Extracampo Liga dos Campeões

Dai a Sarri o que é de Sarri



Poderia ter sido em março, mas foi nesta sexta-feira, já em agosto. A eliminação da Juventus, mesmo vencendo o Lyon, ilustra a queda de um time que almejava a Europa dominando o futebol local e agora derrapa por sair do caminho que ele mesmo criou. O clube conseguiu contratar o ex-melhor jogador do mundo e piorar muito sob o comando do (já demitido) técnico Maurizio Sarri.

O jogo que o Lyon fez em fevereiro, na ida, naquele mundo pré-coronavírus, foi expressivo. Escrevemos sobre aqui. A maneira como os franceses se portaram em Turim, então, gloriosa: permitindo a troca de passes na intermediária, mas diminuindo o espaço entre as linhas de defensores e meias, diminuindo o ritmo quando precisava segurar a bola e com eficiência ofensiva. Porque esse estava sendo o estilo de jogo que causava problemas à Juve. Atualmente, qualquer um faz o bianconero sofrer.

Porque, veja, o Lyon se portou direitinho no Allianz Stadium. As linhas mais baixas – sem pressão excessiva na saída de bola – e a quebra de ritmo deram fôlego ao time de Rudi Garcia, que disputou apenas uma partida em quatro meses. A falta de intensidade pela ausência de ritmo era algo que vimos aos montes no retorno do futebol, seja na Alemanha, Portugal ou Itália. O Lyon foi bem demais, e a Juventus permaneceu com um futebol pequeno.

Maurizio Sarri

Apenas o título italiano são suficientes para Sarri e a Juventus? (Getty)

“Eu esperava menos”

No pós-jogo, Maurizio Sarri falou: “para ser honesto, eu esperava menos. Nós fizemos um grande jogo. Se não estivesse devastado pela eliminação, eu estaria muito contente com o desempenho”. Parece que há um misto de ironia e depreciação (ou honestidade excessiva?) nas palavras do treinador. O mesmo técnico que comentou, depois da confirmação do título italiano, que os jogadores eram bons mesmo, já que conseguiram ser campeões apesar dele.

Quem viu a Juventus contra o Lyon não perdeu muita coisa sobre a temporada. A opinião de Sarri sobre a qualidade do desempenho contrasta com a representação de um time desorganizado em campo e com poucas respostas às perguntas elaboradas pelo andamento do jogo. Enquanto o Lyon escolhia diminuir a intensidade, a Juventus opta pela mesma proposta porque não consegue atuar de outra forma.

“O objetivo era o scudetto”

Para o capitão Leonardo Bonucci, o plano da Juventus no ano era vencer o campeonato nacional. Disputar uma Liga dos Campeões não é um passeio no parque, mas comentar isso após ver o clube planejando um caminho no qual, durante o percurso, efetua a contratação de Cristiano Ronaldo é desrespeitoso. Um desrespeito à história do português, tetracampeão europeu, com a Juve e com o seu torcedor. Miralem Pjanic, de saída para o Barcelona, respondeu ao zagueiro que “a equipe deveria ter muito mais como ambição”.

A Juve teve um punhado de méritos ao se colocar nesse patamar de exigência, passando pela retomada com Antonio Conte, a afirmação com Massimiliano Allegri e seu estádio próprio. Só que as coisas mudam. Cada passo que o clube dava o colocava mais perto do grupo de que o presidente Andrea Agnelli quer participar: o dos grandes europeus que efetivamente disputam a Liga – sem contar que ele também preside a Associação de Clubes Europeus e quer muito uma Super Champions. Em tese, tem cacife para isso, uma vez que domina o torneio local, e consegue bancar folha salarial e contratações muito acima dos padrões nacionais.

Maurizio Sarri

A saída precoce da Champions League fará o trabalho de Sarri passar sob rígido exame da diretoria da Juve (AFP/Getty)

Dai a Sarri o que é de Sarri

O time jamais conseguiu colocar em prática as premissas do sarrismo além das primeiras rodadas do Italiano. Podemos enumerar obstáculos como lesões importantes (Douglas Costa, Giorgio Chiellini e Merih Demiral), mas, por fim, a equipe não comprou a ideia do treinador. As assimetrias entre Conte/Allegri e Sarri eram tremendas, e sabia-se que haveria a necessidade de adaptação a um novo estilo em campo e fora dele. Porém, as modificações realizadas jogo sim, outro também, mostraram que a Juve ficou previsível ofensivamente e instável na defesa.

Fez o suficiente, sim, para vencer o Italiano nesse ano atípico. O que seria da Serie A 2019-20 se a Atalanta tivesse começado bem, a Lazio retornasse do lockdown sem tantos tropeços ou a Inter conseguisse o mínimo de regularidade? Isso é indiferente. A Juve conseguiu levar novamente principalmente pelas atuações dos personagens principais: Wojciech Szczesny, Matthijs De Ligt, Paulo Dybala e Cristiano Ronaldo.

Só que daremos a Sarri o que é de Sarri. Ele não conseguiu formar um time para competir no continente ao escalar Pjanic, Adrien Rabiot e Rodrigo Bentancur atrás de Federico Bernardeschi, Dybala e Ronaldo. O comentário no parágrafo anterior sobre os destaques é justamente pela compreensão que a ineficácia do meio-campo fez com que o argentino e o português precisaram fazer tudo e mais um pouco para a conquista nacional. E Sarri tentou algumas variações: botou um médio ofensivo, botou Ronaldo como centroavante, tirou Pjanic, compensou com Blaise Matuidi na esquerda – para cobrir as subidas de Alex Sandro. Algumas coisas funcionaram, outras nem tanto.

O desempenho em campo, contudo, foi um reflexo da gestão que também tomou decisões discutíveis. A começar pelo próprio Sarri: o treinador ganhou elogios a rodo ao esculpir o Napoli vice-campeão italiano que encantou a Europa, mas ele seria o treinador ideal para esse recomeço? Ao identificar que o futebol para vencer a Champions League é algo como o de Pep Guardiola e Jürgen Klopp – mas não podendo ter qualquer um destes –, Sarri era o caminho? Porque, acima de tudo, havia Ronaldo: uma presença que inviabiliza um futebol extremamente fluido por demandar a bola com frequência e incapacitar uma marcação com todos os jogadores, como o treinador preconizava no Napoli, por exemplo.

A presença de um Jorginho em Turim foi bastante comentada durante as duas janelas de transferências, mas Sarri confiava em Pjanic – que não correspondeu à altura, após anos em altíssimo nível em uma função diferente. Sem esse controlador eficaz, como Fabinho em Liverpool ou como Fernandinho foi por tanto tempo em Manchester, a Juve tinha dificuldade para criar. Sem Kevin De Bruyne, Jordan Henderson ou Allan (não pense no jogador em si, mas no estilo), faltou chegada. Com Ronaldo, Dybala e Gonzalo Higuaín em péssima forma desde março, se fez uma marcação pressão frágil em relação às outras três equipes – com Bernardeschi, o time ganhou em vigor e perdeu em técnica.

Então não dá para colocar a culpa em Sarri se ele precisou improvisar um ponta na lateral direita porque o time precisou se desfazer do titular por motivos financeiros e o reforço se machucou logo de cara. Também não dá para jogar nas costas dele que a lateral esquerda não teve reserva porque o contratado para o outro lado, Danilo, poderia jogar ali e Mattia De Sciglio saiu do departamento médico apenas para voltar novamente para lá. Sarri recebeu um time com grandes valores individuais sem condições de implementar o estilo de jogo dele integralmente mas, de forma prática, não criou unidade.

Agora, férias. Serão 35 dias para recuperar alguns (Dybala e De Ligt) e descansar outros – para Ronaldo, provavelmente não e saberemos quando ele publicar uma foto no Instagram fazendo 300 flexões logo ao despertar. O gerente Fabio Paratici afirmou antes do confronto com o Lyon que garantia Sarri para a próxima temporada, mas Agnelli voltou a dizer que vai “avaliar o trabalho nos próximos dias”, assim como fazia fielmente todo fim de ano com Conte e Allegri. Bom, as palavras do diretor não duraram 24 horas: o napolitano foi demitido e Pirlo, então nomeado para o sub-23 bianconero, foi promovido para o time principal, com contrato de dois anos.

Será uma pré-temporada bastante conturbada pelo legado dessa Juventus. Por enquanto, somente a contratação de Arthur e a troca no comando não muda, ao menos positivamente, a perspectiva dos bianconeri.



1 comentário

  • Bela análise, concordo plenamente. Confesso que deu saudade do Allegri nesta temporada. Nem tanto pelo desempenho, mas sim pelos resultados. Um confronto como este contra o Lyon era o tipo de jogo que mesmo sem grande desempenho, o Allegri sabia construir o resultado. Para o torcedor muitas vezes isso basta. A próxima será uma grande incógnita, não só por ter Pirlo no banco, mas também pela reformulação que se desenha no elenco. Espero muito tragam pelo menos o Pellegrini de volta pra lateral esquerda.

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