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Klaus Berggreen foi engrenagem da Dinamáquina e condutor do melhor Pisa da história

O futebol italiano teve o melhor retrato possível do dinamarquês Klaus Berggreen, que atuou por seis anos na Serie A, por Pisa, Roma e Torino. Referência no meio-campo, o escandinavo se notabilizou pela fase mais gloriosa do time da cidade da torre inclinada, nos anos 1980, quando mesmo alternando entre as primeiras divisões, conquistou o troféu da Copa Mitropa.

Além da participação crucial no Pisa, Berggreen foi um dos destaques da Dinamarca oitentista, a Dinamáquina treinada por Sepp Piontek. O perfil de marcador implacável fez de Klaus uma peça imprescindível no esquema que elevou os daneses ao posto de sensação europeia entre os anos de 1984 e 1986.

A carreira de Klaus começou no Lyngby, em 1975. Ele colaborou para tirar o time da segunda divisão dinamarquesa e inclusive alcançou a artilharia do clube nessa missão. Em 1979, a equipe foi promovida, o que alavancou de vez a carreira do meia. Um ano depois, Berggreen já fazia parte da seleção dinamarquesa.

O progresso da seleção foi lento e a vida no Lyngby parecia estagnada. Foi aí que apareceu o Pisa, em 1982, para assegurar os serviços do atleta. A agremiação nerazzurra era presidida por Romeo Anconetani, um homem de muitas superstições que conseguiu erguer o seu modesto time ao status de membro da elite. Berggreen, então com 24 anos, foi o principal reforço contratado pela gestão para a volta à primeira divisão, que acontecia depois de 13 anos de ausência.

Berggreen disputa a bola com Passarella: até hoje, o dinamarquês é um dos maiores nomes da história do Pisa (Wikipedia)

Enquanto saltava aos olhos dos grandes, Berggreen sofria com a fragilidade do Pisa, que apenas lutava por sua sobrevivência na Serie A, nada mais. Logo na temporada de estreia do dinamarquês, a equipe toscana, então treinada pelo brasileiro Luís Vinício, escapou do descenso na última rodada.

Se o Pisa não mudava de patamar, com a Dinamarca era outra história. Aos poucos, Piontek conseguiu impor seu estilo. A rigidez no comportamento contrastava fortemente com a liberdade criativa de atletas como Allan Simonsen, Michael Laudrup, Preben Larsen Elkjaer, Frank Arnesen, Jan Molby, Soren Lerby e Jesper Olsen. Voluntarioso, Berggreen cobria toda a extensão do campo e era elogiado por sua força física e inteligência com a bola nos pés.

A Dinamarca foi semifinalista da Euro 1984 e estourou de vez na Copa do Mundo de 1986, embora tenha sido eliminada pela Espanha com uma goleada, nas oitavas de final. A Fúria sempre foi uma pedra no sapato dos escandinavos, e isso se provou com seguidas eliminações até os anos 1990.

No Pisa, o elenco era sempre modesto e não contava com jogadores italianos de primeira linha, o que certamente fez diferença no desempenho do clube na Serie A – numa época em que apenas dois estrangeiros eram permitidos por time. Em 1984, eles foram rebaixados outra vez e Berggreen ganhou ainda mais carinho da torcida porque topou disputar a segundona.

Após o sucesso no Pisa, o meia assinou com a Roma (Almanacco Giallorosso)

Os estrangeiros, no entanto, vingaram em longo prazo. Klaus fez uma parceria de três anos com o poderoso centroavante Wim Kieft, vindo do Ajax. A dupla rendeu bem, mas não conseguiu evitar o rebaixamento na primeira temporada. O holandês e o dinamarquês guardaram o melhor para depois: no biênio que se seguiu, foram dois os títulos conquistados. Em números, com 15 gols, Kieft deu a contribuição maior para a promoção e o título da Serie B 1984-85, mas Berggreen era a alma do time.

Com a responsabilidade de liderar os toscanos dentro e fora de campo, Berggreen levava a faixa de capitão ao braço e, com muita maturidade e técnica, exerceu o papel de articulador do time que também foi buscar a glória na extinta Copa Mitropa, em 1986. Na caminhada até a sua primeira taça internacional, o Pisa passou por Sigma Olomouc, da Tchéquia, nas semifinais, e depois venceu os húngaros do Debrecen na decisão, por 2 a 0. Stefano Colantuono e Kieft marcaram os gols do título, em plena Arena Garibaldi, casa dos nerazzurri.

Aquele era o limite para o clube, que contava com uma gestão polêmica por parte de seu presidente. Ao mesmo tempo em que disputava a competição europeia, porém, o Pisa tinha que se desdobrar na Serie A. Na competição, Berggreen marcou um gol decisivo para a vitória pisana sobre o Napoli de Diego Maradona, mas não pode fazer muito mais para evitar uma nova (e habitual) queda para a Serie B.

Sabendo das fragilidades do Pisa, Berggreen estudou suas opções fora da Toscana. Muitos clubes europeus estavam atrás dele, mas foi a Roma que conseguiu a assinatura, logo após a Copa de 1986, num negócio que rendeu incríveis 1500% de lucro para a gestão de Anconetani. Com isso, o camisa 7 encerrou sua passagem pelo clube toscano após quatro temporadas, nas quais realizou 124 jogos e 29 gols. Até hoje, é o estrangeiro que mais atuou pela equipe e o que mais tentos fez pelos nerazzurri na Serie A.

No Torino, Berggreen teve a companhia de Luigi Radice e Anton Polster (Tumblr)

A frustração contra a Espanha em 1986 ditou o ritmo da parte final da carreira de Klaus. Ele não conseguiu repetir o grande papel dos tempos de Pisa e ficou apenas um ano na capital com os giallorossi. Berggreen não conseguiu repetir o nível de Toninho Cerezo, seu antecessor, e a campanha romanista também não foi a dos sonhos – longe disso, já que a equipe acabou terminando com a sétima colocação na Serie A.

Na temporada seguinte, o dinamarquês tomou os rumos do Piemonte para defender o Torino, até 1988, conseguindo um sexto lugar na Liga. Berggreen foi perseguido pelas lesões e, se não brilhou, ao menos teve atuações razoáveis nos dois anos longe de Pisa – pelos romanistas, anotou cinco gols, e pelos grenás, fez mais três.

A Eurocopa na Alemanha, no mesmo ano, foi a sua última participação pela seleção. Ocupando uma vaga na convocação como um dos reservas, o meia entrou apenas duas vezes no segundo tempo, sem causar grande impacto. A Dinamarca não foi longe. Berggreen encerrava de forma discreta a sua história como selecionável.

A última parte da trajetória de Klaus se deu no Lyngby, como forma de agradecimento pelo seu início profissional no futebol. Quebrado financeiramente, o clube dinamarquês quase fez um milagre em 1989, quando concluiu a liga local na terceira posição. Em 1990, os azuis marinhos ficaram com a sexta colocação, mas conseguiram o título da copa.

O momento serviu para Berggreen pendurar de vez as chuteiras, sem esperar por outra queda vertiginosa. O atleta parou com 32 anos e, de imediato, se tornou diretor esportivo do Lyngby – cargo que ocupou até 1992, quando o clube faliu. Desde então, Klaus (formado em economia), toca a sua empresa dedicada à moda feminina.

Klaus Berggreen
Nascimento: 3 de fevereiro de 1958, em Virum, Dinamarca
Posição: meio-campista
Clubes: Lyngby (1975-82, 1989-90), Pisa (1982-86), Roma (1986-87) e Torino (1987-88)
Títulos: Serie B (1985), Copa Mitropa (1986) e Copa da Dinamarca (1990)
Seleção dinamarquesa: 46 jogos e 5 gols

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