Extracampo Serie A

Andrea Pirlo: uma decisão muito juventina?



A demissão de Maurizio Sarri, logo após a eliminação precoce da Juventus na Liga dos Campeões, não foi exatamente uma surpresa. Entre o “esperava menos” depois da queda para o Lyon e o “vocês realmente são bons, porque foram campeões apesar de mim” na festa do título da Serie A, o treinador feriu o lema da instituição que representava, para a qual “ganhar é a única coisa que importa”. Apesar da máxima, a Juventus, além de seguir ganhando, quer ir além. Quer ser mais do que um clube de futebol.

A escolha de um ano atrás, depois das experiências com Antonio Conte e Massimiliano Allegri, se baseou na expectativa de proporcionar um jogo mais atrativo para o grande público, o que tornaria mais fácil a tarefa de “vender” a marca do clube. O resultado final, contudo, não foi entregue da forma esperada – e também houve muita resistência do grupo bianconero à filosofia de Maurizio. Retrospecto e respaldo à parte, poucos imaginavam que o treinador napolitano teria longa vida útil em Turim. Alguns analistas apostavam que sua contratação seria uma experiência de adaptação da equipe a um estilo similar ao de Pep Guardiola, impossibilitado de ser contratado naquele momento por milhões de motivos.

Acertar com o catalão, inclusive, seria um sonho impossível ainda hoje para a Juventus. Entre as especulações por Mauricio Pochettino e Simone Inzaghi, a opção por Andrea Pirlo chocou a todos. O ex-jogador, que dispensa apresentações e atuou pelo clube do Piemonte por quatro temporadas, havia sido anunciado como novo treinador da equipe sub-23 bianconera, que disputa a Serie C e foi campeã da Coppa Italia da categoria na última época, no dia 30 de junho. No sábado passado (8), um novo anúncio: em somente nove dias, Pirlo passou de futuro treinador de um time da terceira divisão italiana a comandante da principal equipe da elite.

Andrea ainda não tem a formação de treinador completa, mas está finalizando o curso Uefa Pro em Coverciano, iniciado no ano passado ao lado de colegas como Paolo Montero e Luca Toni, também ex-juventinos. O bresciano ainda não terminou a sua tese, que deve entregar até o dia 21 deste mês para poder realizar as provas, em meados de setembro, e sua apresentação final, em outubro.

Parceria no “novo normal”: Pirlo e Agnelli se cumprimentam (Arquivo/Juventus)

Uma certeza: Pirlo é uma incógnita

A indicação de um treinador sem experiência anterior não surpreendeu apenas pelo fato de a Juventus ser uma agremiação reconhecida por se mover pelo pragmatismo e pelo planejamento. As motivações dadas por pelo diretor executivo de futebol, Fabio Paratici, em entrevista à Sky Sport, também fugiram do lugar comum bianconero. Para ele, a escolha por Pirlo foi uma “decisão muito natural, juventina”: o fato de o meia ter atuado pelo clube e conhecer o ambiente pesou mais do que o seu currículo. “Ele foi um predestinado como jogador e achamos, com grande convicção, que também possa sê-lo como treinador”, completou.

De acordo com o dirigente, Pirlo pensa em levar para o seu trabalho como treinador conceitos semelhantes aos que executava como jogador. “Propor um certo tipo de jogo é a tendência que querem seguir os grandes clubes europeus. Escutamos Pirlo e ele foi muito convincente. Além do fato de que as pessoas são muito mais importantes do que o profissional”, afirmou Paratici.

Aos 41 anos, Pirlo deixa de ser “maestro” para ser “mister”, conforme a própria Juventus brincou em seu anúncio. Se será um predestinado como treinador assim como foi dentro de campo, a exemplo de Zidane – um dos nomes especulados para os pós-Allegri e Sarri –, apenas o seu trabalho dirá. A expectativa é que sua filosofia seja guiada por um elenco experiente e talentoso, como o clube também descreveu na apresentação, mas a verdade é que a ausência de qualquer registro anterior na nova profissão faz com que aquele cara classudo que era uma certeza no meio-campo passasse a incógnita no banco de reservas.

Antes de entrar nos detalhes táticos, é importante frisar que a aposta por Pirlo tem um lado econômico. Com um contrato de dois anos e um salário anual líquido de 1,8 milhão de euros, segundo a Gazzetta dello Sport, seu vencimento está bastante abaixo dos 5,5 milhões de Sarri, que ainda tem vínculo até junho de 2022, e os 7,5 mi de Allegri, cujo acordo acabou em junho. Entre os mais bem pagos da Serie A, Pirlo está abaixo de Conte (Inter), Paulo Fonseca (Roma), Sinisa Mihajlovic (Bologna), Gian Piero Gasperini (Atalanta), Simone Inzaghi (Lazio) e Stefano Pioli (Milan).

Parafraseando David Amoyal, jornalista da equipe de Gianluca Di Marzio e colunista da ESPN norte-americana, se Pirlo tiver sucesso, a Juventus tem tudo preparado para um trabalho longevo. Se não der certo, o contrato é curto e barato, então não terá problemas financeiros para buscar outra solução. O grande porém se chama Cristiano Ronaldo, com quem a Vecchia Signora tem um contrato astronômico.

No ocaso da carreira do seu principal jogador, a direção juventina dá mais um tiro no escuro, assim como o fez quando trouxe Sarri. O português foi adquirido para fazer a Juve voltar a comemorar um título de Champions League. Bicampeão europeu como jogador, o novo técnico é o nome mais indicado para fazer a equipe piemontesa encerrar um jejum de 24 anos sem essa conquista? Há um grande desconhecimento sobre as capacidades de Pirlo para que se possa cravar que ele é esse tiro certeiro.

Ídolo em campo, Pirlo tentará deixar sua marca como técnico da Juventus (Getty)

Bastidores

Em Vinovo, Pirlo reencontrará apenas três jogadores que fizeram parte da sua passagem por Turim, entre 2011 e 2015: Gigi Buffon, Giorgio Chiellini e Leonardo Bonucci. A exemplo do seu amigo Cannavaro, é mais um campeão mundial de 2006 que vira treinador. Na próxima temporada, a Serie A também contará com Gennaro Gattuso (Napoli) e Pippo Inzaghi (Benevento), enquanto Alessandro Nesta (Frosinone) e Massimo Oddo (Perugia) estão na Serie B. Já Fabio Grosso é tido com o substituto de Andrea na equipe sub-23 da Juventus.

A comissão técnica não está fechada, e ainda não se sabe se Giovanni Martusciello continua no clube – braço direito de Sarri no Empoli e na Juventus, também foi auxiliar de Luciano Spalletti na Inter. Ex-companheiros de Pirlo, Andrea Barzagli (que foi assistente de Sarri) e o recém-aposentado Alessandro Matri, foram especulados para fazer parte do estafe bianconero. O certo é que o novo mister terá a companhia do analista tático Antonio Gagliardi e de outro ex-meia conhecido: Roberto Baronio, que também já faria parte da delegação do sub-23 e é seu grande amigo.

Durante a apresentação de Pirlo como treinador da equipe militante na Serie C, o seu xará Andrea Agnelli, presidente da Juventus, acabou “prevendo” a promoção, quando disse que a esperança seria encontrá-lo no futuro, na qualidade de comandante da equipe principal. Na mesma coletiva, o técnico juventino voltou a falar um pouco sobre como vê futebol, mas sem dar pistas. “Aprendi muito com vários técnicos. A minha equipe deve jogar bem e ter um padrão de jogo, mas os esquemas táticos não são fundamentais. O mais importante é a ocupação de espaços”, ressaltou. As ideias também devem valer para o time “de cima”.

De mestre a rival: Conte influenciou Pirlo e, agora, será seu adversário pelo scudetto (imago/Gribaudi/ImagePhoto)

Preceitos táticos e influências

O tal “futebol europeu”, citado por Paratici como modelo de jogo a ser seguido, foi descrito pelo treinador em uma conversa informal com Fabio Cannavaro. Perguntado sobre o seu esquema tático favorito, Andrea falou, em tom de brincadeira, que isso depende dos jogadores, embora prefira o 4-3-3. “Obviamente, com uma grande posse de bola, e posso girá-la do banco de reservas (risos). Brincadeiras à parte, depende dos jogadores à disposição, mas o 4-3-3 é um esquema de que gosto”, comentou.

O diretor da Juve garantiu que o novo técnico buscará um futebol de qualidade e, ao menos em suas etapas de instrução, é isso que Pirlo vem tentando aprimorar. Além de Guardiola, Andrea também estuda Roberto De Zerbi, treinador do Sassuolo. Em sua carreira como jogador, porém, o lombardo foi treinado por profissionais que privilegiavam outras escolhas. Nomes como Giovanni Trapattoni, Marcello Lippi, Carlo Mazzone, Carlo Ancelotti, Antonio Conte, Massimiliano Allegri e Patrick Vieira – seus técnicos nas passagens por seleção italiana, Brescia, Milan, Juventus e New York City.

Dentre eles, Andrea nunca escondeu nutrir admiração por Conte, e chegou a ser cogitado para se juntar a Antonio no Chelsea. “Eu joguei com muitos grandes técnicos, mas posso dizer que Conte é um gênio. Como todo homem genial, ele é um pouco louco”, destacou em uma entrevista em 2017. Hoje na Inter, o apuliano afirmou, durante coletiva de imprensa que antecedeu o confronto com o Bayer Leverkusen, que está muito contente por Pirlo. “Além daquilo que me deu futebolisticamente, falamos de uma pessoa excepcional. Desejo muito boa sorte ao Andrea”, declarou o nerazzurro. Fato é que, a partir de setembro, mestre e aluno serão adversários.

Em outra entrevista, esta mais recente, Pirlo revelou que decidiu virar treinador por causa de Conte. “A primeira vez que considerei me tornar um técnico foi depois de uma preleção do Conte, como ele fazia por pelo menos 40 minutos cada. Foi quando pensei comigo mesmo: quero fazer isso também”, confessou o ex-jogador. Andrea também garantiu que Allegri foi outro grande professor e que Lippi se destacava pelo controle do grupo. “[Lippi] Foi fundamental para a vitória na Copa do Mundo, porque desde as primeiras convocações, dois anos antes, ele tinha um time em mente e nos motivou, dizendo que nós iríamos longe. Ele dizia as coisas na sua cara”, ponderou.

Na mesma conversa, o craque – que, na época, estava sendo cotado para assumir o sub-23 da Juventus – já tinha adiantado que estava mais inclinado a aceitar trabalhos em elencos profissionais do que em categorias de base. “Preciso de um objetivo para almejar. Quero sentir a adrenalina do jogo, a vitória ou a derrota, aquela responsabilidade. Não acredito que os times de base são o melhor para mim, ou que seja algo de que eu vá gostar. Prefiro começar com adultos”, afirmou.

Na tentativa de decifrar as poucas pistas dadas por Pirlo, o jornalista Luca Bianchin, da Gazzetta dello Sport, foi atrás de informações com os companheiros do juventino no curso de treinadores de Coverciano. Na edição do último domingo (9), ele escreve que os colegas contaram que Andrea tem uma ideia precisa em mente. Segundo eles, o mister “gosta de um futebol de toque de bola, com a criação do jogo desde a primeira linha de defensores”. Pirlo não elege um esquema tático fixo, mas se baseia na superioridade numérica. São conceitos próximos do jogo de posição, com a procura pelo “terceiro homem” como conceito basilar.

Por fim, Renzo Ulivieri sintetizou o “estilo Pirlo”. Ao fazê-lo, o diretor da escola de treinadores de Coverciano e professor do ex-meia no curso Uefa Pro, Ulivieri foi poético. “Andrea não usa muitas palavras, mas tem personalidade. E quem quer transmitir conceitos não precisa de tantas palavras”. No caso do craque, a aula pode ser simplesmente prática.

Nos anos 1990, o ofensivo Maifredi teve Baggio à disposição, mas fracassou em Turim (imago)

O histórico de reformulações da Juve não é dos melhores

Os anos de segurança e paciência da Juventus podem ser traiçoeiros. Aos menos atentos sobre a história do clube, podem servir para encobrir outras péssimas experiências de renovação foram péssimas. Sempre que a diretoria tentou mudar a filosofia bruscamente, como ocorreu com Sarri – e a efetivação de Pirlo parece uma continuidade nesse movimento –, a infelicidade pairou do lado alvinegro de Turim.

No fim dos anos 1960, Heriberto Herrera montou um time fortíssimo e com grande espírito coletivo, que conseguiu ser campeão da Coppa Italia e vencer a Serie A num período de domínio de Inter e Milan. O paraguaio acabou saindo em 1969 e foi substituído pelo argentino Luis Carniglia, que tinha passagens por Real Madrid, Fiorentina, Roma, Milan e Bologna, mas era criticado por ser ultrapassado. Bastaram 11 jogos para ser demitido.

Depois de Carniglia, Ercole Rabitti assumiu o time para o restante da temporada 1969-70, que teve o Cagliari como campeão. Armando Picchi, ídolo da Inter e mais jovem técnico da Serie A, com 35 anos, foi o treinador seguinte, mas morreu de câncer em maio de 1971, antes do término da campanha. As coisas só se ajeitaram na sequência de 15 anos com Cestmír Vycpálek (bicampeão italiano), Carlo Parola (campeão) e Giovanni Trapattoni.

Trap venceu tudo o que podia em 10 anos. Faturou seis scudetti, duas copas nacionais, uma Copa Uefa, uma Recopa, uma Copa dos Campeões, uma Supercopa Uefa e, por fim, um Mundial Interclubes – todos os títulos internacionais, vale salientar, foram os primeiros do clube. Substituir a lenda seria mesmo difícil, mas foi traumático. Após a ruptura com Trap, que rumou à Inter em 1986, Rino Marchesi assumiu como timoneiro bianconero. Foi ele que estava no banco no ano da aposentadoria de Platini e que também guiou a Velha Senhora a um anônimo sexto lugar em 1987-88.

Após um período de transição com Dino Zoff, que conquistou Copa Uefa e Coppa Italia no período em que dirigiu a Juventus, a diretoria ousou de novo. Trocou a lenda do clube, criado sob o contexto defensivo da zona mista e contratou Luigi Maifredi, espécie de Sarri das antigas. Gigi conduzira o minúsculo Ospitaletto ao título da quarta divisão de 1986-87 e transportou seu futebol ofensivo ao Bologna, que tirou da segundona e consolidou na elite. Na Juventus, um sétimo lugar foi suficiente para que acabasse rapidamente demitido e desse espaço para o retorno de Trapattoni.

Os anos 1990 correram bem para a Juventus, que voltou a ter um norte e conquistar títulos nacionais e internacionais, incluindo um título da Liga dos Campeões com Lippi. Ao menos até que o diretor Luciano Moggi decidisse vender Alen Boksic e Christian Vieri para reformular o elenco: em troca, amargou dois vice-campeonatos europeus. A Juve ainda experimentou o insucesso com Ancelotti e, depois, negociou Inzaghi com o Milan. Novamente com Lippi no comando, a Vecchia Signora voltou à decisão da Champions League, mas perdeu mais uma final – enquanto Pippo, do lado rossonero, celebrou o título.

Para os supersticiosos, há motivos de sobra para desconfiar da gestão Pirlo. Ao menos se o analista levar em conta o aspecto histórico e a inexperiência do craque, que ocupará uma função que nunca exerceu anteriormente. Será que o craque quebrará a escrita de apostas ousadas da Juve?



1 comentário

  • Que incógnita será Pirlo no comando da Juventus. Minha opinião pessoal era de que deveriam ter trazido alguém com mais experiência como o Pochettino. Creio que o lado financeiro pesou bastante. Na parte tática pensar que se tem Ronaldo e Dybala é meio caminho andado não é totalmente errado, mas o argentino não funciona pelos lados e depende de entrosamento para jogar por dentro num 4-3-3. Há ainda o meio campo, pois ele vai ter “fazer” um regista muito provavelmente de Arthur ou Betancur. Tendo os dois em campo há ainda a necessidade de ter outro médio que dê mais força física e aí surge outro problema, já que Rabiot não assegurado para próxima temporada e Matuidi saiu do clube. E quem virá para ataque? Morta? Milik? É bastante trabalho pela frente. No mais parabéns pelo texto.

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