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Racismo no futebol italiano vira, finalmente, questão de Estado. Agora vai?

Lateral Dalbert, da Fiorentina, foi alvo de racismo (Viola Channel)

Você liga a televisão para assistir a mais uma rodada da Serie A. Se houver um jogador negro em campo, provavelmente você espera que a torcida imite um macaco quando ele tocar na bola. É horrível, sim, mas é isto o que você espera, já que o racismo é uma parte tão estrutural do futebol italiano.

Na 4ª rodada, o alvo foi o lateral brasileiro Dalbert, da Fiorentina. Os torcedores da Atalanta gritaram e imitaram macacos. O árbitro teve de interromper o jogo por três minutos até que a ordem se restabelecesse. Depois, a reação foi enorme. O novo ministro do Esporte, Vincenzo Spadafora, não mediu palavras e defendeu que haja penalidade aos racistas mesmo que, para isso, sejam necessárias providências impopulares.

As punições, ele insinuou, podem atingir não só quem comete os atos de violência, mas também os coniventes. “O meu objetivo é que os torcedores se afastem dos companheiros racistas. Se não for por convicção, ao menos por conveniência”, afirmou Spadafora, em entrevista ao jornal El País. “Chegou a hora de cada um cumprir com as suas responsabilidades: instituições, políticos, federações e torcedores.”

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O discurso do ministro do Esporte tem um significado que vai além do clichê “momento de combater o racismo no futebol em pleno século XXI”. Vincenzo Spadafora foi eleito deputado pelo Movimento 5 Estrelas e é visto como um articulador importante deste momento político da Itália.

Antes do ministério do Esporte, Spadafora presidiu o comitê italiano da Unicef

A fala de Spadafora é uma demonstração de que o país, também por meio do futebol, caminha para um período mais — digamos — favorável à diversidade do que o que vinha passando com o antigo ministro do interior, Matteo Salvini, que já chegou a chamar de “bizarras” as interrupções de jogos do Italiano por cânticos racistas.

As ações pretendidas pelo ministro vêm de uma história pessoal de combate a discriminações. Antes de entrar para o Movimento 5 Estrelas, ele foi presidente do comitê italiano da Unicef e, agora, assume um ministério que envolve esporte e juventude. “O governo queria um ministro do esporte, de fato, porque considera que é um recurso para o país, uma excelência italiana, como a música e a gastronomia”, afirmou.

“O futebol é divertimento, mas também um momento de crescimento e ensinamento de vida. E é isso que deve voltar a ser.”

Ao dar a entrevista ao El País, na terça-feira (24/9), o ministro já tinha marcada uma reunião com o presidente do Comitê Olímpico Italiano, Giovanni Malagò, e pretendia se encontrar, nos próximos dias, com o chefe da Federação Italiana de Futebol (FIGC), Gabriele Gravina. Até agora, a grande colaboração de Malagò na semana foi dizer que cavar pênalti é pior do que coro racista e recuar da declaração poucas horas depois.

Fifa endurece discurso

O movimento que a Itália adotou internamente se alinha ao discurso mais duro do presidente da Fifa, Gianni Infantino. Em entrevista à Sky Sports, ele defendeu cadeia como punição para torcedores racistas: “Precisamos colocá-los atrás das grades, jogá-los fora dos estádios e garantir que sejam punidos”.

Infantino chamou os grupos racistas de “idiotas” e, na mesma entrevista, ainda fez uma crítica às instituições. “Não vejo motivo para esconder a verdade, não falar do que acontece, dizer que não é grave”, afirmou. O discurso do presidente da Fifa tem se intensificado durante a semana.

Na segunda-feira (23/9), durante a premiação dos melhores do ano, Infantino também se manifestou, ainda que de forma mais leve: “Temos de dizer não ao racismo, em qualquer forma: no futebol, na sociedade. Mas não temos apenas de dizer isso. Temos de lutar contra ele, temos de expurgar o racismo de uma vez por todas, na Itália e no resto do mundo”.

Histórico de racismo

Esta tentativa de reação não é inédita. Em 2014, o brasileiro Daniel Alves virou ícone das campanhas contra o racismo no futebol após ser atingido por uma banana em uma partida do Barcelona contra o Villarreal, pelo Campeonato Espanhol. O ataque deu origem à polêmica campanha #SomosTodosMacacos nas redes sociais.

Na ocasião, a Itália estava sob comando do Partido Democrático, que deu força às manifestações. O então primeiro-ministro, Matteo Renzi, foi fotografado comendo uma banana ao lado de Cesare Prandelli, técnico da seleção italiana à época. Renzi está de volta: no início do mês, o PD se aliou ao 5 Estrelas para governar tirando do poder o partido de extrema direita Liga.

Matteo Renzi e Cesare Prandelli comem banana em apoio a Daniel Alves

Matteo Renzi e Cesare Prandelli comem banana em apoio a Daniel Alves (Ansa)

A ação dele com Prandelli, no entanto, parece não ter feito muito efeito no futebol italiano desde então. Os casos de racismo já parecem rotineiros na temporada 2019-20 da Serie A. Na 2ª rodada, o alvo foi Romelu Lukaku, recém-chegado ao país, contra o Cagliari. Torcedores do time da Sardenha imitaram macacos quando o atacante da Inter foi bater o pênalti que garantiu a vitória da Internazionale.

As ofensas racistas chegaram à mídia especializada. Ao elogiar o desempenho de Lukaku, o jornalista Luciano Passirani, do canal TopCalcio, afirmou que a única forma de parar o atacante seria “lhe dando 10 bananas”. O comentário levou ao afastamento do comentarista.

As vaias e sons de macaco continuaram na 3ª rodada. Daquela vez, no Vêneto, a vítima foi o volante Franck Kessié, do Milan. O modus operandi era o mesmo: sons de macaco a cada vez que ele tocava na bola. O Verona usou seus meios de comunicação oficiais para defender a torcida, negando o óbvio para dizer que quem reclamava tinha ficado “atordoado pelos decibéis”.

Após o fim da rodada, o capitão de facto da Roma, Edin Dzeko, cobrou punições severas aos racistas. Em entrevista à Sky Sports, o bósnio disse que o problema do racismo é maior na Itália do que em outros países: “Acredito que uma resposta deve vir da federação, eles têm de proteger os jogadores. É a única forma. Se você ouvir alguém sendo racista, essa pessoa deve ser banida do estádio. Eles não podem vir mais. Nós não queremos racistas nos estádios”. Dzeko, vale lembrar, vem de um país em que conflitos étnicos chegaram a servir como motivação de uma sangrenta guerra. Ele sabe do que está falando.

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