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Francesco Colonnese jogou pela dupla de Roma e teve seu auge na Inter de Ronaldo

Forte, voluntarioso e especialista em marcar atacantes rápidos, o zagueiro Francesco Colonnese foi um utilitário bastante célebre no futebol italiano da década de 1990. Seus atributos lhe permitiram ser um dos poucos jogadores a atuarem tanto pela Roma quanto pela Lazio, mas não foi na Cidade Eterna em que viveu os seus melhores momentos. Ciccio encontrou o ápice de sua forma sob o comando do técnico Luigi Simoni, que o treinou em quatro equipes – Cremonese, Napoli, Inter e Siena. Com a camisa nerazzurra, inclusive, entrou para o grupo dos mais duros defensores do Belpaese.

Francesco nasceu em Potenza, capital da Basilicata, região localizada no sul da Itália. De certa forma, o garoto levaria consigo, por toda a carreira, o apelido de sua terra natal – “a cidade das cem escadas”. Depois de trocar o basquete pelo futebol, ainda na adolescência, Colonnese subiu, firme e lentamente, os degraus da modalidade em nível nacional.

O início de sua carreira se deu nas categorias de base do Avigliano, clube amador da homônima cidade, muito próxima a Potenza. Apesar da distância de apenas 20 km que separam as duas comunas, Ciccio demorava cerca de 40 minutos para se deslocar num trem regional, que fazia paradas em dezenas de estações até chegar a seu destino. Em 1988, com quase 17 anos, o zagueiro foi notado pelo time potentino e concluiu sua formação juvenil vestindo rossoblù.

Colonnese estreou profissionalmente pelo próprio Potenza, que disputava a Serie C2 na época. No entanto, recebeu poucas chances pelo time lucano e, em 1991, foi envolvido num negócio com o Giarre, da Sicília, que militava uma categoria acima. Enquanto o atacante Francesco Libro aportou na Basilicata e ajudou os rossoblù a garantirem o acesso, Ciccio aproveitou a lesão de um companheiro de defesa e se tornou titular dos gialloblù com o campeonato em andamento. A temporada dos jonici foi boa e, por pouco, não resultou num inédito acesso à segundona – a equipe foi quarta colocada em seu grupo, mas apenas as duas melhores eram promovidas.

A ascensão de Colonnese aconteceu na Cremonese, clube que o contratou a pedido do técnico Simoni (Ivano Frittoli)

O bom desempenho pelo Giarre levou Francesco à convocação para a seleção italiana de jogadores da Serie C e, em seguida, à Cremonese, que acabara de ser rebaixada para a segundona. Na equipe grigiorossa, Colonnese encontrou o treinador que mudaria a sua carreira: Gigi Simoni. “Era como um segundo pai para mim, e me transmitia os mesmos valores que meus genitores haviam me ensinado em casa”, declarou o defensor, em várias oportunidades.

Simoni acreditou em Colonnese desde o início e o beque fez de tudo para retribuir o crédito que lhe foi dado. Ciccio foi alçado prontamente à titularidade da Cremo, no tridente de zaga composto ainda por Corrado Verdelli e Luigi Gualco. Jogando pelo lado direito da defesa, Francesco ajudou os violini a voltarem à elite, graças ao vice-campeonato da Serie B, além de ter sido fundamental na conquista da Copa Anglo-Italiana, em 1993. Na época, o extinto torneio disputado entre times de Itália e Inglaterra era reservado a equipes das segundonas desses países e, em Wembley, a Cremonese bateu o Derby County.

Foi pela Cremonese que Ciccio pode estrear pela elite – e não fez feio. O zagueiro manteve a titularidade absoluta no time de Simoni e contribuiu para uma excelente campanha: a Cremo foi a décima colocada, se salvando do rebaixamento com relativa folga.

Nessa época, Colonnese ganhou convocações para as seleções olímpica e sub-21 da Itália. Com esta última, na condição de dono da camisa 3, foi campeão europeu da categoria, em 1994. Nas semifinais, os azzurrini eliminaram a França de Lilian Thuram, Zinédine Zidane, Claude Makélélé, Christophe Dugarry e Johan Micoud, enquanto na decisão venceram uma equipe de Portugal que contava com João Pinto, Rui Costa e Luís Figo.

Considerado como um dos melhores jovens defensores do futebol italiano, Colonnese quis tentar desbravar os postos mais altos da modalidade no Belpaese durante o verão europeu de 1994. O beque não quis renovar com a Cremonese e tinha propostas de Fiorentina e Juventus na mesa, mas não queria deixar na mão o clube que lhe dera uma oportunidade na elite – na época, poderia sair a custo zero. Assim, optou por fechar com a Roma, que oferecera aos grigiorossi uma troca entre Ciccio e o zagueiro Luigi Garzya. Dessa forma, o lucano se despediu da Cremo após 77 aparições.

Contudo, a primeira passagem de Colonnese pela capital foi frustrante, e fruto de um dos maiores arrependimentos de sua carreira. Carlo Mazzone, técnico giallorosso à época, dizia: “não estou aqui para ser instrutor de ninguém”. Ou seja, os jovens que se virassem para encontrar oportunidades. Francesco Totti conseguiu as dele, mas Ciccio virou quarta opção de defesa, atrás de Aldair, Marco Lanna e Fabio Petruzzi, de modo que só entrou em campo sete vezes e pouco contribuiu para um ano mediano da Loba – quinta colocada da Serie A e eliminada nas quartas da Coppa Italia.

Ciccio torcia para o Napoli na infância e foi pelos campanos que colocou a carreira no lugar, após breve período de baixa (EMPICS/Getty)

Em 1995, Colonnese foi emprestado ao Napoli, realizando um sonho de infância – afinal, era torcedor azzurro quando garoto. No início, entretanto, encontrou muitas dificuldades. Sem confiança após o ano de pouca utilização em Roma, demorou a cair no gosto do técnico Vujadin Boskov e só teve continuidade a partir de meados do returno da Serie A.

Depois do 12º lugar no Campeonato Italiano, Boskov não permaneceu em Nápoles e Colonnese pode comemorar: afinal, o clube foi buscar Simoni, que deixara a Cremonese. Ciccio, que era opção a Roberto Ayala, André Cruz e Francesco Baldini, viu a sua situação mudar quando Gigi optou por mudar o esquema tático dos partenopei, inclusive para acomodá-lo. O pupilo do treinador, que chegou a ser usado como lateral-direito pelo técnico iugoslavo, começou a ser escalado frequentemente no setor. Era uma forma de o comandante se valer de sua velocidade.

Alternando entre o flanco direito e o centro da zaga, Colonnese ajudou o Napoli a fazer uma primeira metade de campeonato bastante positiva, na qual o time brigava por vaga em competições europeias. Em fevereiro de 1997, os azzurri – que contavam com os brasileiros Cruz, Beto e Caio Ribeiro – chegaram a eliminar a Inter da Coppa Italia e se classificaram para a final do torneio.

Contudo, a magia acabou ali. O Napoli já passava por uma queda de rendimento na Serie A, mas ela se acentuou a partir do momento em que o presidente Corrado Ferlaino soube que Simoni já tinha um contrato assinado com a Inter para a temporada seguinte. O cartola segurou o técnico no cargo por um tempo, mas o demitiu em abril, dando espaço para Vincenzo Montefusco, treinador da equipe sub-19 partenopea.

No fim das contas, somando copa e campeonato, os azzurri venceram apenas quatro das 24 partidas realizadas entre janeiro e junho de 1997. Por conta da crise, o Napoli acabou na 13ª posição da Serie A e perdeu a decisão do mata-mata nacional para o Vicenza. No jogo de volta das finais, os biancorossi fizeram 3 a 0, revertendo o placar de 1 a 0 da ida. Colonnese, suspenso, teve de assistir a reviravolta das tribunas.

Apesar dos altos e baixos em Nápoles, Ciccio guarda com carinho o período que defendeu os azzurri. Numa entrevista ao Guerin Sportivo, ele descreveu o período em que atuou no time napolitana. “Foram dois anos belíssimos. Pude sentir o que é jogar num lugar em que todos gostam de você. Na Campânia encontrei afeto e um grupo único, além de um San Paolo que te empurrava”, disse. “É lamentável que tenha terminado em desilusão”.

Colonnese chegou à Inter por indicação de Simoni e se converteu num surpreendente ótimo reforço (Allsport)

A decepção, porém, logo deu lugar para a grande chance da carreira de Colonnese. Após 54 jogos pelo Napoli, o defensor voltou para a Roma depois do empréstimo e ficou encostado por alguns meses, até Simoni convencer Massimo Moratti a levá-lo para a Inter. O cartola acreditava que o técnico iria pedir a contratação de um jogador consagrado e se espantou com a insistência de Gigi pela operação. Em novembro, com as saídas de Massimo Paganin e Massimo Tarantino para o Bologna, surgiu espaço no elenco e o lucano pousou em Milão. Por lá, virou pupilo da torcida nerazzurra, que usou o seu sobrenome como trocadilho para apelidá-lo como Ciccio Colonna – Chico, o Pilar, em tradução livre.

Aquela Inter era liderada simplesmente por Ronaldo, que viveu seu auge antes da Copa do Mundo de 1998 e, em nerazzurro, ganhou o apelido de Fenômeno e o prêmio de melhor jogador do planeta. Quando Colonnese foi contratado, a Beneamata ocupava a primeira posição da Serie A, dois pontos acima da Juventus. E aquela briga seguiria até o fim do campeonato, com desfecho polêmico.

Colonnese estreou pela Inter numa derrota protocolar para o Piacenza, pelo placar mínimo, na volta das oitavas da Coppa Italia – os nerazzurri haviam vencido o jogo de ida por 3 a 0. Rapidamente, ganhou a posição no trio de zaga da Beneamata, geralmente atuando pelo lado direito. Na época, Simoni promovia um rodízio com os vários nomes que tinha à disposição, como Giuseppe Bergomi, Salvatore Fresi, Luigi Sartor, Taribo West e Fabio Galante. Porém, o lucano era um daqueles mais frequentemente utilizados pelo técnico.

Ocupando a função de pilar da zaga interista, Ciccio Colonna contribuiu para que a Beneamata concluísse a Serie A com o posto de melhor retaguarda da temporada, com 27 gols sofridos em 34 jogos. No entanto, o título ficou com a Juventus, que levou a melhor na reta final da competição: na 31ª rodada, quando tinha apenas um ponto de vantagem, venceu um confronto direto célebre por uma arbitragem que não marcou pênalti de Mark Iuliano em Ronaldo, revoltando os nerazzurri. Geralmente calmo, Simoni invadiu o gramado com a bola rolando e foi expulso.

“Ver um senhor como Simoni entrar em campo causou um choque emocional de grande impacto: era a representação da rebelião das pessoas decentes contra o sistema. Cem anos se passarão, mas aquela imagem ficará gravada para a posteridade”, afirmou Colonnese ao jornal Il Tirreno. Em 2023, ao Guerin Sportivo, o defensor não economizou palavras: “aquele lance ainda evoca sentimento de vingança em todos nós [jogadores daquela Inter]”.

A perda do Derby d’Italia – e, consequentemente, da Serie A, que a Beneamata não conquistava havia nove anos – não abalou o elenco interista e acabou servindo de motivação para o segundo objetivo da temporada. Na semana seguinte ao clássico, a Inter viajou até Paris para disputar a final da Copa Uefa e derrotou a Lazio por um sonoro 3 a 0, num duelo em que Colonnese efetuou grande marcação individual sobre Roberto Mancini. Após a conquista do título continental, Ciccio ainda celebrou, na última rodada do Italiano de 1997-98, seu primeiro gol como profissional, que foi anotado num triunfo por 4 a 1 sobre o Empoli.

Com a camisa nerazzurra, o beque foi campeão da Copa Uefa (Arquivo/Inter)

Ao fim da campanha, Moratti definiu Colonnese como uma das grandes contratações feitas pela Inter na temporada 1997-98, porque rendeu muito e custou pouco. Nessa mesma época, o lucano chegou a ser sondado pela seleção, treinada por Cesare Maldini – o técnico, vale destacar, o conhecia bem, pois fora o comandante italiano na conquista da Euro Sub-21 de 1994. No entanto, o professor utilizava uma linha de quatro na defesa e Ciccio se dava melhor numa de três, o que levou o experiente Bergomi, seu colega de clube, a ser convocado para a Copa do Mundo de 1998 em seu lugar. Francesco recebeu a promessa de que seria observado no futuro, mas a Beneamata passou a enfrentar problemas, minando suas chances. O resultado? Jamais foi convocado pela Nazionale.

Então com 27 anos, Colonnese vivia o seu auge e chegou a trocar a camisa 33 pela prestigiosa 3, vestida anteriormente por Giacinto Facchetti. Naquele período, recebeu uma proposta para atuar no Middlesbrough, que levou tantos italianos para a Premier League, mas decidiu permanecer em Milão, porque tinha desenvolvido grande identificação com os nerazzurri. No entanto, a Inter entrou em parafuso.

O grupo era fechado e formado por jogadores que desenvolveram laços duradouros – Diego Simeone, por exemplo, se transformou no melhor amigo que Ciccio fez no futebol. Só que o início da temporada não foi acompanhado por uma melhora de rendimento, esperada pelo presidente Moratti. Impaciente, o cartola não hesitou em demitir Simoni mesmo após o técnico ser agraciado com o prêmio Panchina d’Oro, dado ao melhor do campeonato.

Com a saída de Simoni, a Inter se perdeu definitivamente na temporada 1998-99, ainda que tivesse elenco mais forte do que no ano anterior. Mircea Lucescu, Luciano Castellini e Roy Hodgson não resolveram os problemas da equipe, que caiu nas semifinais da Coppa Italia, nas quartas da Champions League e foi apenas oitava colocada na Serie A, ficando sem vaga em competições europeias. A implosão da Beneamata levou Moratti e buscar Marcello Lippi, multicampeão com a Juventus, e isso resultou no fim da linha para Colonnese.

Além de muito identificado com a Velha Senhora, Lippi era o técnico da Juventus no fatídico Derby d’Italia que resultou no vice-campeonato da Inter. Como as polêmicas do clássico tinham gerado muita animosidade entre os seus personagens, o treinador quis depurar o elenco e se livrar da maior parte dos remanescentes daquele jogo. Colonnese foi um dos escolhidos como vítimas do pente fino, mas Moratti vetou a sua saída num primeiro momento.

Apesar da permanência, o beque foi pouco usado pelo treinador e deixou Milão em 2000, após 80 aparições em nerazzurro. Curiosamente, nas voltas que a vida dá, Ciccio Colonna virou amigo de Lippi. Ou melhor, o técnico se tornaria seu padrinho de casamento, devido a uma relação de amizade cultivada por suas esposas.

Colonnese viveu o seu auge pela Inter, equipe com a qul mais se identificou em sua carreira (imago)

Ao deixar a Inter, Colonnese fez uma escolha polêmica: acertou com a Lazio, enfurecendo os romanistas que pouco lhe viram com a camisa giallorossa. O zagueiro não chegava à equipe celeste, então detentora dos títulos da Serie A e da Coppa Italia, para jogar. Pelo contrário, seria apenas uma opção de banco no estelar elenco laziale e, quase sempre, designado a partidas menos importantes. No centro da zaga, o capitão Alessandro Nesta, Sinisa Mihajlovic e Fernando Couto tinham vantagem na hierarquia.

As expectativas de jogar pouco se concretizaram, mas as de ganhar títulos importantes, nem tanto – embora, nos quatro anos em que Colonnese passou na Lazio, a equipe tenha se classificado duas vezes para a Champions League e sido semifinalista da Copa Uefa numa ocasião. Entre as taças, faturou a da Supercopa Italiana em sua chegada, no verão de 2000, e a da Coppa Italia na despedida, em 2004. Porém, o zagueiro encarou a forte crise que quase levou a agremiação à falência. Isso, inclusive, foi um dos motivos para sua escassa utilização.

A Lazio tentava se manter em campo. Mas, fora dele, via os débitos contraídos pelo presidente Sergio Cragnotti, em sua gastança desenfreada, levarem à venda de diversas estrelas da constelação. Em janeiro de 2003, o cartola contratou Luca Baraldi, que já havia tentado executar manobras contábeis para salvar o Parma de Calisto Tanzi da falência, numa última cartada para diminuir as dificuldades financeiras.

O novo dirigente, então, lançou mão do chamado Plano Baraldi, que consistia na renegociação dos salários dos atletas. A Lazio propôs aos jogadores que parte de seus salários fossem pagos em ações do clube na bolsa – o que não era vantajoso, já que o título celeste, associado ao da Cirio, empresa do grupo de Cragnotti, vinha em tendência de queda. Colonnese não aceitou a oferta e foi prontamente afastado.

A última partida de Ciccio com a camisa dos aquilotti foi contra o Bari, pela Coppa Italia, em janeiro de 2003. Até maio de 2004, o zagueiro só treinava com o grupo, mas, por determinação da diretoria, raramente era convocado para os jogos da Lazio. O lucano só era relacionado para completar o banco de reservas, já sabendo que não iria entrar em campo, como estratégia da diretoria para evitar um processo por assédio moral e uma indenização ao atleta.

Quatro temporadas e apenas 29 partidas depois, Colonnese deixou a Lazio e, beirando os 33 anos, acertou com o Siena, voltando a ser comandado por Simoni. Dessa vez, contudo, a sintonia dos dois não foi a melhor possível, até porque Ciccio estava fora de forma após tanto tempo sem jogar e não atuou com frequência. Viria à tona em alguns meses, aliás, que o zagueiro chegou a ser um dos pivôs da demissão do técnico, na metade da campanha.

Ciccio jogou muito pouco pela Lazio, principalmente por conta de questões extracampo (Allsport)

Sob o comando de Luigi De Canio, os toscanos seguiram em luta ferrenha contra o rebaixamento e se salvaram na última rodada. O novo treinador, que era natural da Basilicata, tal qual Colonnese, continuou no cargo e manteve o conterrâneo como opção no rodízio de zagueiros, mas lhe deu minutagem menor. Dessa vez, a Robur teve uma salvação mais tranquila.

Durante sua passagem pelo Siena, Colonnese teve dois momentos de destaque contra a Roma, enlouquecendo uma torcida que já o odiava. Em 2004-05, numa vitória por 2 a 0 dos bianconeri sobre os giallorossi, em pleno Olímpico, grudou em Totti e o irritou a ponto de ser agredido com um soco no rosto – o que levou à expulsão direta do atacante e um gancho de cinco rodadas. “Eu grudava nele. Ele, então, perdia a lucidez, reclamava muito e acabava expulso. Aconteceu duas vezes [a outra, nos tempos de Inter]”, lembrou o zagueiro ao jornal Il Tirreno.

Em 2005-06, Colonnese voltou a brilhar no Olímpico. Com um a menos, o Siena vencia a Roma nos acréscimos de um jogo válido pela oitava rodada da Serie A e Ciccio foi lançado ao gramado para segurar o resultado. Perto do fim, Antonio Mirante não agasalhou uma cobrança de falta de Totti e Christian Panucci empatou para os mandantes. Contudo, já nos acréscimos, os giallorossi perderam a bola no meio-campo e o beque saiu em disparada para o ataque, tabelando com Erjon Bogdani, até receber de volta e estufar as redes. Era o seu terceiro e último gol como profissional – comemorado com êxtase inigualável, visto que o 3 a 2 na Cidade Eterna é tido como uma das principais vitórias dos seneses em toda a história.

Ciccio esperava renovar o contrato com o Siena após o fim da temporada, mas dois escândalos relacionados atingiram em cheio o futebol italiano, entre maio e junho de 2006: o Calciopoli, que rebaixou a Juventus e puniu Fiorentina, Lazio, Milan e Reggina, e o da GEA World, empresa de agenciamento de jogadores administrada por Alessandro Moggi, filho de Luciano Moggi, diretor juventino. Colonnese era representado pelo procurador e chegou a ter telefonemas grampeados.

Os diretores da GEA World e alguns de seus representados foram investigados por participação na manipulação de resultados, mas nada foi provado. Apenas Moggi terminaria condenado por concorrência desleal e tentativa de uso de violência para favorecimento de atletas e técnicos no mundo da bola. Numa das gravações, Colonnese conversa com o procurador Francesco Zavaglia e dá a entender que representava os interesses da agência dentro do Siena: sugere saídas de atletas e chega a descredibilizar Simoni, o qual estaria lhe escanteando por conta da representação.

Simoni, evidentemente, não reagiu nada bem às gravações reveladas. “Estou amargurado e surpreso. Fiz tanto por esse rapaz, mas, evidentemente, seu amor pela GEA era muito grande e, por isso, ele me traiu”, afirmou à rádio Repubblica. “Ele deveria ter minha foto na sua cabeceira, porque o ajudei a ganhar milhões”, desabafou à revista L’Espresso.

Colonnese se despediu do futebol com a camisa do Siena, time em que aliou salvações, momentos históricos e polêmicas (New Press/Getty)

O baque da divulgação dos grampos telefônicos apressou a aposentadoria de Colonnese, que pendurou as chuteiras aos 35 anos, depois de sua passagem pelo Siena. Fora dos campos, um dos primeiros objetivos do ex-zagueiro foi conseguir o perdão de Simoni – o que ocorreu, como é comum entre pai e filho, mesmo entre aqueles simbólicos. Após a reconciliação com Gigi, que faleceria em 2020, Ciccio o elogiou publicamente diversas vezes, sempre reconhecendo a importância que teve em sua trajetória.

Ciccio até chegou a iniciar a carreira de treinador e fez todos os cursos necessários para o primeiro nível do futebol europeu. Porém, sua passagem pelo banco de reservas foi curta: atuou apenas como assistente técnico na Serie B, no Padova e no Livorno, em ambas as ocasiões a convite de Bortolo Mutti. Colonnese encontrou um posto melhor nas tribunas e nos estúdios de TV, atuando como comentarista esportivo.

Conhecido por gostar de levar uma vida calma, Ciccio se mudou com Monica, sua esposa, para Montecatini Terme, uma cidade com estâncias termais no interior da Toscana, não muito distante da divisa com a Ligúria. Por lá, o ex-defensor – eleito por Juan Sebastián Verón como um dos três mais duros que enfrentou na marcação individual – atua como consultor do pequeno Montecatini e torce pela evolução do filho Lorenzo, zagueiro da base do Genoa. Volta e meia, sai de lá para atuar em partidas beneficentes do projeto Inter Forever, com outros atletas que fizeram a história da Beneamata.

Francesco Colonnese
Nascimento: 10 de agosto de 1971, em Potenza, Itália
Posição: zagueiro
Clubes: Potenza (1989-91), Giarre (1991-92), Cremonese (1992-94), Roma (1994-95 e 1997), Napoli (1995-97), Inter (1997-2000), Lazio (2000-04) e Siena (2004-06)
Títulos: Copa Anglo-Italiana (1993), Europeu Sub-21 (1994), Copa Uefa (1998), Supercopa Italiana (2000) e Coppa Italia (2004)

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