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Como Mino Raiola atrai seus clientes e molda o mercado de transferências

Se você acompanha futebol internacional, certamente já ouviu falar em Mino Raiola. Agente mais badalado e polêmico do mundo da bola, o ítalo-holandês sempre chama a atenção nas janelas de transferências. A última grande tacada do empresário foi levar Erling Haaland, atacante sensação na Europa, ao Borussia Dortmund e embolsar 15 milhões de euros em comissões.

Haaland, aliás, é apenas um entre os vários jogadores que confiaram em Raiola para representá-los. De Zlatan Ibrahimovic a Mario Balotelli, passando por Paul Pogba, Lorenzo Insigne e Marco Verratti até chegar a Gianluigi Donnarumma e Moise Kean, o agente sempre atrai os melhores e mais promissores atletas. No entanto, como Mino faz para ganhar a confiança de seus clientes e modelar o mercado?

O início de Mino

Desde bem cedo Raiola já dava indícios de que seria um homem visionário. Embora tenha nascido na Itália – em Nocera Inferiore, província de Salerno, na região da Campânia –, o bebê Mino emigrou com a família para os Países Baixos em 1968. Ele não havia completado sequer 1 ano de vida quando seus pais aportaram em Haarlem, cidade que fica a 15 quilômetros da capital Amsterdã.

Seu pai, com espírito empreendedor, abriu uma lanchonete. Depois, tocou uma pizzaria. Por fim, inaugurou um restaurante de alto padrão, cujo segredo do sucesso era utilizar produtos italianos. Raiola começou a trabalhar com o pai na pré-adolescência, aos 11 ou 12 anos. O menininho queria entender melhor aquela figura paterna que labutava incansavelmente no restaurante.

Raiola fazia de tudo no estabelecimento do pai, desde lavar as louças até anotar os pedidos dos clientes. Porém, ao contrário do que algumas pessoas acham, ele nunca colocou a mão na massa – literalmente – para fazer pizza ou qualquer outro tipo de comida. Até hoje o polêmico agente não se dá muito bem em frente ao fogão, de modo que sua esposa fica responsável por cozinhar em casa.

Perspicaz, o pequeno Mino utilizou métodos para entender as necessidades dos clientes e, assim, contribuir para a expansão do negócio da família. Por exemplo, ele criou um menu personalizado baseado no que as pessoas diziam a ele. Aos 19 anos, ganhou uma bolada de dinheiro ao comprar uma franquia de McDonald’s local e, posteriormente, revendê-la a um produtor imobiliário.

Um jovem Raiola, num salão de hotel nos Países Baixos (Wikipedia)

Experiência como dirigente

Ao passo que ajudava seu pai no restaurante, Mino ingressou na faculdade de Direito e também começou a jogar pelo Haarlem, então time mais antigo da Holanda. Foi no Haarlem, aliás, que Raiola começou a trabalhar diretamente com futebol.

Toda sexta-feira o então presidente do clube e sua esposa visitavam o restaurante do pai de Mino. O jovem Raiola sempre dizia que o cartola não sabia nada de futebol. Um dia, porém, o mandatário o convidou para ser diretor técnico da agremiação. O jovem ítalo-holandês, de vinte e poucos anos, aceitou o desafio, mas o Haarlem não tinha dinheiro para que o audaz garoto contratasse bons jogadores.

Para mudar a situação do clube, Mino Raiola tentou vender o Haarlem para o Napoli, seu clube de seu coração. A ideia do futuro empresário era transformar o time holandês quase em uma “filial” da equipe italiana, de modo a levar futuros craques à Itália – eldorado do futebol nos anos 1980 e 1990. Àquela época, os jogadores promissores que surgiam na Holanda não iam diretamente à Serie A, a liga mais badalada do momento, porém eram captados pelo Ajax, que, posteriormente, vendia os atletas e lucrava em cima dos jovens.

Com todo o respeito, um diretor de esportes que não conhece Mino Raiola deve procurar outro emprego
Mino Raiola, em entrevista à revista alemã 11 Freunde

No fim das contas, o Napoli não adquiriu o Haarlem, mas Raiola queria reforçar a equipe azzurra com um dos melhores jogadores que havia surgido no futebol holandês daquele tempo. Tratava-se de Dennis Bergkamp. Nos anos 1980, Mino fundou a empresa Intermezzo, cujo objetivo era ajudar firmas holandesas a fazerem negócios na Itália. Ela auxiliou a transferências de muitos jogadores oriundos da Holanda ao País da Bota. Bergkamp foi um deles.

Raiola ofereceu o garoto, cria do Ajax, à diretoria do Napoli por 700 bilhões de velhas liras. O então presidente do time napolitano, Corrado Ferlaino, hesitou. No entanto, dois anos depois, quando Bergkamp estava marcando gol atrás de gol na liga holandesa, o Napoli ofereceu um valor equivalente a atuais 14 milhões de euros por ele. Raiola, então, intermediou a venda do jovem à Inter. O meio-campista Wim Jonk, outro talento lapidado nas divisões inferiores do Ajax, também rumou à agremiação nerazzurra por obra do agente.

Primeiro grande negócio de Raiola

Depois de entregar Bergkamp aos milaneses, Mino alcançou um acordo com o sindicato para se tornar o representante de todos os jogadores holandeses que rumassem ao exterior. Com isso, mediou a venda de diversos atletas para times italianos. O ítalo-holandês tinha admiração por Luciano Moggi, ex-dirigente da Juventus e um dos personagens centrais do escândalo Calciopoli.

No início da década de 1990, Mino se reuniu com Moggi, então cartola do Torino, em um restaurante. Antes do encontro, Luciano havia feito Raiola esperar por mais de duas horas. O jovem empresário não gostou e tirou satisfações. Moggi, no entanto, foi taxativo: “Se você for desagradável comigo, nunca venderá um jogador na Itália”, ameaçou, mostrando o poder que tinha. O agente contornou a situação, deu início às intermediações na Itália e se tornou um agente Fifa.

Em 1996, o ítalo-holandês tirou um franzino Pavel Nedved da Chéquia e o colocou na Lazio, equipe treinada, à época, pelo também checo Zdenek Zeman. Depois de virar ídolo na equipe da capital, o craque de cabelos loiros acertou com a Juventus, em 2001. Raiola gosta de enfatizar que põe o interesse dos jogadores à frente das demandas dos dirigentes. Não é à toa que ele fez de Nedved o jogador mais bem pago tanto na Lazio quanto na Juve.

Resolvo os problemas dos meus clientes como um pai. Eu sou a família deles. Sou eu quem mostra a eles para onde ir
Mino Raiola, à 11 Freunde

Além disso, se hoje entrarmos nas redes sociais de Mino, sobretudo o Instagram, veremos como ele defende seus clientes e desmente possíveis fake news. Em 2019, por exemplo, o agente fez posts contra o racismo, em situações que envolveram Blaise Matuidi, Moise Kean e Mario Balotelli; publicou na íntegra uma nota do Flamengo que dava por encerrada as tratativas para levar Balotelli à Gávea; e desmentiu uma possível ida de Zlatan Ibrahimovic ao Boca Juniors.

Relação de Raiola com Ibra

“Não encontro os jogadores, eles me encontram. Eu nunca pedi a um jogador que trabalhasse comigo, e nunca o faria”. A frase, dita por Raiola em uma entrevista à revista alemã 11 Freunde, soa arrogante. Mas foi dessa maneira que Ibrahimovic, um de seus principais clientes, o encontrou.

Amsterdã, 2001. Então promessa do Ajax, o jovem Ibra gostaria de buscar voos mais altos após três anos na capital da Holanda. Seu empresário à época havia encontrado apenas um clube para o grandalhão: o Sunderland. A proposta não agradou o atacante, que rompeu com o agente.

O jogador, então, pediu a um jornalista local para lhe apresentar alguns empresários com mais experiência. O jornalista indicou dois contatos: o agente de David Beckham e Mino Raiola. O sueco decidiu encontrar com o segundo empresário. Ibra teve o primeiro contato com Raiola no restaurante japonês Yamazato, em Amsterdã.

Uma boa transferência é como um casamento. Vocês se reúnem porque se gostam e se sentem atraentes. Sou o casamenteiro que conhece as necessidades do outro lado
Mino Raiola, à 11 Freunde

As vestimentas descontraídas de Raiola, sem o uso de terno, gravata e outras peças características de agentes tradicionais, criou uma desconfiança em Zlatan. Porém, no decorrer da reunião, o ítalo-holandês apresentou argumentos para fazer o atacante aumentar seu rendimento visando uma possível transferência.

Ibra colocou em prática o que ouviu de Mino e contratou o agente. Depois de três meses trabalhando juntos, o empresário colocou o sueco na Juventus. No vídeo abaixo, com legenda em português, Ibrahimovic conta a história completa de seu primeiro encontro com Raiola.

A influência de Raiola na vida de Ibrahimovic é tanta que a autobiografia do jogador, I Am Zlatan (Eu sou Zlatan, publicada em português pela Editora Corner), tem o agente como um dos personagens centrais da narrativa.

“Eu posso ler o mercado”

Raiola gosta de se gabar por conseguir antecipar o que irá acontecer no mundo do futebol. Por exemplo, meses antes de o esquema Calciopoli tomar as capas de jornais mundo afora e condenar a Juventus à Serie B, o excêntrico agente transferiu Ibrahimovic para a Inter. Quando Zlatan entrou em conflito com Pep Guardiola no Barcelona, em 2009, Raiola rapidamente mexeu seus pauzinhos para tirar o atacante da Catalunha, levando-o ao Milan.

“Eu posso ler o mercado, sei o que está acontecendo e por que está acontecendo. Eu até o influencio”, sentenciou Mino Raiola, à 11 Freunde. “Toda transferência de um grande jogador provoca uma reação internacional. Se eu transferir Balotelli, o Milan precisa de um substituto adequado [entrevista publicada em 2016, quando Balo estava em sua segunda passagem pelo Milan]. Se eu o mover para um lugar, dez outras posições se moverão com ele. Um negócio tão grande cria uma reação em cadeia”, acrescentou.

“Preciso saber o que os clubes querem antes que eles mesmo saibam. Uma transferência é geralmente o trabalho de muitos meses. O público só vê o resultado final”
Mino Raiola, à 11 Freunde

De 2010 a 2020, o empresário intermediou vários negócios que movimentaram o mundo do futebol. As cinco mais valiosas foram protagonizadas por Pogba (105 milhões de euros, da Juventus ao Manchester United), Matthijs de Ligt (85,5 milhões, do Ajax à Juventus), Romelu Lukaku (84,7 milhões, do Everton ao Manchester United), Lukaku novamente (65 milhões, do United à Inter) e Hirving Lozano (38 milhões, do PSV ao Napoli). Os valores foram extraídos do site Transfermarkt.

Por outro lado, uma transação que Raiola lamenta é a que levou Balotelli ao Milan, em janeiro de 2013. “Um grande erro que cometi na carreira dele foi deixá-lo sair do Manchester City para o Milan contra o meu conselho. Eu deveria ter dito: ‘Você consegue ter sucesso no City, é isso, ponto final. Se eu tivesse feito isso, sido duro, ele teria ficado [no Manchester City]'”, contou Raiola, em entrevista ao Financial Times.

A fim de lidar com tantos jogadores espalhados pelo mundo, Raiola se tornou fluente em sete línguas: além dos nativos italiano e holandês, ele aprendeu inglês, francês, alemão, espanhol e português.

Ibrahimovic e Raiola têm relação umbilical (AP)

Comissões de Raiola

Por conseguir inúmeras transações de grande porte, Raiola ganha muito em comissões – os outros agentes também, diga-se. Em 2016, quando Pogba se tornou, à época, o jogador mais caro da história do futebol ao acertar com o Manchester United por 105 milhões de euros, o ítalo-holandês faturou a bagatela de 49 milhões de euros em comissões das três partes envolvidas no negócio (Pogba, Juventus e United).

O dinheiro serviu para o agente comprar, em Miami, a antiga casa de um dos chefes de máfia mais famosos do planeta, Al Capone, por 9 milhões de euros. A Fifa, por outro lado, reprovou a atitude de Raiola na negociação entre Juventus, Pogba e United, e decidiu mudar as regras de transferências. Em setembro de 2019, a entidade recomendou que:

  • Agentes de clubes vendedores recebam, no máximo, 10% do valor da transferência;
  • Agentes do jogador fiquem com 3% do salário do atleta;
  • Agentes de clubes contratantes recebam 3% da remuneração do jogador.

Tudo isso para diminuir a figura do “super agente” e regular o mercado de transferências. Entretanto, Raiola e outros empresários de destaque no mundo da bola, incluindo Jorge Mendes e Jonathan Barnett, não aprovaram as sugestões da Fifa. Eles ameaçam buscar ações legais contra a entidade máxima do futebol por causa da recomendação de limitar os pagamentos por transferências.

A causa é tão nobre, na visão dos agentes, que foi capaz de juntar Raiola e Jorge Mendes. O ítalo-holandês não gosta do português, que tem no topo de seu portfólio o astro Cristiano Ronaldo. “Ele [Jorge Mendes] e eu somos como o Polo Norte e o Polo Sul. (…) Eu sou altruísta, ele é egoísta”, comparou Mino Raiola, à 11 Freunde.

Mais que amigos, friends

Raiola teve que pagar um preço muito alto para construir sua sólida carreira. “Isso [rodar a Europa em função de seu trabalho como agente] me custou coisas. Não vi meus filhos crescerem”, contou Raiola, ao Financial Times. No entanto, o ítalo-holandês foi recompensado com grandes amizades no futebol.

Mino considera que 99% de seus clientes são seus amigos. Pogba, por exemplo, “eu não o vejo como um cliente. Na verdade, ouso dizer família”. Quando Balotelli colocou fogo em sua casa, em Manchester, no ano de 2011, o atacante ligou para Mino, que recomendou a ele que acionasse os bombeiros. Além disso, há a forte ligação com Ibrahimovic, relação esta já detalhada anteriormente nesta matéria.

Muitos fãs de futebol detestam Raiola. Eles o acusam de inflamar a relação de determinados jogadores com a torcida ou a diretoria do próprio time. Mas não dá para negar que ele é muito bom no que faz, seja em conversas com clientes, negociações com dirigentes, em palavras lançadas na imprensa, ou qualquer outra coisa que beneficie seus agenciados. Não importa se é no inverno ou no verão europeu: Raiola sempre consegue moldar o mercado à sua maneira e protagonizar uma grande transferência.

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