Serie A

Quando o futebol não mais importa

Desespero em Pescara: Morosini foi mais um jogador a cair desacordado no gramado.
Infelizmente, não sobreviveu (Reuters)

Na vida há, e sempre haverá, coisas que o homem nunca passará nem perto de entender ou de conseguir explicar. Também há, e sempre haverá, “injustiças” frente as quais seremos sempre impotentes. O adeus de Piermario Morosini exemplifica tudo isso.

O sábado, 14 de abril de 2012, estava recheado com oito partidas da absurdamente disputada Serie Bwin. Cada resultado importava, afetava ou ajudava os interesses das 22 agremiações que, quase sem exceção, ainda lutam por algo. De uma costa à outra da península, o Livorno viajou até Pescara, onde lhe esperava o time homônimo da cidade. De um lado, o anfitrião a uma minúscula distância do sonho da primeira divisão. Do outro, os visitantes lutando para não voltar à terceira divisão depois de uma década. E tudo começou perfeito para o clube amaranto, que com pouco mais de dez minutos já marcara duas vezes.

Primeiros atendimentos a Morosini (Pierarunzi)

Diversas torcidas comemorando, principalmente a torcida do Livorno, que ia conseguindo sua décima vitória no campeonato e ia dando um gigantesco passo rumo a seu objetivo. Mas absolutamente toda essa alegria caiu ao chão três vezes, quando, aos 31 minutos, o coração de Morosini decidiu bater pela última vez.

O esforço do jovem, que tentou se levantar duas vezes após a primeira queda no gramado, retrata tudo o que foi a curta vida do jovem bergamasco. “São coisas que te marcam e que mudam a sua vida, mas que, ao mesmo tempo, te colocam muita raiva e te ajudam a dar sempre tudo para realizar aquilo que era o sonho, também, dos meus pais”, eram as palavras de Morosini, quando indagado por um repórter sobre a morte de seus pais.

Aos 15 anos de idade, ele perdera sua mãe. Dois anos depois, foi a vez de dar adeus a seu pai. Como se não bastasse, logo depois foi a vez de seu irmão mais novo, deficiente. Os últimos esforços desesperados do meio-campista eram apenas mais um reflexo do espírito lutador do atleta, que conseguiu vencer todas as circunstâncias para realizar, ao lado de sua irmã mais velha, que também é deficiente e vive em um hospital, seu sonho e de seus pais.

Morosini deu seus primeiros passos no esporte ainda aos oito anos, na Atalanta. Foram dez anos no clube de sua terra natal, que incluíram convocações para as seleções italianas sub-17, sub-18 e sub-19. Era tamanha a consistência que o meia defensivo chamou a atenção da visionária Udinese, em 2005. Aos 19 anos, faz sua primeira partida como profissional, na Serie A, em 23 de outubro daquele ano, quando a Internazionale visitou Údine. Na temporada 2005-2006, foram cinco partidas na Serie A e três na Coppa Italia. Aquelas partidas na elite do futebol italiano foram as únicas de sua carreira.

A Udinese, como é de costume no futebol italiano, passou a emprestar o jovem atleta, para ganhar experiência. Em 2007, jogou a Serie B pelo Bologna, com 16 aparições. Nas duas temporadas seguintes, duas sólidas campanhas com o Vicenza, com mais de 30 aparições em ambas. Isso rendeu a Morosini, em 2009, a convocação para a Nazionale para disputar o Europeu Sub-21, onde participou de três partidas.

 O grande sucesso fez a Udinese reintegrar o jogador na temporada 2009-2010, mas ele acabou não mostrando no Friuli a mesma qualidade. Não evoluiu futebolisticamente e, em janeiro, foi emprestado para a Reggina, na Serie B. Ele não obteve a mesma regularidade que teve nas duas temporadas com o Vicenza: deixando a Reggina em janeiro de 2010, passou por Padova, novamente pelo Vicenza e, nesta temporada, foi para o Livorno, depois de ter passado um semestre encostado na Udinese, sem ter achado um clube pelo qual jogar.

Até sua morte, neste sábado, não tinha consegido recuperar a fase vivida em sua primeira passagem pelo Vicenza e já poderia ser considerado uma das apostas mais furadas da Udinese nos tempos recentes. Por outro lado, deixou saudades na equipe lanerossa, que decidiu, neste domingo, retirar a camisa número 25, utilizada por ele em seus anos no clube. O mesmo gesto de respeito foi tomado pela diretoria do Livorno.

Os próprios jogadores providenciaram a maca, com o atraso da ambulância (Ansa)

Os últimos suspiros
Nas frações de segundo entre a queda final de Morosini e o início dos primeiros socorros ao atleta, por parte das equipes médicas dos dois times, aconteceu algo que poderia ter feito diferença entre a vida e a morte do jogador, caso ele não tivesse tido um infarto fulminante. O portão principal do estádio, que permitiria a entrada da ambulância que serviria para transporte do jovem para o hospital Santo Spirito di Pescara estava bloqueada por um carro da polícia (desligado e sem policiais por perto), o que retardou sua entrada no gramado. “Que era um dos nossos veículos, não há dúvida, pelas fotos. Mas, pelo que leio, infelizmente não mudaria nada se a ambulância não estivesse bloqueada”, disse o comandante do policiamento local, Carlo Maggitti. A justiça da comuna de Pascara já abriu inquérito para investigar o caso.

Segundo informou o hospital, Morosini, que levou cerca de 20 minutos para ser transportado para o complexo, já chegou ao local sem vida. Como informou a Gazzetta Dello Sport, que acompanhou cada instante dos acontecimentos, Morosini entrou em coma induzido às 16h19 do horário local. Às 16h22, lhe foi implantado um marca-passo provisório e ele foi entubado. Mas, às 16h47, Delli Carri, chefe da equipe médica do Pescara, que foi ao hospital, deixou o local com os dizeres “não tenho o que falar”, balançando a cabeça. A confirmação veio nos minutos seguintes, com as lágrimas dos jogadores do Livorno que, desesperados, também deixaram o hospital: estava morto. Perante toda a dor da tragédia, fazem sentido as palavras de Roberto Baronio, ex-companheiro de Morosini na Udinese, em 2006: “Agora, ele terá a chance de abraçar, novamente, sua família”.

O precedente

Renato Curi (Wikipedia)

A morte de Morosini faz lembrar, aos que acompanham o futebol italiano, ao também lamentável episódio da morte por parada cardíaca de Renato Curi (foto), meio-campo do Perugia, em 1977. Quando da partida da sexta rodada da Serie A da temporada 1977-1978, contra a Juventus, os biancorossi lutavam pelas primeiras colocações da tabela com o time de Turim, o Milan e o Genoa. Naqueles anos, o Perugia era um dos times mais simpáticos da Itália. Havia sido promovido à elite pelaprimeira vez em sua história em 1974-75 e, nas duas temporadas anteriores, tinha feito ótimas campanhas, ficando sempre entre os dez primeiros.

Em 1977-78, não era diferente: a equipe umbra brigava na parte de cima da tabela, graças a um ótimo trabalho do técnico Ilario Castagner. Em campo, os destaques eram o zagueirão Pierluigi Frosio, os atacantes Walter Novellino (o mesmo que se tornou técnico) e Walter Speggiorin. No meio, o nome era o de Renato Curi. A tarde chuvosa não afastou o público: estavam presentes mais de 30 mil torcedores.

Eles viram Curi, de apenas 24 anos, ir ao chão aos cinco minutos do segundo tempo, sozinho. Scirea, Benetti e Bettega, da Juventus, gesticularam desesperados, pedindo a entrada da maca. Como aconteceu com Morosini, Curi chegou ao Policlinico di Perugia já sem vida. Em sua homenagem, o estádio do Perugia, inaugurado dois anos antes com o nome de Comunale di Pian di Massiano, tornou-se estádio Renato Curi. Já com o estádio batizado com o nome do falecido atleta, o Perugia conseguiu chegar a um improvável vice-campeonato da Serie A na temporada seguinte, 1978-79, terminando a competição de forma invicta. Por tudo o que aconteceu, a equipe ficou conhecida como “Perugia dos milagres”.

7 comentários

  • Tenho a impressão que esses acidentes tem ocorridos com mais frequência… não sei.
    Com toda essa tecnologia e toda proteção que os atletas recebem, será que não está havendo algum tipo de negligência na hora dos exames médicos? Será que são apenas mal súbitos?

  • Triste para todos, que partilhavam a companhia deste humano, para nós que nos solidarizamos, fato é que ele lutou pela vida, fazendo o que ele amava.

    que DEUS console, todos abatidos com esse fato.

  • As vezes essas mortes são inevitáveis, ainda mais na Itália onde os exames médicos dos atletas, profissionais e amadores, são muito rigorosos. Após o caso Muamba, os médicos ingleses auspicaram que a federação inglesa se inspire no modelo italiano.
    Kanu e Fadiga são dois jogadores africanos que estavam atuando tranquilamente nos campeonatos holandês, belga e francês. Quando chegaram á Itália os médicos italianos descobriram logo no primeiro exame graves problemas cardíacos.

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