Jogos históricos

Nos anos 80, Kenny Dalglish encarou times italianos em finais europeias bem díspares

No futebol existem muitos jogadores que se tornam bandeiras do clube em que se estabeleceram na carreira. Também existem os que se tornam ícones da seleção de seu país. Poucos atletas, porém, conseguem unir as duas esferas e um deles é o tema do nosso texto de hoje: o homem que nasceu Kenneth Mathieson Dalglish, se transformou em King Kenny pelo que realizou com o Liverpool e hoje tem o privilégio de ser chamado de Sir Kenny Dalglish.

Dalglish iniciou sua carreira como jogador profissional em 1969, no Celtic. Pelos Hoops, realizou 322 partidas e marcou 167 gols, conquistando quatro vez a liga escocesa. Em 1977 se transferiu para o Liverpool, clube pelo qual já havia realizado testes em 1966 e no qual se tornaria uma verdadeira lenda.

Pelos Reds foram 502 partidas, 179 gols marcados, oito conquistas da Liga Inglesa e três títulos da Copa dos Campeões Europeus, atualmente conhecida como Liga dos Campeões da Europa. Kenny foi o primeiro jogador a alcançar 100 gols marcados tanto na Liga Inglesa como na escocesa e disputou a Copa do Mundo com a seleção de seu país em três oportunidades – 1974, 1978 e 1982.

Sir Kenny é uma lenda dos Reds e do futebol britânico como um todo, mas como sua história se cruzou com o futebol italiano ao longo dos anos? Vamos detalhar abaixo todo o histórico de confrontos do escocês com equipes italianas. Curiosamente, nos seus 107 jogos pela seleção da Escócia, o atacante nunca enfrentou a Itália.

Dalglish foi um dos melhores em campo na final europeia contra a Roma (Rex Features)

No Celtic: semifinal europeia contra a Inter

Na Copa dos Campeões de 1970-71, o Celtic fez uma boa campanha, mas acabou eliminado pelo Ajax de Johan Cruyff nas quartas de final. Já na edição do ano seguinte, a equipe de Glasgow eliminou B 1903 (Dinamarca), Sliema Wanderers (Malta) e Újpest (Hungria), antes de enfrentar a Inter na semifinal da competição.

Os dois duelos acabaram sendo bastante truncados, com as duas equipes atuando em sistemas de jogo com muitas semelhanças. Giovanni Invernizzi organizava a Inter no 1-3-5-1, o famoso catenaccio. Já Jock Stein, treinador do Celtic, dispôs sua equipe num 3-4-3, contando com Dalglish aberto pelo lado direito do ataque.

Num confronto de 180 minutos, no qual as defesas levaram bastante superioridade, Dalglish pouco conseguiu se destacar e acabou apagado em seu primeiro duelo na carreira contra equipes italianas. Os dois jogos terminaram em 0 a 0 e a Inter acabou avançando para a final nos pênaltis.

Dalglish (segundo da esq. para a dir.) comemora triunfo do Liverpool sobre a Roma em pleno Olímpico (Getty)

12 anos depois, uma noite mágica em Roma

Se passaram 12 edições de Copa dos Campeões da Europa para que Dalglish voltasse a encarar uma equipe italiana. Dessa vez, já tendo sido campeão europeu e estando estabelecido como uma lenda do Liverpool, o escocês teria pela frente a Roma treinada por Nils Liedholm, que contava com um meio-campo estelar, formado por Paulo Roberto Falcão, Toninho Cerezo e Bruno Conti.

Para chegar até a decisão da temporada 1983-84, o Liverpool eliminou Odense (Dinamarca), Athletic Bilbao (Espanha), Benfica (Portugal) e Dinamo Bucareste (Romênia), garantindo sua vaga para o duelo decisivo em Roma, contra os donos da casa. Dalglish foi titular em todos os jogos da competição, tendo contribuído com três assistências e se estabelecido como um segundo atacante clássico no 4-4-2 do treinador Joe Fagan. Naquele time dos Reds, formou uma dupla letal com Ian Rush.

O jogo começou com a Roma controlando a posse de bola, buscando os lançamentos longos com Agostino Di Bartolomei e o controle mais curto com Falcão. O Liverpool, por sua vez, marcava forte, buscava roubar a bola e acelerar sempre o jogo pelos flancos. Aos 14 minutos de partida, Craig Johnston buscou uma inversão para Dalglish pelo lado direito, Ronnie Whelan disputou a bola no alto com o goleiro rival e a bola acabou sobrando à feição para Phil Neal fazer o primeiro do Liverpool.

Com a vantagem no placar, o Liverpool se sentiu ainda mais à vontade para se defender de maneira compacta e deixar a bola com a Roma, que tentou acelerar o jogo com Falcão buscando Conti pelo lado direito. Contudo, cada vez que a bola era retomada pelos ingleses, Dalglish fazia da vida dos defensores da Roma um inferno. O camisa 7 flutuava pelo campo ofensivo com muita tranquilidade, desfilando todo o seu talento nos dribles curtos e sua capacidade técnica. Antes dos 30 minutos, finalizou com força para uma boa defesa de Franco Tancredi e serviu Rush, que iria sair frente a frente com o goleiro rival, mas acabou interceptado pela defesa.

No final da primeira etapa a Roma conseguiu chegar ao empate, com sua melhor associação no primeiro tempo. Falcão ativou Conti pelo lado esquerdo, o meia dos giallorossi levou até a linha de fundo e cruzou na medida para o centroavante Roberto Pruzzo testar para o fundo da rede. Na volta para o segundo tempo o cenário do jogo foi mudando gradualmente, com a Roma perdendo intensidade em sua troca de passes e o Liverpool levando cada vez mais perigo em suas investidas pelos flancos do campo.

Dalglish fez uma segunda etapa muito forte, sendo indecifrável para o trio de meio dos italianos e conseguindo criar chances de gol para Rush e Sammy Lee, que acabaram não aproveitando. O jogo seguiu em 1 a 1 até o apito final e permaneceu assim também na prorrogação. Kenny, muito desgastado fisicamente, deixou o gramado no início do tempo extra.

Na disputa por pênaltis, o Liverpool acabou levando a melhor, já que a a Roma desperdiçou cobranças com Conti e Francesco Graziani. Desta maneira, Sir Kenny conquistou sua segunda Copa dos Campeões e subiu um degrau no panteão de lendas dos Reds.

Kenny deixa o campo desapontado em sua última final europeia (PA Images)

Heysel e Platini: a tristeza infinita

Se o Liverpool comandou a narrativa desde os primeiros jogos e realizou uma campanha impecável em 1983-84, na edição seguinte da Copa dos Campeões a equipe inglesa teve maiores dificuldades para alcançar um desempenho dominante, mesmo tendo mantido a mesma base de trabalho. Sir Kenny sofreu com lesões, perdeu três partidas da competição e não esteve à altura da sua qualidade habitual na maioria dos jogos. Foi Rush quem assumiu o protagonismo, liderou a equipe e ajudou os Reds a superarem suas limitações para alcançarem outra decisão, dessa vez contra a Juventus de Michel Platini, num jogo que aconteceu em Bruxelas.

Uma partida que, na verdade, não deveria ter acontecido – não naquele dia. Afinal, o estádio de Heysel estava superlotado, o que provocou empurra-empurra, o desabamento de um muro das arquibancadas e o pisoteamento de parte do público. Morreram 39 pessoas (34 italianos, dois belgas, dois franceses e um irlandês) e mais de 600 se feriram. Contudo, a Uefa decidiu ignorar a tragédia e adiar o início do jogo em mais de uma hora. Os jogadores só ficaram sabendo das proporções do ocorrido depois do apito final.

Apesar de tudo, teve jogo. E o duelo começou com a Juventus – que jogava num 3-5-2 bem característico do futebol italiano – comandando as ações, ficando com a bola e tendo em Platini a sua liderança técnica. O camisa 10 controlava as ações, direcionava a equipe e levava muito perigo ao sistema defensivo rival. Já o Liverpool manteve o 4-4-2 da temporada anterior, mas diferentemente do que aconteceu diante da Roma, jamais conseguiu encontrar uma zona de conforto para contra-atacar a Juventus.

Dalglish, porém, tinha um bom desempenho. Se havia realizado uma competição apagada até o duelo decisivo, o escocês tratou de lembrar a todos o motivo de ser uma lenda e, pouco a pouco, foi tirando sua equipe do buraco, somando ações em transição e levando perigo à defesa liderada por Gaetano Scirea. O lendário camisa 7 do Liverpool quase marcou no final da primeira etapa, numa linda jogada individual. Mas foi a Juventus, com pênalti polêmico em Zbginiew Boniek, convertido por Platini nos minutos iniciais do templo complementar, que levou o título.

O escocês, então com 34 anos, ficou na ativa até 1990 – período em que se dividiu entre as funções de jogador e técnico do Liverpool. Apesar de ainda ter conquistado mais dois títulos nacionais e outras boas colocações na liga inglesa, Sir Kenny nunca mais encarou adversários italianos: afinal, em virtude dos acontecimentos em Heysel, a Uefa baniu as equipes inglesas das competições continentais até a temporada 1990-91. Uma pena para o craque, que se aposentou distante dos palcos mais prestigiosos da Europa.

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