Serie A

1ª rodada: o domínio da Juventus, o brilho de Ibra e a Fiorentina nos trilhos

A primeira rodada da Serie A 2020-21 não foi completa, mas mostrou parte considerável do que devemos ver neste ano em campos italianos. Por conta do estrangulamento entre duas temporadas e das férias reduzidas por compromissos tardios, a liga adiou as partidas de Atalanta, Inter e Spezia, de modo que tivemos apenas sete jogos neste fim de semana. Sete duelos de alto nível, por sinal: neles, Juventus, Milan, Napoli, Fiorentina, Genoa e Sassuolo deixaram boas impressões. Roma, Torino e Crotone, menos.

O fim de semana também teve uma boa notícia. O governo italiano autorizou o funcionamento dos estádios da Serie A com capacidade reduzida. Na rodada inaugural, já tivemos a presença de 1000 torcedores nas partidas de domingo e, caso as taxas de propagação da covid-19 e de ocupação dos leitos de UTI continue baixas e controladas na Itália, as arenas poderão receber públicos maiores nos próximos meses. Na torcida pela melhora da situação, confira a análise da rodada inaugural do certame.

Juventus 3-0 Sampdoria

Gols e assistências: Kulusevski, Bonucci e Ronaldo (Ramsey)
Tops: Ronaldo e Ramsey (Juventus)
Flops: Tonelli e Léris (Sampdoria)

Os eneacampeões iniciaram a busca pelo decacampeonato com uma grande atuação. O jogo estava cercado de muita expectativa devido ao trabalho do Pirlo ser uma incógnita, visto que o jovem treinador tem seu primeira trabalho na função. E o que tivemos em Turim foi uma nova Juventus, com uma cara nem tão nova assim. A Vecchia Signora atacou no 3-5-2, defendeu no 4-4-2 e acabou tendo um funcionamento coletivo bastante semelhante ao time do Conte, que Pirlo viu de perto, já que era o regista daquela equipe.

A Juventus teve intensidade, bastante concentração e pareceu estar assimilando muito bem as ideias trabalhadas pelo novo comandante. Danilo apareceu muito bem como zagueiro pela direita, sustentando o jogo. Bonucci foi crucial, facilitando a saída e achando boas inversões. Rabiot, atuando como o regista da equipe, deixou McKennie como o homem responsável por iniciar pressões, enquanto Ramsey trabalhava bem por dentro, com a bola, e compensava a pequena contribuição defensiva de Ronaldo sem ela.

O time ainda está longe do ritmo ideal, mas soube ficar com a bola, trocar passes e criar as chances. Se não tem um jogador para emular com a mesma qualidade o que ele mesmo fazia como controlador de jogo naquela equipe de Conte, Pirlo tem agora o luxo de contar com um finalizador como Cristiano.

O primeiro gol surgiu com o português carregando a bola e parando no trabalho defensivo da Sampdoria. Na sobra, Kulusevski achou um tapa belíssimo com a perna esquerda para abrir o placar. Bonucci mostrou oportunismo para aproveitar o rebote de Audero e a falha de Berezsynski no segundo gol, ao passo que Ramsey completou uma bela atuação com a assistência para Ronaldo finalmente marcar seu gol. O português fazia uma boa partida e já tinha desperdiçado algumas oportunidades.

A Sampdoria não deixou uma imagem de todo ruim. O time de Ranieri sofreu bastante no primeiro tempo, marcando no 4-1-4-1, e encontrou enormes dificuldades para somar saídas, já que Ramsey bloqueava as linhas de passe para Ekdal. As trocas no intervalo melhoraram o desempenho blucerchiato. Com Quagliarella e Bonazzoli juntos, a Samp apostou em ligações diretas e contou com apoios para a progressão de Thorsby. Além disso, a entrada de Ramírez deu um sentido à criação ofensiva da equipe.

Apesar de Pirlo ainda estar em início de trabalho na Juventus e dos ajustes que ainda serão feitos no mercado, a primeira impressão foi a de uma forte Velha Senhora, que empolgou o seu torcedor. Pelo lado da Sampdoria, a expectativa é por uma temporada com menos sofrimento. O 3 a 0 acaba sendo pesado para uma equipe que demonstrou competitividade.

Ibrahimovic largou na frente na disputa pela artilharia da Serie A (LaPresse)

Milan 2-0 Bologna

Gols e assistências: Ibrahimovic (Hernandez) e Ibrahimovic (pênalti)
Tops: Ibrahimovic e Calabria (Milan)
Flops: Dijks e Orsolini (Bologna)

Na primeira partida oficial pela Serie A em 2020-21, o Milan ratificou a boa forma da segunda parte da última temporada. Contando com um Ibrahimovic imparável, a equipe de Stefano Pioli superou o Bologna por ampla margem e mostrou que tem capacidade de brigar por uma vaga na Champions League – claro, se mantiver o nível da estreia.

O Bologna de Sinisa Mihajlovic começou melhor no jogo, conseguindo incomodar bastante a saída do Diavolo, com Barrow levando vantagem sobre Calabria. Num duelo tático de encaixes e intensidade, empurrava o Milan para seu campo, ao passo que Domínguez dificultava o direcionamento das jogadas por parte de Bennacer. Com o passar dos minutos, porém, Ibra apareceu para ser decisivo.

O sueco recebia jogo direto, fazia trabalho de pivô, apoiando para os companheiros e conectando a sua equipe. Junto com ele, cresceram Çalhanoglu, Rebic e Hernandez, que levaram o Milan a controlar o jogo e ter superioridade em San Siro. O primeiro gol, numa cabeçada de Ibrahimovic, acabou sendo questão de tempo. O segundo, logo após a volta do intervalo, também. Com grande partida de Hernandez e Calabria nas laterais, o Milan manteve a partida sob domínio até os minutos finais, quando o Bologna reagiu, testando Donnarumma com Skov Olsen e acertando a trave com Santander. No entanto, o triunfo rossonero nunca esteve ameaçado, de fato.

Parma 0-2 Napoli

Gols e assistências: Mertens e Insigne
Tops: Koulibaly e Osimhen (Napoli)
Flops: Iacoponi e Inglese (Parma)

Quando Parma e Napoli entraram em campo no Ennio Tardini para abrir o primeiro domingo de Serie A da temporada, o cenário não estava muito favorável para os donos da casa, que trocaram de treinador, estão em transição de um estilo reativo para um mais propositivo e ainda não poderiam contar com Gervinho, seu melhor jogador. Do outro lado, havia um Napoli que foi muito bem nos jogos grandes na temporada passada, mas sofreu para encontrar regularidade semanal. Por isso, essa era uma prova importante para a equipe treinada por Rino Gattuso.

Entre não encontrar meios para manter a posse de bola por longos períodos e a inferioridade técnica evidente em relação ao rival, Fabio Liverani viu o seu Parma se mostrar ainda distante de ter a sua assinatura. O primeiro tempo foi inteiramente controlado por um Napoli que tinha em Koulibaly uma segurança enquanto passador. O senegalês fez uma partidaça, encontrando companheiros em posição de vantagem e progredindo com a bola em controle para bagunçar o encaixe da primeira linha de marcação dos mandantes. Apesar disso, Ruiz esteve muito abaixo da sua média e os partenopei sofreram para transformar esse volume em chances reais de gol.

O cenário não estava muito diferente na segunda parte, até que Gattuso trocou Demme por Osimhen. Com o centroavante em campo, o Parma perdeu o seu encaixe defensivo e, apenas dois minutos após a entrada do nigeriano, saiu o primeiro gol. O jovem segurou a atenção de dois marcadores em um cruzamento lateral e Mertens ficou na boa para deslocar Sepe e fazer 1 a 0.

Os minutos seguintes mostraram ainda mais do jogador mais caro da história do clube. Pivô de muita qualidade e apoios na zona central, o nigeriano criou boas oportunidades de finalização para seus companheiros. Foi questão de tempo para que o segundo gol saísse, com Lozano avançando e finalizando pela direita, e Insigne marcando no rebote de Sepe. Vitória importante para o Napoli e mais do que isso: a equipe deu bons sinais de que será mais regular nessa temporada. O Parma precisa de tempo para a troca de guarda e para assimilar as ideias do seu novo comandante.

Verona 0-0 Roma

Tops: Tameze (Verona) e Spinazzola (Roma)
Flops: Tupta (Verona) e Mkhitaryan (Roma)

No Marcantonio Bentegodi, Hellas Verona e Roma começaram o campeonato com equipes bastante mexidas, devido a lesões, ajustes ainda acontecendo e indefinições de mercado. Os mandantes sentiram falta de Benassi e Lazovic, enquanto os visitantes não puderam contar com Perotti, Fazio, Zaniolo e Dzeko, o que os levou a entrarem em campo com uma equipe bastante adaptada e que precisou contar com Mkhitaryan como falso 9.

Embora as duas equipes atuem no 3-4-2-1, o funcionamento coletivo é bastante distinto. O Verona busca marcar com um bloco médio, encurtar os espaços, recuperar o máximo de bolas possíveis em campo ofensivo e acelerar pelos flancos do campo – tudo isso tendo Miguel Veloso como principal direcionador de jogo. Já a Roma quer ter a bola, se organizar através de um jogo bastante posicional e construir suas jogadas em toques curtos. E este acabou sendo o cenário de uma partida com muitos erros técnicos e de execução coletiva como um todo.

Spinazzola foi a peça mais destacada da Roma, por conseguir receber com espaço nas costas de Faraoni e explorar a baixa velocidade de Çetin no mano a mano. Foi pelos pés dele que os visitantes criaram suas melhores chances, mas esbarram na falta de pontaria e em boas defesas de Silvestri – além do travessão, em belo chute do próprio lateral. Pelo lado dos mandantes, Miguel Veloso fez uma partida bastante ruim e coube a Günter ser o passador mais confiável da equipe, com Tameze estreando bem como um meia de chegada e ataque ao espaço. Com o franco-camaronês, o Hellas criou sua melhor chance, em bola rasteira que Mancini desviou e explodiu no travessão. No segundo tempo, Dimarco também acertou o poste ao tentar encobrir Mirante. O resultado acabou sendo justo pelo nível das equipes durante o jogo.

Novo 10 da Fiorentina, Castrovilli marcou o gol da vitória violeta sobre o Torino (imago)

Fiorentina 1-0 Torino

Gols e assistências: Castrovilli (Chiesa)
Tops: Castrovilli e Cáceres (Fiorentina)
Flops: Zaza e Meïté (Torino)

Na partida que inaugurou a temporada 2020-21 da Serie A, tivemos um duelo bastante equilibrado e com notícias positivas para mandantes e visitantes. Pelo lado da Fiorentina, o elenco bastante qualificado e diversificado ganhou a adição de um jogador com o talento de Bonaventura, mas ainda há grande desconfiança e cobrança do torcedor sobre o trabalho de Iachini. No Torino, por sua vez, existe muita expectativa em torno da mudança de estilo da equipe, agora que Giampaolo assumiu o comando técnico granata.

O jogo começou com o Torino monopolizando a posse de bola, mas encontrando dificuldade para ativar Rincón, seu primeiro volante e passador primário, devido ao bom trabalho defensivo de Kouamé. Sem encontrar meios para progredir, o Toro acabava vendo a Viola roubar muitas posses em zona central e partir disso para organizar o seu ataque – sempre buscando o flanco esquerdo como lado de força, principalmente pela presença de Castrovilli. Posteriormente, as inversões de jogo encontravam Chiesa no um contra um pelo lado contrário.

Dentro dessa dinâmica o jogo teve o seu desenvolvimento, com maior equilíbrio na primeira parte e com uma Fiorentina cada vez mais dominante na segunda. Numa jogada trabalhada pela direita, Chiesa foi à linha de fundo e achou o cruzamento que encontrou o pé esquerdo de Castrovilli, livre para empurrar para a rede a bola da vitória.

A Viola começa a temporada fazendo sentido dentro de campo e essa é a melhor notícia pro seu torcedor. O 3-5-2 do Iachini acomodou bem suas melhores peças, potencializou Castrovilli, seu novo camisa 10, e deixou a equipe sempre mais próxima de marcar do que em risco – Sirigu que o diga. O Torino está em estágio inicial de trabalho e existe um mar de distância entre as ideias de Mazzarri as da nova comissão, mas o grupo começa a assimilar os preceitos de Giampaolo. Contudo, falta um volante de maior controle do jogo e a direção precisa atacar o mercado.

Genoa 4-1 Crotone

Gols e assistências: Destro (Ghiglione), Pandev (Goldaniga), Zappacosta e Pjaca (Ghiglione); Rivière (Molina)
Tops: Zappacosta e Ghiglione (Genoa)
Flops: Zanellatto e Golemic (Crotone)

Depois de sofrer bastante nas duas últimas temporadas, o torcedor do Genoa teve motivos para se empolgar após a estreia dos grifoni na Serie A. No Marassi, os donos da casa não tomaram conhecimento do recém-promovido Crotone e, com 10 minutos, já estavam vencendo por 2 a 0, com gols de sua experiente dupla de ataque, formada por Destro e Pandev.

Fazendo sua primeira partida oficial no comando do Genoa, Rolando Maran manteve o 3-5-2 que tem sido utilizado há algum tempo no clube, mas com um funcionamento bastante diferente. A equipe foi capaz de controlar o ritmo do jogo, principalmente através de Badelj, e também se mostrou muito efetiva atacando a profundidade pelos flancos, com Zappacosta e Ghiglione.

O Crotone tem um dos elencos mais frágeis da Serie A, mas o trabalho tático realizado por Giovanni Stroppa é bom e se espera que esse seja o ponto de equilíbrio que faça a equipe sonhar com a permanência na elite. Contudo, a primeira imagem é bastante preocupante. Seu time foi incapaz de fechar espaços defensivos com eficiência, não teve controle no meio-campo e dependeu totalmente da ligação direta para Simy e da mobilidade de Rivière às suas costas para levar algum perigo à meta rival.

Ponderações valem para os dois lados: apesar do massacre, esta foi apenas a primeira rodada, na qual o Crotone sentiu um choque de realidade. Mas, enquanto o Genoa teve motivos técnicos e coletivos para se empolgar, como a grande partida, o golaço marcado por Zappacosta, o feeling entre Pandev e Destro e a boa entrada de Pjaca no segundo tempo, o time calabrês viu seus maiores medos se confirmarem. O elenco já parecia curto na Serie B e agora irá precisar encontrar meios para se superar na elite.

Sassuolo 1-1 Cagliari

Gols e assistências: Bourabia; Simeone (João Pedro)
Tops: Locatelli (Sassuolo) e Cragno (Cagliari)
Flops: Caputo (Sassuolo) e Marin (Cagliari)

No Mapei Stadium, tivemos o reencontro de Di Francesco com a equipe que o projetou. O novo treinador do Cagliari precisa de um bom trabalho, depois de um fim de passagem conturbado na Roma e apenas sete sofríveis jogos à frente da Sampdoria na temporada passada. Contudo, seu antigo clube não facilitou sua vida. Os comandados de Roberto De Zerbi realizaram a melhor exibição da primeira rodada em termos coletivos, colocando todo o seu entrosamento, entendimento de jogo e boas ideias em campo. Controlaram a posse de bola, atraíram a marcação dos visitantes, os superaram com trocas de passe bem elaboradas e, dessa maneira, levaram perigo à meta defendida por Cragno.

Se o time esteve melhor do que nunca do ponto de vista coletivo, na hora de finalizar, velhos erros apareceram. Caputo não esteve tão acertado quanto em outros momentos, o time pareceu displicente em certos lances e o volume absurdo de jogo – 67% de posse de bola e 33 finalizações – acabou não se concretizando em gols.

O Cagliari, que tentou marcar no 4-1-4-1 e contou com uma boa partida de Nández como peça de desafogo pela direita, foi resistindo, resistindo e acabou saindo na frente. Após uma boa colaboração entre João Pedro e Simeone, o argentino cabeceou com maestria e venceu Consigli. Bourabia entrou na segunda parte e, numa bela cobrança de falta, resgatou um ponto para o Sassuolo.

Os neroverdi têm sido uma das equipes mais divertidas da Itália e possuem bastante qualidade técnica em seu elenco. Porém, se pensam em sonhar de verdade com uma vaga na Europa, precisam parar de desperdiçar oportunidades como essa, em que foram bastante superiores, tiveram volume incrível, mas perderam as chances criadas. O Cagliari está em transição e Di Francesco ainda parece estar compreendendo o melhor modo de usar suas peças. Dentro desse contexto, é bastante positivo que os sardos tenham tido resiliência para aguentar tamanha pressão e levar um ponto de volta para casa.

Seleção da rodada

Cragno (Cagliari); Calabria (Milan), Bonucci (Juventus), Koulibaly (Napoli), Zappacosta (Genoa); Ghiglione (Genoa), Locatelli (Sassuolo), Ramsey (Juventus), Castrovill (Fiorentinai; Ronaldo (Juventus), Ibrahimovic (Milan). Técnico: Andrea Pirlo (Juventus).

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