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Oscar Damiani rodou pelos grandes e fez história com a camisa do Genoa

Andarilho da bola, Oscar Damiani passou por nove times diferentes durante sua carreira profissional de 17 anos. Ponta-direita de velocidade e drible, conquistou os torcedores da Juventus em questão de pouquíssimo tempo e também saiu de lá com seu maior título: um Campeonato Italiano, em 1975. Pelo Genoa, marcou época pelos gols anotados no clássico contra a Sampdoria. E, fora de campo, se mostrou igualmente habilidoso nas mesas de negócios. Participando direta ou indiretamente de transferências de nomes pesados, como Jean-Pierre Papin, George Weah, Zinédine Zidane e Andriy Shevchenko, todos vencedores da Bola de Ouro, se tornou um empresário de sucesso.

Nascido em 1950, na cidade de Brescia, região da Lombardia, Damiani na verdade não foi registrado como Oscar. No batizado, o padre local não permitiu que os pais escolhessem esta designação para o filho porque nenhum santo tinha tal alcunha. A imposição religiosa não foi problema: o futuro jogador deixou a igreja e o cartório como Giuseppe, mas os seus genitores sempre lhe chamaram de Oscar.

Ainda garoto, ingressou nas categorias de base da Inter, onde não conseguiu ter chances no profissional. No entanto, teve o talento reconhecido pelo treinador do time Primavera. Giovanni Invernizzi, duas temporadas antes de assumir a equipe principal, via em Damiani uma grande habilidade para conduzir as bolas entre os pés, com velocidade, quase como uma bolinha caótica em um jogo de pinball, passatempo que o ponta também apreciava. Nascia assim a alcunha de Flipper, que o acompanhou durante toda a carreira.

Conhecido como Flipper, Damiani foi reconhecido por sua habilidade e brilhou pela Juventus (Leggo)

O jovem atacante teve a sua primeira oportunidade no Vicenza, onde começou a despontar no futebol nacional na temporada 1969-70. Depois de anotar contra Monza e Torino na fase de grupos da Coppa Italia, Damiani marcou o seu primeiro gol na Serie A justamente contra… a Inter. Em empate por 1 a 1, com o tento nerazzurro marcado por Sandro Mazzola, Oscar balançou as redes após uma bela jogada pela direita: dominou uma bola pingando, deu uma leve embaixada e acertou um forte chute para estufar as redes.

Nas três temporadas no Vêneto, Oscar marcou nove vezes na liga italiana, mas a posição máxima que atingiu com sua equipe foi um nono lugar. No entanto, em 1969, a compra de um quadro despertaria uma paixão para a sua vida inteira: a arte. Mesmo parando os estudos na oitava série, Damiani não viu a falta de escolaridade como impeditivo para se tornar um erudito, apreciador de literatura e pintura. A primeira obra adquirida foi uma tela de Mario Sironi, numa ação de impulsividade, o que custou quase o seu primeiro salário inteiro.

Flipper se mudou para o Napoli em 1972, jogou apenas uma temporada, e teve uma passagem discreta, mas com gols importantes – os das vitórias ante Ternana, Vicenza, Atalanta, Roma e Lazio. Depois de seis tentos e mais um nono lugar, Damiani retornou para seu último ato pelos lanerossi: com cinco bolas nas redes, ajudou os vicentinos a se salvarem do descenso e foi negociado com a Juventus.

Na Juve, viveu seu auge, pelo menos em termos de títulos. Em 1974-75, foi campeão italiano em sua temporada de estreia e também precisou de poucos jogos para encantar a torcida com sua velocidade e talento. Durante a campanha, anotou uma doppietta em duas ocasiões, curiosamente sobre Vicenza e Napoli, e ainda garantiu um importante triunfo bianconero sobre a Roma. Oscar terminou a liga com nove gols marcados, melhor marca da carreira até então.

No Genoa, Damiani marcou época e se tornou carrasco da Sampdoria (Ansa)

Nas competições de mata-mata, Damiani também foi bem. Anotou nos dois jogos contra o Ajax, ajudando a Juventus a avançar às quartas da Copa Uefa – a equipe piemontesa caiu para o Twente, nas semifinais. Por todo o bom desempenho mostrado, Oscar foi chamado duas vezes para representar a seleção italiana, que se renovava após o fracasso no Mundial de 1974.

Em 1975-76, a Vecchia Signora perdeu o título para o rival Torino e viu Carlo Parola, seu treinador, deixar a equipe para dar lugar a Giovanni Trapattoni. O novo técnico não via espaço para conciliar Franco Causio, também ponta-direita, e Damiani, então o segundo foi escolhido para deixar o clube mesmo tendo sido autor de sete gols na Serie A – inclusive, mais um sobre o Napoli. O próprio Causio era o titular da Nazionale e fecharia as portas da Squadra Azzurra para Oscar.

Seu novo destino foi o Genoa, time em que ele mesmo diz ter alcançado seu auge futebolístico. Ao lado de Roberto Pruzzo, Damiani foi crucial para uma campanha segura dos rossoblù, recém-promovidos, que garantiram a permanência na liga. O Flipper marcou 11 gols, acionando a lei do ex contra Napoli e Juventus, e seu companheiro foi vice-artilheiro da competição, com 19. O grande momento de ambos foi na 20ª rodada, quando foram responsáveis pela virada sobre a Sampdoria, num 2 a 1 no Derby della Lanterna. Os blucerchiati foram rebaixados, mas na temporada seguinte puderam ver o rival seguir o mesmo caminho amargo.

Novamente, Pruzzo e Damiani foram os principais marcadores do Genoa, somando 16 tentos – insuficientes para evitar a queda da equipe. Roberto decidiu ir para Roma enquanto o ponta-direita permaneceu em Gênova para devolver o time à elite. A missão não foi cumprida apesar do grande desempenho individual: Oscar terminou como artilheiro da Serie B, marcando 18 gols, e finalizou sua passagem por lá como maior artilheiro do clássico da Ligúria com três tentos. O feito perdurou até 2009, quando Diego Milito lhe ultrapassou.

Oscar teve duas experiências no Napoli, onde teve desempenho bastante satisfatório (Wikipedia)

Para a temporada 1979-80, Damiani retornou ao Napoli e à Serie A. Desta vez com uma passagem mais longa, permaneceu na Campânia por três anos. No primeiro deles, empatou na artilharia da Coppa Italia com seu ex-companheiro, Pruzzo, embora os azzurri tenham caído cedo na competição, eliminados pela Ternana.

No principal torneio, porém, o seu rendimento caiu bastante – principalmente aquele frente às balizas adversárias. No total, marcou apenas 10 gols nos Campeonatos Italianos que disputou nesta segunda passagem pelo Napoli, e nenhum deles em partidas de muito relevo para as ambições dos azzurri. Aos 32 anos, Oscar abriu mais um capítulo em sua carreira e voltou à segunda divisão para ajudar na reconstrução de um gigante que acabara de ser rebaixado.

Em uma era anterior a Silvio Berlusconi, o Milan disputava a segunda divisão em 1982-83 e adquiriu Damiani, que já havia sido artilheiro da categoria. Oscar não repetiu a dose, mas marcou 10 vezes no acesso imediato para o primeiro escalão do futebol da Itália, ajudando o Diavolo a faturar ainda o título da Serie B. Joe Jordan e Vinicio Verza também anotaram uma dezena de gols cada um. Grandes nomes do futuro rossonero começavam a despontar nessa época: Mauro Tassotti, Franco Baresi e, o menos experiente, Filippo Galli, fizeram parte da campanha.

Esse teria sido o último grande ano de Oscar Damiani dentro das quatro linhas. Ele ainda jogaria a Serie A e marcaria sete vezes (distribuídas em quatro partidas) em uma campanha tímida da equipe de Milão, que terminou o campeonato na oitava colocação. No final de carreira, Flipper teve uma passagem relâmpago pelo New York Cosmos e, em seu biênio final, disputou a segundona: defendeu o Parma e terminou a carreira nos gramados na Lazio, em 1986. Bem relacionado, seguiu no universo esportivo no ramo das negociações.

Em seu último grande momento como jogador, Damiani contribuiu para a recuperação do Milan (imago/Buzzi)

Oscar, mesmo enquanto atleta, também atuava como empresário fora das quatro linhas. Aposentado, o ex-jogador passou a fazer uso de sua notoriedade e contatos para impulsionar seu lado comercial e se tornou procurador esportivo. Atualmente segue como agente de futebol, e além da participação nas transferências de quatro craques eleitos melhores do mundo citadas no início do texto, agenciou também as idas de Lilian Thuram para Parma e Barcelona.

Damiani pode ser definido como um acumulador: de gols, com 71 na Serie A e 30 na B; de negócios, já que seguiu um caminho fora da curva para jogadores de sua época e se tornou um empresário de sucesso; e, não menos importante, de obras de arte… vermelhas. Sua coleção, bastante chamativa, conta com cerca de 100 peças e um valor estimado, em 2016, de mais de 10 milhões de euros. E Oscar, que não pode receber este nome em seu batismo, compensou repassando adiante em sua família, concedendo-o ao seu filho.

Giuseppe “Oscar” Damiani
Nascimento: 15 de junho de 1950, em Brescia, Itália
Posição: ponta-direita
Clubes: Inter (1968-69), Vicenza (1969-72 e 1973-74), Napoli (1972-73 e 1979-82), Juventus (1974-76), Genoa (1976-79), Milan (1982-84), New York Cosmos (1984), Parma (1985) e Lazio (1985-86)
Títulos: Serie A (1975) e Serie B (1983)
Seleção italiana: 2 jogos

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