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Roberto Tricella foi o capitão de um histórico Verona e teve papel importante na Juventus

Nos anos 1980, o Verona surpreendeu o mundo inteiro ao conquistar o título da Serie A. O ápice da era de ouro do clube gialloblù só foi possível porque um técnico gabaritado, Osvaldo Bagnoli, foi capaz de tirar o máximo de um elenco promissor, mas sem muita rodagem. Um dos principais exemplos da revolução conduzida pelo treinador foi o líbero Roberto Tricella, que chegou ao Vêneto ainda garoto e se tornou um dos expoentes da equipe.

Tricella passou a sua juventude em Cernusco sul Naviglio, cidade da região metropolitana de Milão. Nascido em 1959, Roberto deu seus primeiros passos no futebol na década de 1970, quando se formou nas categorias de base da Inter. Pelos juvenis do time nerazzurro, foi campeão da Coppa Italia Primavera, em 1977-78.

Quando comemorou o título sub-19, o líbero já havia feito a sua estreia no time “de cima” da Beneamata: em junho de 1977, atuou num jogo da Coppa Italia contra o Lecce. A Inter foi vice da competição, mas acabou ficando com a taça em 1978. O jogador lombardo ganhou um pouco mais de espaço no time em 1978-79, temporada em que fez quatro partidas na Serie A e três na Recopa, mas estava longe de ser titular. A concorrência no setor era grande, já que Graziano Bini, Giuseppe Baresi, Nazzareno Canuti, Adriano Fedele e Silvano Fontolan eram escolhas mais confiáveis para o técnico Eugenio Bersellini.

O treinador sabia do potencial de Tricella, mas preferia jogadores mais experientes. Foi aí que o Verona aproveitou o impasse e fez uma proposta pelo zagueiro de 20 anos, que almejava mais tempo de jogo. Assim, Roberto decidiu descer um degrau e foi atuar pelo Hellas, que acabara de cair para a Serie B. Seria o início de uma trajetória gloriosa pelos butei.

Tricella passou oito anos no Verona e se tornou um dos pilares da equipe (imago)

No Vêneto, Tricella se tornou titular absoluto de imediato. A onipresença no centro da defesa gialloblù não se traduziu em boas campanhas do time na segundona em 1979-80 e 1980-81, mas lhe forjou como um dos líderes do elenco. Em 1981-82, porém, a situação mudaria para o líbero e para o clube: o técnico Bagnoli, contratado após levar o Cesena à elite, conduziu o Verona ao melhor período de sua história.

Em seu ano de debute, Bagnoli conseguiu levar o Hellas ao título da Serie B e, logo após o acesso, promoveu Tricella ao posto de capitão do time – Francesco Guidolin, que utilizava a braçadeira, foi emprestado ao Bologna. Aos 23 anos, então, Roberto voltou à elite como protagonista.

Pela sua trajetória, Tricella pode ser considerado o símbolo da ascensão do Verona. O título da segundona foi apenas o ponto de partida para os scaligeri, que chegaram à Serie A impondo um futebol sólido e agressivo, que pegou os clubes grandes de surpresa. Dessa forma, o Hellas obteve um inédito quarto lugar na Serie A 1982-83 e uma vaga na Copa Uefa. Os gialloblù também conquistaram o vice-campeonato da Coppa Italia, fato que se repetiria na temporada seguinte. Juventus e Roma, respectivamente, ficaram com as taças.

Titular indiscutível ao centro da zaga, o emblemático lombardo viveu uma experiência única em 1984-85, quando o Verona se tornou o maior outsider a faturar o scudetto e conquistou maior titulo de sua história. O zagueirão foi o principal nome da defesa menos vazada do campeonato, com 19 gols sofridos, mas tinha mais atribuições no esquema de Bagnoli. Tricella era o responsável para iniciar a saída de bola: protegido por Silvano Fontolan, Luciano Marangon, Hans-Peter Briegel e Domenico Volpati, ele avançava com a pelota no pé com muita qualidade, e costumava acionar Antonio Di Gennaro, que dava cabo do resto do trabalho.

Briegel e Tricella ostentam o scudetto na camisa do Hellas (imago)

Aquela temporada também foi especial para Tricella porque ele conseguiu espaço na seleção italiana. Primeiramente, em julho de 1984, embarcou para participar dos Jogos Olímpicos de Los Angeles. A forte equipe montada por Enzo Bearzot caiu nas semifinais para o Brasil, perdendo por 2 a 1 na prorrogação. Na disputa pela medalha de bronze, a Iugoslávia venceu os azzurri pelo mesmo placar, com um gol no final do jogo. Em dezembro de 1984, Roberto também foi convocado para o time principal da Nazionale e ficou no radar do técnico para o ciclo da Copa do Mundo de 1986.

Depois do improvável título italiano em 1985, o Verona não manteve o ímpeto – o que era natural para um azarão. Em 1985-86, a equipe foi eliminada precocemente nas copas e ficou apenas com a 10ª posição na Serie A. Mesmo assim, Tricella mantinha o alto nível e mantinha o espaço na seleção da Itália, que – na condição de campeã mundial – disputava amistosos preparatórios para a Copa de 1986. Roberto foi convocado como reserva de Gaetano Scirea e não chegou a entrar em campo na competição.

Ao retornar do México, Tricella ajudou o Verona a ter uma boa temporada em 1986-87. O time de Bagnoli ficou com a quarta colocação e, novamente, se classificou para a Copa Uefa. Roberto continuava na seleção, agora treinada por Azeglio Vicini, e, aos 28 anos, recebeu a chance de dar um salto na carreira: a Juventus o identificou como sujeito ideal para substituir Scirea. Ser o sucessor de mito um bianconero mostra a qualidade que o capitão do Hellas atingiu em seu auge.

Tricella e Scirea não tinham em comum apenas o fato de terem nascido em Cernusco sul Naviglio. O novo reforço se inspirava no juventino, que é considerado até hoje como um dos maiores líberos da história. Tal qual Gaetano, Roberto buscava oferecer uma interpretação modernizada da função: era técnico, avançava com a bola e lançava contra-ataques com passes longos, em vez de simplesmente dar chutões.

Tricella conseguiu espaço na seleção e integrou o elenco italiano em uma Copa do Mundo (imago/Kicker)

Além da inteligência tática e da elegância, Tricella era justo e firme nas divididas. O ex-capitão do Verona tinha como grande característica a capacidade de raramente perder o tempo da bola na hora de desarmar. Ele também conseguia encarar os adversários em situações individuais, devido à sua mobilidade. Por todos esses motivos, a Juventus fez um ótimo negócio ao desembolsar 4,5 bilhões de velhas liras pelo jogador. Era uma pechincha para a época.

Quando chegou a Turim, o zagueiro encontrou uma Juventus em transformação. Giovanni Trapattoni e Michel Platini já haviam partido e Scirea estava parando – aos 34 anos, fez apenas 11 partidas em 1987-88. O fato é que, apesar da grandeza da Velha Senhora, o time de Rino Marchesi era menos organizado que o Verona e não decolou. O sexto lugar na Serie A foi o suficiente para a troca de comando e a contratação de Dino Zoff.

Tricella manteve a titularidade com o ex-goleiro, mas não a vaga na seleção: Vicini optou por Franco Baresi, que não jogava com Bearzot por ser visto como volante, e Roberto encerrou sua passagem pelos azzurri em 1987, com 11 aparições. Na Juventus, os títulos só viriam a aparecer em 1989-90, quando a Velha Senhora bateu o Milan na Coppa Italia e a Fiorentina na extinta Copa Uefa (atual Liga Europa).

Mesmo após os 30 anos, o lombardo ainda era titular da equipe. O espaço, porém, era consideravelmente menor, e Tricella precisava revezar com Pasquale Bruno, Sergio Brio, Nicolò Napoli e, a depender do esquema adotado por Zoff, era o escolhido a ser sacado para dar espaço ao meia Daniele Fortunato. Era um indicativo de que a idade estava chegando e, com ela, seus últimos momentos na Juve.

Na Juventus, Tricella teve a honra de substituir Scirea (LaPresse)

Ao fim da temporada 1989-90, Roberto acabou decidindo deixar a Juventus. O destino foi o Bologna, time em que reencontrou Antonio Cabrini e Massimo Bonini, ex-companheiros de vestiário em Turim. Os rossoblù tinham um elenco interessante, mas que sentiu a saída do técnico Luigi Maifredi para a própria Juve. Nem Franco Scoglio nem o rodado Luigi Radice souberam tirar o melhor da equipe.

Tricella foi titular de um Bologna que lutava em três frentes, mas fracassou em todas. Na Coppa Italia e na Copa Uefa, o desempenho foi razoável, com eliminações nas quartas de final. Na Serie A, contudo, houve um desastre: os bolonheses venceram apenas quatro jogos, somaram 18 pontos e acabaram a competição segurando a lanterna e com um amargo rebaixamento.

Roberto rescindiu seu contrato com o Bologna após o rebaixamento e até buscou acertar com um outro clube da Serie A. Contudo, os problemas musculares que o tiraram de 11 rodadas do campeonato 1990-91 eram mais sérios do que o que ele pensava. Tricella ficou meses parado e, em 1992, decidiu mesmo se aposentar, aos 33 anos.

Depois de deixar os gramados, Tricella nunca mais se envolveu com o futebol: voltou para Cernusco sul Naviglio e começou a trabalhar no setor imobiliário. Se não fosse um dos filhos mais ilustres da sua cidade, poderia levar uma vida como anônimo. Mas, tanto nos arredores de Milão quanto na região de Verona, ele é um ídolo e não passa despercebido. No Hellas, não foi “apenas” o capitão do ano mais magistral da história do clube. Roberto defendeu a camisa azul e amarela em 324 jogos e só fica atrás de Emiliano Mascetti e Luigi Bernardi neste quesito. Icônico.

Roberto Tricella
Nascimento: 18 de março de 1959, em Cernusco sul Naviglio, Itália
Posição: zagueiro
Clubes como jogador: Inter (1977-79), Verona (1979-87), Juventus (1987-90) e Bologna (1990-1991)
Títulos conquistados: Coppa Italia (1978 e 1990), Serie B (1982), Serie A (1985) e Copa Uefa (1990)
Seleção italiana: 11 partidas

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