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Pouco badalado, Stefano Sorrentino foi um dos melhores goleiros de sua geração



Quando iniciou no futebol, o garoto Stefano tinha o grande objetivo de se tornar um jogador de Serie A, tal qual seu pai havia sido: também goleiro, Roberto Sorrentino defendeu Catania e Bologna na elite. Stefano foi além. Técnico, ágil e longevo, atuou em quase 400 partidas na primeira categoria do futebol italiano, sendo um dos mais respeitados arqueiros de sua geração.

Nascido próximo a Salerno, Stefano decidiu que seria atacante, depois de ver a frustração e a solidão de seu pai após um jogo. Quis o destino que os dois goleiros do time juvenil em que atuava perdessem o torneio clássico de Páscoa. Sem hesitar, seu treinador o escolheu como o goleiro do time sabendo do histórico do pai. O jovem respondeu que só iria se recebesse a braçadeira de capitão. O técnico aceitou e Sorrentino foi eleito o melhor goleiro do torneio.

Era o primeiro passo de uma carreira que teria início nas categorias de base da Lazio, em 1996. Um ano depois, Sorrentino foi defender os juvenis da Juventus, mas a estreia como profissional se daria em outra praça na capital do Piemonte. Na temporada 1998-99, Stefano acertou com o Torino e realizou uma partida na Serie B.

Sem conseguir se estabelecer no time, o novato foi emprestado à Juve Stabia, onde atuou nas copas, e depois ao Varese, time em que finalmente teve chances reais. Pelos biancorossi, realizou 32 jogos entre copas e a disputa da Serie C1. Ao aproveitar a titularidade, conseguiu mostrar ao Torino que poderia retornar e ajudar na campanha grená na primeira divisão: em 2001, o Toro regressava à elite italiana.

De volta ao clube granata, Sorrentino passou mais duas temporadas com poucas atuações, substituindo Luca Bucci na Coppa Italia e em algumas partidas do campeonato. Isso durou até que a agremiação, vivendo uma situação financeira complicada, retornou à Serie B, em 2003. Se para o Torino isso representava um fracasso, para Stefano foi a oportunidade de jogar com regularidade.

Sorrentino estreou na Serie A com a camisa do Torino (Arquivo/Torino FC)

Em dois anos, o goleiro mostrou toda sua qualidade e liderança. Se em 2003-04 tais características ajudaram o Torino a ficar apenas no meio da tabela, na campanha seguinte elas contribuíram para que o time fizesse uma campanha suficiente para garantir o retorno à primeira divisão. Ao menos por desempenho esportivo: apesar de ter subido através dos playoffs, o Toro foi vítima da instabilidade financeira deixada pela gestão de Francesco Cimminelli, que levou o clube à falência.

A agremiação conseguiu se manter na Serie B por causa do Lodo Petrucci, portaria da Federação Italiana de Futebol (FIGC), que abria uma brecha para times em bancarrota que se reconstituíssem em uma nova pessoa jurídica, a pedido do prefeito da cidade de sua sede. Mesmo assim, todos os jogadores ficavam livres para assinar com outros clubes e Sorrentino acertou com o AEK, da Grécia.

Pelo clube de Atenas, o goleiro pode disputar suas únicas partidas em competições europeias – primeiro pela Copa Uefa e, no ano seguinte, pela Champions League. Depois de dois vice-campeonatos gregos na condição de titular, Sorrentino foi contratado por empréstimo pelo Recreativo Huelva e se tornou o primeiro italiano a vestir a camisa do clube mais antigo da Espanha, que retornava à primeira divisão. Stefano também foi titular na Andaluzia e contribuiu enormemente para o feito inédito do decano, que conseguiu se manter na elite em 2007-08.

A passagem por clubes de fora da Itália mudou a carreira de Stefano. “Fora da Itália, cresci como homem e como jogador. Ao seu redor existem diferentes culturas e mentalidades, há ideias de vida que você precisa aprender a entender. Se você se sentir confortável com os outros, significa que você conseguiu entender onde está, significa que conseguiu se adaptar”, disse em entrevista à revista Athleta. O goleiro, contudo, se viu valorizado fora de seu país antes de ganhar o reconhecimento nacional. Este viria a partir da terceira década de sua vida: aos 29 anos, Sorrentino regressou ao Belpaese para ser o titular do Chievo, que acabara de ser promovido à Serie A.

Pelo AEK, Sorrentino disputou suas únicas partidas em competições continentais (AFP/Getty)

Stefano já era profissional há cerca de 10 anos, mas jamais sentiu o gosto do protagonismo que teria dali pra frente. Sorrentino viveu quatro temporadas e meia muito intensas no clube gialloblù, mostrando-se um grande pegador de pênaltis. Em sua segunda campanha pelo Chievo, interceptou quatro, que ajudaram a colocar o time no rol das cinco melhores defesas da Serie A 2009-10, com 42 gols sofridos, e um lugar tranquilo no meio da tabela. Com a bola rolando, o campano também mostrava uma segurança invejável.

No ano seguinte, o Chievo – treinado por Stefano Pioli – melhorou seus números. Com Sorrentino mais uma vez se destacando, com quatro pênaltis defendidos, o time clivense sofreu 40 gols e teve a quarta melhor defesa da Serie A. Stefano voltou a contribuir para campanhas tranquilas dos burros alados em 2011-12 e, em meados da temporada 2012-13, aceitou uma proposta do Palermo, trocando o Vêneto pela Sicília.

Os rosanero estavam lutando contra o rebaixamento e o goleiro, mesmo sendo monitorado por Juventus, Fiorentina e Roma, preferiu aceitar o desafio de manter os palermitanos na elite italiana pela décima temporada consecutiva. Claro, pesou o fato de que, na ilha, seria um dos protagonistas do elenco. Mas nem mesmo Sorrentino conseguiu evitar o surpreendente descenso para a Serie B. Stefano permaneceu no clube e, ao lado de nomes como Ezequiel Muñoz, Claudio Terzi, Édgar Barreto e um quarteto ofensivo formado por Pablo Dybala Abel Hernández, Kyle Laferty e Andrea Belotti, conquistou, com tranquilidade, o título da segundona e o acesso.

A experiência do goleiro também foi fundamental para que o Palermo, apesar de um início ruim, fizesse uma temporada honrosa na Serie A, terminando 2014-15 no meio da tabela – com resultados de relevo, como um 5 a 0 perante o Cagliari, vitórias sobre Milan e Roma como visitante e contra o Napoli, no Renzo Barbera. No ano seguinte, depois de ajudar o Palermo em mais um ano sólido na Serie A, Sorrentino fez seu último jogo com a camisa rosanera diante do Verona, na Sicília. Ídolo e capitão do time, o goleiro chorou emocionado diante dos torcedores, com os quais mantém relação de afeto até hoje.

Durante três anos e meio, Sorrentino foi um dos pilares do Palermo (Getty)

Aposentadoria, mesmo aos 37 anos, estava longe de ser algo desejado pelo goleiro, que retornou ao Chievo para fazer quatro temporadas em altíssimo nível e se consolidar como um dos maiores ídolos do clube. Nesse período, não faltaram defesas incríveis e pênaltis defendidos de algumas das principais estrelas da Serie A: foram façanhas diante de Dries Mertens (Napoli), Belotti (Torino) e Cristiano Ronaldo (Juventus).

A defesa contra o português teve significado especial: isso porque, além de ter sido uma defesaça, Sorrentino perdeu alguns jogos da temporada 2018-19 por conta de um choque involuntário com o português, logo na primeira rodada do campeonato. No reencontro, deu o “troco”. “Parece estranho, mas já na manhã do jogo tive a sensação de que defenderia uma penalidade. Eu também disse que se houvesse um pênalti, me jogaria à esquerda, e então aconteceu”, declarou.

Entre os cobradores que já enfrentou, o goleiro destaca Diego Perotti e Fabrizio Miccoli. “Perotti olha nos olhos do goleiro até o último momento e aguarda seu movimento quase imperceptível”, elogiou. “Miccoli foi meu carrasco no Palermo. Lutei tremendamente para fazê-lo cometer erros nos treinamentos”, completou Sorrentino. Stefano fala com a propriedade de quem tem 14 pênaltis defendidos na Serie A e é o sétimo melhor da história da competição neste quesito.

Persistente, Sorrentino buscou inspiração no personagem Rocky, interpretado por Sylvester Stallone. Pela fama de não se contentar jamais e de querer sempre evoluir, Stefano passou a ser chamado pelos amigos de “olhos de tigre”, em referência a “Eye Of The Tiger”, música tema do boxeador. Não à toa, o goleiro conseguiu jogar até o mais alto nível até os 40 anos, quando muitos jogadores já teriam se aposentado. Sua segunda passagem pelo Chievo fez com que entrasse para a lista dos 10 jogadores que mais vestiram a camisa do clube, com 271 aparições. Pela Serie A, foram 266 partidas em gialloblù: só o ícone Sergio Pellissier supera tal feito.

Sorrentino é um dos jogadores que mais partidas fizeram pelo Chievo na Serie A italiana (Getty)

Quis o destino que um dos maiores ídolos do clube se aposentasse justamente após o segundo rebaixamento do clube para a Serie B – e depois de uma sequência de 12 anos na elite, superando as seis mágicas temporadas anteriores. O veterano queria permanecer, mas precisou o deixar contra sua vontade. Ele até se ofereceu a alguns times, entre eles o Torino, mas nenhum acordo foi feito. “O Chievo não exerceu a opção de um ano mais de contrato e fiquei sem time. Tive ofertas das séries A e B, mas nenhuma me entusiasmou. Cheguei a dizer que aceitaria o posto de segundo goleiro do Torino, porque sou grato ao clube. Mas eles preferiram querendo continuar com [Salvatore] Sirigu e um segundo goleiro mais jovem”, disse, em entrevista recente à Sky Sports.

Stefano não queria parar, mas sem chegar a qualquer acordo, a aposentadoria parecia inevitável. O goleiro chegou a anunciar o fim da carreira, mas uma reviravolta ocorreu em janeiro de 2020: o Cervo, da oitava divisão, lhe ofereceu uma oportunidade irrecusável: ser o novo atacante da equipe. Tudo ficava ainda mais fácil porque o treinador da minúscula agremiação é Roberto Sorrentino, seu pai. De quebra, a comuna de Cervo fica na Riviera da Ligúria, uma das mais belas regiões da Itália.

“É uma aventura fantástica, que me deu a oportunidade de não pensar no meu adeus ao futebol, mesmo que a Serie A seja completamente diferente. Tenho que agradecer ao meu pai e ao presidente, porque todos me receberam de uma maneira fantástica. Redescobri a beleza do futebol. Ver a paixão desses caras, jogando todos de graça e correndo o risco de se machucarem, é realmente uma coisa incrível”, disse o jogador, que trocou a camisa número 1 pela 11.

Enquanto se diverte nos campos da várzea, Sorrentino iniciou um curso de diretor esportivo, mas planeja também atuar como agente. Até lá, ele pode relembrar com orgulho dos seus tempos como goleiro enquanto marca seus golzinhos na Seconda Categoria. “Tenho consciência de que ter vivido todas essas temporadas como protagonistas foi satisfatório. Eu poderia ter jogado em grandes equipes, mas sempre tive a necessidade de me sentir vivo, focado em jogar no domingo”, afirmou.

Faltou apenas vestir a camisa da seleção italiana. Apesar de ter mostrado credenciais para receber uma chance na Nazionale, Sorrentino teve a falta de sorte de ser contemporâneo de Gianluigi Buffon, que foi eterno na seleção e fechou a porta para qualquer rival – sobretudo os que despontaram mais tarde, como Stefano. Isso, contudo, não diminui a sólida carreira do goleiro que tinha a visão de um tigre.

Stefano Sorrentino
Nascimento: 28 de março de 1979, em Cava de’ Tirreni, Itália
Posição: goleiro e atacante
Clubes: Juventus (1997-98), Torino (1998-99 e 2001-05), Juve Stabia (1999-2000), Varese (2000-01), AEK Atenas (2005-07), Recreativo Huelva (2007-08), Chievo (2008-13 e 2016-19), Palermo (2013-16) e Cervo (2020-hoje)
Títulos conquistados: Supercopa Italiana (1997), Serie A (1998) e Serie B (2014)



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