecção de talentos, como os que levaram Glik ao Palermo e Zielinski à Udinese. O mesmo vale para Wojciech Szczesny, certamente o mais conhecido entre os 12 jogadores poloneses que estão na Serie A atualmente. O ex-goleiro do Arsenal teve duas boas temporadas na Roma, deu conta do recado ao substituir Gigi Buffon em vários jogos na última temporada e agora se prepara para virar o titular juventino.

Apesar dos momentos positivos de Szczesny e Milik, a busca por jovens do país do Leste Europeu é que tem chamado a atenção nos últimos anos. De 2009 para cá, 15 atletas polacos que eram desconhecidos dos grandes centros estrearam por clubes da Itália – essa lista não conta nomes estabelecidos, como os citados acima ou os experientes Artur Boruc e Jakub Blaszczykowski.

Apesar dos flops Rafal Wolski, Pawel Wszolek, Bartosz Salamon, Tomasz Kupisz e Kamil Wilczek, que prometiam quando desembarcaram na Itália, mas não atingiram o potencial esperado, vários outros jogadores poloneses tiveram – e estão tendo – sucesso na Serie A. Outros vem sendo observados e até já passaram pelas categorias de base de alguns clubes (especialmente a Udinese), que têm ficado atentos cada vez mais cedo às revelações da liga polaca.

Entre os goleiros, destaca-se outro nome com passagem pela Roma, como Szczesny. Lukasz Skorupski jogou com Zielinski no Empoli e viveu duas boas temporadas antes de retornar de empréstimo para a capital, ficando na sombra de Alisson neste ano. Aos 27 anos e no auge da sua carreira, sua exclusão da lista final da Polônia surpreendeu, já que ele é um dos melhores goleiros da Serie A. Talvez tenha pesado a falta de ritmo de jogo: o próprio jogador deixou claro que quer jogar mais e tem recebido sondagens de Sampdoria, Genoa, Bologna, Fiorentina e Atalanta. Na mesma posição, o garoto Bartlomiej Dragowski ainda não cumpriu as expectativas criadas pelos jogadores do game Football Manager, onde é um fenômeno. Aos 20 anos, foi reserva de Marco Sportiello na Fiorentina.

Outro jovem da mesma geração de Dragowski é o centroavante Dawid Kownacki. O jogador já era bem avaliado – foi contratado por 4 milhões junto ao Lech Poznan – e teve uma boa primeira temporada na Sampdoria, a ponto de ser convocado para a Copa do Mundo. O capitão do time sub-21 polaco conseguiu um espaço significativo na Samp, apesar de disputar vaga com o Fabio Quagliarella e Duván Zapata. Atacante de bons recursos técnicos e forte fisicamente, segue o perfil de Patrick Schick e nessa temporada teve uma das melhores médias de gols por minuto: um a cada 162.

Linetty e Bereszynski, dupla de sucesso da Sampdoria (AP)

O lado blucerchiato de Gênova, aliás, virou um lugar especial para os poloneses na Serie A: atualmente três jogadores do país fazem parte do elenco. O segundo deles é o volante Karol Linetty, outro jovem talento observado no Lech Poznan. O meio-campista fez mais uma boa temporada sob o comando de Marco Giampaolo e recuperou sua posição depois de período lesionado no final do primeiro turno. Versátil e dinâmico, é um jogador muito interessante e importante para o sistema do time.

O terceiro polaco doriano é objetivo de Napoli e Inter para a próxima janela. O lateral direito Bartosz Bereszynski chamou atenção rapidamente na Itália, depois de chegar do maior clube do seu país, o Legia Varsóvia, em janeiro de 2017. Muito potente e competente em termos defensivos, lembra outro lateral-direito de saída da Serie A: Stephan Lichtsteiner. Na sombra do veterano Lukasz Piszczek, que vem acumulando problemas físicos nos últimos anos, Bartosz é um dos candidatos a surpresa do próximo Mundial.

A seleção polonesa que irá para a Rússia terá também tempero brasileiro – com pitadas italianas. O curitibano (óbvio) Thiago Cionek também está bem cotado na seleção de Adam Nawalka. Revelado pelo Cuiabá, teve passagem de quatro temporadas pelo Jagiellonia antes de se mudar para o Belpaese, onde fez carreira. De 2012 para cá, defendeu Padova, Modena, Palermo e, finalmente, Spal: foi em Ferrara que se destacou mais, especialmente no segundo turno da Serie A, e deu sua contribuição para a permanência do clube na elite. Aos 32 anos, soma 180 partidas entre as duas primeiras divisões da Bota.

Para completar a lista de polacos que atuam no Belpaese, temos uma dupla direto da cidade de Romeu e Julieta. Contratados no verão passado, o centroavante Mariusz Stepinski e o lateral-esquerdo Pawel Jaroszynski acabaram não entrando na pré-lista de Nawalka, mas fazem parte da sua seleção e deverão receber oportunidades depois do Mundial. Os jogadores do Chievo têm 23 anos, começaram a temporada na reserva e conquistaram espaço no final, deixando boa impressão com o então treinador interino Lorenzo D’Anna – contratado em definitivo. A titularidade é questão de tempo.

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