Liga dos Campeões Serie A

Fora da disputa pelo título que cobiçava, Juve ganhará octa como ‘prêmio de consolação’



“Octacampeã, Juventus amplia recorde enquanto pensa na Champions League”. Este era o título do texto que estava pronto para sair no último sábado, 13 de abril, quando a Juve enfrentou a Spal. Bastava pontuar para garantir o scudetto com seis rodadas de antecipação. Não pontuou e o Napoli não tropeçou diante do rebaixado Chievo para lhe entregar a taça de lambuja (de novo). O futebol, dinâmico que só ele, fez o panorama dos bianconeri mudar radicalmente em apenas quatro dias. Afinal, a Velha Senhora levou um vareio do Ajax, em Turim, perdeu por 2 a 1 e está fora da disputa pelo troféu da Liga dos Campeões, que era o maior objetivo da temporada. O octacampeonato, pedra cantada há meses, terá um sabor diferente: o de prêmio de consolação.

O texto do sábado, que nunca será publicado em seu teor original, tinha a seguinte sentença em seu parágrafo introdutório: “A Velha Senhora terminou a última campanha como favorita para o título de 2018-19 e só amplificou seu favoritismo quando, na reta final da Copa do Mundo, anunciou a contratação de Cristiano Ronaldo. Falta, agora, chegar ao topo da Europa”. Bem, essa lacuna continuará aberta pelo menos até 2020.

No momento, a discussão é outra: a temporada juventina pode ser considerada um fracasso? Massimiliano Allegri defende que não houve decepção, garante que permanece para a próxima temporada e a diretoria ratifica as suas palavras. No entanto, os jornais italianos são taxativos: o Corriere dello Sport fala em “apocalipse”; a Gazzetta dello Sport trata a queda como “grande lição”.

Em torno de algo, porém, todos concordam: foi para vencer a maior competição de clubes europeia que a família Agnelli investiu tanto (cerca de 240 milhões de euros) e, sobretudo, tirou Ronaldo do Real Madrid. Foi pensando na partida de volta contra o Ajax que Allegri poupou meio time diante da Spal – Rugani, Matuidi, Pjanic, Ronaldo e Mandzukic não foram nem relacionados – e, após o resultado negativo, esnobou os recordes que a sua equipe poderia bater. O toscano disse que os pontos conquistados bastariam para que a Velha Senhora fosse campeã – o que é verdade –, mas praticamente condicionou a abordagem mais frouxa no campeonato local à força máxima e classificação às semifinais, o que não ocorreu. Portanto, não dá para classificar a temporada como um sucesso retumbante. O gosto é agridoce.

Agora, a Juve irá encerrar 2018-19 com o scudetto e o título da Supercopa Italiana, mas eliminações pesadas na Coppa Italia e na Champions League, em duelos em que foi dominada por Atalanta e Ajax, equipes com conceitos e aplicações similares. A Juventus ainda será a primeira octacampeã dos cinco maiores campeonatos europeus, feito que dificilmente será repetido ou igualado.

Contudo, a gigante desperdiçou a chance de ser a primeira equipe a faturar o título da Serie A com seis rodadas de antecedência – pode, no máximo, se igualar a Torino (1947-48), Fiorentina (1955-56) e Inter (2006-07), com cinco jornadas de antecipação. A Vecchia Signora também não pode mais quebrar o recorde de pontos da Serie A, que é de 102, estabelecida por ela mesma em 2014. No máximo, o igualará – e se garantir 100% de aproveitamento contra adversários duros, como Fiorentina, Inter, Torino, Roma, Atalanta e Sampdoria.

Pela primeira vez desde 2010, CR7 não passou das quartas de final da UCL: isso seria sinal de fracasso juventino? (LaPresse)

Seria um disparate dizer que a torcida bianconera não liga para o scudetto – afinal, quem não comemoraria um octacampeonato? –, mas está claro que a tifoseria deseja que a soberania em território nacional seja acompanhada por títulos continentais. Isso quase aconteceu em 2015 e 2017, quando a Juventus foi vice-campeã europeia, mas passou longe de ocorrer no ano que deveria ser o do salto, com a chegada de Ronaldo, o “senhor Liga dos Campeões”, ao clube.

Passou longe não só porque a Juve foi eliminada precocemente, nas quartas de final, mas porque foi amplamente dominada pelo Ajax na ida e na volta. E, também, porque a queda poderia ter acontecido na fase anterior, contra o Atlético de Madrid. A tripletta de CR7 naquele que foi o o melhor jogo do craque pelo clube e a principal atuação da própria Juventus na temporada salvou os bianconeri de uma eliminação melancólica, já que o time de Turim foi absolutamente incolor no Wanda Metropolitano.

Em casa, a sucessão de títulos faz a Juventus se distanciar cada vez mais das suas maiores rivais: com 35 scudetti, o time de Turim tem praticamente o dobro de taças que Inter e Milan somados (são 36, 18 de cada). Como os torcedores consideram legítimos os dois troféus cassados por causa do Calciopoli, para eles esta conta já está consolidada. No contexto atual, o abismo que separa a Velha Senhora das rivais, a certeza de que o título seria conquistado com antecedência e o fato de a eliminação na UCL ter acontecido dias antes da provável confirmação matemática do scudetto podem fazer com que os festejos fiquem mais comedidos do que em anos anteriores.

Compreensível, já que a campanha do oitavo título seguido da Juventus foi aquela em que a equipe elevou à máxima potência o porte da superioridade que construiu ao longo dos anos. Um primeiro dado que deve ser colocado em análise é a quantidade de pontos feitos pelo elenco atual e o de 2011-12. Em 2018-19, a Juve chega à 33ª rodada com 84 pontos, o mesmo número que somou em toda a campanha de sete anos atrás, quando Antonio Conte e seus pupilos abocanharam o primeiro scudetto da sequência. Naquela ocasião, a Velha Senhora não tinha o elenco mais brilhante do país, mas foi sólida e garantiu o título na penúltima rodada, ficando apenas quatro pontos acima do Milan. Depois disso, voou em céu de brigadeiro por alguns anos, chegando a concluir campanhas com 17 pontos de vantagem sobre a vice – como ocorreu em 2014-15 e 2015-16, contra a Roma.

O ponto de inflexão ocorreu na temporada passada. Em 2016-17, a Juventus havia terminado novamente o campeonato com apenas quatro pontos de vantagem (sobre a Roma, mais uma vez), mas o contexto lhe era amplamente favorável. Tanto é que os giallorossi chegaram a vencer o confronto direto na 36ª rodada e isso não influenciou em nada, visto que os bianconeri tinham gordura para queimar e adversários acessíveis na reta final. Em 2017-18, sim, a Juve teve um desafio maior até do que o superado na campanha do primeiro título, que devolveu o orgulho a uma torcida que amargou o rebaixamento e anos de vacas magras.

O Napoli de Maurizio Sarri liderou grande parte do campeonato e apenas na reta final a Juventus de Allegri conseguiu a reviravolta e o sétimo scudetto. Os números mostram o quão difícil foi para a Velha Senhora superar o rival: o time partenopeo foi um dos 10 que superaram os 90 pontos na Serie A e foi o vice-campeão com o maior aproveitamento da história da competição. O que é notável é que, de um ano para o outro, a Juve passou de um contexto em que, quase a fórceps, assegurou o título mais suado da sequência, para um panorama de tranquilidade total: o oitavo scudetto foi, de longe, o que exigiu o menor esforço por parte dos bianconeri.

Nesta temporada, Allegri não conseguiu fazer a Juve render ao máximo em nível europeu (Getty)

A Juventus se deu ao luxo de poupar Cristiano Ronaldo em diversas rodadas, sem que isso prejudicasse o seu nível de atuações ao longo da Serie A. Não foi só CR7. Allegri descansou Chiellini, Bonucci, Szczesny e Pjanic várias vezes, não precisou antecipar nenhum retorno de jogador lesionado (que o digam Spinazzola, Barzagli e Cuadrado), rodou o elenco o máximo que pode e não repetiu nenhuma escalação na temporada.

A Velha Senhora também se deu ao luxo de pensar em emprestar Kean, o mais jovem jogador a marcar em quatro rodadas consecutivas na era dos três pontos por vitória, iniciada em 1994. Moise ficou encostado no elenco até entrar em campo pela primeira vez em outubro, quando a Juve já vencia o Young Boys por 3 a 0, na UCL. Depois, ganhou míseros três minutos no início de dezembro e no final de janeiro, nas vitórias pelo mesmo placar contra Fiorentina e Chievo, e apenas em março, na 27ª rodada, quando o elenco viveu uma crise de lesões, foi a campo como titular.

Kean fez dois gols contra a Udinese e emendou seis jogos seguidos balançando as redes, entre clube e seleção, ratificando o quão superior a Juve é, em termos de elenco perante seus adversários. Qual outro time pode guardar uma carta dessas na manga por tanto tempo, sem prejuízo? Kean, vale lembrar, também anotou no jogo contra a Spal, ocasião em que Allegri preferiu correr o risco de adiar o título a cansar seus jogadores mais experientes: mandou a campo vários reservas e parte da garotada do sub-23, que disputa a Serie C.

O elenco recheado, que dá a seu treinador inúmeras possibilidades de adaptação, conforme o adversário da vez, é fruto de boas escolhas de mercado feitas por Fabio Paratici e, anteriormente, Giuseppe Marotta. Mas são opções feitas por uma agremiação que, convenhamos, tem um capital muito superior ao de seus principais rivais locais – com exceção de um, e só mais recentemente.

A Juventus faz parte do grupo Exor, que controla ou é acionista majoritário de Fiat, Chrysler, Alfa Romeo, Jeep, Dodge, Lancia, Maserati, Ferrari, Iveco, Case, New Holland, Magneti-Marelli, The Economist e La Stampa – além de já ter comandado o Corriere della Sera. A fortuna da família Agnelli só é comparável, no futebol italiano, às posses de Jindong Zhang, chefão da Suning e da Inter. No entanto, o aristocrático clã de Villar Perosa exerce enorme influência na sociedade do Belpaese há quase dois séculos, e se dedica com fervor à Juve desde o início da década de 1920. Zhang ainda é um diletante, em comparação.

O enorme fluxo de capital juventino não é apenas hereditário. A Juve tem a gestão mais profissional do país, e ostenta planejamento e estrutura invejáveis. É um time organizado dentro e fora de campo, como salientamos três anos atrás, quando Allegri ganhou seu primeiro scudetto bianconero, o quinto da fila. As palavras daquela época continuam valendo. “Não há dúvidas: a Juventus é o time mais bem administrado do futebol italiano. Em qualquer um dos campos que estão relacionados com o gerenciamento de uma entidade esportiva, a gigante de Turim é superior a suas adversárias mais próximas”.

Bilionário, Andrea Agnelli investiu bastante, mas ainda não conseguiu fazer a Juve conquistar a Europa (Arquivo/Juventus)

A hegemonia construída gera algumas discrepâncias. A Juventus raramente se caracterizou por amassar adversários, aplicar goleadas históricas e apresentar futebol plástico. O seu histórico é o de um futebol dominante e pragmático, no qual os atletas costumam administrar os resultados sem correr grandes riscos, chegando a se pouparem fisicamente.

Allegri manteve essa tradição na atual temporada – a própria rotação de elenco foi uma forma de fazê-lo – e a qualidade de seu grupo fez com que grande parte dos seus compromissos se resolvessem com rapidez. A Velha Senhora sempre passou a impressão de que estava se guardando para jogar mais e atingir um nível que já havia demonstrado anteriormente, sob a batuta do treinador toscano. Com Ronaldo, então, a expectativa era de ascensão.

Quando chamada em causa, a equipe correspondeu com algumas grandes atuações, como no primeiro turno da Serie A, diante de Napoli, Milan e Fiorentina, ou nas noites europeias contra Manchester United, na Inglaterra, e Atlético de Madrid, na Espanha. À parte Ronaldo e seus cinco gols no mata-mata da Champions League, contudo, a Juventus ficou devendo quando foi trucada. Ajax e Atalanta fizeram isso de forma mais flagrante – e conseguiram resultados positivos – mas mesmo o Genoa surpreendeu o time de Turim ao marcar alto.

A inexistência de uma anti-Juve, uma equipe realmente competitiva em termos de pontos corridos, fez diferença, negativamente, para a própria equipe de Turim. Faltou base de comparação, uma luz-guia que a fizesse apertar o passo. O  Napoli precisou se readaptar a um novo treinador e teve uma largada mais complicada em 2018-19, o que impossibilitou uma competição ferrenha como a do ano passado. Apontada como terceira força, a Inter também não teve fôlego para acompanhar a líder. Entre uma das causas para tal inconsistência, podemos apontar os problemas disciplinares e de rendimento de Nainggolan, Perisic e Icardi em fases distintas da campanha da Beneamata.

Diante de uma gigante com elenco entrosado, extenso e qualificado, como o da Juve, um candidato a rival precisa estar sempre próximo ao máximo de suas capacidades. Em mata-mata, tais abismos podem ser contornados de forma episódica, mas em uma competição de 10 meses de duração, tal feito é quase impossível.

A Juventus tem jogado para o gasto na Itália desde a virada do ano e isso não lhe causou problemas em solo nacional. A gordura acumulada e a postura hegemônica fizeram com que a equipe se desse ao luxo de ter, com larga vantagem, o melhor aproveitamento desde janeiro até aqui – mesmo que sua última atuação exuberante tenha acontecido em 1º de dezembro, num 3 a 0 contra a Fiorentina. O Ajax mostrou que, para competir na Europa, isso não era suficiente. Faltou à Velha Senhora uma descarga de adrenalina, na acepção menos enviesada da palavra: faltou à equipe um solavanco causado pelo hormônio responsável por preparar o organismo para a realização de grandes feitos.



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