Serie A

Milan abre mão de Rangnick e renova com Pioli: o que esperar do futuro?



É bem provável que nem os criadores de Dark, aclamada série germânica da Netflix, seriam capazes de prever uma reviravolta tão grande no Milan pós-lockdown. O ótimo desempenho da equipe após o reinício da Serie A fez a diretoria milanista rever seus planos para o comando técnico do clube. Assim, o alemão Ralf Rangnick acabou descartado, ao passo que Stefano Pioli ganhou uma renovação contratual até junho de 2022.

Tudo aconteceu de forma bem inesperada. A bola ainda rolava no primeiro tempo do jogo contra o Sassuolo, o qual o Milan venceria por 2 a 1 e se garantiria na Liga Europa da próxima temporada, quando começaram a pipocar informações vindas da Alemanha sobre Rangnick haver rompido com os italianos.

“O AC Milan e Ralf Rangnick concordaram que não é o momento certo para trabalharem juntos”, disse o agente de Rangnick, Marc Kosicke, ao Bild. “Por esse motivo, tendo em vista os bons resultados com Pioli, foi decidido que Rangnick não assumirá um cargo no Milan”, acrescentou.

Homem responsável pelo sucesso das equipes da Red Bull nos últimos anos, Rangnick vinha negociando com o Milan há bastante tempo. Inclusive, a imprensa italiana especula que, em fevereiro deste ano, o alemão firmou um pré-acordo de três anos com o grupo Elliott, fundo que gerencia o clube italiano. Ficou acertado que, caso uma das partes não cumprisse com o compromisso, uma multa no valor de 2 milhões de euros seria aplicada. O Milan nega tais rumores.

O Milan News, portal dedicado a notícias do Diavolo, reportou que a diretoria rossonera propôs a Rangnick a função de diretor técnico do clube, com Pioli como treinador. Porém, ainda segundo o veículo, o germânico recusou a ideia.

Após o fim da partida contra o Sassuolo, o Milan emitiu um comunicado para oficializar a permanência de Pioli no banco do Milan para as próximas duas temporadas. “Estou feliz e orgulhoso pela confiança que eu recebi do Milan. (…) Estamos no início de um percurso extraordinário. (…)”, frisou o comandante.

Brusca mudança nos planos da diretoria do Milan fez com que Rangnick permanecesse na diretoria dos clubes da Red Bull (Bongarts/Getty)

Ivan Gazidis e Paolo Maldini, respectivos CEO e diretor técnico do Milan, rasgaram elogios ao treinador. “Stefano [Pioli] mostrou que é capaz de oferecer a visão de futebol pensamos e queremos para o nosso clube, um futebol entusiasmante, moderno e apaixonado”, afirmou Gazidis. “Stefano é o homem certo para liderar o time que queremos: uma equipe bem sucedida, jovem e sedenta por vitórias”, destacou Maldini.

De fato, o trabalho de Pioli à frente do Milan após o reinício do campeonato é admirável. Em nove jogos, o time acumula sete vitórias e dois empates. O desempenho da equipe rossonera só é inferior ao da Atalanta, que soma oito triunfos e dois empates, com um jogo a mais. As convincentes vitórias sobre Roma, Lazio e – sobretudo – Juventus encheram o torcedor milanista de alegria e entusiasmo.

Além disso, o treinador ajudou a recuperar o futebol de jogadores outrora em baixa, como Franck Kessié e Hakan Çalhanoglu. O croata Ante Rebic foi outro que saltou de produção sob a batuta de Pioli e desandou a marcar gols. Os jovens também ganharam mais oportunidades com ele, vide o português Rafael Leão e o belga Alexis Saelemaekers.

Portanto, não há dúvidas de que a equipe vive ótimo momento, os jogadores estão bem à vontade sob a gestão de Pioli e a torcida desfruta da boa fase. A grande incógnita, porém, é como a diretoria reagirá em uma eventual sequência negativa do time na próxima temporada. Afinal, nos últimos anos, o Milan virou um moedor de treinadores.

O último técnico que durou mais de dois anos no cargo foi Massimiliano Allegri, demitido em 2014. De lá para cá, passaram pelo banco rossonero Clarence Seedorf, Filippo Inzaghi, Sinisa Mihajlovic, Cristian Brocchi (interino), Vincenzo Montella, Gennaro Gattuso, Marco Giampaolo e, por fim, Pioli. Nenhum deles conseguiu mostrar um trabalho sólido em clubes grandes. Entre eles, o que melhor se apresentou, até agora, foi o próprio Pioli, à frente da Lazio, entre 2014 e 2016.

Rangnick, por outro lado, soma passagens de sucesso por Schalke 04 e Hoffenheim. Ele também revolucionou os clubes da Red Bull. Se hoje o Leipzig e o Salzburg são times de ponta em seus respectivos campeonatos, muito se deve ao trabalho minucioso do experiente alemão, de 62 anos. Além disso, Ralf sabe revelar e potencializar muitos jovens. Por exemplo, o quarteto Roberto Firmino, Sadio Mané, Naby Keïta e Takumi Minamino, hoje no Liverpool, passou pelo scout do comandante.

Çalhanoglu cresceu de rendimento com Pioli e Ibrahimovic era patrocinador da continuidade do treinador no Milan (imago)

A imprensa italiana relatou nos últimos meses que Rangnick realizaria uma reformulação no Milan. Com a dupla função de dirigente e de técnico, ele apostaria mais em jogadores jovens. Não à toa, o talentoso meia Dominik Szoboszlai, do Salzburg, seria uma das prioridades do clube italiano no mercado de transferências. O jogador agrada bastante ao alemão. Agora, pode ser que as negociações esfriem e Szoboszlai não reforce o Diavolo.

A chegada de Rangnick causaria eventuais saídas no Milan. De acordo com especulações da mídia esportiva da Itália, Paolo Maldini e Frederic Massara, dirigentes da agremiação milanesa, deixariam Milanello. Afinal, o germânico passaria a exercer suas funções. A tendência, agora, é que pelo menos o ex-zagueiro continue trabalhando no clube onde é ídolo.

Zlatan Ibrahimovic é outro que pode acabar se beneficiando com a situação. Isso porque o atacante disse, recentemente, que desconhecia a mente pensante por trás do sucesso do Leipzig. Líder motivacional do elenco, o sueco tem contrato com o Milan até o fim da atual temporada. Com a permanência de Pioli e Maldini, não seria uma surpresa ver o grandalhão estender vínculo por mais algum tempo.

Por fim, existe uma incógnita sobre as próximas contratações do Milan. Uma vez que Rangnick estava praticamente acertado, a cúpula milanista dava prioridade a jovens jogadores. Com Pioli no comando técnico, pode ser que os nomes na pauta da diretoria mudem e haja até contratações de atletas mais experientes. Não custa lembrar que o zagueiro Simon Kjaer (31 anos) e Ibrahimovic (38) chegaram ao clube em janeiro e se firmaram rapidamente na equipe titular.

Por causa dessas notícias surpreendentes, fica impossível não associar o Milan a muitos clubes brasileiros. Eles tomam decisões baseadas na emoção, jogam projetos interessantes no lixo por causa de momento, buscam resultados a curto prazo a todo custo e não aprendem com os erros. No fim das contas, quem sofre são os torcedores.

Em suma, o Milan do futuro é um grande ponto de interrogação. A agremiação abdicou de um projeto que poderia dar muitos frutos a longo prazo para seguir com um técnico que, embora esteja em ótima fase, é considerado mediano na Itália. Pode ser que dê certo e Pioli desenvolva um time ainda mais competitivo na temporada que vem. É difícil imaginar, contudo, que ele seja respaldado pela diretoria quando – e se – os resultados negativos vierem. E, assim, o ciclo (de demissões) se reinicia, muito mais lento e doloroso do que em Dark.



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