Jogos históricos

Eusébio foi um dos adversários mais competitivos dos times italianos na década de 1960



Eusébio da Silva Ferreira foi o primeiro grande fenômeno mundial do futebol português. O responsável direto por colocar o Benfica no rol dos maiores clubes do continente. Nascido em Moçambique, desde muito jovem o Pantera Negra demonstrava um talento incrível com a bola em seus pés, aliando velocidade, habilidade e força física. Se mudou para Portugal com 17 anos de idade e foi exatamente na base benfiquista que começou a mostrar aos torcedores de todo o país que seria alguém relevante no mundo do futebol. Em sua carreira, o atacante ficou marcado sobretudo pelos duelos contra times da Itália.

O craque moçambicano acumulou feitos nos anos 1960, se tornando um dos maiores jogadores de todos os tempos. Eusébio marcou seu nome para sempre na história do esporte com uma série de feitos: conquistou a Europa com o Benfica na temporada 1961-62; venceu 11 vezes o Campeonato Português; se tornou o Bola de Ouro em 1965; foi o artilheiro da Europa em 1968 e 1973; e, por fim, levou os tugas a um histórico terceiro lugar na Copa de 1966. Nesse texto, destacaremos como a lenda construiu sua trajetória e sua mitologia a partir de seus duelos contra os clubes italianos e também contra a seleção azzurra.

O primeiro encontro: a final da Copa dos Campeões de 1963

Milan e Benfica chegaram à decisão da Copa dos Campeões Europeus de 1963 com um nível de desempenho altíssimo, conseguindo juntar eficiência defensiva e poder de fogo no ataque. O Milan venceu seis e perdeu dois de seus oito jogos, tendo marcado 31 gols e sofrido apenas cinco. Já o Benfica teve seis compromissos e estava invicto, com três vitórias e três empates, além de 11 gols pró e quatro contra. O grande destaque dos italianos era o brasileiro José Altafini, o nosso Mazzola, que tinha 12 tentos anotados na competição. Do lado encarnado, Eusébio era o pilar da equipe e contava com cinco bolas nas redes.

Em 22 de maio de 1963, as equipes buscavam a glória europeia no gramado do mítico Wembley. O Milan, treinado por Nereo Rocco, entrou em campo em seu já tradicional “4-3-3 com líbero”: um sistema que privilegiava a ocupação territorial dos jogadores em seu próprio campo e propunha ataques através da associação entre duplas de atletas pelos flancos. Já o Benfica, treinado por Fernando Riera, jogava no 4-2-4, um sistema de jogo histórico no futebol e predominante nas décadas de 1950 e 1960.

Toda a ideia de jogo dos encarnados passava por Eusébio. O time do Benfica foi montado para privilegiar a qualidade assombrosa de seu atacante, que juntando velocidade e força, rompia os sistemas defensivos dos rivais de maneira impressionante. Foi dessa maneira, recuando do centro do ataque para receber pela direita e pela esquerda, que o King confundiu os defensores do Milan nos primeiros minutos da final e conseguiu colocar o time lisboeta em superioridade.

Aos 19 minutos de jogo, o Pantera Negra avançou como um foguete pelo lado direito, deixou Mario Trebbi na saudade e marcou seu sexto gol na competição. O Milan buscou controlar mais o jogo depois de sair atrás no placar, ficando com a bola e apostando em muitos cruzamentos pelo lado direito. O Benfica, por sua vez, continuava a jogar melhor, com Mário Coluna realizando a ligação entre o campo de defesa e os atacantes. Giorgio Ghezzi fez defesas importantes para evitar o 2 a 0.

O milanista Trapattoni protege a bola do insidioso Eusébio (Getty)

No segundo tempo, o panorama do jogo mudou. Os rossoneri voltaram mais agressivos, marcando de maneira mais adiantada dentro do campo e colocando a defesa rival para trabalhar. Aos 12 da parte final, a bola sobrou nos pés de Mazzola, depois de uma dividida na entrada da área e ele não perdoou. Tudo igual em Wembley.

Com o empate, a equipe de Rocco cresceu, ganhou muita confiança e limitou o jogo de Eusébio, que pouco conseguiu fazer dali em diante. Onze minutos depois de empatar a partida, Altafini recebeu um bom lançamento, avançou desde a linha central e chutou duas vezes para vencer o goleiro Costa Pereira e dar o título para sua equipe.

O outro lado de Milão no caminho: a Copa dos Campeões de 1965

Duas temporadas depois de perder para o Milan, o Benfica voltou a encarar uma equipe italiana na final da Copa dos Campeões de 1965. Dessa vez, tinha pela frente a outra gigante de Milão, com seu esquadrão histórico comandado por Helenio Herrera. O time do franco-argentino defendia seu título após ter derrotado o Real Madrid na final de 1964, com show de Sandro Mazzola, e fez bonito para retornar à decisão.

Em seis jogos, os nerazzurri venceram quatro partidas e perderam duas, marcando 14 gols e sofrendo cinco. O Benfica, por sua vez, tinha sido eliminado pelo Borussia Dortmund logo na primeira rodada da Copa dos Campeões de 1964 e buscava voltar a ser relevante no cenário europeu, com uma equipe com novos nomes, como o treinador Elek Schwartz. Havia espaço também para a manutenção do 4-2-4 como sistema e de Coluna e Eusébio como referências. A campanha dos portugueses até a final foi de oito jogos, com seis triunfos e apenas um empate e uma derrota, além de 27 tentos a favor e seis contrários.

A campanha avassaladora do Benfica teve como destaque um atropelo diante do Real Madrid, que foi eliminado por um placar agregado de 6 a 3, nas quartas de final. Pela superioridade ante a equipe de Ferenc Puskás e Francisco Gento, os encarnados chegaram com leve favoritismo para a decisão. Contudo, o jogo aconteceria em San Siro e, além de jogar em casa, a Inter contava com um gênio no banco de reservas. Herrera desenhou o jogo para encaixotar Eusébio entre Tarcisio Burgnich e Gianfranco Bedin e, dessa maneira, limitou o poderio ofensivo dos rivais.

No primeiro tempo, o Benfica pouco conseguiu fazer. Os portugueses apostaram muito em bolas longas e cruzamentos laterais, mas foram dominados pela defesa da Inter. Aos 42 minutos de jogo, Mazzola progrediu pelo lado direito e rolou para o brasileiro Jair da Costa finalizar. O chute saiu fraco, mas o goleiro Costa Pereira aceitou.

O segundo tempo foi mais equilibrado. O motivo foi a maior participação de Eusébio, que entendeu melhor o modo como estava sendo marcado e recuou muitos metros para tentar progredir com a bola em seu domínio. Ainda assim, o goleiro Giuliano Sarti pouco trabalhou e as melhores chances foram mesmo da Inter, que acabou vencendo a partida por 1 a 0 e conquistando o bicampeonato da Europa.

Inter executou forte marcação ante Eusébio, em 1965 (Pinterest)

O confronto com a Nazionale

O único duelo entre Eusébio e a seleção italiana aconteceu em 1967, em amistoso realizado no Estádio Olímpico. Diante de 65 mil pessoas, as equipes protagonizaram uma partida animada, com boas chances de gol para os dois lados. A Itália jogou no 4-3-3, com destaque para o trio de ataque formado por Mazzola, Luigi Riva e Mario Corso. Portugal, por sua vez, atuava no 4-2-4 característico do Benfica, com Coluna e Eusébio como principais destaques. Eusébio marcou o primeiro gol do jogo aos 24 minutos, em boa arrancada pelo lado direito. O atacante Renato Cappellini empatou, no final.

Enfim, vitórias: a Juventus ficou pelo caminho, em 1968

Os últimos duelo de King Eusébio contra equipes italianas aconteceram em 1968, e valeram uma vaga na final da Copa dos Campeões daquele ano. Nessa temporada, o Benfica voltou a ser comandado por Fernando Riera e chegou até o duelo contra a Juventus jogando um futebol menos agressivo e ofensivo, embora ainda no 4-2-4 e tendo Coluna e Eusébio como principais peças. Treinada por Heriberto Herrera, a Velha Senhora se caracterizava pelo estilo coletivo e a consistência defensiva: sofreu apenas dois gols em seis jogos até as semifinais.

No jogo de ida, em Lisboa, o Benfica começou atuando bem, dominando as ações e contando com Coluna para organizar o seu jogo. Durante todo o primeiro tempo, a Juventus se comportou bem defensivamente. Contudo, o ímpeto ofensivo do Benfica foi premiado após o intervalo. Aos 63, José Torres abriu o placar em bela cabeçada, no canto inferior esquerdo do goleiro Roberto Anzolin. Apenas cinco minutos depois, Eusébio ampliou a vantagem em jogada individual. O atacante do Benfica dominou a bola, deixou dois zagueiros na saudade e bateu com categoria no canto esquerdo.

O jogo da volta aconteceu no Estádio Olímpico de Turim, com a Juventus tendo obrigação de assumir um papel mais ofensivo, já que precisava vencer por pelo menos dois gols de vantagem. Apesar disso, o Benfica resistiu bem defensivamente e marcou o tento da vitória aos 69 minutos. Novamente, com o King: Eusébio cobrou falta muito bem e decretou a passagem de turno. Os encarnados avançaram para encarar o Manchester United na decisão, mas acabaram perdendo por 4 a 1.

Eusébio permaneceria no Benfica até 1975 e se aposentaria em 1980, aos 38 anos. Depois de ser carrasco da Juventus, não enfrentou mais equipes italianas em sua carreira. Somando todos os duelos com times da Bota, o craque lusitano acumulou duas vitórias, duas derrotas e um empate em cinco jogos. Embora os resultados nem sempre tenham sido favoráveis ao atacante, o saldo individual é bastante respeitável, já que Eusébio foi às redes quatro vezes e sempre deu trabalho para os marcadores. Não fosse ele, o Benfica certamente seria menos competitivo ante os senhores do catenaccio.



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