Brasileiros no calcio

Amaral, o ícone de uma cena antológica da Serie A

Agosto, mês do desgosto. O mês do cachorro louco começa hoje e nada mais óbvio que recepcioná-lo com um legítimo representante da turma de filhotes de cruz credo com belzebu: o volante e ex-agente funerário Amaral. O jogador conhecido pelo riso solto, pelas anedotas e pelo olho direito caído atuou por duas equipes da Serie A: Parma e Fiorentina.

Nascido em Capivari, cidade do interior de São Paulo próxima a Campinas, Alexandre da Silva Mariano ganhou rapidamente dois apelidos: Amaral, seu nome de guerra, e “coveiro”, embora fosse agente funerário. O volante de marcação obstinada, muito fôlego e velocidade, começou a morder tornozelos nas categorias de base do Palmeiras e, a partir de 1991, ganhou espaço entre os profissionais.

Incansável em campo e muito querido pelos colegas nos bastidores, por seu jeito bondoso, ingênuo e engraçado, Amaral se tornou figura importantíssima de um dos Palmeiras mais fortes de toda a história, campeão paulista em 1993, 1994 e 1996 e bicampeão brasileiro neste período. O sucesso naquele time fez com que o volante, mesmo com todas as suas limitações técnicas, pudesse ganhar fama internacional.

Com a grande fase no Palmeiras, Amaral foi convocado para a Seleção – com a qual ganhou uma medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de 1996 – e se transferiu para o Parma. Assim como muitos atletas do alviverde paulista, ele chegava aos crociati através da Parmalat, patrocinadora de ambas as equipes: a multinacional dos laticínios escolhia os brasileiros mais promissores e os levava ao futebol italiano.

Sucesso pelo Palmeiras e convocações para a Seleção levaram Amaral ao Parma (Uol)

Amaral tinha agradado ao técnico Carlo Ancelotti e teve direito até mesmo apresentação oficial aberta ao público no estádio Ennio Tardini. No entanto, quando a temporada começou, o brasileiro foi pouco e mal utilizado pelo treinador: Don Carletto colocou o jogador capivariano em campo apenas quatro vezes, todas elas no segundo tempo.

Em menos de 100 minutos vestindo gialloblù, Amaral atuou sempre fora de posição, como meia pela direita, e deixou evidente a sua pouca qualidade técnica. Um peixe fora d’água, o brasileiro foi deixado de fora dos planos e acabou cedido ao Benfica em novembro de 1996 para que o Parma pudesse ter uma nova vaga para extracomunitários – que seria ocupada pelo croata Mario Stanic.

O volante baixinho não despontou pelos encarnados e acabou retornado ao Brasil: teve mais uma boa passagem pelo Palestra Itália e foi campeão nacional com Corinthians e Vasco, em 1998 e 2000 – também levantou uma Copa Mercosul pelo cruzmaltino. Mais maduro, com 27 anos, Amaral ganhou uma nova chance na Europa: assinou com a Fiorentina, que vinha com problemas financeiros e montava um time mais modesto que em anos anteriores.

A Viola era treinada pelo turco Fatih Terim e tinha como destaques o goleiro Francesco Toldo, o volante Angelo Di Livio e o meia Rui Costa. O “coveiro” chegava a Florença para ser o terceiro brasileiro do elenco, juntando-se ao atacante Leandro Amaral e o defensor Cleiton, mas sofreu uma séria lesão na pré-temporada e só estreou em janeiro de 2001.

Um dos grandes momentos de Amaral com a camisa violeta aconteceu em maio daquele ano, quando Roberto Mancini já era o treinador. O brasileiro começou a partida contra a Juventus no banco de reservas, mas Sandro Cois foi sacado aos 30 minutos de jogo e o técnico decidiu colocá-lo em campo para conter o 2 a 0 parcial. Mancio não sabia, mas proporcionaria uma cena antológica: Amaral marcando Zidane.

O inusitado encontro virou até mesmo uma das comunidades mais célebres do finado orkut e fez o volante declarar que Zinédine Zidane foi um dos jogadores mais chatos que ele teve a missão de marcar. A Velha Senhora venceu aquele duelo por 3 a 1, com um de Zizou – marcado antes de Amaral entrar em campo, é lógico.

Fotos de Amaral marcando Zidane viraram febre na internet (Federico De Luca)

A temporada de estreia do brasileiro pela Fiorentina ainda acabou com o título da Coppa Italia 2000-01, vencida sobre o Parma – e Amaral atuou nos dois jogos decisivos. No ano seguinte, os gigliati já estavam à beira da falência e viram um verdadeiro desmanche no elenco para tentar amenizar as dívidas. O brasileiro permaneceu e trocou o número 15 pelo 6.

Amaral foi titular em boa parte da campanha, mas não pode contribuir muito com aquela equipe esfacelada. Com tantos problemas extracampo e um elenco enfraquecido, a Fiorentina concluiu o campeonato na penúltima posição e caiu para a Serie B – acabou tendo destino pior, pois anunciou bancarrota e teve de jogar nas divisões amadoras. Sem contrato, o volante acertou gratuitamente com o Besiktas, da Turquia.

A passagem pelo Besiktas foi a última de real importância para o volante, que conquistou um título nacional pelos alvinegros de Istambul. Depois disso, Amaral teve uma trajetória marcada pela irregularidade em Grêmio, Vitória, Atlético-MG e Santa Cruz e por girar o mundo: rodou pelo interior do Brasil (e ajudo o Grêmio Barueri a subir para a Série A) e também por Arábia Saudita, Polônia, Austrália e Indonésia. Sua última aparição pública foi no reality show A Fazenda, da Record, no final de 2015.

Alexandre da Silva Mariano, o Amaral
Nascimento: 28 de fevereiro de 1973, em Capivari (SP)
Posição: volante
Clubes: Palmeiras (1991-96 e 1997), Parma (1996), Benfica (1996-97 e 1998), Corinthians (1998-99), Vasco (1999-2000), Fiorentina (2000-02), Besiktas (2002-03), Grêmio (2003), Al-Ittihad (2004), Vitória (2004-05), Atlético-MG (2005), Pogoń Szczecin (2006-07), Santa Cruz (2007-08), Grêmio Barueri (2008), Perth Glory (2008-09), Catanduvense (2009-10), Manado United (2011), Persebaya Surabaya (2011-12), Itumbiara (2013), Poços de Caldas (2013) e Capivariano (2015)
Títulos: Bronze Olímpico (1996), Campeonato Brasileiro (1993, 1994, 1998 e 2000), Copa Mercosul (2000), Campeonato Paulista (1993, 1994, 1996 e 1999), Torneio Rio-São Paulo (1993), Taça Guanabara (2000), Coppa Italia (2001) e Campeonato Turco (2003)
Seleção brasileira: 20 jogos e nenhum gol

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