Serie A

A hegemonia da Juventus torna a Serie A menos atraente e competitiva?

Com duas rodadas de antecedência, a Juventus conquistou seu histórico nono título consecutivo da Serie A. Antagonistas da vez, Inter, Atalanta e Lazio não conseguiram acompanhar o ritmo dos bianconeri na luta pelo scudetto. Mudam-se os adversários, mas a campeã segue a mesma. O ciclo se repete desde 2012. Dito isso, será que a Vecchia Signora tornou a Serie A uma liga menos atraente e competitiva?

Os torcedores rivais podem sentenciar, sem pensar muito, que a Juventus tira a graça do futebol italiano. Afinal, o clube tem a maior torcida do país, fatura bem mais que seus concorrentes, desfalca adversários diretos – Gonzalo Higuaín (ex-Napoli) e Miralem Pjanic (ex-Roma) são exemplos recentes – e atrai as principais promessas que atuam na Itália, vide o talentoso Dejan Kulusevski, de 20 anos, contratado junto ao Parma para a temporada 2020-21.

Tudo isso aumenta consideravelmente as chances de títulos da Juve e, consequentemente, provoca a ira das torcidas rivais. Soma-se a isso a teoria da conspiração de que existe um complô da arbitragem italiana para favorecer a agremiação de Turim. O problema, no entanto, é reduzir a Serie A apenas à Juventus, desprezando todos os outros atrativos do campeonato.

Contando com Lukaku e Lautaro, a Inter almejou destronar a Juventus (imago)

O Italianão de 2019-20, por exemplo, ficará marcado como um dos melhores dos últimos anos em nível de competitividade, diversidade tática e qualidade técnica. Não por acaso, as quatro primeiras colocadas (Juventus, Inter, Atalanta e Lazio) perderam pontos para equipes da área intermediária ou inferior da tabela no decorrer do certame. Ou seja, os times de cima quase nunca tiveram vida fácil contra qualquer adversário da liga.

A alta quantidade de gols ajuda a compreender o porquê de a Serie A ter sido tão entusiasmante. O campeonato contabilizou mais de 1 mil tentos e, até agora, tem média de 3,02 gols por jogo – a mais alta desde 1950-51. Não é à toa que a Atalanta soma quase 100 tentos na Serie A e que todos os cinco primeiros colocados anotaram mais de 70 vezes. São dados que desmistificam mais uma vez o preconceito de que “o futebol italiano é defensivo”.

A Lazio dos contragolpes fulminantes também contribuiu para elevar o nível da Serie A, ainda que os biancocelesti tenham caído de produção no pós-lockdown. Sob a batuta de Antonio Conte, a Inter contou com um Romelu Lukaku inspirado e ajudou a aumentar o sarrafo. Rival dos nerazzurri, o Milan girou a chave na metade do segundo turno e, sem perder após o retorno do futebol na Itália, alcançou a classificação à Liga Europa.

O inspirado futebol da Atalanta passa pelos pés dos veteranos Ilicic e Gómez (Getty)

No entanto, para a surpresa de muitos, os times de meio de tabela também cooperaram para um excelente campeonato. O Sassuolo de Roberto De Zerbi cresceu bruscamente na reta final do certame e tirou pontos importantes de Inter, Lazio e Juventus. O experiente atacante Francesco Caputo se mostrou uma contratação certeira dos neroverdi.

Dado como um dos candidatos ao rebaixamento no início da Serie A, o Hellas Verona foi comendo pelas beiradas e chegou a vislumbrar uma vaguinha na Liga Europa, mas patinou no sprint final. Parma, Bologna e Cagliari compõem esse grupo de underdogs.

O ataque letal e envolvente da Atalanta; o faro de gol de Ciro Immobile, combinado com os passes açucarados de Luis Alberto; a magia de Paulo Dybala e o insaciável Cristiano Ronaldo; o impacto de Lukaku na dianteira da Inter; Sassuolo e Hellas Verona com campanhas surpreendentes… Predicados de campeonato singular.

Artilheiro do campeonato, Immobile é o maior destaque da forte Lazio de Inzaghi (Getty)

O que pode contaminar a avaliação de quem menospreza a Serie A – pelo menos a edição 2019-20 – é o fato de que o campeonato deixou de ser mostrado no Brasil. Após o retorno do futebol na Itália, o DAZN, que possuía os direitos de transmissão, não transmitiu mais os jogos. Assim, apenas quem possui a Rai Internacional, canal italiano disponível na TV a cabo, ou apostadores com saldo na Bet365 teve a oportunidade de acompanhar as partidas da retomada do torneio em diante.

De toda forma, é muito simplista limitar campeonatos apenas à luta pelo título. Se fosse válido analisar apenas por esse viés, seria fácil dizer que as ligas alemã, francesa e italiana não são atraentes e competitivas, pois Bayern Munique, Paris Saint-Germain e Juventus, respectivamente, as dominam há alguns anos. Mas uma competição de pontos corridos envolve muito mais do que a corrida pelo troféu: contém briga por vagas europeias, a luta contra o rebaixamento, a disputa dos rivais regionais para ver quem termina o campeonato melhor colocado, entre outros componentes.

Portanto, ainda que a Juventus tenha mais dinheiro e, assim, o melhor esquadrão da Itália, a Serie A não pode ser resumida apenas aos bianconeri. Ao fazê-lo, o analista está olhando apenas para uma parte do todo, sobretudo na edição 2019-20. A qualidade do Italianão perpassa vários outros componentes além da Juve, que, inclusive, perdeu a Coppa Italia para o Napoli e a Supercopa Italiana para a Lazio, em 2019-20. Avaliar o valor de uma das cinco melhores ligas europeias somente pela hegemonia do campeão é demasiadamente simplista. Analisar apenas a tabela é fácil (e impreciso) demais.

1 comentário

  • Caro. Perdoe-me discordar. A Juventus conquistou o título e manteve a hegemonia, mas dizer que os rivais não conseguiram acompanhar o ritmo, eu acho exagero. Na verdade, penso que quem curte futebol não tem dúvidas que a campeã deveria ser a Atalanta. A Juventus ganhou por pura, completa e total incompetência dos adversários. Na volta co calcio, pós quarentena os números não mentem.
    Atalanta – 8 V, 1 D e 3 E
    Internazionale – 7 V, 1 D e 4 E
    Juventus – 6 V, 4 D e 2 E
    Lazio – 6 V, 5 D e 1 E

    A Juve teve 4 derrotas e só não conseguiu ser pior o que a Lazio, que vinha (na primeira parte) ameaçando a tal hegemonia. Se o campeonato não tivesse tido a interrupção, pode apostar que a Juve ficaria da quarta colocação para baixo. Triste constatarmos como um técnico pode destruir uma equipe. Abraços e saudações biaconeras.

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