Serie A

Inter: retrospectiva e um olho no futuro

Mesmo após temporada de recordes negativos, Stramaccioni deve seguir no comando de uma Inter modificada (AFP)

A temporada da Inter ainda nem acabou e já dá pra afirmar: esta é a pior temporada da era Moratti. Toda a expectativa criada em torno da figura de Stramaccioni e das contratações foi pro ralo e, mais uma vez, o clube fecha uma temporada no vermelho. Financeiramente, tecnicamente, emocionalmente, e por aí vai. 

Na derrota para a Lazio em pleno Giuseppe Meazza na última quarta-feira – o que não acontecia há 15 anos, quando o time da capital contava com os craques Nedved, Salas e Mancini –, a Inter de Stramaccioni chegou à 15ª derrota na Serie A. O “feito” superou as 14 derrotas sofridas nas temporadas 1946-47 e 2011-12, até então o maior número de reveses num campeonato com 20 clubes – pior que isso, só em 1947-48, quando a primeira divisão do futebol italiano contou com 21 clubes e o time comandado por Giuseppe Meazza, em uma de suas primeiras experiências como treinador, sofreu 19 derrotas. 

Independente do que ocorra nas duas rodadas seguintes, o time de Milão já não tem mais chances de conquistar uma vaga em competições europeias. Durante os 18 anos da presidência de Massimo Moratti, em apenas uma temporada o clube havia ficado de fora de competições europeias, quando em 1998-99, após as passagens de Luigi Simoni, Mircea Lucescu, do interino e preparador de goleiros Luciano Castellini e Roy Hodgson no comando técnico do time, a Inter ocupou a apenas a oitava colocação, ficando de fora das competições na temporada 1999-2000. Ou seja, 14 anos atrás. 

Apesar do atual momento, a Inter também teve momentos de glórias na temporada. O início irregular nas fases preliminatórias da Liga Europa e Serie A, com o fato de ter vencido todas as partidas fora de casa, mas demorando oito jogos para vencer em casa, deu lugar a uma sequência espetacular e inédita de dez vitórias consecutivas na temporada. Curiosamente, a sequência de triunfos que colocou o time no segundo posto da tabela, o que não ocorria desde a temporada 2010-11, sob o comando de Leonardo, veio sem a presença de sua maior estrela, Sneijder. 

Contundido exatamente no jogo que deu largada à boa fase, o holandês saiu logo no primeiro tempo contra o Chievo e não voltaria mais a vestir a camisa nerazzurra. Já recuperado da lesão, o camisa 10 seguiu sem ser convocado. A desculpa de Strama era de que o jogador ainda não estava 100% e que a opção por não escalá-lo era uma decisão técnica, mas o real motivo era outro. Sem o mesmo desempenho de antes, Wes, na visão da diretoria, já não valia todo a despesa e custo (6 milhões de euros + bônus por ano) e acabou afastado. Depois de muita especulação, o jogador saiu por apenas 7,5 milhões de euros, a metade do que Moratti havia pagado ao Real Madrid em 2009. 

Mais ou menos a partir do momento de insatisfação de Sneijder, a Inter começava a cair de rendimento. Após a vitória contra a Juventus em pleno Juventus Stadium, o time conquistou a décima vitória em jogo pela Europa League, porém perdeu sua invencibilidade para a Atalanta. À frente, um momento de irregularidade fez o time cair na tabela, mas a vitória contra o Napoli e o empate com o Genoa no último jogo de 2012 ainda mantiveram a equipe na zona de classificação para a Liga dos Campeões. 

Nessa época, Stramaccioni já começara a perder alguns jogadores por motivo de lesão. Philippe Coutinho, que não era exatamente titular, mas teve participação importante durante alguns jogos, Rodrigo Palacio, Fredy Guarín e alguns outros, geralmente com lesões musculares. Na virada de ano, esperava-se um 2013 mais tranquilo e sem tantos problemas. Pura ilusão. O mercado de inverno só abasteceu o meio de campo. O cobertor ficou curto e o time não teve como remediar as baixas na defesa e, principalmente, no ataque. 

Logo no início de janeiro, o fio virou. Aconteceram duas lesões graves e que certamente abalaram o moral do time e deram início a um baixo aproveitamento e rendimento do time de Stramaccioni, que perdeu dois pilares. Na defesa, Samuel, que auxiliava os jovens Ranocchia e Juan Jesus a progredirem e fazerem uma ótima metade de temporada; e no ataque, Milito, que em 2012 reviveu seus melhores momentos, marcando gols e distribuindo assistências. Ao lado de Palacio e Cassano (o “rei” das assistências de Milão), o Príncipe formou um ataque criativo e eficiente. Enquanto isso, no meio de campo Guarín e Cambiasso ditavam o ritmo com roubadas de bola e assistências. Após as lesões dos argentinos, tudo mudou.

Após a derrota por 3 a 0 para a Udinese, Samuel sofreu um problema no tendão de Aquiles que o deixaria fora por mais de três meses – o problema voltaria a atormentá-lo posteriormente. O substituto? Não havia substituto à altura. Silvestre era um verdadeiro desastre e Cambiasso teve de ser improvisado para a defesa com três homens ser mantida, o que não deu muito certo. Quando o time de Strama reviveu as esperanças com uma classificação confortável às quartas de final da Liga europa, depois de passar pelo Cluj, foi a vez de Milito sofrer o rompimento de dois ligamentos no mesmo joelho. O substituto? O antes algoz Rocchi chegou fora de forma, sem jogar há meses e vindo de uma grave lesão. Foram três meses até entrar em forma e finalmente voltar às redes (e apenas duas vezes). Com isso, Palacio teve de jogar como centroavante e não decepcionou, levando o time nas costas.

Em fevereiro e março, o tme viveu momentos de agonia. Um dos momentos mais tensos da temporada foi a goleada alicada por uma Fiorentina sem dó nem piedade. Depois, o empate com o rival Milan, que naquele momento vinha em franca ascensão, e a vitória nos acréscimos contra o Catania de pouco adiantaram para amenizar as críticas e o momento, piorado ainda mais após as derrota para Tottenham e Bologna – neste último jogo, em pleno Meazza, acabando com uma invencibilidade de 16 jogos em casa. Nem mesmo os 4 a 1 no jogo de volta contra o Tottenham adiantaram para levantar o moral, já que, no final das contas, o time acabou eliminado da Liga Europa. 

Com a data Fifa e o adiamento de um dos jogos da Serie A, o time ficou algumas semanas sem jogar. Tempo para descansar, refletir e dar a volta por cima, certo? Não foi bem isso o que aconteceu em Appiano Gentile. Uma praga de lesões atingiu o time, veio a “vingança” da rival Juventus no Meazza e mesmo com a vitória sobre a Sampdoria, o time não engatou. Pelo contrário, desandou. Após a lesão de Milito, Palacio assumiu a responsabilidade, chegou à marca de 12 gols na Serie A e 22 na temporada, porém sofreu lesão logo após o segundo gol na vitória em Gênova. A previsão era de sete semanas de recuperação. 

Sem o argentino, Rocchi teve que ser utilizado. Contra a Atalanta, no primeiro jogo do assombroso mês de abril, outra notícia ruim: Cassano voltou a sentir um problema na coxa e teve que ser substituído (no diagnóstico: um mês fora). Para a surpresa da torcida interista, o time cresceu. Rocchi finalmente marcou seu gol, e depois do empate, Álvarez desencantou e conseguiu uma tripletta. Contudo, a irregularidade que sempre foi um problema no time de Strama apareceu e a Atalanta surpreendentemente virou para 3 a 4 – contando com o auxílio da arbitragem, que errou e deixou os jogadores atordoados. Uma semana depois, nova derrota, agora para o então freguês Cagliari, levando a equipe para sua pior colocação na temporada (7ª). Outra ponta de esperança surgiu quando a Inter venceu o Parma com gol salvador de Rocchi. Porém, não passou de ilusão. Mais uma ilusão para o interista. E, em seguida, mais lesões. E derrotas. 

Para voltar a sonhar com Liga Europa, era preciso bons resultados contra Palermo, Napoli e Lazio. Era vencer ou vencer. E a Inter perdeu. Três derrotas seguidas e o fim definitivo do objetivo. O time chegou a 15 derrotas no campeonato, sem chances de se classificar para competições europeias e baqueado pelas lesões. Só em 2013, foram 13 derrotas na temporada, empatando outras três e vencendo apenas nove partidas – aproveitamento de 36%, muito abaixo dos mais de 70% até a vitória sobre o Partizan, no início de novembro.

De quem é a culpa? De todos, certamente. Cada envolvido nesta temporada mais que fracassada tem sua parcela de erro. Moratti e suas decisões discutíveis, a exemplo da contratação de Marco Fassone para o lugar do aposentado Ernesto Paolillo. Ex-diretor de Napoli e Juventus, Fassone foi contratado para “atualizar” o clube nas mídias e ajudar no projeto do novo estádio. E o diretor-geral não fez quase nada disso, à exceção de comandar a reestruturação do novo site interista, que mudou seu layout depois de 15 anos.

Quem também tem culpa são os diretores Marco Branca e Piero Ausilio, com várias contratações mal analisadas, dinheiro desperdiçado e problemas com o elenco (no caso, Branca). No comando técnico, o inexperiente Stramaccioni foi efetivado e garantido por Moratti, que ficou encantado com a forma do italiano ter gerido o time Primavera na temporada 2011-12, mas acabou sofrendo justamente com a falta de experiência. 

Com tantos problemas, principalmente físicos, Strama não conseguiu dar sequência nas escalações e manter um padrão de jogo. Criticado justamente por não ter definido um padrão de jogo, o italiano, na verdade, até conseguiu isto entre setembro e novembro, mas justamente pela perda de peças importantes teve que mudar várias e várias vezes de estilo e formação tática. Entre os jogadores, fala-se no pouco esforço de alguns durante os maus momentos de 2013, mas grande parte mostrou garra e vontade de recuperar no último mês, fazendo até com que a torcida apoiasse o time – o que não a impediu de criticar a diretoria, com faixas no estádio. 

No entanto, o principal problema da temporada (na verdade, há três temporadas) são as lesões. Há mais de 10 anos no comando médico do clube, Franco Combi passa por momento delicado. Nesta temporada, foram incríveis 53 contusões. Alguns jogadores, a exemplo de Palacio, Milito, Stankovic e Chivu, chegaram a ter três, quatro problemas físicos na temporada. O trabalho de recuperação realmente não está funcionando ultimamente, o que nos faz pensar nas críticas feitas por Vampeta ao DM interista.

Contudo, há outros “culpados”. A preparação física comandada por Stefano Rapetti há dois anos também vem sendo muito criticada. Outros falam que o novo gramado do Giuseppe Meazza pode ter sua culpa. Em julho, o consórcio que administra o estádio, após muitas reclamações, resolveu trocar o gramado por um mais moderno, metade sintético metade natural. Somente entre Inter e Milan, sete jogadores sofreram algum problema no tendão de Aquiles ou em ligamentos no joelho. Isto poderia estar relacionado ao desgaste nesses ligamentos afetados por um amortecimento ruim da grama. 

Mas se não bastasse esses problemas, a Inter já tem problema para a próxima temporada. O clube já acertou cinco contratações para 2013-14 (Campagnaro, Andreolli, Laxalt, Botta e Icardi), e um deles sofreu grave lesão. Destaque do clube argentino Tigre, o fantasista Rubén Botta rompeu o ligamento cruzado pela Libertadores e assim como o capitão Zanetti só voltará em meados de novembro, perdendo a pré-temporada.

Para 2013-14, além o clube também irá buscar acelerar o processo de reformulação. Vários veteranos deverão sair, a exemplo de Samuel, Chivu e Stankovic, enquanto outros deverão ficar somente por mais um ano (Zanetti, Cambiasso e Milito). Contratações que não vingaram, como Silvestre, Mudingayi, Schelotto, Jonathan, Pereira e Rocchi, também devem compor o elenco dos que podem deixar o clube. Enquanto isso, ex-jogadores podem aparecer em algumas funções interessantes a partir de junho. Iván Córdoba se saiu bem como gerente de equipe e há a possibilidade de veteranos como Luis Figo e Francesco Toldo ganharem espaço. 

E falando na comissão técnica, tudo indica que Stramaccioni será mantido. Moratti mostra acreditar que o romano tem potencial para, assim como o time, evoluir. Por conhecer bem a base, outra carta na manga de Moratti, Stramaccioni irá trabalhar com mais garotos que serão promovidos do time Primavera, além dos que serão contratados, principalmente após o sucesso de Kovacic, o desempenho de Juan Jesus e o “despertar” de Ricky Álvarez. 

Mateo Kovacic, por sinal, vem encantando os interistas. Considerado a principal promessa do futebol croata, o meio-campista chegou com moral e por um preço alto (11mi + bônus) para a sua idade. Com apenas 18 anos, o camisa 10 nerazzurro assumiu uma responsabilidade que nem lhe foi creditada e se tornou o principal protagonista do time após as lesões de Palacio e Cassano. Mesmo numa função que nunca havia desempenhado (regista), o garoto assimilou bem o papel e vem comandando o meio-campo de Stramaccioni. Seu desempenho é o principal motivo que faz o torcedor interista acreditar que o clube possa voltar a disputar títulos.

1 comentário

  • Parábens pelo post,muito bom.Só ainda não entendo como o Branca acreditou que Mudingayi seria um bom reforço para um clube 18 vezes campeã da Itália!Me recordo do jogo da copa contra o bologna pois fiquei absmado como um jogador profissional não conseguia acertar um passe de 2 metros.

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