Serie A

Udinese: o segredo do sucesso

(Originalmente para o Olheiros.net)

Para uma temporada que não se desenhava muito promissora para a Udinese, os resultados, aos poucos, foram superando as expectativas. Muito disso graças aos jovens que se firmaram durante o ano, suprindo a ausência de quatro jogadores: De Sanctis, Natali, Muntari e Iaquinta. O quarteto formava a espinha dorsal de um time indigesto e esperava-se que algum tempo fosse necessário para que o time friulano se adaptasse à vida sem seus principais nomes. Mas não foi difícil para o torcedor decorar a formação titular do time.

Handanovic; Zapata, Felipe e Lukovic; Mesto, Inler, D’Agostino e Dossena; Pepe, Quagliarella e Di Natale. Do onze habitual da Udinese, quatro jogadores têm idade olímpica. E, mesmo considerando todo o plantel à disposição de Pasquale Marino, apenas três atletas já ultrapassaram os 26 anos. O segredo para a boa forma da Udinese no decorrer do campeonato foi a aposta em jovens desconhecidos ou desacreditados pela grande mídia.

O atacante Simone Pepe, refugo de Roma e Palermo nos últimos anos, foi eleito pelo Corriere dello Sport o melhor custo-benefício da temporada. Outra aposta de risco, o meia Gökhan Inler, foi sucesso imediato. O suíço havia sido vetado por Christoph Daum no Fenerbahçe, há quatro anos, por deficiência técnica; na Udinese, segurou a bronca da venda de Muntari e das lesões de Pinzi e Obodo. No ofensivo 3-4-3 adotado por Marino, passou a formar dupla com Gaetano D’Agostino, outro ex-romanista. Titular de várias seleções de base e destaque em todas as categorias da Roma, D’Agostino finalmente mostrou seu futebol em alto nível.

Mesmo muito jovens, os três chegaram no Friuli já como profissionais, assim como Handanovic e Zapata. E por um baixo custo. O único dos onze habituais titulares profissionalizado em Údine é o brasileiro Felipe. Algo que tende a mudar, num futuro próximo.

Aprendendo a caminhar sozinha

Assim que retornou à Serie A, em 1995, a meta da Udinese era ambiciosa: se firmar entre os grandes clubes do país, numa época em que o abismo entre os metropolitanos e os provinciais era menos absurdo que hoje. Para isso, o clube apostou em alguns nomes consagrados. No fim da década de 90, jogadores como o meia belga Johan Walem e os atacantes Oliver Bierhoff e Amoroso atuaram com sucesso pelo clube friulano. Apesar do sucesso dentro de campo, com seu ápice na terceira colocação do campeonato 1997-98, a estrutura de então era deficitária para um time sem grandes aportes financeiros.

Logo a Udinese alterou seu projeto. Já conhecido nacionalmente graças à sua prolífica categoria de base, o clube passou, também, a monitorar o mercado. As divisões inferiores da Itália, países periféricos da Europa e mercados menos valorizados da América Latina tornaram-se prioridade na agenda do clube alvinegro. Antes mesmo da virada da década, o plano vingou. O dinamarquês Martin Jorgensen, o chileno David Pizarro e o atacante Vincenzo Iaquinta, entre outros, chegaram à Údine por preços módicos e converteram-se em sucesso de público – e caixa. Aposta bem-sucedida, a teia de olheiros pôs-se a espalhar, alcançando também o futebol africano.

Enquanto Morten Bisgaard e Carsten Jancker, apostas de alto custo, faziam temporadas tortuosas, Sulley Muntari e Morgan De Sanctis, contratados praticamente a parâmetro zero, convertiam-se em ídolos da torcida. Sob a batuta de Luciano Spalletti, o time chegou à Copa da Uefa por duas vezes e atingiu seu topo com a classificação para a Liga dos Campeões. Se Néstor Sensini e David Belleri eram fundamentais, os jovens Felipe e Giampiero Pinzi tornavam-se a sensação da Itália.

Contratações de baixo custo, vendas com alto lucro. Ótimos resultados no campo esportivo e também no econômico. O segredo estaria “no tempo para que os jovens amadureçam por completo, já que neste clube não há pressa, por resultados ou por dinheiro”. São as palavras de Antonello Preiti, diretor técnico da Udinese, em entrevista concedida ao Olheiros.

Estrada para o sucesso

O sistema de captação da Udinese se vale não só de uma extensa rede de olheiros e colaboradores, mas também de uma infra-estrutura televisiva com uma sala especial utilizada para o acompanhamento de vários campeonatos. Em todos os países observados, há operadores para marcar os principais talentos.

Outro método é o de relacionamento oficial: a Udinese possui, por exemplo, parceria com o Liberty Professionals, clube de melhor estrutura em Gana. De lá, chegaram Muntari e Asamoah Gyan. O sucesso dos dois garantiu chance para mais três compatriotas na Itália: Aziz Tetteh, Alhassan e Asamoahm foram contratados no decorrer da temporada. Sobre as iniciativas de mercado, Preiti explicou ao Olheiros que a Udinese “não tem uma prioridade, mas a busca por talentos, obrigatoriamente, passa por um bom custo-benefício. Para nosso clube, os balanços são fundamentais. Em nossa busca, ficamos atentos não só à idade, mas também ao término do contrato. São algumas formas de observar investimentos a serem feitos.”

Para Andrea Carnevale, ex-atacante da seleção italiana e atualmente diretor responsável pelo sistema de observação da Udinese, o fato do investimento em jovens fazer parte da tradição do clube é fundamental no sucesso encontrado atualmente. “Os garotos vêm de boa vontade para Údine porque sabem que aqui progredirão e terão a atenção justa. O presidente Pozzo não estabelece limites”, disse Carnevale.

O clube deve se concentrar em alguns mercados em particular, a partir da próxima temporada. Hungria e Romênia terão atenção especial dos olheiros do clube friulano, que tem evitado os mercados brasileiro e argentino por conta da supervalorização de seus jovens. A Udinese esteve interessada em Alexandre Pato, há dois anos, mas não conseguiu tirar o jogador do Inter, que posteriormente o negociaria com o Milan numa transação milionária.

Tal estratégia seria inédita para o clube. Nos últimos anos, o campo de observação da Udinese jamais foi linear. De Guaratinguetá a Zurique, de Cáli a Roma, nenhum trabalho muito direcionado foi realizado. Além dos atuais jogadores no elenco, citados no início da matéria, há bons nomes em empréstimo que podem retornar para a próxima temporada, como os atacantes brasileiros Barreto e Schumacher. Para o bom funcionamento do método, o trabalho dos agentes foi estimulado pelo clube, que deu a eles livre trânsito no Dino Bruseschi, local de treinamento para as categorias amadoras da Udinese.

A hora é agora

A Udinese possui uma das melhores estruturas para categorias de base em toda a Itália. No centro esportivo Dino Bruseschi, os jogadores que ambicionam seu lugar no elenco principal têm apoio nas frentes logística, escolar e técnica, como forma de adaptação a uma nova realidade. Ainda assim, a preferência do clube tem sido por “importar” jogadores mais próximos da profissionalização. Atualmente, não há no plantel principal qualquer jogador com passagem por todas as camadas jovens da Udinese.

Quem foi formado por completo no clube e postula um espaço no próximo ano é o volante Andrea Migliorini, capitão do time primavera. O armador Alessandro Osso e o atacante Giovanni Langella também têm se destacado. Sobre o desenvolvimento de seus jovens, Antonello Preiti afirma que “eles possuem todo o mundo para amadurecer tranqüilamente, pois neste clube não há pressa, seja por resultados ou por retorno financeiro”. O diretor técnico da Udinese também defende que o clube venda apenas jogadores já completamente formados do ponto de vista técnico.

Mesmo com contratações pouco dispendiosas – os 7,3 milhões pela co-propriedade de Fabio Quagliarella foram a grande exceção da década, – a Udinese tem mantido campanhas acima da média. O estável processo de revelação de jogadores pôs o clube na agenda dos grandes compradores de toda a Europa. E, classificada para a próxima Copa da Uefa, a expectativa é que o clube perca pelo menos dois de seus titulares na próxima janela de transferências. Por outro lado, um bom dinheiro deve entrar em caixa para a reposição.

Com um bom mercado de verão, aliado a fatores como maior experiência na disputa da complicada Serie A e melhor adaptação ao agressivo plano de jogo de Pasquale Marino, a Udinese 2008-09 deve alcançar uma maior estabilidade. Também vale ficar de olho em algumas promessas que podem estourar a qualquer momento da próxima temporada: a dupla chilena Alexis Sánchez e Mauricio Isla, respectivamente armador e volante, destaques no último Mundial Sub-20; Antonio Candreva, meia inteligente e técnico, contratado há três anos junto à Ternana e freqüentemente comparado a Francesco Totti; e Federico Laurito, centroavante argentino, classe 90, principal aposta de Carnevale para a próxima temporada. Olho neles, olho na Udinese.

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