Jogadores

Eterna promessa, Fabián Carini ficou marcado por insólita troca entre Juventus e Inter



O futebol uruguaio viveu tempos de crise durante a década de 1990. A seleção ficou ausente das Copas do Mundo de 1994 e 1998 e os clubes do país passam longe de disputar um título de Libertadores desde 1988, quando o Nacional foi campeão. O cenário parecia sombrio, mas uma luz no fim do túnel surgiu após boas participações nos Mundiais Sub-20 de 1997 e 1999, quando a geração de Javier Chevantón e Diego Forlán começou a despontar. Um outro nome que parecia destinado ao sucesso era o de Fabián Carini, considerado um dos melhores jovens goleiros em circulação na época.

Quando despontou, todos apontavam Carini como um grande talento uruguaio, com potencial de ser o maior goleiro desde o histórico Ladislao Mazurkiewicz, que disputou três Copas do Mundo entre 1966 e 1974. Dono da meta do Danubio desde os 17 anos, Fabián era tido como um dos pilares da remontagem do futebol charrua, ao lado de Álvaro Recoba.

Antes mesmo do debute na equipe profissional de La Franja, Carini foi reserva de Gustavo Munúa na campanha do vice-campeonato mundial sub-20 de 1997 e titular na competição de 1999, no qual o Uruguai terminou com o quarto posto. Acabou eleito como melhor goleiro do torneio e, meses depois, estreou na seleção principal – também treinada por Víctor Púa. Com a confiança do treinador, mesmo com apenas 19 anos, o jogador assumiu a camisa 1 celeste na Copa América e jogou em todas as partidas. Na final, ante o Brasil, contudo, não foi perfeito na derrota por 3 a 0.

A posição de destaque na meta charrua lhe abriu as portas para o mercado europeu, que não demorou a fisgar mais um talento sul-americano. A Lazio parecia ser o seu destino, mas a Juventus conseguiu convencer o jogador com a possibilidade de assumir o gol bianconero, já que Edwin Van der Sar não demonstrou a segurança desejada na meta juventina, em substituição a Angelo Peruzzi – o reserva imediato, Michelangelo Rampulla, estava perto de se aposentar, e Andreas Isaksson era muito “verde”. Além disso, o time de Turim contava com os conterrâneos Paolo Montero, Fabián O’Neill e Daniel Fonseca, o que poderia facilitar a adaptação do goleiro.

Mesmo com Van der Sar vivendo uma temporada irregular, Carlo Ancelotti preferiu não apostar no uruguaio, mesmo com a pressão da imprensa local. Na temporada seguinte, o goleiro holandês deixou o clube, mas a Juventus preferiu apostar no jovem Gianluigi Buffon, que despontava no Parma. Adquirido como o mais caro da posição em toda a história – foi superado anos depois por Alisson e Kepa – Gigi não chegou para disputar posição: as portas se fecharam não só para Carini mas como para qualquer outro arqueiro que passou pela Velha Senhora nos 17 anos seguintes.

Carini entrou em campo pela Juventus apenas em amistosos e copas (Getty)

Carini teve algumas oportunidades nos jogos da Coppa Italia e fez sua estreia na Champions League, mas ao final da temporada, acabou emprestado ao Standard Liège, da Bélgica. Ao longo de duas temporadas, Fabián atuou com regularidade, se destacou no campeonato local e foi titular da seleção celeste no fracasso da Copa do Mundo de 2002. Ao retornar para a Juventus, foi envolvido em uma troca com a Inter de Milão, como contrapeso de Fabio Cannavaro – sem qualquer valor envolvido. Até hoje, o negócio é visto como um dos mais estapafúrdios da história do futebol.

Enquanto Cannavaro brilhou por anos e conquistou o prêmio de melhor jogador do mundo, Carini jogou apenas 9 partidas, apenas por copas ou por lesões do veterano Francesco Toldo, e disputava espaço na reserva com o veterano Alberto Fontana. No início de dezembro de 2004, o uruguaio teve a oportunidade de estrear. A Inter vencia o Messina por 3 a 0, com tripletta de Adriano, mas Toldo foi expulso ao cometer falta sobre Atsushi Yanagisawa. Carini entrou em campo e participou do massacre interista – o jogo terminou 5 a 0, mas poderia ter sido o dobro, tranquilamente.

O confronto, no entanto, é mais lembrado por causa do goleiro. Os peloritani tiveram um pênalti para cobrar e Nicola Amoruso converteu, mas Pierluigi Collina mandou a cobrança ser repetida por causa de invasão à área. O centroavante bateu no canto direito mais uma vez e Fabián defendeu. Foi o seu único momento de brilho na Itália, embora a Inter nunca tenha perdido quando ele foi o dono da sua meta.

Em 2005, Carini foi emprestado ao Cagliari, que se salvara do rebaixamento na atípica e equilibrada temporada anterior – na qual 14 equipes brigaram para não cair. O uruguaio começou como titular, no lugar de Gennaro Iezzo, negociado com o Napoli, mas viveu um momento oposto ao que atravessou em Milão: fez oito jogos pela Serie A e não ganhou um sequer. O time do cartola Massimo Cellino teve três treinadores – Attilio Tesser e Daniele Arrigoni só ficaram uma rodada, e Davide Ballardini caiu na 11ª. Com Nedo Sonetti, que salvou o time do rebaixamento, Fabián nunca entrou em campo: Andrea Campagnolo e o veterano Antonio Chimenti tomaram conta da posição.

Ao mesmo tempo em que fracassava na Sardenha, Carini viu sua seleção sucumbir na repescagem para a Copa do Mundo de 2006. O uruguaio, então, retornou à Inter, quando sagrou-se campeão italiano sem jogar um minuto sequer pela segunda vez na carreira – a outra foi em 2002, pela Juve. Como terceiro goleiro, acompanhou boa parte das partidas nas tribunas: apenas em três ocasiões sentou no banco nerazzurro. Ao fim da temporada, o goleiro foi sondado pelo Grêmio, mas acertou com o modesto Real Murcia, da Espanha, que acabara de retornar à primeira divisão.

Único bom momento de Carini na Itália ocorreu em sua estreia na Inter (Ansa)

A temporada, porém, foi uma lástima. Carini foi reserva de Antonio Notario e só assumiu a titularidade na reta final de La Liga, a partir da 28ª rodada, sendo incapaz de evitar rebaixamento dos pimentoneros. Com o salário fora dos padrões da segunda divisão espanhola, Carini acabou dispensado e pouco tempo depois voltou à América do Sul para jogar no Atlético Mineiro. O uruguaio começou bem, como titular na reta final do Campeonato Brasileiro de 2009, mas as seguidas falhas tornaram frustrante sua passagem pelo Brasil. A ascensão de Fernando Muslera também fez com que ele perdesse espaço no selecionado nacional.

Com pinta de veterano, mas com apenas 30 anos, não encontrou opção melhor do que voltar para casa. Acertou com o Peñarol, mas também atuou pouco pelos carboneros e ficou no “quase” na Libertadores de 2011. O goleiro teve a oportunidade de assumir a meta aurinegra, mas já não tinha as devidas condições físicas para tal. Carini passou pelo Deportivo Quito, do Equador, antes de voltar aos Pampas para jogar no modesto Juventud de las Piedras, clube da região metropolitana de Montevidéu. Lá, foi dono da meta e referência no elenco, ao lado do ponta Jorge Martínez, que também fracassou na Juventus.

Apresentando um futebol digno, o goleiro atraiu interesse do Montevideo Wanderers e firmou contrato, mas voltou atrás antes de começar os trabalhos e optou por pendurar as luvas. Em sua despedida, Carini disse que não seria justo entregar apenas 70% do rendimento e por isso encerraria “uma etapa muito linda e importante” de sua vida. Em uma entrevista ao portal Ovación, ele contou que, na fase final da carreira, descobriu um problema lombar que o obrigava a conviver com anti-inflamatórios para suportar a dor constante, como se tivesse 55 anos. Isso fez com que desistisse do Wanderers no terceiro treinamento.

Aposentado, ele só queria saber de curtir a esposa Virginia e os filhos. Inclusive, ele só atuou profissionalmente nos últimos anos de sua carreira para que pudessem vê-lo jogar. Hoje, quase quarentão, Carini sonha em fazer um curso de culinária, aulas de dança e de inglês. Quem sabe, voltar a trabalhar com o esporte. Ofertas já chegaram – como, por exemplo, para ser comentarista.

Na Itália, Carini será lembrado como uma eterna promessa: como um atleta que nunca conseguiu despontar e que, ainda por cima, acabou envolvido numa pitoresca troca por uma lenda do futebol. No Uruguai, contudo, deixou um legado de liderança e personalidade. “Foram vários bons momentos: a etapa das seleções juvenis foi linda, assim como os primeiros anos no Danubio. Quando não pude jogar, era porque não estava bem. Na seleção tive momentos bons e ruins, mas foi o melhor de minha carreira”, declarou ao Ovación.

Héctor Fabián Carini Hernández
Nascimento: 26 de dezembro de 1979, em Montevidéu, Uruguai
Posição: goleiro
Clubes: Danubio (1997-2000), Juventus (2000-02), Standard Liège (2002-04), Inter (2004-05 e 2006-07), Cagliari (2005-06), Real Murcia (2007-09), Atlético-MG (2009-10), Peñarol (2010-12), Deportivo Quito (2013) e Juventud de las Piedras (2014-16)
Títulos conquistados: Serie A (2002 e 2007), Coppa Italia (2005), Supercopa Italiana (2006) e Campeonato Mineiro (2010)
Seleção uruguaia: 74 jogos



Deixe um comentário