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Ernesto Cucchiaroni teve trajetória irregular pelo Milan e virou ídolo da Sampdoria



Um atacante canhoto, baixinho, careca e duro na queda, que nunca levava desaforo para casa de defensores que tentavam lhe parar. Este foi o argentino Ernesto Cucchiaroni, que começou sua carreira em clubes menores da Argentina, passou brevemente pelo Boca Juniors, chegou à seleção argentina e alcançou o futebol italiano no meio da década de 1950. Tito teve uma trajetória especialmente boa pela Sampdoria, que defendeu por cinco temporadas, e virou um símbolo da maior torcida organizada da agremiação. Até hoje, o grupo leva seu nome.

O início da carreira na Argentina

Cucchiaroni iniciou sua caminhada no futebol ainda na adolescência, jogando pelo modesto Bartolomé Mitre de Posadas, sua cidade natal. Ele ganhou visibilidade aos 19 anos, quando foi convocado para a seleção da província de Misiones, para a disputa de um torneio regional no Viejo Gasómetro, folclórico estádio do San Lorenzo, em Boedo. Foi ali que um olheiro do Tigre, de Victoria, na província de Buenos Aires, viu o baixinho de pernas tortas e recomendou a sua contratação pelo clube.

Tito defendeu a camisa dos Azuis do Norte de 1949 até 1955, sendo um dos poucos pontos positivos do clube, que foi rebaixado em 1950 e permaneceu na Primera B até 1953. Cucchiaroni disputou um total de 139 partidas pelo Tigres, balançando as redes 51 vezes. Quando da volta do clube à primeira divisão, o atacante jogava tão bem que foi convocado para a seleção argentina para a disputa do Sul-Americano de 1955, no Chile, do qual a albiceleste foi campeã. Ele foi titular em apenas dois jogos (um deles, a final), sem marcar nenhum gol, mas o Boca Juniors não perdeu tempo e pagou uma quantia milionária para os padrões da época – suficiente para que o Tigres pudesse terminar a construção de seu estádio.

As convocações para a seleção continuaram acontecendo e ele disputou o Sul-Americano e o Campeonato Pan-Americano, ambos em 1956. Em agosto daquele mesmo ano, em um amistoso contra a Checoslováquia, Tito veio do banco e jogou apenas 12 minutos, mas foi o suficiente para chamar atenção de um dirigente do Milan presente no estádio. Sob a bênção de Guido Cappelli, Cucchiaroni, então com 28 anos, foi adquirido pelo clube rossonero e encerrou sua passagem pelos xeneizes sem grandes conquistas, marcando 16 gols em 43 partidas. Pela seleção, ele disputou até ali 11 partidas, em pouco mais de um ano.

O carequinha Tito Cucchiaroni passou por poucas e boas no Dérbi de Milão (imago/Buzzi)

Momentos opostos pelo Milan

Em Milão, Cucchiaroni disputou duas temporadas, 1956-57 e 1957-58, e as duas não poderiam ter sido mais diferentes uma da outra para ele. No primeiro ano, logo de cara, ele fez parte de um esquadrão milanista, de Cesare Maldini, Juan Schiaffino, Nils Liedholm, Lorenzo Buffon e companhia, que venceu o scudetto. Ele se encaixou com facilidade naquela equipe e, sendo várias vezes titular, contribuiu com três gols naquela campanha.

Contudo, na temporada seguinte, várias lesões minaram seu desempenho e ele acabou perdendo prestígio dentro do time. Ainda assim, Tito foi titular na grande final da Copa dos Campeões, diante do Real Madrid de seu compatriota Alfredo Di Stéfano, na qual os rossoneri foram derrotados por 3 a 2.

Tito deixou o Milan ao fim da temporada 1957-58, aos 30 anos de idade. Ao todo, em dois anos no time, ele disputou 41 partidas e anotou sete gols. Alguns dizem que o fato de ele aparentar ser mais velho do que realmente era, por causa de sua já avançada calvície, fez a descrença nele aumentar. Diz a lenda que no meio da bola seu apelido era “nonnetto”, que quer dizer “vovozinho” em italiano.

Um episódio engraçado da passagem de Tito pelo Milan teria acontecido em um Derby della Madonnina de 1957. A Inter vencia por 1 a 0, mas o árbitro Concetto Lo Bello assinalou pênalti para o Milan nos minutos finais. Em meio às reclamações em volta do árbitro, o atacante interista Benito Lorenzi foi até o banco para pedir água e, junto, lhe deram um limão partido ao meio.

Sorrateiramente, “Veleno” pôs a banda de limão debaixo da bola, na marca do pênalti, sem que os jogadores vissem. Cucchiaroni foi o cobrador do pênalti e ele não prestou atenção nos gritos dos torcedores tentando avisar-lhe do truque e acabou isolando a pelota, consolidando a derrota milanista. Houve invasão de campo e, quando souberam do ocorrido, os jogadores do Milan foram atrás de Lorenzi nos vestiários. Tito e alguns companheiros teriam-lhe desferido alguns chutes.

Cucchiaroni e Sívori, dois argentinos de destaque dos anos 1950 e 1960 no futebol italiano (Tifo Samp)

O sucesso pela Sampdoria

A Sampdoria tinha pouco mais de dez anos de vida quando, para a temporada 1958-59, acertou a transferência de Cucchiaroni para Gênova. Até ali, o clube acumulava apenas lutas contra o rebaixamento e terminara acima da sétima colocação somente uma vez – na temporada 1948-49, quando ficou com o quinto lugar. Foi naquele momento que, segundo alguns relatam, o time começou a utilizar-se de jogadores “rejeitados” pela dupla Milan e Inter. Ao vender o sul-africano Eddie Firmani para a Inter em 1958, a diretoria reinvestiu o dinheiro para trazer Tito. Com certeza, os dorianos não se arrependeram.

Como acontece com diversos jogadores na história da rivalidade de Gênova, Cucchiaroni caiu nas graças da torcida se destacando em um Derby della Lanterna, contra o Genoa. No dia de seu 31º aniversário, ou seja, sequer dois meses depois de vestir a camisa blucerchiata pela primeira vez, Tito abriu o placar aos 30 do segundo tempo. Sem demora, os rossoblù empataram aos 37, dando a impressão de que a partida terminaria em empate. Mas, a dois minutos do fim, o atacante recebeu um cruzamento que parecia despretensioso, mas conseguiu emendar um tiro de primeira, no canto, completando a doppietta e dando a vitória à Samp por 2 a 1, a oitava em vinte dérbis disputados até ali.

Ao fim da temporada 1958-59, Cucchiaroni acumulara dez gols e ajudou a Samp a alcançar, novamente, um quinto lugar ao fim do campeonato. Para a temporada seguinte, o Doria voltou a ousar e contratou junto à Inter a contratação do atacante sueco Lennart Skoglund, que formaria com Tito uma excelente dupla de ataque pelos quatro anos seguintes. Contudo, o sucesso dos parceiros não veio de imediato, pois a Samp terminou apenas na oitava posição na primeira campanha conjunta de Tito e Nacka em Gênova. Os dois combinaram 17 gols no campeonato – dez do argentino e sete do nórdico.

Foi na temporada 1960-61 que a Samp de Cucchiaroni alcançou seu ápice. Além de experimentar sua primeira competição europeia – a extinta Copa Mitropa –, o time lígure fez uma campanha sólida na Serie A, terminando com a melhor campanha de sua história até então: quarto lugar. Vitórias heroicas contra Juventus e Inter no segundo turno foram “anuladas” por tropeços diante dos rebaixados Bari e Napoli e custaram à Samp uma possível classificação para competições europeias.

Naquele ano, Cucchiaroni anotou oito gols e Skoglund outros seis, mas o grande destaque do time foi o recém-chegado Sergio Brighenti, artilheiro isolado da Serie A com 27 gols. Alguns dizem que um dos grandes motivos de a Samp não ter conseguido ir mais longe na briga pelo scudetto foi o fato de eles terem vendido Bruno Mora à Juventus no meio da mesma temporada. Os bianconeri sagraram-se campeões, com Mora marcando 12 gols. A Samp, porém, orgulhou-se de ter concluído aquela temporada sem perder um jogo sequer no Marassi, vencendo 14 e empatando três.

Aparência envelhecida de Cucchiaroni lhe rendeu apelido de “vovozinho”(Panini)

O final da carreira, sua morte e a homenagem dos ultras da Samp

Cucchiaroni permaneceria na Samp até o fim de 1962-63, quando encerrou sua carreira, aos 35 anos. Em cinco temporadas em Gênova, ele disputou um total de 143 partidas e anotou 40 gols com a camisa blucerchiata. Ele retornou à Argentina em 1963, e tornou-se treinador do Huracán no ano seguinte. Em seguida, assumiu o posto de diretor técnico do Guaraní de Posadas, clube que ajudou a chegar à primeira divisão pela primeira vez em 1971.

Infelizmente, o atacante teve uma morte prematura, ao falecer, segundo versão oficial, em um acidente de carro em julho de 1971, aos 43 anos de idade, antes mesmo de dirigir seu clube em sua primeira passagem pela primeira divisão. Mas ainda paira um certo mistério sobre a causa exata, pois alguns especulam que ele tenha tido um mal súbito durante uma partida em pleno estádio e outros dizem que ele morreu da doença de Lou Gehrig (Esclerose lateral amiotrófica).

A apreciação do torcedor da Samp por Tito era tão grande na década de 1960 que, quando um grupo de torcedores do clube decidiu fundar, em 1969, a primeira torcida organizada intitulada “ultra” da Itália, ele foi homenageado. No caso deste grupo, especificamente, U.L.T.R.A.S é uma sigla que se transforma em uma violenta frase e sequer merece ser mencionada, mas o fato é que existe até hoje, na gradinata Sud da Samp, a U.L.T.R.A.S Tito Cucchiaroni. Há uma versão que diz que o nome não foi uma homenagem ao jogador em si, mas, sim, que surgiu um pouco por acaso. De qualquer forma, a torcida organizada ainda carrega seu nome e sua imagem em vários de seus artigos.

Ernesto Bernardo Cucchiaroni
Nascimento: 16 de novembro de 1927, em Posadas, Argentina
Morte: 4 de julho de 1971, em Misiones, Argentina
Posição: atacante
Clubes: Tigre (1949-55), Boca Juniors (1955-56), Milan (1955-56) e Sampdoria (1958-63)
Títulos: Copa América (1955) e Serie A (1957)
Carreira como técnico: Huracán (1964)
Seleção argentina: 11 jogos



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