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Ação absurda da Liga Serie A contrasta com estudo sobre racismo feito por sindicato



Muita fumaça e pouco assado. O ditado italiano “tanto fumo e poco arrosto“, que foi traduzido na frase anterior, significa, metaforicamente, que algo tem menos solidez ou seriedade do que aparenta ter. É basicamente o que podemos dizer sobre as medidas que a Liga Serie A tem tomado para combater o racismo. Além de não surtirem efeito algum e serem feitas “para inglês ver” – para continuarmos no mundo dos ditos populares –, agora elas simplesmente ofendem as pessoas. Especialmente as negras.

Foi o caso da bizarra ação de marketing lançada nesta segunda, na sede da entidade, em Milão. O esdrúxulo e insensível plano de comunicação bolado por publicitários descolados da realidade e que certamente não sabem o que significa sofrer preconceito racial contrasta fortemente com o sério estudo publicado dias antes pela Associação Italiana de Jogadores – AIC, que abordaremos logo mais.

Os cartolas da liga decidiram “combater preconceito com arte”. Para isso, foi anunciada a exposição, “de forma permanente”, no salão de entrada para o auditório da entidade, um tríptico com macacos representando diferentes povos, no intuito de combater o racismo e celebrar “a integração, a multiculturalidade e a irmandade”. O autor da obra é Simone Fugazzotto, um artista visual que só pinta símios. Ele afirmou que o conceito do trabalho seria positivar um dos termos que os agressores usam para ofender os negros. Algo na linha do “somos todos macacos” que Neymar promoveu em 2014, após Daniel Alves ter sido atacado com uma banana em gramados espanhóis.

Considerando que Neymar tem uma péssima equipe de relações públicas, não era de surpreender que a iniciativa acabasse não sendo bem aceita – o próprio Dani Alves rebateu a ideia propagada por uma hashtag. Cinco anos depois dessa problematização e com a evolução do debate sobre o preconceito racial, já foi formado o consenso de que macaquear-nos a todos não é uma boa maneira de combater a discriminação. É de mau gosto, na verdade.

Ainda que o conceito da obra de Fugazzotto – criada em maio, numa iniciativa antirracismo pouco divulgada da liga, na ocasião da final da Coppa Italia – seja pobre, a existência do tríptico é o menor problema da questão. Uma estrutura bilionária e transnacional, como a Serie A, deveria ter uma equipe de marketing e relações públicas bem preparada para, no mínimo, questionar e refletir sobre as consequências de seus atos perante o público-alvo e a sociedade em geral. Assim, seria possível entender que, se a mensagem a ser passada era o combate ao racismo, a arte escolhida estava totalmente fora de lugar.

Luigi De Siervo é o principal executivo da Liga Serie A neste momento e vem colecionando críticas (LaPresse)

Para se chegar a esta tola conclusão, bastaria haver, na entidade, uma pessoa com bom senso e capacidade de vetar iniciativas do gênero. Bastaria alguém consultar negros para que eles dissessem o que pensavam sobre a obra. Bastaria haver negros em posição de poder dentro da liga. Não há. Como não há na política italiana: a estrutura da associação reflete a estratificação social do país.

Desconfiamos de “iniciativas contra o racismo” vindas de brancos que não escutem os verdadeiros interessados – sejam os negros, os indígenas, os asiáticos, os ciganos – ou que não lhes confiram o poder de decidir sobre as atitudes que devem ser tomadas. Em geral, não costumam passar de palavras ao vento. Pela amostra de enorme descolamento com a realidade, foi o que a Serie A fez: lançou promessas sem um destino certo.

A liga fez isso porque, em seu organograma, há pessoas como Luigi De Siervo, que concedeu a entrevista coletiva ao lado de Fugazzotto. Ele é o principal executivo da Serie A desde que Gaetano Miccichè renunciou, em novembro de 2019, e lá ficará até novas eleições. De Siervo foi o mesmo dirigente que teve um áudio vazado no início de dezembro. Nele, o cartola sugeria que os microfones próximos às arquibancadas fossem desligados se casos de racismo ocorressem em jogos transmitidos pela TV. Em suma, sua ideia de combate ao preconceito seria varrer a sujeira para baixo do tapete. Ele não quer que o consumidor médio do campeonato tenha ciência de que negros são ofendidos nos estádios italianos.

Num momento em que o problema virou questão de estado na Itália, alertamos que a liga não voltará aos holofotes enquanto for conivente com casos de preconceito. Também não retornará se fizer campanhas de marketing vexaminosas e for alvo de justas críticas no exterior e dentro do país. A Roma, por exemplo, ironizou a ação com os macacos. “Fomos surpreendidos pelo que parece ser uma iniciativa contra o racismo”, lia-se numa nota divulgada pelo clube no Twitter – salientemos o “parece”. O Milan também se manifestou de forma contrária e destacou o fato de os clubes não terem sido consultados. Já a Inter foi protocolar.

A permanência de dirigentes como De Siervo só agrava o problema. O cartola já deveria ter se demitido quando teve o áudio divulgado, mas apenas se retratou. Irá se retratar de novo agora? Quantas outras vezes?

Torcedores do Napoli apoiam Koulibaly, vítima frequente de racismo nos estádios italianos (LaPresse)

As outras ações antirracismo da Serie A

Depois que foi criticada em todo o mundo, a liga não emitiu comunicados sobre a ação com os macacos – nem para acatar as reprimendas nem para rebatê-las. O fato é que toda a estratégia de marketing foi permeada por erros crassos de comunicação. Prova disso é que outras iniciativas de combate ao racismo foram anunciadas, mas quase ninguém percebeu. E todas elas teriam mais efeito do que os quadros de Fugazzotto.

O mais importante dos anúncios ofuscados ainda é uma promessa: o uso de câmeras de segurança e de softwares de reconhecimento facial para que as autoridades e os clubes possam tomar as providências necessárias contra os racistas. Segundo De Siervo, ainda há um nó para ser desatado junto ao governo, por conta de leis relativas à privacidade dos torcedores que frequentam os estádios.

O cartola prometeu que a Itália “fará em dois anos o que Margaret Thatcher fez em 10”. Além de o juramento ser politiqueiro, a comparação com a “Dama de Ferro” não é das melhores, visto os acontecimentos de Hillsborough e uma enxurrada de críticas normalmente feitas à primeira-ministra do Reino Unido nos anos 1980 – a Trivela tem um ótimo texto sobre o assunto.

Além da promessa de uso de aparato de identificação dos preconceituosos, também foram anunciadas iniciativas com algum valor educativo, simbólico e/ou de representatividade. Como, por exemplo, convidar um negro italiano para cantar o hino do país na final da Coppa Italia, dedicar uma rodada das competições da liga (Serie A e copa) para atacar o racismo ou criar faixas de capitão que versem sobre a luta contra o preconceito. Por fim, De Siervo também comunicou que cada time participante da primeira divisão terá um embaixador antirracismo como componente da seleção “We Are One Team”.

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“Cada clube pensou cuidadosamente na pessoa a ser designada. Em alguns casos, eles também são jogadores da seleção italiana, o que gera uma sensibilidade específica [para o tema no país]. Precisamos dialogar com as torcidas dos 20 times, então teríamos que envolver os atletas”, declarou De Siervo. Por conta da importância que o dirigente deu à escolha feita pelas equipes, checamos o que cada um dos indicados já fez para se posicionar, seu histórico em relação ao tema e o que lhe credenciaria a estar na lista.

Obviamente, muitos dos jogadores escolhidos são negros e já vivenciaram casos de racismo em suas vidas. Nesse grupo, estão os senegaleses Ibrahima Mbaye (Bologna), Khouma Babacar (Lecce) e Kalidou Koulibaly (Napoli); o francês Blaise Matuidi (Juventus), o marfinense Gervinho (Parma), o brasileiro Juan Jesus (Roma), o equato-guineense Pedro Obiang (Sassuolo) e o ganês Kevin-Prince Boateng (Fiorentina). Prince e Koulibaly, vale lembrar, são grandes porta-vozes da luta antirracista do futebol italiano. Por fim, temos Stefano Okaka (Udinese), único negro com cidadania itálica da seleção.

Entre os embaixadores brancos, só três já se manifestaram publicamente sobre racismo em redes sociais ou entrevistas. São nomes como o estoniano Ragnar Klavan (Cagliari) e Danilo D’Ambrosio (Inter). O lateral nerazzurro também é de Nápoles, cidade cujos habitantes costumam ser alvo de cânticos preconceituosos nos estádios.

O terceiro deles é Albin Ekdal (Sampdoria). O sueco de longa carreira na Itália é bastante politizado e já falou sobre racismo na Itália e na Inglaterra e repudiou a discriminação racial sofrida por Jimmy Durmaz, companheiro de seleção. De quebra, pediu que o futebol masculino se espelhasse na modalidade praticada pelas mulheres e criasse um ambiente favorável para jogadores gays.

Os demais atletas escolhidos pela iniciativa não se posicionaram abertamente sobre a discriminação racial. Contudo, Davide Calabria (Milan) mostrou alguma preocupação com aspectos da sociedade ao postar mensagens de simpatia a países africanos, de pedido de socorro à Amazônia e de igualdade entre o futebol masculino e o feminino.

Já o ítalo-brasileiro Felipe (Spal) é bastante ativo em ações beneficentes desde os tempos em que atuava na Udinese. Não há razões claras quanto aos motivos pelos quais Pierluigi Gollini (Atalanta), o argentino Joaquín Correa (Lazio) e o marroquino Sofyan Amrabat (Verona) foram indicados, mas é provável que o tenham sido por influência dentro do grupo, laço com suas torcidas e questões pessoais.

São as mesmas razões pelas quais Daniele Gastaldello (Brescia) e Stefano Sturaro (Genoa) foram escolhidos. Porém, ambos já foram criticados por posturas relacionadas à discriminação. Alguns questionaram o capitão bresciano por não ter assumido um posicionamento mais firme nas ocasiões em que Mario Balotelli foi vítima de racismo.

Por fim, o genoano teve uma atitude condenável em 2017: ao responder a um adolescente napolitano de 12 anos que o criticava no Instagram, perdeu a linha e usou o termo “Gomorra” para se referir ao jovem. Trazendo para a realidade brasileira, seria mais ou menos como chamar um nordestino de “paraíba”. Esperamos que a participação na campanha tenha efeito educativo para o meio-campista.

Tommasi, presidente da AIC: entidade tem oferecido sugestões para melhorar o futebol italiano do ponto de vista social (AFP/Getty)

Estudo feito pelo sindicato dos jogadores deveria ser ponto de partida contra o racismo

A semana em que o mundo discute a absurda estratégia de combate à discriminação proposta pela Serie A poderia estar sendo utilizada para reflexões e tomada de ações muito mais relevantes no que tange ao preconceito racial. Calhou de, dias antes do anúncio feito por De Siervo, a Associação Italiana de Jogadores – AIC ter apresentado um estudo próprio sobre a extensão do racismo no futebol da Itália. O sindicato, que é presidido por Damiano Tommasi, ex-Roma, disponibiliza a pesquisa intitulada “Calciatori Sotto Tiro” (“Jogadores sob Fogo”, numa tradução livre) em sua página.

A AIC analisou ofensas raciais que ocorreram num espaço de seis anos, até a temporada 2018-19, e se dedicou a todas as categorias (profissionais, amadoras e juvenis) do futebol italiano. A conclusão é que o racismo está em constante aumento em todos os níveis do esporte local, dentro e fora das praças dedicadas a sua prática.

Foram registrados mais de 600 casos no período, uma média superior a 100 por cada ano corrente esportivo. Anteriormente, o Observatório Italiano de Racismo no Futebol – ORAC, havia elencado 249 ocorrências nos estádios entre 2011 e 2016, reunindo apenas aqueles que geraram algum tipo de sanção, como multas ou advertências. O relatório da organização deixou de lado relatos ou situações que não foram comunicadas aos órgãos responsáveis e não tiveram caráter oficial.

No livreto em que aponta a escalada discriminatória, a AIC realizou dois recortes principais para evidenciar o problema. O sindicato dividiu as ocorrências entre as categorias “racismo nos estádios” (que abrange ofensas de ultras contra jogadores ou outros torcedores, por exemplo) e “racismo dentro de campo”, a qual compreende o preconceito de jogadores e treinadores contra adversários, colegas ou árbitros. Segundo o diagnóstico da entidade, duas em cada três situações (66%) contabilizadas diziam respeito a faixas, cânticos ou outros expedientes intolerantes oriundos das organizadas, e 32% aconteceram na Serie A.

Norte e centro da Itália foram responsáveis, respectivamente, por 42% e 37% dos atos de racismo provenientes das arquibancadas, enquanto o sul teve 21%. Contribui para o alto número registrado pelo centro-norte o fato de que Lombardia e Lácio são as regiões do país que têm mais agremiações afiliadas às ligas desportivas. Isso também ajuda a explicar porque as províncias de Roma (14%) e Milão (9%) são aquelas mais afetadas pelo problema. Em seguida, temos Turim e Pádua, com 7%, e um pelotão com 5% de incidência dos episódios: Bérgamo, Frosinone, Perugia e Prato.

Jogadores da base da Aurora Desio, da Lombardia, participam de campanha contra o racismo (Il Calcio Illustrato)

A base vem forte… mente racista

O raio-x produzido pela AIC ainda revelou outros dados assustadores. Como salientamos acima, a entidade também catalogou os fatos execráveis que ocorrem nos gramados italianos: eles correspondem a 34% do total e foram registrados apenas nas categorias amadoras, nas quais há menor visibilidade dos jogos, fiscalização da sociedade e, portanto, míseras ou quaisquer consequências negativas para os preconceituosos. O que nos indica que o que visualizamos na Serie A é apenas a ponta do iceberg.

Os números alarmantes se verificam principalmente nas competições juvenis, que respondem por 16% das ofensas de torcedores a atletas e a incríveis (e abomináveis) 70% das ocorrências no próprio gramado. O relatório da AIC indica que, infelizmente, os episódios de discriminação estão aumentando nos campeonatos das categorias Primavera, Allievi, Esordienti e Giovanissimi.

Pequenos jogadores e jogadoras, seus familiares e até treinadores são vítimas e algozes nessa seara. Por isso, a conscientização e o combate a essa calamidade deveriam ser acompanhados de medidas socioeducativas – quando no caso dos jovens – ou até ações disciplinares mais severas, se os agressores forem adultos.

Tommasi, o presidente do sindicato, foi bem claro sobre esta questão específica. O ex-jogador da Roma assina o prólogo do relatório da AIC e sugere à FIGC, a Federação Italiana de Futebol, que os esforços de conscientização tenham um novo direcionamento. “Talvez as campanhas devam dar mais ênfase às famílias do que às instituições [de futebol]”, ponderou.

A pesquisa do sindicato dos jogadores é um excelente ponto de partida para que o combate ao racismo na Itália possa vir a ter, alguma eficácia, de fato. O diagnóstico da AIC oferece amplo material estatístico e aponta os estratos em que o problema é mais sério. Enquanto isso, a Liga Serie A reinterpreta de uma forma bastante peculiar os significados dos famosos três macaquinhos xintoístas, que até se tornaram emojis. Seus dirigentes não ouvem as vítimas de discriminação, não falam coisa com coisa e não enxergam onde estão errando e como solucionar a questão.



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