Serie A

O adeus a Astori e o futebol como religião

A hora da despedida chegou. Nesta quinta, Florença parou para deixar sua última homenagem a Davide Astori, capitão da Fiorentina, falecido no último domingo. A Itália, que já vivenciou tantos cortejos fúnebres por causa do futebol – do Grande Torino a Gigi Meroni, Luciano Re Cecconi e Agostino Di Bartolomei –, acompanhou atenta. O funeral aconteceu na Basílica de Santa Cruz, no centro da cidade, onde os torcedores da viola e as personalidades presentes mostraram como o futebol é um verdadeiro instrumento de religião.

A palavra religião vem do latim religare, cujo sentido é o de estreitamento de laços entre as pessoas e as forças divinas. Outros termos caros às doutrinas religiosas revelam o valor que a união tem para cada crença, mas ficaremos apenas com um, da fé católica: comungar vem do latim communicare, que significa “repartir, espalhar, ter em comum”. Em Florença, todos se uniram por Astori, sua dor em comum. E espalharam amor.

As palavras, aliás, não podem perder o seu sentido. Elas têm um peso, significam realmente alguma coisa. Não podemos deixar esta dimensão de lado e esquecer que, por terem sentido, palavras formam poesias. Em italiano, por exemplo, morire (morrer), tem como sinônimos na forma culta os verbos scomparire (desaparecer), spegnersi (desligar-se) e mancare (faltar). A morte é scomparsa (desaparecimento) ou mancanza (falta). O coração de Astori desligou, ele faz falta, mas não desaparece. Como cantaram os torcedores florentinos, há só um capitão.

Quase 10 mil torcedores lotaram a praça em frente à basílica. Acenderam sinalizadores, pintaram o céu de violeta e, em uníssono, gritaram o nome de Astori, cantaram em homenagem ao atleta que teve a camisa 13 aposentada pela Fiorentina e entoaram o hino do clube. Cada delegação adversária era aplaudida pelos presentes. Ninguém foi vaiado. Nem o staff da Juventus. Nem Federico Bernardeschi, que saiu de forma atribulada no início da temporada. Nem mesmo Gian Piero Ventura. Isso, sim, é futebol.

Dentro da basílica, homenagens prestadas aos familiares do jogador, que depois seguiram para o crematório de Coverciano, para a última-ultimíssima despedida. Pela Fiorentina, quem discursou foi o volante croata Milan Badelj, que assume a faixa de capitão após a tragédia. Leandro Stein, da Trivela, traduziu:

“Davide, você era simples, direto, pragmático. Com seu olhar profundo, poderia entrar nos olhos de qualquer um e permanecer ali. Você não era igual a todos os outros. Você conversava conosco, mostrando o caminho. Você sempre falava com seu coração, motivava os mais jovens e os mais velhos, com o dom da linguagem universal de seu coração. Um dom que pouquíssimos têm. Seus pais não erraram com você, nem uma vírgula. Você era o melhor companheiro que um garoto pode sonhar quando está começando neste lindo esporte. Como podemos nos esquecer das suas risadas, do seu senso de humor? Você não era como os outros, você era o futebol – a coisa real, o futebol puro das crianças. Nossas condolências vão para sua mãe e seu pai, aos seus irmãos, à sua esposa Francesca e à princesa Vichy. Você era um homem com H maiúsculo e nós diremos isso a elas. Durante as manhãs, você sempre era o primeiro a ir à sala de fisioterapia para acender a luz. Você é a luz de todos nós. Obrigado, Davide”.

Confira a galeria de fotos completa no Corriere dello Sport.

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