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Salvatore Bagni levou versatilidade e solidez a um Napoli campeão

Jogadores versáteis e que atuam em prol da coletividade costumam ter lugar cativo em times competitivos e campeões. Salvatore Bagni foi um deles. O meio-campista italiano surgiu como ponta e foi transformado em um meia central dinâmico, de muita marcação e boa chegada ao ataque, a ponto de marcar quase 100 gols como profissional. Ele exerceu ambas as funções com excelência e, por isso, teve importância em fortes elencos de Perugia, Inter e Napoli.

Salvatore Bagni nasceu em Correggio, cidade que fica na Emília-Romanha. De forma paradoxal, sua carreira no futebol foi para frente na mesma proporção em que recuava em campo. Bagni começou como um atacante de beira de campo na Serie D, com o Carpi, em 1975. Na época, o jogador dividia as atenções entre o clube e o serviço militar, que realizava em Módena, e se destacava pela boa técnica e pela verve goleadora para um extremo. Até 1977, ele marcou 23 gols pelo clube biancorosso.

Pouco antes de completar 21 anos, Bagni deu um salto: pulou da quarta divisão direto para a elite do futebol italiano. O jogador virou reforço do Perugia do técnico Ilario Castagner, que faria história no fim da década de 1970. Nos grifoni, Salvatore atuou como ala pela direita e rapidamente ganhou a titularidade num time que contava com peças relevantes, como os pontas Walter Novellino e Walter Speggiorin e os defensores Michele Nappi, Pierluigi Frosio e Antonio Ceccarini.

Bagni fez ótima temporada de debute na Serie A e mostrou que não sentia a pressão. Na honesta campanha do Perugia, que ficou com o sétimo lugar no campeonato e faturou a Copa Piano Karl Rappan, foi tido como uma das grandes revelações do futebol italiano. O status foi confirmado em 1978-79, quando marcou oito gols e foi o vice-artilheiro do chamado “Perugia dos milagres”. O time biancorosso surpreendeu e foi vice-campeão da Itália invicto, com 11 vitórias e 19 empates – o Milan levou o título com 17 triunfos, 10 igualdades, três derrotas e três pontos a mais.

Pela Inter, Bagni mudou de posição e se consolidou como jogador de times competitivos (Wikipedia)

O meia emiliano se manteve no Perugia por mais duas temporadas, nas quais foi um dos destaques do time ao lado de Paolo Rossi, em 1979-80, e de Antonio Di Gennaro, em 1980-81. Nesta última campanha, já sem o técnico Castagner, os umbros penaram e acabaram sendo rebaixados. Bagni, porém, continuava atuando com muita competência e ganhou suas primeiras convocações para a seleção italiana: foram três aparições em amistosos. Antes disso, ele já havia disputados dois Europeus Sub-21, em 1978 e 1980.

O rebaixamento fez com que Bagni trocasse de casa. No verão de 1981, a Inter foi buscá-lo no Perugia e o incluiu numa forte linha de meio-campistas. O técnico Eugenio Bersellini tinha à disposição, além do emiliano, os seguintes nomes: Gabriele Oriali, Gianpiero Marini, Evaristo Beccalossi, Herbert Prohaska e Giancarlo Pasinato. Ainda como ala pela direita, Salvatore tinha como maior dever municiar os atacantes Alessandro Altobelli e Aldo Serena, o que fez com competência: o primeiro deles foi o artilheiro da Coppa Italia, vencida pelos nerazzurri.

Em 1982, após o título italiano na Copa do Mundo, a Inter iniciou a temporada com técnico novo: Rino Marchesi. O treinador observou que Bagni, com elevado espírito de equipe, fazia um bom trabalho defensivo como ala: ele tinha boa capacidade de recuperar a posse de bola e, rapidamente, criar jogadas de ataque. Por isso, o comandante optou por utilizá-lo no centro e mais recuado do que de costume, como um clássico box-to-box. A mudança fez com que Bagni se tornasse um dos melhores da Europa na posição.

Inicialmente, Bagni atuou ao lado de Oriali no meio-campo nerazzurro e terminou por ser seu substituto, em importância, a partir da saída do volante em 1983. O jogador emiliano chegou até a ganhar o apelido de “O Guerreiro” pela sua tendência de cometer entradas agressivas e imprudentes, apesar de seu caráter amigável, e estava bem ambientado à Inter. Ele havia sido frequentemente utilizado em duas campanhas razoáveis do time de Milão, mas tudo mudou a partir de março de 1984, quando Ernesto Pellegrini comprou o clube junto a Ivanoe Fraizzoli.

Em Nápoles, o volante se manteve em alta e ganhou títulos (imago)

O novo presidente da Inter queria que o seu time jogasse como a Juventus de Michel Platini e pediu que Bagni mudasse seu estilo sanguíneo. O meio-campista bem que se esforçou para tentar, mas não foi bem quando fingiu não ser ele mesmo. Aconselhado por Sandro Mazzola, então diretor nerazzurro, Salvatore voltou a atuar da forma que lhe agradava e, por meses, aguentou a pressão de Pellegrini.

O mandatário até chegou a mudar de ideia e decidiu que desejava mantê-lo no grupo, mas voltou a desagradar o volante ao ignorar alguns problemas familiares vividos por Bagni na época e ordenar que ele entrasse em regime de concentração junto com todo o grupo antes de uma partida. Foi o estopim: Salvatore pediu para ser negociado e saiu da sala da presidência. Pellegrini foi atrás dele e o segurou pela camisa, recebendo em resposta uma série de palavrões e a ameaça de um soco, caso não o largasse. Em 1984, então o meio-campista passou ao Napoli.

Bagni chegou a Nápoles depois de defender a Itália nos Jogos Olímpicos e, aos pés do Vesúvio, se reuniria com Marchesi, que foi vital para sua contratação. Contudo, o reforço de Salvatore foi ofuscado por um bom motivo. É que, no mesmo verão, o ambicioso clube presidido por Corrado Ferlaino buscou o seu maior craque: Diego Armando Maradona. El Pibe se tornaria um grande amigo do volante, que virou uma espécie de tutor do argentino.

O Napoli não decolou em 1984-85 e ficou apenas no meio da tabela da Serie A. Com a troca no comando técnico, devido ao acerto de Ottavio Bianchi, as coisas melhoraram. Bagni dividiu o setor com Eraldo Pecci, que também era um meia central criativo, e segurou as pontas para que Maradona, Bruno Giordano e Daniel Bertoni marcassem os gols lá na frente. Vivendo bom momento pelo clube, Salvatore garantiu sua vaga para o Mundial de 1986.

10 contra 10: Bagni marca Maradona, seu grande amigo (imago/Colorsport)

A Itália de Enzo Bearzot não fez uma boa Copa e acabou eliminada prematuramente, ao perder para a França nas oitavas de final. Dono da camisa 10 e titular em toda a campanha, Bagni foi um dos poucos que se salvaram na expedição ao México e continuou nos planos da Squadra Azzurra depois do torneio. Tanto é que Azeglio Vicini, substituto de Bearzot, voltou a lhe convocar.

Apesar do fracasso com a Nazionale, Bagni alcançaria a maior glória de sua vida em Nápoles, alguns meses depois. Os azzurri fizeram algumas mudanças que viriam a ser decisivas: Pecci deu lugar a Fernando De Napoli e Bertoni foi cedido para dar espaço a Andrea Carnevale. Salvatore, assim como Maradona, era um dos intocáveis. E, com a dupla de amigos jogando muita bola, em 1987 os partenopei faturaram uma histórica dobradinha: Coppa Italia e a inédita Serie A.

Para que aquele ano permanecesse para sempre na memória dos napolitanos, Bagni foi vital. Além dos quatro gols na Serie A e da habitual raça no meio-campo, o guerreiro deixou sua marca três vezes na Coppa Italia. O tento mais importante foi o último na vitória por 3 a 0 sobre a Atalanta, no jogo de ida da decisão: uma cabeçada perfeita, sem chances para o goleiro adversário.

Depois das glórias em 1986-87, Bagni viveu um 1987-88 de polêmicas. A primeira delas ocorreu em outubro de 1987, no Derby del Sole, contra a Roma. O Napoli perdia por 1 a 0 e tinha dois homens a menos, devido às expulsões de Careca e Alessandro Renica. Aos 67 minutos, Giovanni Francini fez o gol de empate e, na comemoração, Bagni se exaltou: mandou bananas para a torcida adversária, com o braço em riste, respondendo às provocações e xingamentos que vinha sofrendo. O gesto foi tão significativo que acabou com a amizade que as torcidas organizadas dos dois clubes cultivavam. Não adiantou pedir desculpas.

O San Paolo explode: pela primeira vez, e com participação decisiva de Bagni, o Napoli era campeão italiano (imago)

Outros entreveros ocorreram, supostamente, nos bastidores. O Napoli liderava a Serie A e tinha força para conquistar o bicampeonato, mas alguns tropeços na reta final culminaram na ultrapassagem do Milan, que ficou com a taça. Relatos dão conta de que Bagni, Giordano, Claudio Garella e Moreno Ferrario haviam se rebelado contra o treinador Bianchi, o que teria motivado um racha no vestiário e a queda de rendimento do time. Salvatore sempre negou essas acusações, mas o fato é que os quatro jogadores citados foram negociados em 1988.

Após deixar o Napoli, Bagni chegou a acertar com o Bologna, no intuito de se manter na Serie A e voltar a morar perto de Correggio, sua cidade natal. Contudo, burocracias contratuais impediram que a transferência fosse concretizada. Após iniciar a pré-temporada pelos rossoblù, o volante retornou para a Campânia e assinou com o Avellino, recém-rebaixado para a Serie B. Salvatore só disputou uma edição da segundona e se aposentou por lá mesmo, antes de completar 33 anos.

Dando prosseguimento à sua vida como ex-jogador, Bagni teve de passar por um drama em 1992: Raffaele, um de seus filhos, faleceu num acidente automobilístico com apenas três anos de idade. O momento de luto se agravou meses depois, quando bandidos violaram o seu túmulo e roubaram o caixão com os restos mortais da criança.

Salvatore e Letizia, sua esposa, superaram a perda ao lado dos outros filhos, Elisabetta e Gian Luca, que mantiveram a família unida. Profissionalmente, Bagni voltou à ativa como comentarista, passando por canais como Sky e Rai – ao qual foi vinculado por quase uma década. Além disso, o ex-jogador teve experiências como dirigente, consultor técnico e de mercado de times como Lazio, Napoli, Bologna, Juventus e Salernitana. Hoje, ao lado de Gian Luca, o emiliano é empresário: a dupla toca uma empresa voltada ao gerenciamento de carreiras no futebol e ao marketing esportivo.

Salvatore Bagni
Nascimento: 25 de setembro de 1956, em Correggio, Itália
Posição: meio-campista
Clubes em que atuou: Carpi (1975-77), Perugia (1977-81), Inter (1981-84), Napoli (1984-88) e Avellino (1988-89)
Títulos: Copa Piano Karl Rappan (1978), Coppa Italia (1982 e 1987) e Serie A (1987)
Seleção italiana: 41 jogos e 5 gols

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