Jogos históricos

Com atuações inesquecíveis, Johan Cruyff provou ser um dos maiores carrascos dos italianos



Johan Cruyff é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores nomes da história do futebol. O holandês foi um personagem único: marcou uma geração com seu estilo de jogo dentro dos gramados e também ajudou a pautar o esporte por décadas. O futebol que seria jogado muito tempo depois de sua aposentadoria como jogador – e como técnico – teria sua marca indelével. Uma trajetória que teria grandes momentos contra times da Itália.

O mítico camisa 14 assombrou o mundo na Copa de 1974, sendo o grande líder do Carrossel Holandês. Com um estilo de enxergar o futebol marcado por intensidade, toque de bola, muita movimentação e caráter ofensivo, a Holanda de Cruyff e Rinus Michels foi um marco na história do esporte. Mas muito de entrar em campo contra o Uruguai, em junho de 1974 para estrear em Mundiais, seu talento já era devastador na principal competição da Europa, a Copa dos Campeões Europeus: com o Ajax, tinha três troféus continentais.

1968: o menos glamuroso dos confrontos contra italianos

Antes de alcançar o topo da Europa, porém, Cruyff chegou a jogar a extinta Copa Piano Karl Rappan, antecessora da Copa Intertoto – que também já não existe mais e classificava à Copa Uefa. Nela, o holandês enfrentou uma equipe italiana pela primeira vez na sua carreira. Foi o Torino, num duelo vencido pelo Ajax por 3 a 1.

O Toro fez uma campanha razoável na Serie A 1967-68 e ficou na sétima colocação, mas se destacou mesmo pelo título da Coppa Italia, que lhe dava vaga na Recopa Uefa. Assim, o time treinado por Edmondo Fabbri chegava com moral para o duelo contra o Ajax, que vencera a Eredivisie na temporada anterior.

As duas equipes entraram em campo no 4-3-3, com Cruyff sendo o destaque do Ajax e o Toro contando principalmente com o goleiro Lido Vieri, o volante Aldo Agroppi e os atacantes Carlo Facchin e Néstor Combín. Logo aos 3 minutos de jogo, Inge Danielsson abriu o placar para os ajacieden, tornando o cenário muito confortável para os holandeses. Aos 20, Cruyff aumentou a vantagem, marcando seu primeiro gol em duelos contra equipes italianas.

O jogo terminou 3 a 1 para o Ajax: Henk Groot fez o terceiro dos mandantes e Facchin descontou para o Torino. Na partida de volta, sem Cruyff, empate por 1 a 1 no Piemonte. Os Godenzonen ficariam com a vitória na chave A2 da competição.

Na final europeia de 1972, em Roterdã, Cruyff deu um baile em Oriali (Getty)

Maio de 1969: a lição do Milan em Madrid

Em 1969, Milan e Ajax se enfrentaram na decisão da Copa dos Campeões, em uma partida cercada de muita expectativa por colocar duas escolas bem diferentes de futebol frente a frente. O já consolidado jogo defensivo dos italianos, o famoso catenaccio, contra o estilo ofensivo do Ajax, que estava moldando a escola holandesa.

Cruyff liderou os Godenzonen até essa decisão, marcando seis gols em toda a campanha. Um deles foi anotado na semifinal da competição, em duelo contra o Spartak Trnava da Checoslováquia. No Milan, o grande líder do elenco era o igualmente lendário Gianni Rivera.

O time italiano entrou em campo no que podemos chamar de “4-3-3 com líbero”, um sistema que privilegiava a ocupação territorial em seu próprio campo e atacava através da associação entre duplas de jogadores pelos flancos. Já o Ajax mantinha o seu 4-3-3 de anos anteriores e acreditava em um jogo mais livre, sem muitas referências individuais para se orientar na defesa e com uma constante troca de posições no ataque.

O que aconteceu naquela noite foi que o Milan marcou seu primeiro gol aos 8 minutos, com Pierino Prati, e Nereo Rocco soube amenizar os danos da movimentação ofensiva rival. O treinador colocou Saul Malatrasi para acompanhar Cruyff por todo o gramado e matou o poder de infiltração do Ajax. O jogo terminou em 4 a 1 para o Milan, com direito a tripletta de Prati, e acabou sendo uma das exibições mais apagadas do gênio holandês em toda sua carreira.

1972: o bicampeonato europeu, com show diante da Inter

Depois de perder para o Milan na final de 1968-69, o Ajax se tornou campeão europeu na temporada 1970-71. A campanha culminou na vitória por 2 a 0 na final contra o Panathinaikos, da Grécia. Na temporada seguinte, o destino reservou ao clube holandês sua terceira final em quatro temporadas e um novo duelo contra uma entusiasta do catenaccio. Dessa vez, a adversária seria a Inter, treinada por Giovanni Invernizzi.

O Ajax chegou à decisão com uma campanha arrasadora: foram seis vitórias e dois empates, obtidos graças ao jogo ofensivo de sempre, mas aprimorado com detalhes que o tornaram mais eficiente. Por outro lado, a Inter teve uma campanha de altos e baixos, marcada por uma polêmica na segunda fase, quando perdeu por 7 a 1 para o Borussia Mönchengladbach. O jogo foi anulado porque um torcedor alemão acertou uma lata de refrigerante cheia em Roberto Boninsegna, que teve de ser substituído ainda na etapa inicial. Na partida remarcada, em campo neutro, o duelo terminou em 0 a 0 e os italianos avançaram por causa de um triunfo por 4 a 2, em Milão.

Diferentemente da partida em que acabou derrotado pelo Milan, duas temporadas antes, o Ajax tinha em seu jogo maior mobilidade no ataque. Cruyff era uma figura que recebia muita atenção dos adversários e acabava sendo vigiado em todo o campo por um marcador específico. Na final, disputada em Roterdã, na Holanda, este homem foi Gabriele Oriali.

Dessa vez, a equipe de Amsterdã soube aproveitar os buracos que as perseguições longas de Oriali causavam e, dessa maneira, puniu a Inter de maneira impiedosa. Cruyff criava o espaço, Johan Neeskens e Piet Keizer o aproveitavam. Depois de um primeiro tempo arrasador, no qual levou a rival ao limite, mas não conseguiu abrir o placar – teve um gol bem anulado –, o Ajax nocauteou uma confusa Beneamata.

Cruyff fez 1 a 0 com dois minutos do segundo tempo, depois de erro de tempo de bola de Oriali, então com 19 anos. O volante, que faria história em Milão, subiu mal para tentar cabecear e se chocou com o goleiro Ivano Bordon. O camisa 14 aproveitou a sobra e empurrou para o gol vazio. O craque definiu o placar aos 32, aproveitando outra falha interista em jogada aérea e, dessa vez, cabeceou para as redes. Essa vitória coroou o futebol total do Ajax e encerrou a era do catenaccio.

Em decisão contra a Juve, o craque holandês arrisca de fora da área (Getty)

Terceiro ato: o Ajax bate a Juve e é tricampeão europeu

Depois de Milan e Inter, Johan encarou a Juventus em uma final de Copa dos Campeões. Em Belgrado, diante de 80 mil pessoas, Ajax e Juve realizaram um duelo muito equilibrado, que colocou em evidência um novo momento no futebol italiano e acabou sendo a última grande conquista de Cruyff com a camisa do clube de Amsterdã.

Enquanto o Ajax chegou até a final mantendo seu estilo, seu sistema de jogo e apostando na ideia que encantou a Europa nos anos anteriores, a Juventus de Cestmír Vycpálek atuava num 4-4-2 que começava a trazer características da chamada zona mista. O sistema utilizado pela Velha Senhora em sua trajetória até a decisão influenciou o futebol italiano por anos e anos e continua muito atual nos dias de hoje.

O desenrolar da decisão foi muito influenciado pelo gol de Johnny Rep, aos 4 minutos, e toda a busca posterior da Vecchia Signora pelo empate. Diferentemente do que tivemos na final contra a Inter, o Ajax não teve as chances mais claras.

Ao contrário, foi a Juventus que teve as melhores ações ofensivas, apostando numa transição ofensiva forte e contando com grandes nomes no seu ataque, como José Altafini e Roberto Bettega. Contudo, o jogo acabou mesmo com o placar de 1 a 0 para o Ajax. Cruyff foi importante para liderar seus companheiros, mas não encontrou muitas oportunidades de balançar as redes.

A única vez contra os azzurri

Em duelo válido pelas Eliminatórias para a Eurocopa, Holanda e Itália se enfrentaram no De Kuip, em novembro de 1974. O palco da decisão europeia de 1972 acabou sendo também a sede do único encontro de Cruyff com a Squadra Azzura. A Holanda atuava de forma diferente à do Ajax. Costumava ir ao campo no 3-4-3 e tinha uma ideia de jogo mais forte no que tange à pressão sobre os rivais a cada perda da bola. Por sua vez, a movimentação ofensiva era ainda mais “caótica”.

Boninsegna abriu o placar para a Itália, aos 5 minutos, e Rob Rensenbrink empatou para a Holanda, aos 20. O primeiro tempo foi bastante equilibrado e a Nazionale conseguiu resistir de maneira efetiva ao ímpeto ofensivo da Oranje. Contudo, depois do intervalo, Cruyff chamou a responsabilidade, marcou duas vezes e garantiu a vitória de sua seleção por 3 a 1.

Até se aposentar, Cruyff não voltou a enfrentar times italianos em partidas oficiais. No fim da carreira, o holandês chegou a passar por um período de testes no Milan, no Mundialito de 1981, mas não entrou em acordo com os rossoneri. No fim das contas, o saldo do holandês contra equipes da Velha Bota é extremamente positivo: em cinco jogos, somou quatro vitórias, uma derrota e cinco gols marcados. Um verdadeiro carrasco.



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