Serie A

Segredos de campeã

Nos bastidores, Oriali e Branca trabalham para fazer a Inter crescer (Inter.it)
No início da semana, perguntei retoricamente aqui no blog qual seria o segredo que a Inter tem, para vencer e ser tão superior às outras equipes italianas. Fazendo um esforço analítico, é possível perceber o que mudou na sociedade nerazzurra nos últimos anos para que dezessete anos sem um scudetto sequer fossem deixados para trás por uma das melhores equipes italianas da história. Se a Inter alcançar seu objetivo, o iminente pentacampeonato consecutivo será histórico: apenas a Juventus dos Agnelli foi penta, na década de 30. A alcunha de Grande Inter é dada para a equipe de Helenio Herrera, que na década de 60 levantou duas Copa dos Campeões e três scudetti. Mas será que os feitos da Inter atual não são tão históricos quanto os da Inter capitaneada por Giacinto Facchetti?

Comparações à parte, ao contrário do que muita gente possa pensar, a fase vencedora dos nerazzurri não começa a existier apenas por causa do escândalo do CalcioCaos, que condenou e enfraqueceu Milan e Juventus, que dominavam o a Serie A no início dos anos 2000. Seria injusto não reconhecer que, de fato, o rebaixamento da Juventus foi importante para a arrancada interista, já que as dificuldades financeiras da Velha Senhora foram fundamentais para que a Inter contratasse Vieira e Ibrahimovic – que viria a se tornar o principal jogador da equipe na década. Por outro lado, também seria injusto não perceber que mudanças estruturais já vinham sendo feitas no clube mesmo antes do escândalo de manipulação da arbitragem.

A área técnica

Estas mudanças referem-se à política de contratações do clube, justamente ridicularizada no final dos anos 90 e início dos 2000. Mudanças graduais ocorreram para que o clube começasse a deixar de derramar rios de dinheiro por medalhões longe do auge físico, apostas, jogadores medianos ou desconhecidos. Se hoje a Inter é a única grande italiana saudável financeiramente, isso se deve boa parte à mudança de postura no que diz respeito a contratações. Os responsáveis por esta guinada são Gabriele Oriali, bandeira do clube nas décadas de 70 e 80 e atualmente consultor de mercado e representante do elenco principal, e principalmente a Marco Branca, que passou pela Inter na década de 90 como atacante e retornou em 2003 para dirigir a área técnica e negociar diretamente por jogadores. A aposta em gente que conhece os bastidores do clube fez com que o presidente Massimo Moratti interferisse menos nas contratações e na parte técnica de maneira geral.

As estratégias de mercado nem sempre foram idênticas ao longo destes seis anos e meio em que a dupla tem atuado em conjunto. O período de 2003 até 2005 ainda conservava características dos mercados anteriores, mas com leves mudanças. A grande virada começou a se dar a partir do momento em que Branca trouxe Cambiasso, em 2004, e Figo e Samuel no ano seguinte. Cambiasso e Figo vieram a custo zero, enquanto Samuel veio a um baixo preço. Esta seria a tônica dos anos seguintes: gastar menos.

Ao longo de toda a trajetória da dupla, podem ser identificadas três grandes tendências de mercado: a contratação de jogadores que se destacam no cenário nacional (Cruz, Stankovic, Adriano, Samuel, Pizarro, Chivu, Mancini, Milito e Pandev); estrelas de campeonatos menos badalados (van der Meyde, Júlio César, Maicon, Maxwell, Quaresma) e o maior interesse sobre jovens jogadores (Santon, Balotelli, Khrin e Arnautovic). No fim das contas, apesar de algumas contratações que deram errado (não que tenham sido contratações equivocadas), como van der Meyde, Davids, Pizarro, Mariano González e Mancini, se pode avaliar positivamente o trabalho de Branca e Oriali: na atual equipe titular da Inter, apenas Zanetti não foi contratado pela gestão. Entre os reservas, só Toldo, Cordoba e Materazzi são remanescentes de anos anteriores.

Além disso, o presidente também deixou de interferir na escolha do time titular, como acontecia frequentemente quando pedia (publicamente, inclusive) que os treinadores escalassem o uruguaio Álvaro Recoba, tratado como seu filho. Com Branca e Oriali, as escolhas cabem, obviamente, ao atual treinador. A intermediação na área técnica profissionalizou mais a sociedade, que enfim permitia que os treinadores tivessem a possibilidade de desempenhar trabalhos a médio e longo prazo, com menor pressão. Foi assim com Roberto Mancini e tem sido com José Mourinho, durante os cinco anos que a Inter domina a Serie A. A Juventus, última campeã antes da Inter, teve cinco técnicos no mesmo período.

Em campo

Roberto Mancini e José Mourinho, os dois técnicos que a Inter teve neste período, também merecem créditos. Mancini é o primeiro dos responsáveis por restabelecer a mentalidade vencedora desta Inter. Muito bom na parte tática, o técnico de Jesi montou o 4-3-1-2 que possibilitou a Stankovic atingir a melhor fase de sua carreira, jogando como primeiro trequartista e depois na linha de três homens. Outro achado do treinador foi aproveitar o máximo de Maicon nas subidas ao ataque com o máximo de velocidade, cobertas por Zanetti, escalado no meio-campo para cobrir os avanços do brasileiro. Mancio também acertou ao escalar Cambiasso no centro do meio-campo, um pouco mais atrás na linha de três. O argentino por vezes subia ao ataque como elemento surpresa. Na frente, Ibrahimovic vinha de dois anos opacos na Juventus, mas recolocou a carreira nos trilhos com três anos fantásticos na Inter.

A contratação de Mourinho mostrava que o clube de Via Durini buscava dar um passo além, no quesito mentalidade vencedora – sobretudo em âmbito europeu. Se em nível continental, o português ainda não foi capaz de revolucionar a forma de a Inter jogar, é inegável que em solo italiano, a Inter é cada vez mais superior. Trabalhando principalmente na parte psicológica, Mourinho faz os jogadores atuarem de forma diligente, como se lutassem apenas pelos resultados positivos. A contratação de jogadores como Eto’o, Milito e Sneijder enfatiza tanto o aspecto de jogadores determinados quanto o de jogadores de nível mundial, capazes de decidir partidas.

Para completar, Mourinho solicitou que fossem feitos investimentos no centro de treinamento da equipe, em Appiano Gentile. Foram construídos novos e mais modernos campos de treinamento, inclusive para as divisões de base, outro foco de Mourinho desde que chegou a Milão. Pensando no futuro, o clube trabalha cada vez mais forte nas divisões de base. A equipe Primavera foi campeã do Torneio de Viareggio em 2008, contando com jovens como Davide Santon e Mario Balotelli, contratados antes da profissionalização. A inserção dos principais destaques da equipe Primavera no elenco principal, feita por Mourinho, também faz parte das trabsformações que tem sido feitas nos últimos anos.

Para este ano, o clube acertou com Fulvio Pea, que treinou a Primavera da Sampdoria na campanha campeã em Viareggio, em fevereiro passado, e é um dos melhores gestores de talentos do país. Atualmente, a Inter tem uma das divisões de base mais fortes do país e segue investindo: hoje foi anunciada a contratação do nigeriano Nwankwo Obiorah, defensor da seleção sub-18 de seu país. Dessa forma, ampliando cada vez mais seu processo de profissionalização, a Inter permanece à frente das sociedades rivais.

Confira as contratações mais importantes da Inter nos últimos anos

Cruz, van der Meyde, Stankovic e Adriano (2003/4); Davids, Solari, Cambiasso, Burdisso, Verón (2004/5); Samuel, Figo, Santon, Pizarro e Júlio César (2005/6); Maicon, Maxwell, Crespo, Balotelli, Vieira, Ibrahimovic, Grosso, Dacourt, Mariano González e César (2006/7); Chivu, Rivas, Jiménez, Khrin, Suazo e Pelé (20007/8); Mancini, Muntari e Quaresma (2008/9); Milito, Thiago Motta, Lúcio, Arnautovic, Eto’o, Sneijder e Pandev (2009/10).

11 comentários

  • Eu sofri muito com essa fase da Inter estando em baixa, o primeiro título que comemorei como tifosi nerazzurro foi Coppa Italia de 05/06 e de lá pra cá a equipe entrou nos trilhos.

    Creio que se a Inter mativer a pegada do jogo contra o Milan, na Champions o resultado poderá ser diferente dos outros anos. Com isso sonhar com um triplície coroa, mas conquistar a europa novamente já está de bom tamanho.

    Abraço

  • Parabéns, Nelson.
    Sofro muito atualmente com a fragilidade da Juve (que aposta em Felipe Melo e Diego como grandes contratações), enquanto a Inter traz Sneijder e Pandev (para mim, no nível do DIego e que são para compor elenco e fortalecer o time.

    Sua análise é fundamental.
    Parabéns à Inter que manterá este reinado por mais uns 2 ou 3 anos, com certeza.

  • Parabéns, Nelson.
    Sofro muito atualmente com a fragilidade da Juve (que aposta em Felipe Melo e Diego como grandes contratações), enquanto a Inter traz Sneijder e Pandev (para mim, no nível do DIego e que são para compor elenco e fortalecer o time.

    Sua análise é fundamental.
    Parabéns à Inter que manterá este reinado por mais uns 2 ou 3 anos, com certeza.

  • Excelente post. Confesso que desconhecia boa parte do aqui exposto.

    Ate minutos atras, eu achava que o calciocaos era um dos grandes responsaveis pela ascensao da Inter e, talvez, o unico. Algo bem simplista: sucesso da Inter decorre da ma fase dos demais. Porem, parece que o merito da Inter é bem maior do que eu imaginava.

    Ricardo.

  • Fantástico o texto que o Burdisso/Diego Milito,ou melhor NELSON escreveu!

    Parabéns.Eu lembro de muito do que você comentou.E concordo.Assino embaixo.Esse momento interista,pelo visto continuará.

    Abraços.

  • Nelson,

    Parabéns pelo texto escrito, acredito que você tenha explorado o ponto principal desse crescimento da Inter, que foi a "profissionalização" da direção de futebol da Inter, que sem duvidas, foi a parte mais importante para a volta das glorias Interistas, é so ver pelo nivel de contratações dos últimos anos e a continuidade dos treinadores no comando.

    Mais uma vez parabéns garoto,

    Abraços

    Bruno

    ET. "Ahhh o Recoba tem que jogar"…realmente era terrivel, ainda bem que passou essa fase…rsrs

  • Excelente texto. Sou Milan, mas pra mim é inegável que não é de hoje que a Inter é muito superior às outras equipes no campeonato italiano. Mas também acho que para ser comparada ao time de Helenio Herrera falta a essa atual Inter vencer uma Liga dos Campeões e se livrar de vez do estigma de "time doméstico".

Deixe um comentário