Um dia o Milan se gabou da alcunha de “clube com mais títulos no mundo” – considerando na conta, claro, apenas torneios nacionais, continentais e globais. Essa frase já não corresponde mais à realidade, mas isso não muda o fato que o time rossonero é sinônimo de glórias. Já o Tottenham, por outro lado, muitas vezes é caçoado pelos rivais por conta do jejum de conquistas. No confronto direto entre os rossoneri e os Spurs, contudo, eram os ingleses que tinham a vantagem e, até o início de fevereiro de 2023, até mesmo podiam ostentar a invencibilidade. Pois o Diavolo encerrou tais jejuns e, após um placar agregado magrinho, de 1 a 0, superou o indigesto rival e voltou às quartas de final da Champions League após uma ausência de 11 anos.
Anteriormente, Milan e Tottenham haviam se enfrentado nas semifinais da Copa Uefa de 1971-72 e nas oitavas de final da Champions League de 2010-11. Em ambas as ocasiões, os Spurs venceram em White Hart Lane e empataram em San Siro. Em 2023, o Diavolo deu o troco na mesma moeda, faturando o duelo em casa e mantendo a igualdade nos domínios do adversário. Superior em todo o confronto, o time de Stefano Pioli fez 1 a 0 na Itália e soube jogar com o regulamento debaixo do braço na Inglaterra, onde garantiu o 0 a 0. Sofreu pouco em Londres e, aliás, teve até as melhores chances de marcar gols.
Milanistas mais ousados poderiam até afirmar, jocosamente, que o trânsito de Londres ofereceu mais dificuldades para o time italiano do que os próprios Spurs. É que a delegação rossonera ficou presa no intenso tráfego da capital do Reino Unido e chegou ao estádio do Tottenham com um atraso de meia hora – o que levou a diretoria a solicitar à Uefa o adiamento do início da partida em 10 minutos. Curiosamente, o mesmo havia acontecido com o Borussia Dortmund no dia anterior, na mesma cidade, ao encarar o Chelsea.
A bem da verdade, Tottenham e Milan não fizeram a partida mais interessante do mundo, se consideramos apenas o ponto de vista estético. Durante todo o primeiro tempo, só duas jogadas mereceram destaque: aos 17 minutos, Junior Messias recebeu a bola após cobrança ensaiada de falta e tentou um chute cruzado, mas mandou para fora. Já aos 34, um arremate de Kane, que desviou na zaga, fez Maignan esticar o pé para afastar o perigo. De resto, o duelo teve muita disputa territorial e poucas chances – o que favorecia os rossoneri, em vantagem no agregado.
O segundo tempo acabou sendo mais aberto, embora o Tottenham só tenha se lançado ao ataque na reta final do confronto. Aos 51 minutos, o Milan teve mais uma boa chance de marcar quando Díaz dialogou com Junior Messias e tentou finalizar duas vezes. Na segunda, obrigou o goleiro Forster a fazer uma boa defesa com a sua perna.
O Tottenham só chegou com mais perigo aos 64, após longa posse de bola. A jogada foi concluída com um chute de Hojbjerg, mas Maignan, atento, mandou para escanteio. Quatro minutos depois, o Milan teve a chance de homologar a classificação quando Rafael Leão deixou Díaz na cara do gol. O espanhol ele demorou de arrematar e, na sobra do lance, Giroud finalizou para a defesa de Forster.

Ao longo do confronto em Londres, o Milan ainda teve as melhores chances de balançar as redes (Getty)
Antonio Conte tentou colocar o seu time para frente aos 70, ao substituir Emerson Royal por Richarlison e armar um 3-4-3, com os flancos preenchidos pelo ex-jogador do Fluminense, Son Heung-min, Kulusevski e Porro, que entrara no lugar de Perisic, enquanto Kane seguia centralizado no comando do ataque. A mudança naufragou sete minutos depois, quando Romero cometeu uma falta duríssima sobre o capitão Hernandez, levou o segundo cartão amarelo e foi expulso.
Vendo o Tottenham em inferioridade numérica, Conte optou por sacar Kulusevski e colocar Sánchez para recompor a defesa. A expulsão de Romero, inclusive, fez com que o treinador sequer fizesse cinco substituições: Danjuma e Lucas Moura, que poderiam ser opções para o “abafa” final, permaneceram no banco de reservas e os Spurs tentaram uma pressão mais conservadora nos últimos minutos da peleja.
O tempo ia passando e o Tottenham só conseguiu levar perigo aos 93 minutos, quando Maignan garantiu o resultado para o time italiano. Em bola alçada à área, Kane subiu mais alto do que a defesa visitante e cabeceou para o chão, obrigando o arqueiro francês a fazer uma grande defesa. Do outro lado, o Milan – que já havia ficado a um passo do gol com Tonali – recuperou a posse e, em contragolpe, acertou a trave, com Origi. A chance perdida, contudo, não fez falta aos rossoneri, que comemoraram muito após o árbitro Clément Turpin encerrar a partida.
Com o magérrimo placar agregado de 1 a 0, o Milan voltou às quartas de final da Champions League, que não disputava desde 2011-12 – na ocasião, foi eliminado pelo Barcelona após perder por 3 a 1 no Camp Nou. A passagem de fase é mais um mérito de Pioli e, principalmente, mais um tijolo fincado na reconstrução do gigante rossonero. Por outro lado, o italiano Conte amargou mais um fracasso continental: em sete participações em Champions League, o técnico só levou seu time ao grupo dos oito melhores uma vez, com a Juventus, no já distante 2013.
