Serie A

Quais as semelhanças entre a Atalanta que fascina a Itália e o Ajax que encantou a Europa?

A Atalanta tem sido uma das equipes mais interessantes de se assistir no futebol europeu nos últimos anos e muito se deve ao trabalho tático realizado pelo treinador Gian Piero Gasperini, que montou um time que chama a atenção por muitos fatores ofensivos e o bom trabalho de troca de passes. Antes disso, comandante e diretoria participam juntos da captação de talentos espalhados pelo continente e agregam valor à forte base e, claro, ao elenco principal dos nerazzurri. Jogadores como os da foto que abre o texto: o lateral direito Hans Hateboer e o volante Marten De Roon, que hoje fazem parte da seleção holandesa.

A presença da dupla de selecionáveis da Oranje não é a única ligação que tem sido feita entre a Atalanta e os Países Baixos. Nas últimas semanas, os contemporâneos sucessos da Dea na Serie A e na Coppa Italia e da equipe do Ajax na Eredivisie, na Copa da Holanda e, sobretudo, na Champions League, fizeram com que comparações entre os dois times emergissem. Dessa forma, aproveitamos o gancho para trazermos um texto sobre as semelhanças e as diferenças que notamos entre as equipes.

Adaptado a Bérgamo, Rafael Toloi é um dos principais vetores de saída de bola da Atalanta (LaPresse)

Semelhanças

Zagueiros com boa qualidade no passe

A Atalanta tem em seu elenco zagueiros com características distintas no que tange a porte e potência físicas e estilo de jogo, por exemplo. Contudo, o que todos em comum é a boa qualidade no passe. Confira as médias de passes certos dos defensores da equipe nerazzurra:

Rafael Toloi: 47,8 passes certos por jogo, com 84% de aproveitamento;
Andrea Masiello: 47,1 passes certos por jogo, com 87% de aproveitamento;
Gianluca Mancini: 38,6 passes certos por jogo, com 83% de aproveitamento;
José Luis Palomino: 37,7 passes certos por jogo, com 88% de aproveitamento.

Já o Ajax de Erik Ten Hag efetua uma rotação menor nos zagueiros de seu elenco e tem atuado em grande parte da temporada com De Ligt e Blind como sua dupla de titular. Os dois são bem distintos em estatura e estilo de jogo, mas semelhantes na qualidade criativa. De Ligt costuma procurar passes mais curtos, mas com muita eficiência, e Blind trabalha com qualidade nos passes verticais. Veja as médias de passes certos dos dois:

Daley Blind: 69,5 passes certos por jogo, com 88% de aproveitamento;
De Ligt: 59,5 passes certos por jogo, com 89% de aproveitamento.

Jogo apoiado e liberdade de circulação em campo ofensivo

No que entendo do conceito, o jogo apoiado consiste em oferecer opções de passe a um companheiro sempre que possível, formando triangulações nos setores, trabalhando com volume na posse de bola e construindo, dessa maneira, um jogo mais fluído, contínuo. Atalanta e Ajax tem o jogo apoiado em seu repertório, mesmo que o trabalhem de maneiras distintas.

Na Atalanta, temos constantemente a saída de bola sendo trabalhada no módulo “3 + 2”, com o trio de zaga interagindo com Freuler e De Roon e os alas sendo projetados ao ataque. No campo ofensivo Papu Gómez, Zapata e Ilicic promovem assimetrias a todo instante. Com isso quero dizer que o trio ofensivo da Atalanta busca criar o desequilíbrio e tirar, com uma grande frequência, a referência dos defensores. Dessa maneira, cria situações de vantagem seja com dois contra um ou mesmo no mano a mano.

Outro ponto importante no ataque da Dea é o modo como Freuler e De Roon trabalham a ajuda ofensiva. Os dois têm uma coordenação incrível no modo como buscam atacar. Geralmente, quando um sobe ao ataque o outro espera para ser ativado do lado contrário, com seu respectivo ala.

No Ajax de Ten Hag, principalmente após eliminar o Real Madrid, a liberdade posicional tem sido algo trabalhado de forma magistral. As assimetrias são ainda mais intensas por De Jong ser o jogador que recebe a bola entre os zagueiros e sempre acompanha a jogada em seu “lado forte”, enquanto Van De Beek ataca os espaços, sempre buscando pisar na área adversária. Tadic funciona como um 9 muito móvel, que atrai a atenção dos defensores em muitos momentos e, desse modo, consegue liberar espaço para o ataque em diagonal de David Neres e Ziyech.

A mobilidade de Tadic e seus movimentos são fundamentais para a fluidez ofensiva do Ajax. Isso nos leva a mais uma semelhança entre as equipes: os desmarques de apoio.

Desmarques de apoio

Explicar o conceito dos desmarques em texto pode ser um tanto complicado: o ideal é uma demonstração prática para um melhor entendimento. Porém, tentando utilizar um ponto de vista voltado ao ensino nas escolinhas de futebol, podemos definir que os desmarques de apoio são, basicamente, movimentos sem bola na busca por ajudar o companheiro a realizar o passe.

Receber a bola estando marcado é complicado e representa um risco para a equipe. Portanto, é necessário que o jogador que esteja sem a posse da pelota busque a movimentação e tente ficar livre do adversário, deixando o companheiro em condições de realizar um passe mais seguro e eficaz. Os desmarques de apoio trabalham na busca por criar linhas de passe.

A Atalanta utiliza muito os desmarques de apoio na figura de Zapata. É muito comum que o centroavante colombiano retorne de uma zona mais avançada para fazer a parede, oferecendo uma opção de passe e liberando as progressões dos alas de sua equipe. Outro caso de desmarque de apoio muito comum nas partidas da equipe orobica são os movimentos de Ilicic, que costuma retroceder alguns metros pelo lado direito, visando receber a bola com maior espaço e, consequentemente, tempo de executar uma nova ação. Geralmente, lançar Gómez em velocidade para o ataque.

No Ajax é Tadic o jogador que melhor executa esse tipo de conceito. O camisa 10 é mestre em atrair a atenção de jogadores rivais com seus movimentos em direção ao centro do campo. Nessa zona do gramado, recebe passes e rapidamente conecta outro jogador da equipe em condição de superioridade numérica. O que é fundamental para que o jogo (de certa forma) caótico dos holandeses encontre sucesso.

Responsável por quebrar as linhas em velocidade, Papu Gómez é fundamental para a Atalanta (Getty)

Diferenças

Estruturas habituais

A Atalanta atua no 3-5-2, com muita liberdade ofensiva para os alas, dois volantes que atuam de área a área e uma rotação interessante no ataque, com a mudança de peças. Gómez, Ilicic e Zapata compõem um trio de maior mobilidade e capacidade técnica. Já quando escala Pasalic, Gómez e Zapata, Gasperini adiciona força física na zona central do ataque em duelos em que precisa da ligação direta. Papu Gómez é a pedra fundamental desse sistema ofensivo, por sua capacidade de eliminar rivais no um contra um, criando um corredor ofensivo no lado pelo qual esteja caindo.

O Ajax atua no 4-3-3 e realiza sua saída de bola de maneira mais sustentada, com De Jong sendo o pilar ofensivo em fase primária. Frenkie acompanha o setor em que a bola se encontra, enquanto os laterais têm um posicionamento médio mais recuado do que Hateboer e Gosens (ou Castagne), alas da Dea.

Outra diferença fundamental é que o Ajax ataca com poucas referências individuais em relação à Atalanta. O funcionamento permanece com quem está caindo no setor, seja Van De Beek, Ziyech, Neres, Tadic ou Tagliafico, enquanto a Atalanta tem jogadores em posições preestabelecidas, como o 9 recebendo jogo direto pelo lado direito, Ilicic retornando para dominar a bola em zona central ou Masiello e Toloi (zagueiro pelo lado esquerdo e zagueiro pelo lado direito, respectivamente) subindo para oferecer um suporte pelo flanco, com os alas espetados como atacantes.

Atalanta e Ajax são equipes que gostam de ter a posse de bola, conseguem alcançar boa fluidez ofensiva devido à movimentação de seus jogadores e trabalham muito bem suas jogadas, seja conduzindo ou passando a pelota. Marcam de maneira distinta, porém: os italianos têm uma maior preocupação com as zonas defensivas e a vigilância dos adversários, ao passo em que os holandeses trabalham os encaixes por setor.

A caminhada europeia do Ajax terminou ontem, de forma trágica, depois da impressionante virada do Tottenham no último minuto, com uma tripletta de Lucas Moura. O sonho de voltar à final da Champions League após mais de 20 anos foi interrompido nas semifinais e não será concretizado – pelo menos agora –, mas os Godenzonen já conquistaram a Copa da Holanda e podem abocanhar a Eredivise. Já a Dea ainda pode fazer história: é a favorita pela quarta vaga para a Liga dos Campeões, competição que nunca disputou em sua centenária existência, e também pode adicionar a segunda Coppa Italia à sua sala de troféus, 56 anos depois da primeira conquista. Independentemente dos resultados, o que prevalece, contudo, é o apreço pelo jogo ofensivo e o prazer que as equipes oferecem a quem as assiste.

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