Serie A

Serie A não voltará aos holofotes enquanto for conivente com casos de racismo



A Serie A perdeu o status de liga mais atraente do mundo há duas décadas. Se nos anos 1980 e 1990 a primeira divisão italiana era considerada o eldorado do futebol, a partir da virada do milênio Premier League e La Liga começaram a brigar pelo posto de campeonato mais badalado do planeta. O escândalo Calciopoli, em 2006, reforçou a ideia de que a Itália havia, de fato, ficado para trás.

Hoje, a liga italiana se esforça para atrair novos públicos. A disparidade em comparação com Premier League e La Liga ainda é grande, mas os cartolas e os clubes da elite se empenham na tentativa de diminuir essa distância. O que acontece, no entanto, é que, em meio à luta para voltar a figurar entre os campeonatos mais chamativos da Europa, o futebol da Itália se vê imerso em contínuos casos de racismo, dentro e fora dos estádios, e os dirigentes parecem não mover uma palha para que a situação mude.

Só no segundo semestre de 2019 surgiram diversos episódios repugnantes de injúria racial contra jogadores negros na Itália – e não só na elite. Não é preciso fazer um grande esforço para recordar os insultos que Romelu Lukaku, Franck Kessié, Dalbert, Juan Jesus (via rede social), Ronaldo Vieira e Mario Balotelli sofreram. Antes, Kalidou Koulibaly e Moise Kean, só para citarmos alguns exemplos, também foram agredidos por ultras.

No final de novembro passado, os 20 clubes da Serie A se uniram e escreveram uma carta repudiando o racismo. “Temos de reconhecer que enfrentamos um problema sério de racismo”, diz o início da mensagem. “É um problema que não combatemos suficientemente ao longo dos anos. Imagens de jogadores sendo racialmente discriminados no futebol italiano vêm sendo vistas e debatidas no mundo inteiro nesta temporada, e isso envergonha todos nós”.

De fato, os cartolas que mandam e desmandam no futebol italiano fizeram vista grossa, nos últimos anos, para os casos de racismo, permitindo que a situação avançasse e as pessoas normalizassem tal atitude. Precisou que a discriminação racial recorrente no país aumentasse até virar assunto mundial para que clubes, federações e mídia tomassem providências. Ou melhor, fingissem que as estão tomando.

A Inter criou a campanha BUU (Brothers Universally United) contra o racismo: clubes precisam ultrapassar a barreira do marketing para combater os preconceituosos (Getty)

A Inter criou a campanha BUU (Brothers Universally United) contra o racismo: clubes precisam ultrapassar a barreira do marketing para combater os preconceituosos (Getty)

Na teoria é muito bacana ver o engajamento de todas as agremiações da primeira divisão preocupadas em aniquilar o racismo. Mas, na prática, a coisa é bem diferente, de modo que poucos “torcedores” – para não dizer nenhum – são identificados e punidos pelos clubes e pela FIGC, a Federação Italiana de Futebol.

Ademais, o diretor executivo da Serie A, Luigi De Siervo, teve áudio vazado recentemente sugerindo, em uma reunião realizada em setembro passado, que os microfones direcionados às torcidas fossem desligados em caso de vaias e ofensas a jogadores negros. A intenção do mandatário, segundo o áudio divulgado pelo jornal La Repubblica, era evitar que manifestações racistas saiam na transmissão, visando melhorar o espetáculo para a TV.

No fim das contas, os criminosos percebem que não há repreensão por parte de ninguém, continuam frequentando os estádios normalmente e seguem destilando ódio contra atletas negros ou povos do sul da Itália. Até membros do governo anterior minimizavam tais atitudes – e figuras importantes daquela administração foram flagradas em cânticos discriminatórios mais de uma vez.

Assim, a imagem da liga italiana fica cada vez mais queimada em outros países – a da nação como um todo, inclusive. Com exceção aos imbecis, quem gostaria de seguir um campeonato onde quase toda rodada há ocorrências de racismo? Caso não acompanhe nenhum time italiano, você estimularia seu filho ou sua filha a torcer por alguma equipe que têm alas de sua torcida dedicadas a discriminar jogadores que não sejam brancos?

Em síntese, o racismo está impregnado na sociedade italiana e, por isso, se reflete nos estádios. Quem deveria fazer alguma coisa para acabar com essa calamidade se omite. Os clubes realizam campanhas, promovem publicidade contra os “buu”, repudiam os ataques nas redes sociais ou em seus sites oficiais; mas, na verdade, são tão coniventes quanto os membros da FIGC e da Lega Serie A. Falta dar exemplo.

E assim a liga italiana desce ladeira abaixo, perdendo fãs para Premier League, La Liga, outras ligas e outros esportes. Com o racismo aumentando a cada rodada, não há Cristiano Ronaldo, Lukaku, possível retorno de Zlatan Ibrahimovic à Itália, arenas ultramodernas e jogadas de marketing que façam o Italianão voltar ao estrelato novamente. Além de toda a questão humana, o “produto Serie A” se desvaloriza. No momento em que os cofres dos poderosos forem severamente afetados talvez – talvez mesmo – alguma atitude seja tomada, de fato.



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